Share

De primeira

Author: Ullyketyc
last update publish date: 2025-09-05 04:42:37

A estante baixa sob a janela exibia algumas revistas de design e uma caixa de som Bluetooth. O ar-condicionado estava ligado no modo silencioso, quase imperceptível, mantendo o ambiente fresco. Tudo ali passava uma sensação de conforto com elegância discreta, uma casa de quem tem dinheiro, mas não ostenta.

Ele abriu a porta completamente e se virou pra mim.

— Pode entrar.

Entrei devagar. Meus olhos percorreram o espaço, cautelosos. Era estranho estar ali. Eu esperava… não sei. Gente conversando, uma empregada na cozinha, alguém vendo TV. Mas ele não falou nada sobre estar sozinho. E ainda assim, aqui estávamos nós.

— Tá sozinho? — Perguntei só para confirmar.

Ele deu de ombros, fechando a porta com calma.

— Tô, sim.

Não era exatamente uma surpresa. Mas ainda assim, causava um incômodo, aquela sensação de que algo estava acontecendo e eu ainda não sabia o quê.

— Quer comer alguma coisa?

— Não — respondi rápido demais. — ainda encarando a minha volta.

Ele sorriu, um canto só da boca subindo, como se soubesse exatamente o que se passava na minha cabeça.

Nos sentamos no sofá, deixando um espaço entre nós.. Do lado de fora, o mundo parecia distante. Nenhum som da festa, nenhum louvor ecoando. Só nós dois, o zumbido do ar-condicionado, e aquela tensão elétrica que vinha crescendo desde o portão.

— Me disseram umas coisas aí…— ele se virou pra mim, sua expressão um pouco confusa.

— Que coisas? — Meu coração começou a bater forte no peito quando uma bola se formou na minha garganta.

— Que o seu primeiro beijo foi comigo.

Fiquei muda. Senti o sangue subir direto pro rosto. Arderam minhas bochechas, minha nuca. Minhas mãos se fecharam no tecido da minha saia.

— Deve ter sido um erro eu vir aqui — falei, me levantando com um impulso tenso.

Ele esticou o braço e segurou meu pulso, não com força, mas com firmeza.

— Não precisa ir embora.

— Eu não devia estar aqui. — Aviso, trêmula.

— Eu não vou te constranger, Isabel. Só fiquei curioso. Desculpa se falei besteira.

Respirei fundo, tentando desarmar a vontade de correr. Eu não era burra. E também não era hipócrita. Tinha vindo porque queria. Mesmo de castigo, mesmo com culpa. E talvez, justamente por isso, me sentia tão vulnerável.

— Não são boatos — falei, a voz mais baixa agora. — Minha família é complicada. Rígida. Controladora. Você não faz ideia.

Ele me olhou de um jeito diferente. Ainda tinha algo de malicioso nos olhos, mas por um segundo, achei ver ali um vestígio de pena. Ou talvez fosse outra coisa. Não sei.

Me acomodei de novo no sofá, mais devagar dessa vez. Ele também não se aproximou de imediato. Ficamos em silêncio por alguns segundos.

— Sabe… — ele disse, virando levemente o corpo pra mim — …aquele beijo… foi meio atrapalhado, né?

Sorri sem mostrar os dentes, envergonhada.

— Eu nunca tinha… — comecei, mas não terminei.

Ele assentiu, como se entendesse tudo sem que eu precisasse dizer.

— Quer aprender a fazer isso direito?

Me virei pra ele, coração acelerado. A pergunta soou mais íntima do que ousada. Não foi uma proposta suja. Foi… quase gentil.

Antes que eu pudesse responder, ele se aproximou.

A mão dele tocou meu rosto com calma, os dedos quentes encostando na curva da minha mandíbula. Ele me olhou nos olhos por um segundo, um segundo longo, e então me beijou.

Dessa vez foi diferente.

Ele conduziu devagar, com a boca certa, com o toque certo. Não houve pressa, nem língua invasiva, nem choque, muito menos dentes batendo. Foi firme, foi quente, foi bom. Os lábios dele dançaram sobre os meus como se ele soubesse exatamente o que fazer, e eu só precisei seguir.

Um arrepio subiu pela minha espinha. Meus dedos se fecharam na barra da camisa dele sem perceber. A cabeça girava um pouco. E pela primeira vez, eu entendi o que era ser beijada de verdade.

Não era só a boca.

Ela o jeito que ele segurava meu rosto. O modo como ele me tocava como se eu fosse feita de alguma coisa preciosa. Como se fosse natural. Como se eu tivesse o direito de estar ali.

Quando ele se afastou, ainda perto, os olhos ainda em mim, eu estava sem ar. Sem palavras. Sem saber o que pensar.

Mas sabendo exatamente o que sentia. Ele afastou os lábios dos meus e sorriu contra minha pele.

— Você ficou tão bem assim… esta corada — murmurou, os olhos presos aos meus. — Já é uma ótima aluna.

Meus lábios ainda formigavam. Eu devia estar vermelha. Ou com cara de boba. Ou tudo isso junto.

Ele voltou a me beijar, e dessa vez eu já não hesitei. Me entreguei por mais alguns segundos àquele calor, ao som abafado das nossas respirações, ao toque insistente de seus dedos no meu quadril.

Mas, aos poucos, a mão dele foi subindo. Escorregou da minha cintura para a lateral do meu corpo, depois para a barra da minha blusa. E então começou a deslizar por debaixo do tecido. A palma quente e curiosa encostou na minha pele nua, e eu me enrijeci. Fiquei muito quieta, como se minha imobilidade fosse impedir o que quer que ele estivesse pensando em fazer. Meu coração batia forte. Muito forte.

— Ei — ele sussurrou, com um sorriso no canto da boca. — Fica calma… Eu não vou fazer nada que você não queira. — Me encarou e então falou — Você é linda Bel…

Rafael afastou o rosto e me olhou nos olhos. A mão dele ainda estava ali, parada. Quente.

— Tá tudo bem? — perguntou.

Assenti devagar. Não confiava na minha voz. Ele sorriu, mas dessa vez o sorriso foi diferente. Menos confiante. Menos provocador. Quase… gentil.

Ele encostou a testa na minha e respirou fundo. Instintivamente fechei os olhos.

— Você é diferente — ele murmurou. — E isso me deixa meio… nervoso, sabia?

Abri os olhos, surpresa.

— Nervoso? Você? — Pergunto incrédula.

— Uhum. — Ele riu, mas foi aquele riso torto, que não chegou nos olhos. — Porque, sei lá… você não é como as outras. Não parece aquela múmia que o povo vive falando na escola.

Pisquei. A palavra bateu meio torta. Múmia?

— Como assim? — minha voz saiu baixa, porque eu ainda tava processando.

— É que, sei lá… você tem esse jeito meio quieto, mas ao mesmo tempo parece que toparia tudo. Tipo, como se quisesse sentir o mundo com a pele, sabe? — Ele passou os dedos pela minha bochecha, suave. — Gosto disso. Nunca conheci alguém assim.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Castidade de sangue    Epílogo próximo livro - Redenção sombria

    A neve ainda caía lá fora quando empurrei a porta da igreja, quase correndo. As lágrimas escorriam pelo meu rosto, e a raiva latejava em cada músculo do meu corpo. Dante. Menos de um mês de casamento e eu o peguei com outra mulher. Ele não demonstrou remorso, apenas aquela frieza, aquele desrespeito… como se eu fosse patética, um objeto descartável. Pensei que, talvez, se eu me esforçasse, se eu tentasse ser uma boa esposa, o amor surgiria. Mas agora eu sabia que não. Não havia amor, não havia respeito. Só humilhação.A igreja estava silenciosa, elegante, pequena, mas imaculada. Os vitrais filtravam a luz da tarde, refletindo tons dourados e vermelhos sobre o mármore polido. Os bancos estofados estavam vazios, e o silêncio parecia pesar no ar. Um suspiro escorregou pelos meus lábios enquanto me aproximava do confessionário. Geralmente, nessa hora, o padre Abraham me esperava para a confissão.—Senhor padre Abraham, que bom que o senhor está aqui —sussurrei, tentando soar firme.Uma vo

  • Castidade de sangue    Fim

    Ela tentou segurar o meu calcanhar, mas dei um passo para trás, mantendo a arma apontada. A minha respiração falhou, o meu peito subia e descia em espasmos. Foi quando ouvi o barulho: passos apressados, vozes em russo e a porta explodiu. Homens entraram em tropel, armados, os homens de Luka, táticos. O ar gelado invadiu o ambiente junto com eles. Luka, veio primeiro, o corpo como uma muralha, os olhos cortando a cena. Atrás dele, a equipe, verificando tudo com precisão. Ele correu até mim. A roupa suja de neve, o rosto coberto de tensão. Mas foi a voz que me fez respirar outra vez. — Rosa… — ele disse, e naquele som havia tudo: medo, fúria, alívio. — Eu tô aqui. Tá tudo bem. Ele me olhou de cima a baixo, procurando ferimentos. Eu mal consegui responder, o meu corpo vibrava de adrenalina. Madre Ágata tossiu, uma risada baixa saindo junto do sangue. — Olha só… o casal traidor. — ela riu, cuspindo vermelho. — O falso amigo e a prostituta. Vocês acham que venceram? Voc

  • Castidade de sangue    Não haverá perdão

    — O que vocês chamam de crime, eu chamo de purificação — disse, tremendo de raiva. — Vocês vão aprender a se arrepender, e dessa vez, sem oração ou perdão divino. Foi então que ouvi um som atrás dela: o ranger da madeira, passos pelo corredor. A porta cedeu com um estrondo e Natasha apareceu, cabelo preso, roupa suja e um pouco rasgada, manchada de sangue. Parecia machucada; os olhos arregalados de pavor. Olhou a cena, pânico mudo, as mãos tremendo.Agatha riu, um som gelado. — Ah, pelo jeito temos companhia. Onde está a minha aliada?Natasha levantou as mãos em rendição e sussurrou: — Está abatida lá fora. — Seus olhos correram pela cena, parando na pequena Anya e na Laura dopada.— Não dê mais nenhum passo! — Madre Agatha apontou a arma para ela.— O que você fez com elas? — a voz de Natasha estava em pânico.— Ah, por enquanto, ainda nada — respondeu Agatha.Natasha ignorou a Madre e olhou para mim. — Você está bem, Isabel? — perguntou seco, claramente assustada como eu.

  • Castidade de sangue    Sem chão

    O som do segundo tiro ainda tremia no ar quando eu vi o sangue quente escorrer pela fresta da porta. O medo me agarrou a garganta e tudo dentro de mim se desfez em pânico puro, pernas bambas, mãos coladas na madeira. Bati com os dois punhos até doer, até o nó nas palmas arder, mas a porta não cedeu.Do lado de fora, alguém gritava; reconheci o timbre de Natasha, cortado pela angústia.Ouvi passos atrás de mim, leves, calculados. Um clique metálico rente à minha nuca fez cada fio de cabelo na minha pele se arrepiar. Meu corpo inteiro entendeu perigo antes da minha mente. Viro devagar. E ela está ali, imóvel como uma estátua de ossos finos: Madre Ágata.— Achou que me enterraram, sua idiota? — a voz disse, sem cerimônia.As palavras me atingem como lâminas. A incredulidade borbulha dentro de mim.— O que você… — consigo sussurrar. — Você morreu!— É mesmo? — Madre Ágata ri, um som sem alegria.E aí que eu percebo que jamais perguntei ao Luka se a Agatha realmente tinha morrido, o

  • Castidade de sangue    Meu medo

    — O que foi, meu amor? Eu te machuquei? Há algo errado? — ele pergunta, parado à minha frente, com a toalha na mão e uma expressão preocupada. — Você está chorando, ma-yá lyubóv?Uma lágrima escorre, eu nem sabia que estava chorando.— Não é tristeza, Luka. É que eu nem acredito que estou aqui, vivendo isso. Tudo ainda parece um sonho pra mim.Ele se abaixa diante de mim, o olhar suave, e passa a toalha pelo meu corpo com cuidado.— Mas não é sonho — murmura. — Tudo aqui é real. E eu vou fazer questão de sempre te lembrar disso.Ele me limpa, e eu deito a cabeça em seu peito, sentindo o cheiro dele. Luka faz carinho no meu cabelo e deposita pequenos beijos na minha têmpora.— Preciso te pedir um favor — digo baixinho.— Qualquer coisa — ele se vira na cama, me encarando.— A Laura me pediu um favor pra amanhã. Preciso ir até uma capela pra resolver algumas coisas sobre o batizado da Anya. A Natasha vai comigo. Preferi vir falar com você, porque ela disse que não temos permiss

  • Castidade de sangue    Sem culpa

    — Você não tem ideia do quão apertada é — Luka murmura, a respiração quente contra o pescoço. — Mais apertada do que imaginei sempre que fodi a mão pensando em você.O meu centro treme. — Você fazia isso com frequência?Ele desliza uma mão pela frente e cobre o seio. — Quase todo dia. Antes de foder você pela primeira vez, isto é.A minha cabeça pende para trás, batendo no peito dele. — E depois?Ele curva os dedos fortes dentro de mim, acertando um ponto que me faz engasgar. — Com frequência demais para admitir. Toda vez que acordava e te via naquele lugar, do outro lado da Mesa. Tão perto, e ainda tão longe. — Ele abaixa a cabeça, pressionando os lábios no pescoço. — Você não tem ideia do que fez comigo.Dentes pressionam na carne. Primeiro levemente e depois mais forte, até a dor faiscar. Eu gemo, e ele diminui a pressão. A língua sai, e ele lambe a marca que sem dúvida deixou.O som úmido dos dedos fodendo a buceta inunda o ar, fica cada vez mais obsceno. Não me importo. Não

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status