Share

Lucas

Author: Ullyketyc
last update publish date: 2025-09-05 04:41:11

Meu estômago revirou. Eu sabia que ela ia perguntar. Não era burra. Só não sabia até quando eu conseguiria manter o disfarce.

— Não é nada — murmurei, desviando o olhar, os dedos apertando mais forte o guidão.

— Você podia ter só deixado pra lá. Mas não. Ficou me pedindo. Disse até que eu devia insistir com o pai. Que era importante. — Ela me olhou de canto. — Você não contou nada pra ele, né?

— Contar o quê?

Ela arqueou uma sobrancelha. — Que o Rafael vai estar lá.

Meu coração falhou uma batida.

— Claro que não — respondi rápido demais. — E nem sei se ele vai.

Laura soltou um suspiro cético, mas não insistiu. Graças a Deus.

— Olha, eu só não quero me encrencar — disse ela, após alguns segundos. — Você sabe como o pai tá. Qualquer coisa vira pecado agora.

— Eu sei — respondi, aliviada por ela mudar de assunto.

— Então vamos só… ir rapidinho. Comer um pedaço de bolo, cantar parabéns, e voltar.

— Às sete — completei.

— Nem um minuto depois — ela repetiu, com um sorriso sem graça.

Ficamos em silêncio por uns instantes, pedalando. O barulho dos pneus na rua, o calor, o cheiro de roupa lavada vindo de alguma casa próxima. E de repente, como se estivesse tentando aliviar o clima:

— Lembra das nossas festas de aniversário? Quando a gente era pequena?

— Como esquecer? A gente só podia chamar três pessoas. E uma sempre era a filha da irmã da missionária, que nem falava com a gente.

— E a gente cantava “Parabéns pra Jesus” em vez de cantar pra nós — Laura revirou os olhos. — E ele ainda dizia que nosso maior presente era ter nascido com a salvação.

— “A salvação é mais doce que qualquer brigadeiro” — completei, imitando a voz do nosso pai.

Laura gargalhou, e eu também. Pela primeira vez em dias, me permiti rir de verdade. Mesmo com o peso da mentira queimando na minha língua. Mesmo sabendo que, se meus pais soubessem a verdade, que o Rafael estaria naquela festa, eu provavelmente nem voltaria viva pra casa.

Pedalamos por mais cinco minutos, a bicicleta ainda rangia quando a encostamos no muro. Eu tava com a blusa colada no corpo de tanto suor, e a Clara com aquele ar contido de quem aceita tudo com dignidade.

Laura ajeitou a alça da bolsa no ombro e respirou fundo.

— Isabel… tenta não chamar atenção. Eu ouvi a briga. O pai tá muito nervoso com você.

Revirei os olhos.

— Laura, é só um beijo. Sério. Você tá falando como se eu tivesse sido pega cheirando cocaína no banheiro da escola.

Ela me olhou horrorizada.

— Eu sei, mas… você sabe como nossos pais são.

— Justamente por isso que a gente precisava sair. Vai me dizer que você prefere ficar em casa, ouvindo sermão?

Ela não respondeu, só bufou com um sorrisinho de canto. Sabia que eu tinha razão.

Atravessamos o portão devagar. A casa da Gabi era típica de um bairro de classe média: sobrado bem cuidado, com muro branco, portão automático e uma varanda decorada com samambaias e uma cadeira de ferro pintada de dourado. A fachada estava recém-pintada, num tom de bege claro, e as janelas de vidro fumê davam um ar de organização e rotina. Mas a família dela se superou na decoração: balões rosa e lilás amarrados nos pilares da varanda, uma faixa com glitter escrito “Feliz Aniversário, Gabi” presa entre duas árvores do jardim, e uma playlist tocando alto; parecia pop adolescente, mas quando prestava atenção na letra, era tudo sobre Jesus, cura interior e promessas de dias melhores.

Laura olhou em volta, os olhos escaneando o quintal lotado.

— Então não foi por um carinha que você fez tanta questão de vir?

— Não — Revirei meus olhos fazendo a maior cara de inocente. — Vim pela Festa, bolo, sair de casa. Essas coisas.

Ela me lançou aquele olhar desconfiado, mas não insistiu. Foi aí que Gabi apareceu, com um vestido rosa cheio de babado e brilho nos olhos.

— Oi! Você que é a Laura, né?

Laura ajeitou o cabelo castanho selvagem e abriu um sorriso educado.

— Sou sim. Parabéns, Gabi. A festa tá linda.

— Ai, obrigada! Eu nem sabia que você ia vir. Fiquei muito feliz! Eu adoro seu cabelo!

— Ah… obrigada — disse a Laura, sem saber o que fazer com o elogio.

Eu me segurei pra não rir. A Laura me lançou aquele olhar de “eu vou te matar depois” e sussurrou, com a voz baixa:

— Você me paga. — ela revira os olhos discretamente.

— Relaxa, você tá sendo idolatrada. Vai lá, vê teus amigos. Me deixa um pouco. — incentivo-a.

— Certeza que não vai aprontar? — Ela me dá um sorriso suave.

— Eu? Nunca. — pisco para ela, mas tenho certeza que isso não deixou ela nada nada tranquila.

Ela seguiu em direção ao grupo de meninas que pareciam sair direto de um grupo de discipulado, enquanto eu comecei a andar sozinha pela casa. Entrei, passei pela sala onde as tias fofocavam, peguei um copo de guaraná gelado na cozinha e escapei pro quintal lateral, Um pouco mais afastada da bagunça, encontrei uma parte do quintal onde ninguém parecia ter ido ainda. Era perto da piscina, uma daquelas retangulares, de azulejo azul claro, com água parada e folhas boiando na superfície. As espreguiçadeiras estavam empilhadas num canto, e uma toalha velha esquecida no chão. Claramente ninguém estava usando aquela parte da casa. Me sentei ali, perto da borda, com os pés ainda nos chinelos, olhando o reflexo tremido das nuvens na água. O silêncio me deu um respiro. Pela primeira vez naquela tarde, consegui respirar melhor. Foi quando ouvi passos se aproximando.

— Oi. Você é a Isabel, né?

Me virei e vi um garoto me olhando com um sorriso tranquilo. Alto, cabelo castanho meio bagunçado, camiseta simples, aquele jeito de quem não tem pressa pra falar.

— Sou, sim. Você é…

— Lucas. Irmão mais velho da Gabi.

Continue to read this book for free
Scan code to download App
Comments (1)
goodnovel comment avatar
marlon
ótima história
VIEW ALL COMMENTS

Latest chapter

  • Castidade de sangue    Epílogo próximo livro - Redenção sombria

    A neve ainda caía lá fora quando empurrei a porta da igreja, quase correndo. As lágrimas escorriam pelo meu rosto, e a raiva latejava em cada músculo do meu corpo. Dante. Menos de um mês de casamento e eu o peguei com outra mulher. Ele não demonstrou remorso, apenas aquela frieza, aquele desrespeito… como se eu fosse patética, um objeto descartável. Pensei que, talvez, se eu me esforçasse, se eu tentasse ser uma boa esposa, o amor surgiria. Mas agora eu sabia que não. Não havia amor, não havia respeito. Só humilhação.A igreja estava silenciosa, elegante, pequena, mas imaculada. Os vitrais filtravam a luz da tarde, refletindo tons dourados e vermelhos sobre o mármore polido. Os bancos estofados estavam vazios, e o silêncio parecia pesar no ar. Um suspiro escorregou pelos meus lábios enquanto me aproximava do confessionário. Geralmente, nessa hora, o padre Abraham me esperava para a confissão.—Senhor padre Abraham, que bom que o senhor está aqui —sussurrei, tentando soar firme.Uma vo

  • Castidade de sangue    Fim

    Ela tentou segurar o meu calcanhar, mas dei um passo para trás, mantendo a arma apontada. A minha respiração falhou, o meu peito subia e descia em espasmos. Foi quando ouvi o barulho: passos apressados, vozes em russo e a porta explodiu. Homens entraram em tropel, armados, os homens de Luka, táticos. O ar gelado invadiu o ambiente junto com eles. Luka, veio primeiro, o corpo como uma muralha, os olhos cortando a cena. Atrás dele, a equipe, verificando tudo com precisão. Ele correu até mim. A roupa suja de neve, o rosto coberto de tensão. Mas foi a voz que me fez respirar outra vez. — Rosa… — ele disse, e naquele som havia tudo: medo, fúria, alívio. — Eu tô aqui. Tá tudo bem. Ele me olhou de cima a baixo, procurando ferimentos. Eu mal consegui responder, o meu corpo vibrava de adrenalina. Madre Ágata tossiu, uma risada baixa saindo junto do sangue. — Olha só… o casal traidor. — ela riu, cuspindo vermelho. — O falso amigo e a prostituta. Vocês acham que venceram? Voc

  • Castidade de sangue    Não haverá perdão

    — O que vocês chamam de crime, eu chamo de purificação — disse, tremendo de raiva. — Vocês vão aprender a se arrepender, e dessa vez, sem oração ou perdão divino. Foi então que ouvi um som atrás dela: o ranger da madeira, passos pelo corredor. A porta cedeu com um estrondo e Natasha apareceu, cabelo preso, roupa suja e um pouco rasgada, manchada de sangue. Parecia machucada; os olhos arregalados de pavor. Olhou a cena, pânico mudo, as mãos tremendo.Agatha riu, um som gelado. — Ah, pelo jeito temos companhia. Onde está a minha aliada?Natasha levantou as mãos em rendição e sussurrou: — Está abatida lá fora. — Seus olhos correram pela cena, parando na pequena Anya e na Laura dopada.— Não dê mais nenhum passo! — Madre Agatha apontou a arma para ela.— O que você fez com elas? — a voz de Natasha estava em pânico.— Ah, por enquanto, ainda nada — respondeu Agatha.Natasha ignorou a Madre e olhou para mim. — Você está bem, Isabel? — perguntou seco, claramente assustada como eu.

  • Castidade de sangue    Sem chão

    O som do segundo tiro ainda tremia no ar quando eu vi o sangue quente escorrer pela fresta da porta. O medo me agarrou a garganta e tudo dentro de mim se desfez em pânico puro, pernas bambas, mãos coladas na madeira. Bati com os dois punhos até doer, até o nó nas palmas arder, mas a porta não cedeu.Do lado de fora, alguém gritava; reconheci o timbre de Natasha, cortado pela angústia.Ouvi passos atrás de mim, leves, calculados. Um clique metálico rente à minha nuca fez cada fio de cabelo na minha pele se arrepiar. Meu corpo inteiro entendeu perigo antes da minha mente. Viro devagar. E ela está ali, imóvel como uma estátua de ossos finos: Madre Ágata.— Achou que me enterraram, sua idiota? — a voz disse, sem cerimônia.As palavras me atingem como lâminas. A incredulidade borbulha dentro de mim.— O que você… — consigo sussurrar. — Você morreu!— É mesmo? — Madre Ágata ri, um som sem alegria.E aí que eu percebo que jamais perguntei ao Luka se a Agatha realmente tinha morrido, o

  • Castidade de sangue    Meu medo

    — O que foi, meu amor? Eu te machuquei? Há algo errado? — ele pergunta, parado à minha frente, com a toalha na mão e uma expressão preocupada. — Você está chorando, ma-yá lyubóv?Uma lágrima escorre, eu nem sabia que estava chorando.— Não é tristeza, Luka. É que eu nem acredito que estou aqui, vivendo isso. Tudo ainda parece um sonho pra mim.Ele se abaixa diante de mim, o olhar suave, e passa a toalha pelo meu corpo com cuidado.— Mas não é sonho — murmura. — Tudo aqui é real. E eu vou fazer questão de sempre te lembrar disso.Ele me limpa, e eu deito a cabeça em seu peito, sentindo o cheiro dele. Luka faz carinho no meu cabelo e deposita pequenos beijos na minha têmpora.— Preciso te pedir um favor — digo baixinho.— Qualquer coisa — ele se vira na cama, me encarando.— A Laura me pediu um favor pra amanhã. Preciso ir até uma capela pra resolver algumas coisas sobre o batizado da Anya. A Natasha vai comigo. Preferi vir falar com você, porque ela disse que não temos permiss

  • Castidade de sangue    Sem culpa

    — Você não tem ideia do quão apertada é — Luka murmura, a respiração quente contra o pescoço. — Mais apertada do que imaginei sempre que fodi a mão pensando em você.O meu centro treme. — Você fazia isso com frequência?Ele desliza uma mão pela frente e cobre o seio. — Quase todo dia. Antes de foder você pela primeira vez, isto é.A minha cabeça pende para trás, batendo no peito dele. — E depois?Ele curva os dedos fortes dentro de mim, acertando um ponto que me faz engasgar. — Com frequência demais para admitir. Toda vez que acordava e te via naquele lugar, do outro lado da Mesa. Tão perto, e ainda tão longe. — Ele abaixa a cabeça, pressionando os lábios no pescoço. — Você não tem ideia do que fez comigo.Dentes pressionam na carne. Primeiro levemente e depois mais forte, até a dor faiscar. Eu gemo, e ele diminui a pressão. A língua sai, e ele lambe a marca que sem dúvida deixou.O som úmido dos dedos fodendo a buceta inunda o ar, fica cada vez mais obsceno. Não me importo. Não

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status