Compartir

Cansada de você

last update Fecha de publicación: 2025-03-24 12:10:11

Parte 5... 

Aurora

— Aurora, o que você tem?

— Não sei, Gisele - suspirei e apoiei as mãos na bancada, olhando meu reflexo — Eu me sinto desanimada.

— Mas você acabou de chegar de Palermo. A viagem não foi boa?

— Foi sim, foi ótima - saí e ela veio atrás de mim — É só que... Sei lá... Eu fiquei feliz em ver a Diana com o Giancarlo e como ela está bem com o marido. Isso foi bem legal.

— Então, não entendi querida.

Entrei no closet para escolher uma roupa.

— Ai, Gisele... Eu não sei, talvez eu esteja só exagerando ou então é cansaço mesmo.

Não é bem um cansaço normal. É que já faz um tempinho que minha vida meio que deu uma estagnada em alguns pontos. E também, eu já deveria ter saído dessa casa há muito tempo, mas não o fiz para não deixar minha mãe sozinha com esse homem cruel que por um azar, é meu pai. Triste verdade.

— Aconteceu alguma coisa por lá que te deixou aborrecida?

Olhei para ela com um pequeno sorriso.

— De certa forma... Mas é algo que eu já sabia que iria acontecer, não é mesmo? Então nem posso reclamar, só aceitar.

Dei de ombros. Eu venho há anos pensando que certos comportamentos ditos normais na sociedade, não são assim tão bons como querem fazer parecer.

Tipo o casamento.

Depois de crescer vendo minha mãe ter um amor doentio e uma dependência emocional absurda por meu pai, um homem ruim, cruel, que a humilha e abusa de todas as formas, eu cheguei à decisão de que não vale a pena perder tempo com um relacionamento, ainda mais me casar.

Consegui chegar à minha adolescência e idade adulta, com o coração limpo, sem peso nenhum, sem me prender por um cara qualquer, que iria apenas querer dominar minha vida através da paixão.

Entendi que paixão e amor são coisas nocivas. Não sei como minha mãe consegue perdoar meu pai, a cada vez que ele grita, que b**e, que a proíbe de fazer algo.

Eu não consigo perdoar e sinceramente, acho que nem mesmo tenho amor de verdade por ele. É muito estranho pra mim, viver nessa casa. E sei que ele também não sente amor por mim.

Nenhum pai que se preze e que realmente sinta amor por seus filhos, poderia agir da forma como ele age comigo. Eu sinto que há um ódio guardado dentro dele, que só não coloca pra fora, porque seria ruim para a imagem que mantém e talvez, ele tivesse até me matado em alguma das muitas surras que ele me deu.

Desde que eu o ameacei quando pequena, ele nunca mais me perdoou e cada nova surra era mais agressiva do que a anterior. E assim eu sempre tinha uma viagem, um local para ir, uma doença, um castigo. Qualquer coisa que me afastasse das pessoas, para que não desconfiassem que ele me agredia.

— Eu pensei que você gostava dessas viagens a Palermo, querida - ela pegou uma escova e começou a pentear meu cabelo.

— E eu gosto muito... - suspirei — Mas estou repensando se devo continuar indo como sempre vou. Talvez eu deva diminuir minhas viagens para lá.

— Isso tem um bom motivo, não tem?

E como tem. Um motivo alto, de cabelos pretos e um sorriso lindo. Mas que eu preciso decidir o que fazer com relação a isso. Aliás, desde que eu tive uma briga muito pesada com meu pai, eu comecei a pensar mais nesse motivo.

E o nome do motivo é Domenico.

Eu conheci o Domenico dois dias antes do casamento de Diana com Carlo Barone. Eu fui a madrinha de honra dela e ele foi o padrinho, mas eu não o conhecia pessoalmente. E quando cheguei em Palermo para o casamento, pra mim, foi uma sensação muito diferente ao primeiro momento em que o vi.

E para ele foi igual. Nós não conseguimos nos separar durante os dois dias em que tivemos que aprender a dança e experimentar a roupa. A conversa fluiu fácil e rápido entre nós e não houve nada que atrapalhasse esses bons momentos. Tão bons que estamos juntos até hoje.

Eu já tinha a ideia de que não valia a pena me prender para esperar por um amor, por alguém que fosse meu príncipe encantado, até porque, eu já tinha a prova viva em casa, de que príncipes encantados não existem.

No entanto, eu ainda era virgem quando fiquei com Domenico e nunca mais fiquei outro homem. Mas sei que ele fica com outras mulheres.

Esse foi o nosso acordo. Eu não vi problema nisso naquela hora. Domenico ficou surpreso por eu ser virgem, mas deixei claro que ele não ia precisar se casar comigo para preservar minha honra, apesar dele ser um mafioso e é isso o que se espera. Comigo não. Eu não queria casar.

Depois do susto dele e de eu garantir que ele poderia ficar tranquilo, nossa relação ficou muito legal. Sem pressão, sem cobranças, sem ciúmes ou nada disso. Eram apenas duas pessoas que queriam a mesma coisa.

Uma relação madura, sexo bom... Não, sexo maravilhoso, perfeito, boa conversa e liberdade de ir e vir. Ele em Palermo e eu aqui na Calábria. Tudo certo, tudo bem.

Mas não agora. Isso mudou há seis meses, quando tive uma briga muito feia com meu pai.

— Você não pode tocar em mim! - eu falei alto, quando meu pai puxou meu braço.

Como quase todas as vezes, a briga começou porque ele estava de novo humilhando minha mãe. Dessa vez porque ela tinha engordado um pouco e isso por conta da depressão, mas ele não ligava, só queria ser ruim e escroto com ela.

— Eu posso matar você se eu quiser, sua vagabunda - seus olhos estavam até vermelhos de raiva — Estou cansado de ver sua cara cínica dentro dessa casa todos os dias - ele gesticulava forte — Não tem vergonha na cara? Eu não gosto de você, eu não suporto sua presença - ele apontou para minha mãe — Essa imprestável nem foi capaz de me dar um filho homem!

— Não tem problema que não goste de mim - ergui o rosto em desafio — Eu também não gosto de você... Velho ridículo!

Ele avançou pra cima de mim com o cinto na mão, tentando me acertar, mas eu me defendi.

— Já disse que não me toque! - minha mãe passou na minha frente e pediu que ele parasse, mas o que ganhou foi um tapa no rosto, o que me tirou o resto de calma que tinha.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   O mafioso caiu

    Parte 156...AuroraA casa estava cheia da luz dourada de fim de tarde. Do interior, eu ouvia os passos apressados de Andretti correndo atrás de Gisele, que fingia não alcançá-lo. O som da risada dele cortava o ar como um presente.— Devagar, meu amor - gritei da cozinha, enxugando as mãos no avental. — Gisele, fica de olho nele, por favor.— Pode deixar, Aurora! - ela respondeu, já resfolegando enquanto tentava conter aquele tornado de quase quatro anos de idade.Meus olhos seguiram para a varanda onde Domenico falava ao celular. A expressão dele era dura. Mandíbula cerrada, as sobrancelhas em um risco sombrio, e a voz baixa e firme em italiano rústico.— Se ele se meter de novo onde não deve, vai sumir sem deixar rastros. Você me entendeu? Eu não repito ordem duas vezes.Suspirei.Saí da cozinha, atravessando o corredor em passos lentos até a varanda. Ele estava de costas, o paletó jogado no encosto da cadeira, mangas da camisa arregaçadas, o pulso exposto mostrando o relógio antig

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Voltando pra casa

    Parte 155...DomenicoPalermo tinha aquele cheiro salgado no ar que grudava na pele, como um lembrete constante de onde você estava.Era o fim da tarde, e o sol ainda queimava as pedras do jardim quando estacionei o carro em frente à casa. O portão rangeu como sempre, e os cães do vizinho latiam sem parar. Mas naquele dia eu nem me importei. Eu só queria entrar.Gisele abriu a porta com um sorriso largo, os olhos cansados de quem passa o dia correndo atrás de um bebê, mas felizes.— Bem-vindo de volta, signore Domenico. - ela abriu espaço para eu passar.— Onde está a minha esposa?Antes que Gisele pudesse responder, ouvi a voz de Marlene, lá da sala.— Está no quarto do bebê. Com o pequeno Andreti. – ergueu o rosto sorridente.Ela estava sentada no sofá, uma manta nos ombros, um copo de chá na mão. Tinha um brilho diferente no olhar, como se agora ela pertencesse mesmo àquela casa. Não era mais hóspede. Era família. E naquele momento, eu senti, a família estava completa.— Obrigado,

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Valer a pena

    Parte 154...AuroraO salão da casa de Campânia estava silencioso naquela tarde, exceto pelo som distante das cigarras e do vento tocando as janelas. Pietro aceitara se reunir comigo e com Diana. Pedi a ela que ficasse, não por fraqueza, mas porque eu sabia que ele a ouviria. E eu precisava que ele ouvisse.Ele entrou com sua presença pesada e serena, como quem carrega o mundo nos ombros há décadas. O terno escuro contrastava com a luz suave que atravessava as cortinas de linho.Era um homem que conhecia o poder do silêncio, e o usava com maestria. Quando seus olhos, aqueles olhos de pedra antiga, pousaram sobre mim, vi ali o mesmo olhar que me seguia desde criança, mas agora com uma expectativa que me pesava no peito.Eu tinha boas lembranças dele como o meu “tio” Pietro. Mesmo sendo adulta agora, essa sensação não passou.— Você queria falar comigo, figlia? - perguntou, usando o italiano com sotaque forte com naturalidade. Ele se sentou na poltrona de couro, cruzando uma perna sobre

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Só uma semente

    Parte 153...AuroraOitavo dia...Os dois dias seguintes passaram como um sopro longo e silencioso, como aquele momento entre um trovão e o próximo raio. Domenico e Carlo estavam em casa, vivos, inteiros o suficiente para sorrir de vez em quando, mas com uma aura de cansaço que só os olhos muito atentos podiam perceber.Durante todo esse tempo, ficamos juntos. A maior parte do tempo no andar de cima da casa, dividindo o silêncio entre carinhos, cochilos longos e refeições simples preparadas por Alma.Diana e eu nos revezávamos entre cuidar dos homens e tentar acalmar o próprio coração. Giancarlo engatinhava entre os tapetes, distribuindo sorrisos e chorinhos que nos lembravam que a vida não parava, mesmo quando o mundo parecia girar torto.Na tarde do segundo dia, sentamos todos à mesa da cozinha, com a porta aberta deixando entrar o aroma de hortelã da horta. Diana cortava tomates cereja ao meu lado, e Giancarlo dormia no bebê-conforto no canto da sala, com uma fralda branca cobrindo

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Vou voltar sempre

    Parte 152...AuroraSexto dia...As rodas do carro ainda nem tinham parado direito quando vi Domenico e Carlo saltarem do banco traseiro da SUV escura. Corri. Nem pensei. O coração batia como se quisesse sair pela boca, e as lágrimas vieram antes mesmo que eu pudesse controlar.— Domenico! - gritei, sentindo o chão quase sumir sob meus pés.Ele abriu os braços assim que me viu, o rosto cansado, coberto de poeira e suor. E sangue. Tinha cortes profundos no antebraço e nas mãos, o tecido da camisa rasgado em vários pontos. Ainda assim, estava ali. Vivo. E por um milagre, sorrindo.Me joguei contra ele com força, abraçando-o como se fosse a última coisa que eu faria no mundo. Senti o cheiro de rua, de pólvora, de ferro seco e de sangue. Mas também o perfume dele, e isso bastava. Bastava para o universo fazer sentido de novo.— Por que você não ligou? - bati com força no peito dele, a voz falhando de emoção. — Por que, Domenico? Eu podia ter enlouquecido! Esqueceu que estou grávida?Ele p

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Estou com medo

    Parte 151...AuroraCinco dias.Cinco dias e nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal.As horas pareciam se arrastar, como se o tempo me punisse por ter confiado quando ele disse que seria rápido.— Dois ou três dias, no máximo - Domenico prometeu, com as mãos no meu rosto e os lábios quentes contra a minha testa. Mas agora o celular dele seguia desligado, e o meu coração, cada vez mais inquieto.— Ele vai voltar, Aurora. - a voz de Diana, ao meu lado, tentava me alcançar. — Você sabe como esses sumiços funcionam. Com Carlo é a mesma coisa. Às vezes ele fica quatro, cinco dias fora e volta como se tivesse ido só até a esquina comprar pão. Eu já me acostumei com isso, amiga.Tentei sorrir, mas o resultado foi apenas uma contração nervosa no canto da boca.— Mas ele disse que ligaria... Ele sempre liga. E eu não sei se vou me acostumar com isso. - murmurei, olhando pela janela do quarto. Do lado de fora, o verde da Campânia parecia zombar da minha ansiedade com sua paz absoluta.

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status