Share

Foi ficando comum

Author: Ninha Cardoso
last update publish date: 2025-03-24 12:08:34

Parte 4...

Aurora - hoje em dia

Bocejei e me espreguicei. Eu já tinha acordado há uns quinze minutos, mas a preguiça me pegou de jeito. O voo até que foi tranquilo, tirando o cara ao meu lado, que ficou puxando conversa, até que eu coloquei os fones de ouvido e ele finalmente entendeu que eu não queria conversar.

Não há voos diretos e frequentes saindo da Calábria para Palermo. Tive que fazer uma conexão em Roma e isso demora mais umas três horas, então no total, fico cerca de cinco horas, pra ir e voltar. Mas vale a pena a ida.

Eu poderia ter voltado de avião particular, que Carlo me ofereceu, como outras vezes, mas achei melhor não. Apesar dele ser um homem muito legal comigo e de termos uma certa amizade, sei que meu pai iria me encher a paciência se eu ficasse usando esse favor, todas as vezes em que eu fosse até Palermo para visitar Diana, que agora tem um lindo garotinho de nove meses.

O pequeno é um pouco dos dois. Os olhos e o nariz são iguais aos do pai, Carlo. Já o cabelo, a boquinha vermelha e as bochechas rosadas, são de Diana.

É um garoto lindo e muito esperto, bastante agitado. Giancarlo. É a paixão de minha amiga de infância, que se casou há quase dois anos, em um acordo entre as famílias Barone e Tomazzo.

Aqui quem comanda a máfia é meu tio Pietro. Em Palermo é Don Barone.

Desde que Diana soube que um dia ela se casaria com Carlo Barone, nós tentamos aproveitar a vida do jeito que dava. Continuamos muito amigas, mas eu jamais tive coragem de contar toda a verdade para ela, porque não queria quebrar minha promessa para minha mãe.

— Aurora... Você já levantou? - ouvi as batidinhas de leve na porta.

— Pode entrar, Gisele - sentei na cama, esfregando os olhos — Que horas são? - bocejei de novo.

— Menina, já passa das nove da manhã - ela foi até a janela e abriu as cortinas — O dia já começou e você ainda está aqui.

— Estou um pouco cansada da viagem ainda - levantei e lhe dei um abraço apertado e um beijo na cabeça de cabelos brancos — Sentiu minha falta esses dias?

— É claro que sim. Eu sempre sinto - ela me abraça de volta e sorri.

Gisele foi um achado em minha vida. Eu amo muito minha mãe, mas Gisele entrou em minha vida em um momento muito difícil. Exatamente um ano depois da surra com a régua de madeira que me colocou no hospital.

Aquela não foi a primeira, mas foi a que abriu as portas para tantas outras que vieram depois. Comigo e com minha mãe.

Aos quinze anos, eu tive que admitir. Eu odeio meu pai. Não consigo sentir nada de bom com relação a ele. Quase todos os dias ele batia em minha mãe ou em mim. Às vezes, em nós duas ao mesmo tempo. Foi assim que eu cresci.

Parece que depois que eu ameacei contar ao tio Pietro, ele nunca mais me perdoou por isso e tudo era motivo para ser rude comigo. Ou até perverso, como quando ele entrou em meu quarto uma tarde e quebrou todas as minhas bonecas, até a que tia Luísa tinha comprado pra mim.

— Troque de roupa. Já deixei preparado o seu café da manhã, do jeito que você gosta.

— Obrigada, Gisele, você é ótima.

Entrei no banheiro para minhas demandas da manhã. Eu gosto de me cuidar e tenho vários cremes para o dia e noite. Estou com vinte e dois anos, mas muita gente pensa que eu tenho uns dezessete.

Só que isso não é da forma como as pessoas pensam. É muito mais complicado.

As surras ficaram cada vez mais agressivas, mas meu pai mudou seu jeito de agir também. Ele já conseguia me machucar sem deixar marcas ou se acontecesse isso, eram coisas que não levantavam suspeitas.

Vermelhos pelas pernas e braços podiam ser justificados com as aulas de ginástica e pilates que eu fazia. Só duas vezes mais eu tive que ir ao hospital por conta dos machucados, porém isso também foi abafado e depois esquecido pelas pessoas. Eu era humilhada e usada como saco de pancadas de meu pai.

Geralmente ele começava com minha mãe, que insistia, surra após surra, que isso iria parar e que ele não era uma pessoa ruim, apenas estava passando por maus momentos. E outras tantas vezes, ela assumia que a culpa era dela, por ter feito algo que o aborreceu.

Então, por causa disso, eu comecei a me interessar por maquiagem e aprendi a encobrir os machucados para ninguém perceber. Nem sempre eu conseguia, mas foi ficando algo comum para os outros, que acreditavam que meu pai era um homem de família.

— Onde ele está? - perguntei lavando o rosto para me despertar de vez.

— Saiu de casa para resolver algo de uma entrega - Gisele me passou a toalha de rosto.

— E minha mãe? - peguei minha escova de dentes.

— Ela está na estufa, mexendo com as plantas.

Cuidar de suas plantas era a única coisa que fazia minha mãe relaxar e não pensar na vida de merda que ela tinha, ao lado de um homem horroroso, que nunca a respeitou.

Dependência emocional é uma merda. Acaba com o amor - próprio da pessoa. Isso é terrível e me dá muito medo. Não quero cair nessa cilada.

Desde que eu me despertei para quem era meu pai e como o casamento fazia mal à minha mãe, eu me fechei para não cair no mesmo erro que ela. Deus me proteja e me guarde de me apaixonar por um homem.

E se ele for um mafioso, pior ainda. Blindei meu coração desde novinha para não arriscar me envolver e cometer um deslize. Eu sempre me admirei por ouvir minha mãe dizer que ama meu pai, que ele é o homem de sua vida e que ela tem que ser submissa para ser feliz.

Tudo bem ser submissa, se for entre quatro paredes, em uma cama espaçosa, com um homem gostoso ao lado. Mas fora do quarto, de jeito nenhum. Virar um capacho para um homem e dar a ele o poder de me quebrar, só porque eu o amo. Que coisa ridícula! Deus me livre!

Autora Ninha Cardoso - Comente. Agradeço sua leitura. Vou começar a reponder no app.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   O mafioso caiu

    Parte 156...AuroraA casa estava cheia da luz dourada de fim de tarde. Do interior, eu ouvia os passos apressados de Andretti correndo atrás de Gisele, que fingia não alcançá-lo. O som da risada dele cortava o ar como um presente.— Devagar, meu amor - gritei da cozinha, enxugando as mãos no avental. — Gisele, fica de olho nele, por favor.— Pode deixar, Aurora! - ela respondeu, já resfolegando enquanto tentava conter aquele tornado de quase quatro anos de idade.Meus olhos seguiram para a varanda onde Domenico falava ao celular. A expressão dele era dura. Mandíbula cerrada, as sobrancelhas em um risco sombrio, e a voz baixa e firme em italiano rústico.— Se ele se meter de novo onde não deve, vai sumir sem deixar rastros. Você me entendeu? Eu não repito ordem duas vezes.Suspirei.Saí da cozinha, atravessando o corredor em passos lentos até a varanda. Ele estava de costas, o paletó jogado no encosto da cadeira, mangas da camisa arregaçadas, o pulso exposto mostrando o relógio antig

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Voltando pra casa

    Parte 155...DomenicoPalermo tinha aquele cheiro salgado no ar que grudava na pele, como um lembrete constante de onde você estava.Era o fim da tarde, e o sol ainda queimava as pedras do jardim quando estacionei o carro em frente à casa. O portão rangeu como sempre, e os cães do vizinho latiam sem parar. Mas naquele dia eu nem me importei. Eu só queria entrar.Gisele abriu a porta com um sorriso largo, os olhos cansados de quem passa o dia correndo atrás de um bebê, mas felizes.— Bem-vindo de volta, signore Domenico. - ela abriu espaço para eu passar.— Onde está a minha esposa?Antes que Gisele pudesse responder, ouvi a voz de Marlene, lá da sala.— Está no quarto do bebê. Com o pequeno Andreti. – ergueu o rosto sorridente.Ela estava sentada no sofá, uma manta nos ombros, um copo de chá na mão. Tinha um brilho diferente no olhar, como se agora ela pertencesse mesmo àquela casa. Não era mais hóspede. Era família. E naquele momento, eu senti, a família estava completa.— Obrigado,

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Valer a pena

    Parte 154...AuroraO salão da casa de Campânia estava silencioso naquela tarde, exceto pelo som distante das cigarras e do vento tocando as janelas. Pietro aceitara se reunir comigo e com Diana. Pedi a ela que ficasse, não por fraqueza, mas porque eu sabia que ele a ouviria. E eu precisava que ele ouvisse.Ele entrou com sua presença pesada e serena, como quem carrega o mundo nos ombros há décadas. O terno escuro contrastava com a luz suave que atravessava as cortinas de linho.Era um homem que conhecia o poder do silêncio, e o usava com maestria. Quando seus olhos, aqueles olhos de pedra antiga, pousaram sobre mim, vi ali o mesmo olhar que me seguia desde criança, mas agora com uma expectativa que me pesava no peito.Eu tinha boas lembranças dele como o meu “tio” Pietro. Mesmo sendo adulta agora, essa sensação não passou.— Você queria falar comigo, figlia? - perguntou, usando o italiano com sotaque forte com naturalidade. Ele se sentou na poltrona de couro, cruzando uma perna sobre

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Só uma semente

    Parte 153...AuroraOitavo dia...Os dois dias seguintes passaram como um sopro longo e silencioso, como aquele momento entre um trovão e o próximo raio. Domenico e Carlo estavam em casa, vivos, inteiros o suficiente para sorrir de vez em quando, mas com uma aura de cansaço que só os olhos muito atentos podiam perceber.Durante todo esse tempo, ficamos juntos. A maior parte do tempo no andar de cima da casa, dividindo o silêncio entre carinhos, cochilos longos e refeições simples preparadas por Alma.Diana e eu nos revezávamos entre cuidar dos homens e tentar acalmar o próprio coração. Giancarlo engatinhava entre os tapetes, distribuindo sorrisos e chorinhos que nos lembravam que a vida não parava, mesmo quando o mundo parecia girar torto.Na tarde do segundo dia, sentamos todos à mesa da cozinha, com a porta aberta deixando entrar o aroma de hortelã da horta. Diana cortava tomates cereja ao meu lado, e Giancarlo dormia no bebê-conforto no canto da sala, com uma fralda branca cobrindo

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Vou voltar sempre

    Parte 152...AuroraSexto dia...As rodas do carro ainda nem tinham parado direito quando vi Domenico e Carlo saltarem do banco traseiro da SUV escura. Corri. Nem pensei. O coração batia como se quisesse sair pela boca, e as lágrimas vieram antes mesmo que eu pudesse controlar.— Domenico! - gritei, sentindo o chão quase sumir sob meus pés.Ele abriu os braços assim que me viu, o rosto cansado, coberto de poeira e suor. E sangue. Tinha cortes profundos no antebraço e nas mãos, o tecido da camisa rasgado em vários pontos. Ainda assim, estava ali. Vivo. E por um milagre, sorrindo.Me joguei contra ele com força, abraçando-o como se fosse a última coisa que eu faria no mundo. Senti o cheiro de rua, de pólvora, de ferro seco e de sangue. Mas também o perfume dele, e isso bastava. Bastava para o universo fazer sentido de novo.— Por que você não ligou? - bati com força no peito dele, a voz falhando de emoção. — Por que, Domenico? Eu podia ter enlouquecido! Esqueceu que estou grávida?Ele p

  • Caí nos Braços de Um Mafioso   Estou com medo

    Parte 151...AuroraCinco dias.Cinco dias e nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal.As horas pareciam se arrastar, como se o tempo me punisse por ter confiado quando ele disse que seria rápido.— Dois ou três dias, no máximo - Domenico prometeu, com as mãos no meu rosto e os lábios quentes contra a minha testa. Mas agora o celular dele seguia desligado, e o meu coração, cada vez mais inquieto.— Ele vai voltar, Aurora. - a voz de Diana, ao meu lado, tentava me alcançar. — Você sabe como esses sumiços funcionam. Com Carlo é a mesma coisa. Às vezes ele fica quatro, cinco dias fora e volta como se tivesse ido só até a esquina comprar pão. Eu já me acostumei com isso, amiga.Tentei sorrir, mas o resultado foi apenas uma contração nervosa no canto da boca.— Mas ele disse que ligaria... Ele sempre liga. E eu não sei se vou me acostumar com isso. - murmurei, olhando pela janela do quarto. Do lado de fora, o verde da Campânia parecia zombar da minha ansiedade com sua paz absoluta.

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status