INICIAR SESIÓNVictoria Clark
O silêncio que se instalou no quarto de hotel era tão denso que eu conseguia ouvir o som do papel do cheque balançando entre os dedos de Adrian. Minha mente tentava, desesperadamente, conciliar o homem que tinha me tratado como porcelana poucas horas atrás com essa estátua de terno que me encarava como se eu fosse uma mancha no tapete caro.
— O que você disse? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que eu gostaria. Forcei meu corpo a se sentar na cama, puxando o lençol de linho contra o peito com força extra.
— Você me ouviu — Adrian deu dois passos na minha direção, o rosto completamente impassível. — Não costumo repetir minhas ordens, muito menos minhas propostas. Ponha o preço que quiser nesse papel e suma da minha vida. Estou pagando pelo seu silêncio e pelo seu incômodo.
A ficha caiu com o impacto de uma bigorna.
A noite maravilhosa, o cuidado, a gentileza... tudo não tinha passado de uma alucinação causada por um homem drogado ou bêbado demais para lembrar quem era. E agora, o CEO implacável estava de volta, tentando comprar o que restava do meu orgulho.
— Você acha que tudo tem um preço, não é? — senti o sangue subir para o meu rosto, mas não de vergonha. Era ódio puro. — Você me olha e só consegue enxergar um número?
— No meu mundo, Victoria, tudo tem um preço — ele respondeu, a voz gélida, os olhos fixos nos meus sem um piscar sequer. Ele jogou o cheque em cima do colchão, perto dos meus pés. — Inclusive a sua encenação de garota inocente. Não sei como você armou para que eu estivesse naquele beco, nem me importa. Só quero o problema resolvido. Pegue o dinheiro.
Eu encarei o papel timbrado ali na cama. Aquele pedaço de papel provavelmente resolveria a conta do hospital da minha tia em dois minutos. Mas o gosto da humilhação na minha boca era tão amargo que eu preferia queimar no inferno a aceitar um centavo daquele homem.
Afastei o lençol com cuidado para não me expor, peguei o cheque e me levantei. Meus pés descalços afundaram no tapete macio enquanto eu caminhava até ele. Adrian não recuou um milímetro, mantendo a postura erguida, os braços cruzados.
— Eu estive com você porque eu quis, seu idiota — disparei, parando a centímetros dele. Minha respiração batia no peito dele. — Eu não quero o seu dinheiro podre.
Antes que ele pudesse responder, juntei o cheque na palma da mão, amassei até virar uma bolinha de papel insignificante e joguei direto na cara dele.
Os olhos azuis de Adrian se estreitaram, uma faísca de surpresa e raiva genuína cruzando seu rosto perfeito.
— Você enlouqueceu? — ele rosnou, dando um passo à frente, a aura ameaçadora tentando me encolher.
— Você ainda não viu nada — respondi.
— Garanto a você que já vi muita coisa, principalmente garotas como você. Esse teatro não me compra, dúvido até mesmo que era virgem!
O movimento foi instintivo. Peguei toda a fúria que estava guardada no meu peito, a injustiça da vida, o medo pela minha tia e o asco daquela arrogância, e desferi um tapa certeiro na bochecha direita dele.
O estalo ecoou pelo quarto luxuoso.
A força do impacto virou o rosto de Adrian para o lado. Uma marca vermelha começou a se desenhar imediatamente na pele clara do seu maxilar. O silêncio que se seguiu foi assustador. Se os olhos dele pudessem matar, eu já estaria enterrada em sete palmos de terra.
Sem dar tempo para ele reagir ou me tocar, virei as costas. Peguei minhas roupas e meu uniforme rasgado do chão, enfiei tudo na mochila de qualquer jeito e caminhei até o banheiro. Me vesti em menos de dois minutos, as mãos tremendo tanto que mal consegui fechar o zíper da minha calça jeans velha.
Quando saí do banheiro, Adrian estava no mesmo lugar, a mandíbula travada, observando cada movimento meu como um predador prestes a dar o bote.
— Nós terminamos aqui — avisei, batendo a porta do quarto com toda a força que tinha.
Corri pelos corredores do hotel cinco estrelas, pegando o elevador de serviço para evitar os olhares dos hóspedes ricos. Só quando cheguei na calçada da avenida movimentada é que me permiti puxar o ar de verdade. O vento frio da manhã bateu no meu rosto, me trazendo de volta à realidade esmagadora.
Eu tinha acabado de esbofetear o homem mais poderoso da cidade e estava sem rumo. Olhei para o relógio no celular e o pânico voltou a morder meus calcanhares: eu precisava correr contra o tempo se quisesse garantir o tratamento da minha tia no Saint Jude.
Apressei o passo pela calçada movimentada do centro, mas um tumulto logo à frente me fez parar.
Pessoas começaram a se aglomerar ao redor de um banco de praça. Um senhor de cabelos brancos, vestindo um sobretudo de caxemira extremamente elegante, estava caído de lado no chão. A mão dele apertava o peito com força, enquanto ele tentava, em vão, puxar o ar. O rosto dele já estava ganhando um tom arroxeado e assustador.
— Alguém chame uma ambulância! Ele está tendo um infarto! — uma mulher gritou, mas ninguém se movia. Alguns apenas olhavam, chocados, e dois adolescentes começavam a filmar a cena com os celulares.
Esqueci o Adrian, esqueci o cheque, esqueci a minha própria desgraça. O instinto de quem passou os últimos dois anos monitorando crises respiratórias e cardíacas da tia Marie assumiu o controle do meu corpo de forma avassaladora.
Corri em direção ao homem caído, empurrei a multidão enquanto ligava para o serviço de emergência. Me ajoelhei ao lado dele e fiz alguns procedimentos de primeiros socorros que tinha aprendido depois de cuidar da minha tia.
Segurei o rosto do idoso, tentando fazê-lo focar em mim enquanto sua respiração falhava drasticamente.
— Senhor? Olhe para mim! Tente puxar o ar devagar — gritei, enquanto minha mão já tateava o pescoço dele em busca do pulso fraco. — Eu vou te tirar daqui, aguente firme!
Capítulo 242 — A Linha TênueVictor FoleyA felicidade humana é uma lâmina fina demais.Ela brilha, reluz como ouro sob o sol e, na fração de um segundo descuidado, se parte ao meio para rasgar a carne até o osso.Menos de uma hora atrás, eu estava de pé no meio da minha sala de estar comemorando aos berros, apontando o dedo para o Lucas e praguejando em pura euforia sobre a perda dos meus dois mil dólares. Era um menino. O herdeiro do meu Adrian, o sangue da minha linhagem que traria o futuro de volta para este casarão. Eu sentia o meu peito largo, vivo, quase jovem de novo.Até o estrondo metálico atravessar a chamada.Até o silêncio congelar a sala e o telefone tocar na mão da Evelyn.Quando a menina desligou o aparelho, os olhos cor de mel arregalados em pânico absoluto, e disse com a voz em fiapos: “Sinto muito, vovô Victor… mas o Ade e a Vic sofreram um acidente e o Ade… se feriu e o estado é grave.”, o ar foi arrancado da minha garganta com a violência de uma forca.A ordem nat
Capítulo 241 — A Espera no AbismoVictoria FoleyO teto branco do quarto de emergência parecia girar em um borrão lento e opaco.O bipe rítmico e constante dos monitores ao lado do meu leito disputava espaço com o som abafado do meu próprio choro, que não cessava desde o segundo em que as portas daquela ambulância se fecharam em Montgomery Street. Eu sentia a picada fria de dois acessos venosos no dorso das minhas mãos, tubos de soro correndo em fluxo contínuo e a cinta elástica do cardiotocógrafo apertando o meu ventre para vigiar cada milissegundo das batidas do meu filho.Minhas roupas ainda cheiravam a fumaça de motor estourado e àquele ferro quente e inconfundível.O sangue dele. O sangue do Adrian que manchou a gola do meu vestido e que agora secava na pele dos meus braços.— Senhora Foley, por favor, precisa respirar devagar — a enfermeira ao meu lado pedia com suavidade profissional, ajeitando o oxímetro no meu indicador. — A infusão de hidratação e o tocolítico para segurar
Capítulo 240 — Linha de FraturaAlexander SterlingO som da chamada que caiu com o estrondo metálico ainda zumbia no meu ouvido quando freei o blindado na transversal da Montgomery Street.Quatro minutos. Foi o tempo exato que levamos para rasgar o tráfego da baía com giroflex ligado e sirenes abertas. Quatro malditos minutos em que a minha mente repassou cada brecha, cada protocolo, cada falha de cálculo. Eu havia garantido ao Adrian que nenhuma ameaça cruzaria a minha linha de defesa.E a cena diante do meu para-brisa era a personificação do meu fracasso.O sedã de luxo estava tombado de lado contra a mureta de concreto, a lataria traseira direita engolida pelo chassi do furgão blindado dos atacantes. Vidros temperados cobriam o asfalto molhado como diamantes partidos, fumaça esbranquiçada subia do radiador estourado e o cheiro enjoativo de gasolina vazando disputava espaço com o ar gélido da tarde.Dois homens armados com submetralhadoras compactas contornavam a traseira do carro c
Capítulo 239 — O Escudo HumanoAdrian FoleyO ronco do motor biturbo rugiu contra as paredes dos prédios residenciais quando Austin afundou o pé no acelerador, jogando o sedã para a faixa central.O tranco da arrancada empurrou os nossos corpos contra o encosto de couro. Victoria soltou um arquejo assustado, as duas mãos espalmadas sobre a barriga em um reflexo imediato de defesa. Passei o braço por cima dos ombros dela, prensando-a contra o meu peito enquanto a cidade lá fora se transformava em um borrão cinzento de garoa e asfalto molhado.— Adrian… — a voz da minha mulher saiu trêmula, quebrada pelo desespero cru de quem carregava o nosso filho sob o peito. — O que está acontecendo? Quem são eles?!— Fica calma, amor. Olha para mim, não olha para fora — ordenei com uma firmeza que me custou cada gota de ar, os olhos fixos na expressão apavorada dela. — O Austin sabe o que está fazendo. Eu estou aqui com você.Pelo retrovisor central, o olhar do Austin era gelo puro. As duas mãos es
Capítulo 238 — A Linha de FogoAdrian FoleyO eco do coração do meu filho ainda parecia ressoar contra as paredes da minha caixa torácica.Durante anos, eu me acostumei a operar na base da contenção, calculando riscos e medindo palavras como quem caminha por um campo minado. Mas quando a imagem em tons de cinza se estabilizou na tela do Patrick e a confirmação veio límpida, crua, irrefutável, todo o controle que construí ao longo da vida se desfez em lágrimas quentes. Um menino. O meu sangue, o futuro arrancado das cinzas do passado, crescendo saudável no ventre da mulher que transformou a minha existência.— Por vocês dois, Victoria… eu daria a minha própria vida sem pensar duas vezes — sussurrei contra a curva do pescoço dela, mantendo os braços firmes ao redor do seu corpo no banco traseiro do sedã.Victoria respirou fundo, aninhando o rosto na dobra do meu ombro com um suspiro emocionado.— Nós sabemos, amor. Mas você vai viver. Nós três vamos viver isso tudo juntos. — ela levant
Capítulo 237 — A Promessa de Uma VidaVictoria FoleyO trajeto até a clínica do Patrick foi embalado pelo silêncio tranquilo que só um casal que se conhece no olhar consegue sustentar.Austin conduzia o sedã com a precisão austera de sempre, enquanto dois carros da equipe do Alex mantinham a distância regulamentar de cobertura, um na dianteira e outro na nossa traseira. Eu sabia que a cidade continuava sob alerta, mas com a mão grande e quente do Adrian entrelaçada à minha sobre o meu colo, o mundo exterior parecia incapaz de me atingir.A cada lombada ou curva mais fechada, o polegar dele acariciava o dorso dos meus dedos com um cuidado quase reverente. Eu estava com seis meses, e o peso da barriga já me fazia buscar apoio no encosto de couro a cada suspiro mais fundo.Entramos pela garagem privativa da clínica sem alarde. Patrick já nos esperava na antessala do seu consultório particular, de jaleco impecável, prancheta na mão e aquele sorriso calmo que sempre me desarmava.— Se o se







