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CAP. 10 - SOBREVIVENTE

Author: Nanda Érica
last update publish date: 2026-02-24 20:25:56

POV/ Lully

A Livraria do Francisco é o meu templo de paz. O cheiro de papel antigo e café fresco, que eu finalmente posso beber à vontade é o que mantém minha sanidade. Por um bom tempo, minha avó nos sustentou vendendo suas telas na feira da Avenida Paulista, debaixo do vão do MASP. Era a nossa glória. Mas o câncer é um ladrão silencioso; roubou o vigor das mãos dela e nos empurrou para o rodapé da página.

Organizo as prateleiras com um carinho. Limpo o pó, acaricio as lombadas. Eu deveria estar escrevendo ou desenhando meus próprios mundos, não apenas espanando os dos outros. Entre um cliente e outro, abro minha apostila de concurso. Não tenho nível superior. Sou apenas uma sobrevivente tentando decorar leis para conseguir a estabilidade que o destino me roubou.

— Heloíse.

Francisco me chama. Ele é um homem bom, de mãos calejadas e olhos tristes.

— Eu adoro o seu trabalho, você sabe. Mas o brasileiro não lê, e essa cultura de shopping está matando as pequenas livrarias. Não sei quanto tempo aguento.

Ele me estende um folheto amassado.

— Vi isso aqui. A Moretti Tech está contratando. O salário é três vezes o que eu te pago, e você é inteligente demais para morrer aqui comigo. Tenta. Talvez você consiga.

Encaro o papel amassado na minha mão. Moretti Tech.

Dizem que é uma gigante da tecnologia e inovação. Movimenta 9% do PIB. Mas o que dizem no morro é diferente. Fachada. Lavagem de dinheiro. Uns dizem que o fundador era da máfia russa, outros juram que a linhagem é alemã. O dono atual? Ninguém sabe quem é. Um fantasma.

Fofocas. O mundo vive de fofocas.

Olho para o logotipo no panfleto e me sinto minúscula. Eles devem pedir currículos impecáveis, experiências que eu não tenho. Eu sou apenas a Lully de Paraisópolis tentando manter a Lully verdadeira viva por mais um dia.

Meu almoço é um miojo cru, quebrado dentro do pacote para fazer volume. Engulo a seco, sem tempo para sentir o gosto. Não há tempo para banho. Não há tempo para respirar. Saio da livraria às 16h30 e vou direto para a gordura da hamburgueria do Silas.

O Silas é o tipo de verme que São Paulo produz aos montes. Velho, tarado, com os poros exalando cheiro de óleo queimado e maldade. Estou lavando a louça, os braços mergulhados na água morna e engordurada, quando sinto a mão dele.

A palma gorda e úmida aperta a minha bunda. O asco sobe pela garganta. Ele sempre faz isso. Ele sabe que eu preciso do dinheiro. Acha que o meu silêncio é permissão. Um dia eu ainda quebro cada dedo dessa mão.

No canto da cozinha, vejo a Sarah. Dezessete anos. O rosto pálido, os olhos fixos no chão enquanto seca os talheres.

— Ele está sendo estranho de novo? — sussurro, aproximando-me dela.

— Ele fala coisas, Lully... Coisas sujas. Eu não gosto de ficar sozinha com ele lá atrás.

— Não dá moral, Sarah. Fica perto de mim. Ele é só um velho frustrado.

21h e nenhuma mensagem da Maitê. Onde se meteu? Mandei mensagem, viu e não visualizou. Merda.

23h. Estou pegando minha bolsa para ir embora quando ouço o choro abafado. No fundo do depósito, o Silas está prensando a Sarah contra a parede. Uma mão no peito dela, a outra na bunda. A boca nojenta colada no pescoço da menina.

— Seja minha, bonequinha... Seja minha e eu facilito para você.

Não penso. Sou a âncora que agora vai afundar a cabeça dele.

Ele está de costas. Dou um chute com toda a minha força, certeiro, no meio dos ovos dele.

O grito dele é agudo, patético. Ele desaba de joelhos, o rosto ficando roxo.

— Você não cria jeito, seu velho safado! — grito, a voz saindo das entranhas.

— Sua vagabunda! — ele rosna, arquejando no chão. — O que pensa que está fazendo? Você está demitida!

Eu me aproximo. Ele ainda está no chão, com as mãos entre as pernas. Dou um chute no meio da cara dele. Sinto o impacto do meu sapato contra o osso. Ele cai para trás, levando as mãos ao nariz que agora sangra.

— Você vai me pagar, sua vadia. Eu vou te matar!

Sorrio cinicamente. Me agacho, enfio a mão no bolso da calça dele e puxo a carteira de couro. Abro e começo a contar as notas.

— Já que você não me paga direito há dois meses, vou pegar o meu salário agora.

Conto o valor exato. Entrego uma parte para a Sarah, que treme ao meu lado.

— Vai embora, Sarah. Agora. Nunca mais pise aqui.

Ela corre. Pego o restante das notas e coloco na minha bolsa.

— E esse extra aqui é pelos seus importunos, seu lixo — digo, olhando-o de cima.

Jogo a carteira com o que restou de dinheiro na cara dele e ajeito a alça da bolsa. Meu coração está disparado. Não é de medo. Foi bom me libertar. Mas o que eu vou fazer agora? Droga.

 Meus planos de sobreviver ficaram mais difíceis.

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