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CAP 9 - O Peso da Âncora

Author: Nanda Érica
last update publish date: 2026-02-24 20:24:50

Presente recente

POV – Lully – Presente     16/07- Sexta-feira

O despertador não toca. Ele grita. Cinco da manhã.

Abro os olhos e o teto baixo parece querer me sufocar. O quarto é um antigo depósito, pequeno, sem janelas, onde o cheiro de mofo briga com o cheiro adocicado da pomada da minha avó. Dei o quarto maior para a Maitê.

Ela precisa de luz para estudar. Eu já me acostumei com a penumbra.

Sento-me na cama e sinto o estrado de madeira gemer. O frio do chão de cimento soube pelos meus pés, lembrando que o luxo de Zurique: Suíça é apenas uma antiga lembrança, uma ficção que minha mente insiste em projetar. Levo a mão ao braço esquerdo. A pele é grossa, irregular. Minha cicatriz costuma formigar nos dias frios.

Amanhã é Dezessete de julho.

Faz praticamente quinze anos. Quinze anos que o asfalto cheirava a borracha queimada e meu pai me disse que a culpa era minha. Levanto e caminho até o espelho manchado. Os olhos verdes estão cansados. O rosto é redondo, a pele sem o viço, já não sou tão jovem como antes.

Talvez eu tenha engolido desaforos e frustrações demais. Talvez seja por isso que não só meu rosto, mas meu corpo inteiro pareça tão inchado.

Vou até o quarto da Maitê. Ela é o oposto de mim. É a Megan Fox de Paraisópolis. Magra, cabelos lisos pretos que descem até a cintura, olhos azuis que brilham com uma ambição que me assusta.

— Maitê. Acorda.

Ela puxa o lençol.

— Já vou, Lully... Me deixa.

— Não. Você tem que se levantar. Precisa ir para faculdade.  Eu tenho dois empregos para sustentar você e esse curso de direito, então levantaaa...

Ela se senta na cama com um bico infantil. Maitê queria Moda. Mas Moda não paga as contas. Direito é a nossa única chance. Chance dela, de ela sair desse beco. Eu desisti da minha arte para que ela pudesse ter um diploma.

Caminho até a cozinha e o estômago ronca. Olho para o pote de café. Vazio. Engulo seco. Bebo dois copos de água da torneira. O líquido gela minha garganta, mas não mata a fome.

Maitê aparece na cozinha vestindo uma saia curta demais e uma blusa que mal cobre o que deveria.

— Você vai sair desse jeito?

— Vou. Larga de ser chata. Você com essa mania insuportável de querer ser a mamãe. — me diz revirando os olhos.

Levo a mão ao rosto, tentando afastar a náusea que o comentário de Maitê provocou. Minha irmã é ingênua; ela acredita que a beleza é um escudo, quando, na verdade, em lugares como este, ela é um alvo pintado nas costas.

Nosso pai dizia que tentava nos proteger. Mas a proteção dele tinha um preço que só eu paguei. Depois que fomos despejados e ele virou caminhoneiro, o homem que eu conhecia desapareceu. Ele trazia presentes, pagava as contas, mas nunca mais me olhou nos olhos. Ele só olhava para o meu corpo.

Dizia que eu lembrava a minha mãe, mas com "um pouco mais de carne". Minha pele se retorce só de lembrar. Ele dizia que a culpa era minha, que eu o obrigava a fazer aquilo. Depois de me machucar, ele agia como se nada tivesse acontecido, mas suas mãos eram grandes demais, pesadas demais, e passeavam pelo meu corpo com uma sede que nenhum pai deveria ter. Lugares onde ele nunca deveria ter tocado... dedos e intenções que me deixaram marcada por dentro.

Para mim, ele morreu três vezes.

A primeira foi no corredor daquele hospital, quando ele me culpou por não ter dado o último adeus à minha mãe porque eu estava salvando um estranho. A segunda foi quando o homem que ele era deu lugar ao monstro que me visitava à noite. E a terceira foi naquela estrada, quando o caminhão dele foi esmagado.

Não derramei uma lágrima. Senti um alívio cortante, um peso saindo do meu peito. Não haveria mais "visitas", nem culpa, nem presentes sujos. E, acima de tudo: Maitê estaria segura. Ele nunca chegou a tocar nela, e eu morreria para garantir que continuasse assim.

Eu sei que não foi um acidente de trânsito. Sei que os agiotas de Vincenzo, "O Açougueiro", vieram cobrar. O pai não tinha o dinheiro. Então eles levaram a vida dele no lugar

 — Lully?

Maitê me tira dos pensamentos. O rosto dela está impecável, mas os olhos brilham com aquela ansiedade que eu já conheço bem.

— Eu preciso de cinquenta reais.

— Cinquenta? Para quê, Maitê?

— O pessoal da sala vai jantar fora. Eu já não fui às outras duas vezes. Se eu não for, vão descobrir que eu sou pobre. Eu não aguento mais essa humilhação.

— Você não é pobre, Maitê. Somos humildes — corrijo, embora a palavra "humilde" pareça pequena demais para o tamanho do nosso buraco.

— Mas nosso sobrenome é Solberg, uma linhagem nobre...

— Não devia se apegar tanto a esse sobrenome. Nobreza não paga conta de restaurante e nem as contas de água, luz ou os remédios da vovó.

— Por isso mesmo, me dê o dinheiro! Lully... — ela faz um biquinho infantil, a arma que sempre usa contra mim. — Não deixa sua irmãzinha passar vergonha.

Suspiro. O cansaço pesa nos meus ombros. Abro minha bolsa e tiro a nota de cinquenta. É o dinheiro do meu almoço da semana; vou ter que sobreviver à base de café puro no escritório.

— Chega antes das dez. E me liga. Por favor.

Ela pega a nota sem agradecer, apenas solta um risinho vitorioso e sai, batendo a porta de madeira velha. Ela tem vergonha da nossa vida. Eu tenho medo por ela.

Vou até o quarto da minha avó. A verdadeira Lully. Ela está acordada, os olhos pequenos e cansados perdidos no teto descascado. O câncer de mama a deixou magra, quase transparente, e os cabelos grisalhos estão ralos por causa da quimioterapia. Me aproximo da cama e beijo sua testa; o cheiro de pele velha, talco e amor me conforta por um segundo.

— Vovó, a senhora precisa tomar os remédios na hora certa, está ouvindo? — ajeito o cobertor sobre seu corpo frágil. — Quer um chá? Vou fazer agora.

— Por quê? O pó de café acabou? — ela pergunta cabisbaixa, a voz fraquinha.

— Sim, mas vou deixar o chá pronto para a senhora. Na volta do trabalho eu passo no mercadinho e trago o café. Não se preocupe.

Visto minha camisa de mangas longas para me esconder do frio. Pego a bolsa. Tenho dois empregos, mas as contas chegam mais rápido que o meu salário. Talvez precise de um terceiro. Um que me tire desse ciclo de fome e medo.

Saio para o beco escuro de Paraisópolis, apertando o passo em direção ao trem. O céu está nublado, cinza como o meu futuro, mas eu continuo caminhando. Sou a âncora e uma âncora que não pode afundar.

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