LOGIN30 dias.
— E se eu não estiver casada?
— O valor total será revertido para a Liga Protetora dos Animais de Rua.
A Liga Protetora dos Animais de Rua.
Eu ia perder vinte milhões de reais por causa de uma velha excêntrica e uns vira-latas carentes.
Desabei no sofá. A xícara de café frio quase tombou. Minha mão tremia segurando o telefone.
— Não tem outra forma? — perguntei, a voz pequena. — Um recurso, uma contestação...
— O testamento é sólido. Sua tia consultou três advogados diferentes antes de redigir. Ela queria que a condição fosse inegociável.
— Ela queria que eu casasse com um desconhecido em trinta dias?
— Ela queria que a senhora encontrasse o amor. À maneira dela.
Desliguei o telefone com a promessa de que o advogado enviaria os documentos por e-mail. Fiquei sentada no sofá por um longo tempo. O vento batia na janela mal vedada. Lá fora, o movimento normal da cidade continuava. Carros passavam. Gente ia trabalhar. Ninguém sabia que, dentro de um apartamento minúsculo na zona norte, uma arquiteta falida tinha acabado de descobrir que era herdeira de vinte milhões de reais.
E que para pegá-los, precisava fazer a coisa mais absurda que já tinha pensado na vida.
Nunca casei com ninguém. Nunca nem namorei direito. Odeio encontros, odeio fingir simpatia, odeio a ideia de dividir minha cama com outro ser humano que ronca ou rouba o cobertor. O amor, para mim, era um conceito bonito que funcionava bem em livros e péssimo na vida real.
Mas vinte milhões.
O tratamento do Lucas custava, em média, doze mil reais por mês entre consultas, exames, medicamentos e internações. O plano de saúde que ele tinha vencia amanhã e eu não tinha como pagar a mensalidade. Com vinte milhões, eu podia pagar o melhor hospital particular por anos. Podia comprar uma casa perto do litoral, que ele sempre sonhou. Podia dormir sem o peso de saber que cada real gasto era um real que faltava.
Levantei do sofá. Fui até o quarto. Olhei para o calendário pendurado na parede, atrás da porta. Um calendário grátis da farmácia, com imagens de cachorrinhos fofinhos e frases de autoajuda.
Maio. Dia 12.
Meu aniversário era dia 12 de junho.
Trinta dias.
Sentei na cama. Peguei o notebook que estava em cima da mesa de cabeceira, a tela cheia de manchas de dedo e o carregador preso com fita isolante. Abri o navegador.
Meus dedos hesitaram sobre o teclado.
O que uma pessoa normal fazia quando precisava de um marido urgente? App de namoro? Agência de relacionamento? Anúncio no jornal?
Nada daquilo funcionaria em trinta dias.
Eu precisava de alguém desesperado o bastante para topar uma loucura. Alguém que não fizesse muitas perguntas. Alguém que aceitasse dinheiro para fingir um amor que não existia.
Alguém que eu pudesse comprar.
Minha garganta secou. O que eu estava prestes a fazer era errado? Era. Mas o que era mais errado: comprar um marido de mentira ou deixar meu irmão morrer porque eu não tive coragem de sujar as mãos?
Digitei na barra de pesquisa, sem nem pensar direito:
"Como encontrar alguém para casamento falso"
Enter.
Os resultados apareceram. Nada útil. Sites de namoro, fóruns de relacionamento, um artigo sobre green card americano. Rolei a página. E mais. E mais.
Até que, no fundo do fundo da pesquisa, um link diferente chamou atenção.
O título era simples: Resolve Tudo.
A descrição dizia: "Fórum anônimo para soluções não convencionais. Entre por sua conta e risco."
Minha mão suou no mouse. Cliquei.
A página carregou. Fundo preto, letras brancas, nenhuma imagem. Parecia coisa de hackers de filme. Uma lista de tópicos recentes:
"Preciso de documento falso urgente"
"Alguém para fingir sequestro no fim de semana?"
"Testemunha falsa para divórcio – pagamento em dia"
Meu estômago embrulhou.
Isso era um portal do crime? Eu ia acabar presa antes mesmo de ver a cor do dinheiro?
Mas aí eu pensei no Lucas. Na mão fria dele. Na voz cansada pedindo para desistir.
Criei um tópico novo.
Digitei devagar, como quem assina um contrato com o diabo:
"Procuro homem para casamento falso. Pagamento de R$ 500 mil ao final de um ano de contrato. 20% adiantado para despesas. Exijo discrição e boa aparência. Interessados, chamar no privado."
Li três vezes. Minhas mãos tremiam.
Respirei fundo. Fechei os olhos.
E cliquei em Publicar.
Epílogo — As Folhas do AmanhãMayaDizem que os lugares guardam a memória dos afetos que acolhem.A antiga propriedade dos Sterling nas colinas de Avelar, que um dia conheceu o silêncio pesado do abandono e as sombras de um passado rígido, hoje respirava uma vida inteiramente nova. O gramado extenso, cercado por carvalhos antigos e hortênsias em flor, estava banhado pela luz dourada de um fim de tarde perfeito. Um corredor de madeira de demolição, coberto por pétalas de jasmim e marcado por pequenos lampiões de vidro amarelado, guiava o caminho até o altar montado sob a copa da maior árvore do jardim.No ar, misturava-se o perfume da terra molhada pelo orvalho com a melodia suave de um quarteto de cordas que tocava ao fundo. Não havia a pompa fria dos grandes eventos da elite corporativa de outrora. Havia apenas verdade, acolhimento e a presença daqueles que caminharam conosco quando o mundo parecia desmoronar sob os nossos pés.Dentro do casarão, na suíte principal voltada para o val
Capítulo 87 — A Geometria do TempoMayaO tempo não é uma linha reta, tampouco uma estrada pavimentada pela qual caminhamos em marcha compassada. O tempo é, antes de tudo, um tear silencioso. Ele trança perdas estraçalhadas, recomeços improváveis, dores que pareciam eternas e alegrias quietas em uma mesma e complexa tapeçaria. Olhando para trás hoje, compreendo que a vida não acontece apesar do sofrimento, mas exatamente através da forma como escolhemos atravessá-lo e nos reconstruir diante das ruínas.Há quem acredite que as grandes tragédias marcam o ponto final de uma história. Eu costumava pensar assim enquanto observava o teto frio do hospital e sentia o peso sufocante do luto. Hoje, porém, do topo de anos de reconstrução e aprendizado, sei que a dor não é o fim, mas o divisor de águas que molda quem realmente somos. As marcas do passado permanecem — a cicatriz pálida no meu abdômen e a saudade terna do pequeno milagre que não chegamos a segurar nos braços continuam gravadas na p
Capítulo 86 — O Reencontro e o Abraço do Perdão (Parte 2)Maya— Lucas... — solucei alto, passando meus braços pelo pescoço dele com um desespero cego, colando o meu corpo frágil ao dele com toda a força e vida que me restavam.O impacto da minha aproximação fez Lucas paralisar por um segundo terrível. O corpo dele ficou totalmente rígido. Ele permaneceu imóvel, os braços erguidos no ar sem ousar me tocar, trêmulos, com medo de me machucar, assustado demais para acreditar que aquilo não era um delírio da sua mente exausta.— Maya...? — ele sussurrou contra o meu ouvido, a voz embargada em puro choque e dor.— Me segura... — implorei, afundando o meu rosto na curva do pescoço dele, sentindo o cheiro familiar de sândalo misturado ao suor, ao cansaço e ao antisséptico do hospital. Pressionei minha pele contra a dele. — Pelo amor de Deus, Lucas, me segura... Não me deixa cair... Me segura, meu amor...Com um som rasgado que veio do fundo do seu estômago — um misto de rugido de pura dor e
Capítulo 85 — A Trajetória até Você (Parte 1)MayaA porta do quarto de hospital deslizou com um estalo suave, quase imperceptível.Aquele som, porém, pareceu ressoar no meu peito como o estrondo de uma comporta se abrindo. O corredor do setor de internação parecia infinito, uma galeria fria, impessoal e silenciosa, iluminada por lâmpadas fluorescentes que zumbiam baixinho no teto de gesso. A cada passo que eu dava, descalça sobre o piso gélido, sentia a textura fria do vinil contra a sola dos meus pés. Segurava a barra de metal do suporte de soro com toda a força que me restava para manter o corpo ereto. Meu abdômen protestava a cada movimento com fisgadas agudas e queimantes, lembrando-me da intervenção cirúrgica recente e do trauma que meu corpo sofrera. A dor física, contudo, era apenas um ruído distante e irrelevante comparada ao verdadeiro terremoto que rugia dentro do meu peito.Apertei a carta contra o peito. As folhas de papel do bloco de anotações do hospital, marcadas pelas
Capítulo 84 — A Carta na PenumbraMayaNo quinto dia após o meu despertar, os médicos autorizaram a minha transferência para um leito de internação comum. Eu já conseguia me sentar com menos dor e os exames mostravam que a hemorragia fora completamente contida. O corpo físico cicatrizava; a alma, no entanto, continuava em ruínas.Aproveitando um momento em que minha mãe fora até a lanchonete e Isadora atendia a uma ligação no corredor, decidi levantar-me da cama pela primeira vez sem ajuda.A tontura inicial fez o quarto girar, mas apoiei-me na barra de metal do leito e dei passos lentos até a pequena poltrona de descanso no canto do quarto. Minhas roupas limpas e a bolsa que eu usava no dia do acidente haviam sido trazidas de casa por Isadora e repousavam sobre a mesa de apoio.Aproximando-me da mesa, estendi a mão para pegar a bolsa. Ao movimentá-la, um envelope de papel encorpado, levemente amassado e com manchas escuras de sangue seco na borda, escorregou de uma das divisórias e c
Capítulo 83 — O Deserto das HorasMayaO silêncio do quarto de hospital era o som mais ensurdecedor que já experimentei.Dias se passaram desde o meu despertar, mas o tempo deixara de ser uma linha contínua para se tornar uma espiral cinzenta de dor física e dormência emocional. A cada manhã, o sol cruzava a persiana e desenhava faixas de luz sobre a colcha branca, lembrando-me com crueldade de que o mundo lá fora continuava girando, alheio à devastação do meu universo particular.Minha mãe, Eunice, e Isadora passavam horas ao lado do meu leito. Elas seguravam minha mão, trocavam os curativos com carinho e sussurravam palavras de conforto. Eu as ouvia, mas não respondia. Apenas encarava a parede fria, mantendo a palma da mão pousada sobre a curva inexistente da minha barriga. O vazio do meu ventre era um abismo constante que sorvia toda a minha energia.Lucas não entrara mais naquele quarto.Eu sabia, no entanto, que ele continuava ali. Sempre que a porta se abria ligeiramente para a







