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Capítulo 03

last update Data de publicação: 2026-06-18 09:21:15

O refeitório da empresa estava cheio naquele horário. O som dos talheres se misturava às conversas espalhadas pelo ambiente, enquanto o aroma da comida recém-preparada tomava conta do lugar. Caminhei devagar com a bandeja nas mãos, procurando alguma mesa vazia, quando ouvi meu nome ser chamado.

— Antonella! Aqui.

Levantei os olhos e encontrei Frederico sentado próximo à janela. A luz suave da tarde iluminava parte de seu rosto enquanto ele me acenava com um sorriso tranquilo. Meu coração acelerou discretamente. Caminhei até a mesa e me sentei à sua frente.

— Espero não estar atrapalhando o seu momento de descanso — comentei, acomodando a bandeja.

Ele sorriu.

— Muito pelo contrário. Depois de passar horas olhando para planilhas e relatórios, conversar com você é a melhor parte do meu dia.

Sorri sem conseguir esconder o constrangimento.

— Você sempre sabe o que dizer.

— Não. Eu só digo o que penso.

Por alguns instantes, ficamos em silêncio, ocupados com o almoço. Curiosamente, aquele silêncio nunca parecia desconfortável. Era como se a companhia dele fosse suficiente.

Foi Frederico quem voltou a falar.

— Posso confessar uma coisa?

Levantei os olhos.

— Claro.

— Desde o seu primeiro dia, eu reparei que você vive preocupada em fazer tudo perfeitamente. Você presta atenção em cada detalhe, revisa tudo duas vezes... às vezes até três.

Ri baixinho.

— Acho que você me observou mais do que eu imaginava.

— Observei.

Ele respondeu isso com tanta naturalidade que senti minhas bochechas aquecerem.

— Mas sabe o que mais me chamou a atenção?

Balancei a cabeça, curiosa.

— O seu sorriso.

Instintivamente toquei os lábios.

— O meu sorriso?

— É.

Ele apoiou os antebraços sobre a mesa e me encarou com uma serenidade que fazia qualquer palavra parecer sincera.

— Você sorri pouco. Quase sempre está concentrada ou preocupada com alguma coisa. Mas, quando sorri de verdade... parece que tudo ao redor fica mais leve.

Meu coração acelerou.

Eu não sabia como alguém podia notar detalhes tão pequenos.

— Acho que nunca ninguém me disse isso.

— Então estavam distraídos.

Sorri novamente.

Ele sorriu de volta.

— Promete uma coisa?

— Depende.

— Sorri mais vezes. Principalmente quando estiver conversando comigo.

Baixei os olhos por um instante, tentando esconder o quanto aquelas palavras haviam me desarmado.

Depois de tudo o que vivi antes de chegar à Inglaterra, ouvir alguém dizer que meu sorriso transmitia paz era como receber um abraço onde antes só existiam feridas.

Levantei novamente o olhar.

— Prometo.

Frederico apenas assentiu, satisfeito, como se aquela resposta fosse suficiente.

O restante do almoço passou entre conversas leves. Falamos sobre livros, sobre os lugares que eu ainda queria conhecer em Londres e até discutimos qual era a melhor cafeteria perto da empresa. Pela primeira vez em muito tempo, ri sem medir as consequências, sem pensar no passado e sem carregar o peso que costumava acompanhar meus dias.

Naquela tarde, enquanto voltava para minha mesa, tive a estranha sensação de que a vida começava, aos poucos, a ganhar novas cores.


Quando o expediente terminou, Frederico seguiu para um pequeno café a poucas quadras da empresa. Um amigo já o esperava em uma mesa no fundo do salão.

Assim que se sentou, o amigo arqueou uma sobrancelha.

— Você está com uma cara diferente hoje.

Frederico riu discretamente.

— Estou?

— Está. Então desembucha.

Ele girou o copo entre os dedos antes de responder.

— Tem uma moça nova no escritório.

— Ah... agora começou a fazer sentido.

Frederico balançou a cabeça, divertindo-se.

— O nome dela é Antonella.

— E o que ela tem de tão especial?

Por alguns segundos, ele permaneceu em silêncio, como se procurasse as palavras certas.

— Ela é diferente.

— Diferente como?

— Hoje em dia é difícil encontrar alguém que pareça de verdade. A maioria das pessoas tenta impressionar o tempo todo. Ela não. Trabalha quieta, trata todo mundo com respeito e parece carregar uma calma que contagia quem está por perto.

O amigo sorriu.

— Você está encantado.

Frederico respirou fundo antes de continuar.

— Ela é linda, claro. Mas não é isso que mais chama atenção. É a maneira como ela escuta quando você fala. Como se cada conversa tivesse importância. Ela sorri pouco... talvez porque tenha vivido coisas difíceis... mas quando sorri, parece iluminar o ambiente inteiro.

— Cuidado, Fred.

— Com o quê?

— Você está falando dela há cinco minutos sem conseguir esconder esse sorriso.

Frederico abaixou os olhos para o café e riu, sem responder.

Naquela noite, a chuva caía fina sobre Londres. O som das gotas contra a janela era a única companhia no pequeno apartamento onde eu morava. Sentei-me na cama, acendi o abajur e peguei meu gravador digital. Fazia algum tempo que eu registrava pensamentos importantes antes de dormir. Era uma forma de organizar o coração. Apertei o botão de gravar.

— Nota pessoal... dia dezoito.

Respirei fundo antes de continuar.

— Eu deveria estar pensando no trabalho, na quantidade de relatórios que preciso entregar amanhã ou em qualquer outra coisa mais importante... mas seria mentira dizer que o Frederico não ocupa parte dos meus pensamentos.

Fiz uma pequena pausa.

— Ele tem uma presença difícil de explicar. Não é apenas a aparência. É a segurança com que entra em qualquer ambiente, a forma como trata as pessoas, como escuta sem interromper. Parece enxergar detalhes que ninguém mais percebe.

Olhei para a chuva do outro lado da janela enquanto organizava as ideias.

— Hoje ele disse que gosta do meu sorriso. Faz muito tempo que ninguém dizia algo que tocasse meu coração dessa maneira. Talvez porque eu tenha passado tantos anos ouvindo críticas, acabei esquecendo que também posso existir no olhar de alguém sem medo de ser julgada.

Sorri sozinha.

— Preciso tomar cuidado.

Minha voz saiu mais baixa.

— Eu prometi a Deus que guardaria meu coração e não permitiria que os sentimentos falassem mais alto do que os meus princípios. Ainda é cedo... muito cedo... mas confesso que, perto do Frederico, essa promessa parece um pouco mais difícil de cumprir.

Desliguei o gravador e permaneci olhando para o aparelho por alguns segundos.

Meu coração batia mais rápido do que deveria.

E, pela primeira vez em muito tempo, aquela agitação não tinha nascido do medo.

Tinha nascido da esperança.

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