ANMELDENPara salvar a irmã, a enfermeira Nara casou com Caim, o homem que o morro inteiro teme. Seis meses, camas separadas, nenhuma pergunta. Mas ele fala inglês de madrugada, usa um anel com brasão e movimenta milhões que um homem do morro não deveria ter. Ela vai descobrir quem é o marido. Só não imagina que ele sabe, desde o primeiro dia, quem ela é.
Mehr anzeigenO primeiro tiro estalou no pé do morro exatamente às três e doze da manhã.
Eu conhecia aquele som de cor. Foram três pancadas secas, daquelas que fazem a cachorrada inteira da rua do Meio latir e os donos de botequim puxarem as portas de ferro até a metade. Continuei sentada no tamborete de madeira do posto, carimbando a receita de uma senhora que tinha descido com a neta febril. O ventilador de teto girava devagar, marcando as horas com um rangido ritmado. Minha mão não tremeu no papel. Depois de oito meses no plantão noturno do Cedro, você aprende rápido a primeira regra: barulho na subida não se espia pela janela. Não levanta, não corre e não vai até a calçada ver quem caiu. Você só respira fundo, ajeita as luvas de procedimento na bancada e espera a porta bater. A ambulância do asfalto não subia aquela ladeira por nada nesse mundo. Se desse ruim para alguém na comunidade, o socorro vinha nos braços de um vizinho ou a pessoa apagava antes de chegar na pista de baixo. Dois minutos depois, o estrondo sacudiu a porta da frente. Foi uma pancada com a sola da bota que fez o trinco chiar e a parede tremer, jogando o vento frio da madrugada para dentro da recepção com o chiado alto de um rádio transmissor. — Ô de dentro! Abre logo essa porcaria! Nara! Puxei o ferrolho enferrujado e abri a porta de uma vez. Tomé entrou tropeçando nas próprias pernas, quase caindo no piso de cimento. A camiseta dele colava nas costelas de suor e o rádio amador preso no cós da bermuda não parava de chiar com vozes picadas. Nos ombros dele vinha o peso de um homem de quase um metro e noventa. O sujeito estava com a cabeça tombada para a frente, o queixo colado no peito e as pontas dos coturnos arrastando no chão. Uma regata preta encharcada de sangue vermelho-escuro colava no lado esquerdo do corpo, pingando pelas lajotas da entrada. Era o Caim. Todo mundo no morro sabia quem ele era. Era o homem que o Doutor Ramiro mandava resolver o que não se resolvia no papel. Ninguém no Cedro olhava nos olhos dele por mais de dois segundos. Naquele minuto, porém, ele parecia apenas um corpo desabando. — É bola rolando na pequena área, minha gente, e o zagueiro tá no chão pedindo maca! — Tomé disparou na aflição pura, narrando a cena com a voz trêmula de locutor de rádio enquanto tentava manter o homem em pé. — Ajuda aqui, Nara, pelo amor de Deus, que o capitão tá caindo pelas tabelas e não tem substituição nesse jogo! — Tomé, se você narrar o meu atendimento mais uma vez, eu te interno junto! J**a ele na maca de inox! — gritei, puxando a mesa de curativo com o pé. — Não puxa pela gola! Pega por baixo dos braços e levanta as pernas, senão você b**e a cabeça dele na quina da pia! — Dois caras de moto, com a jaqueta do pessoal do Morro Alto... — ele falou rápido, largando o homem na maca com um baque pesado. — Atiraram da esquina da entrada. O homem tomou na frente e apagou. O barulho de chinelos de borracha bateu no corredor lateral antes que eu pudesse responder. Dona Cida apareceu na porta da enfermaria, sem fôlego, o roupão de flanela azul por cima da camisola e os óculos de leitura pendurados no nariz por uma cordinha de miçanga. O botequim dela ficava colado na parede do posto, e a mulher acordava com qualquer assobio no beco. — Que gritaria é essa na minha janela, Tomé? — ela entrou ralhando, mas parou ao ver o rastro vermelho no chão. Bateu a mão contra a coxa. — Cruz em credo. Acertaram o Caim. — Dona Cida, fecha a porta da frente, passa o trinco e fica do lado de dentro — comandei, calçando as luvas com dois estalos secos. — E você, Tomé, desliga esse rádio agora ou afasta três metros dessa maca. Você tá cuspindo em cima de ferida aberta. — Ele não pode morrer na minha mão, dona Cida... — Tomé resmungou, desligando o rádio com o polegar trêmulo e encostando as costas na parede. — Ninguém vai morrer aqui hoje, garoto, para de agourar — Dona Cida retrucou, pegando um pano limpo e lavando as mãos na pia do canto. Peguei a tesoura de ponta romba e cortei a regata preta de Caim de baixo para cima. O tecido encharcado cedeu com facilidade, expondo o peito largo e sem pelos. Ele tinha tatuagens escuras cobrindo apenas os antebraços até o dorso das mãos, mas o peito estava limpo de desenhos. Bem ali na frente, uns três dedos abaixo da clavícula esquerda, havia um buraco redondo, com sangue saindo sem parar. Apertei um maço de gaze sobre o ferimento com força. Com a mão livre, busquei o pulso na lateral do pescoço dele. A pulsação estava rápida e curta, mas regular. O sangue não jorrava em esguicho e a respiração saía sem chiado, sinal de que o projétil não tinha atingido nenhuma artéria vital nem o pulmão. A lâmpada comprida do teto deu dois estalos secos, piscou e apagou de vez. — Era só o que faltava! — Dona Cida praguejou no escuro. — Essa fiação da subida não aguenta um sereno. — Celular, dona Cida. Acende a lanterna e aponta aqui — pedi, mantendo a compressa firme. A claridade do telefone cortou a escuridão da sala. Dona Cida firmou o aparelho sobre a maca, iluminando o ferimento com precisão. Trabalhei rápido. Infiltrei a lidocaína ao redor das bordas do ferimento. Entrei com a pinça pelo buraco e achei o chumbo parado no músculo do ombro. Puxei, e o projétil deformado caiu na cuba-rim com um estalo metálico. Limpei o corte com antisséptico e dei quatro pontos de náilon para aproximar as bordas e estancar o sangramento de vez. Enquanto amarrava o último ponto, senti o papel dobrado no bolso traseiro da minha calça branca. A folha arrancada de um caderno velho com a letra garranchuda do Dentão. O agiota tinha mandado avisar que o prazo acabava na sexta-feira. Três parcelas atrasadas dos remédios da farmácia do asfalto. Se o dinheiro não entrasse na mão dele até o meio-dia, ele ia subir o beco e cobrar a dívida direto na porta da minha casa. E tinha a Lia. Minha irmã caçula estava ótima naquele mês, cheia de energia pela casa, reclamando da comida sem sal e rindo alto com os vídeos do celular. Ela estava em remissão completa da leucemia, mas todo mundo sabia que aquela tranquilidade era temporária. A doença podia voltar a qualquer momento, e a única chance real de cura definitiva era o transplante de medula. Eu não tinha dinheiro nem para afastar o agiota da nossa porta, quanto mais para pagar o tratamento que ela precisava. Passei pomada e fechei o curativo com tiras largas de esparadrapo. Joguei as luvas no cesto de lixo hospitalar e lavei as mãos com sabão até a espuma sair limpa. — Pronto — falei, secando as mãos no papel-toalha. — A bala tá fora e o sangramento parou. Agora pega ele pelas pernas, Tomé, e ajuda a passar pra maca de rodinha. Ele precisa tomar soro lá no quarto dos fundos e descansar até o dia clarear. — Vou lá no bar botar água no fogo e passar um café preto pra gente — Dona Cida avisou, guardando o telefone no bolso do roupão. — O susto foi grande demais pra ficar de estômago vazio. A velha saiu pelo corredor resmungando baixinho, enquanto Tomé destravava as rodas da maca auxiliar. Peguei uma bola de algodão com soro para limpar a mancha de poeira e sangue seco perto da orelha de Caim. Inclinei meu corpo sobre a maca para alcançar a têmpora dele. No momento exato em que encostei o algodão na pele, uma mão pesada fechou no meu pulso direito. O aperto veio rápido, prendendo meus ossos com firmeza. Puxei o braço para trás com um tranco, mas ele não se moveu nem um centímetro. A força dele me manteve presa contra a beirada da maca. Caim abriu os olhos devagar. Não havia névoa de sedação nem qualquer rastro de tontura pela perda de sangue. O olhar dele estava completamente lúcido, olhando direto para o meu rosto. Nenhum de nós três tinha falado meu sobrenome naquela sala. Tomé só tinha entrado berrando "Nara", e Dona Cida só me chamava de "menina" ou "minha filha". Mesmo assim, sem olhar para o ombro suturado e sem desviar a atenção de mim, a voz dele saiu calma: — Obrigado, Nara Medeiros. Fiquei imóvel no lugar, com o braço preso entre os dedos dele. Olhei para o meu próprio peito, onde o crachá de identificação da prefeitura estava preso ao jaleco verde. A presilha tinha virado de lado. O plástico branco estava para a frente, escondendo meu nome. Não dava para ler uma letra.Fiquei olhando para a porta da frente depois que o Seu Jair saiu.A pergunta do velho não saía da minha cabeça. Passei o resto da manhã medindo barriga de grávida e aplicando vacina no automático, repassando mentalmente cada linha do contrato que assinei na quarta-feira.O documento trazia o meu nome completo, RG, CPF e até o endereço do posto de saúde. Do lado da assinatura dele, havia apenas quatro letras impressas: Caim.Sem sobrenome, sem filiação e sem qualquer registro de cartório.No intervalo do almoço, encontrei Tomé encostado na mureta da rua comendo um joelho de queijo e presunto.— Tomé, uma pergunta rápida — falei, parando bem na frente dele. — Qual é o sobrenome do seu patrão?Ele mastigou afobado, olhou para os dois lados da rua e levou a mão livre ao rádio no cinto.— O árbitro apita, a bola sai pela lateral e é arremesso pro time adversário, assunto encerrado! — ele narrou aos atropelos, engolindo o salgado de uma vez e dando no pé em direção ao ponto de van.— Covard
Subimos a ladeira lado a lado, sem que nenhum dos dois dissesse uma única palavra até o portão da laje.O Nescau vinha atrás de nós, trotando sem pressa no piso de cimento. Quando entramos na casa, Caim tirou as botas na porta, pendurou a chave no prego da parede e foi direto para a cozinha sem me pedir ajuda.Fui atrás dele para conferir o curativo.— Você trocou a gaze do peito antes de descer? — perguntei, cruzando os braços no batente da pia.— Troquei — ele respondeu seco, já acendendo o fogo.Fiquei observando enquanto ele colocava uma panela velha com água no fogão e cortava rodelas tortas de linguiça com uma faca de serra. O homem que movimentava quarenta milhões falando em inglês estava ali, sem desconfiar que eu entendia cada palavra do idioma, cozinhando macarrão com ovo e linguiça na maior calma.Minutos depois, um cheiro forte de comida meio queimada tomou conta da cozinha.Caim não pareceu se importar. Ele raspou o fundo da frigideira com uma colher de pau, despejou o ma
Puxei a Lia para dentro de casa antes que algum vizinho curioso esticasse o pescoço na calçada.Esquentei o resto do almoço em silêncio na cozinha, ouvindo a minha irmã tagarelar sem parar sobre a laje do Caim e garantir que ele era muito mais paciente do que eu.— Ele ficou te olhando o tempo todo enquanto você varria a sala, mana — ela soltou, rindo com a boca cheia de arroz. — Tá na cara que ele gosta de você.— Ele tava vigiando pra ver se eu não ia quebrar os pratos dele, Lia — retruquei, pondo a jarra de água na mesa. — Agora come calada antes que eu te mande pra escola no sábado.Depois do almoço, esperei ela se distrair com uma série no celular para avisar que ia cobrir um plantão extra no posto de saúde.Saí pelos fundos, cortando caminho por um corredor estreito de terra batida entre as casas. Parei na esquina da rua principal e olhei na direção do poste de concreto onde Tomé tinha tentado se esconder na véspera.Pela primeira vez, o poste estava só poste.O Nescau apareceu
Joguei a camisa rasgada na pia e tirei as luvas pelo avesso.Lavei as mãos com sabão até a pele arder, tirando o sangue na torneira fria. A água desceu pelo ralo, mas a sensação da mão dele sobre a minha não saía."Posso?"Eu ainda ouvia a pergunta dele.Fui para o quarto e deitei na cama de casal. O Nescau estava encolhido no chão perto dos meus pés, com o focinho nas patas e as orelhas atentas.Fiquei encarando o teto, com raiva de mim mesma por ter vacilado. Eu tinha criado a regra do toque para não abrir brecha, e em poucas horas já estava com a mão no peito dele, esperando a boca dele encostar na minha.Não preguei o olho.Eram vinte depois das seis da manhã quando a maçaneta da entrada girou.Levantei da cama num salto e fui até a sala. Caim entrava de calça jeans e camiseta cinza limpa, com os cabelos úmidos e sem a jaqueta de couro.O curativo no peito esquerdo estava intacto, bem preso pelo esparadrapo que colei na madrugada.Nenhum de nós dois tocou no quase-beijo na cadeira












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