FAZER LOGINAinda no café próximo ao escritório, o amigo de Frederico cruzou os braços, fitando-o com curiosidade após ouvi-lo falar sobre o magnetismo da nova colega.
— Você me falou desse charme dela, Fred, mas ainda não entendi como ela é fisicamente. Me dá os detalhes.
Frederico sorriu de canto, abaixando os olhos por um segundo enquanto a imagem de Antonella se desenhava nitidamente em sua mente.
— Ela tem traços marcantes, cara. Os cabelos são escuros, com um corte moderno que molda o rosto com perfeição. Mas o que realmente me desarma são os olhos... são castanhos, profundos e tão expressivos que parecem ler a sua alma quando fixam em você. E a boca tem lábios bem desenhados, destacados por um batom suave, mas que chamam a atenção sempre que ela fala ou morde o lábio quando está concentrada. Ela tem uma silhueta esguia, uma postura elegante que se destaca mesmo usando aquelas roupas formais de escritório. Tudo nela exala uma feminilidade única. Ela é o tipo de mulher que te faz querer olhar duas vezes, entende?
O amigo mudou a expressão descontraída para uma feição séria, deixando o copo sobre a mesa e inclinando-se para frente, com um tom claro de alerta na voz.
— Frederico, você está maluco? Presta atenção no que você está dizendo. Você não pode se envolver com uma colega de trabalho, ainda mais agora com a rotina pesada do setor. Isso é receita para o desastre, cara. Tira isso da cabeça.
Frederico apenas suspirou e virou o resto da bebida, sabendo que o amigo tinha razão na teoria, mas ciente de que, na prática, controlar aquela atração estava se tornando uma tarefa impossível.
Na quinta-feira seguinte, o clima no escritório mudou. O diretor geral precisou viajar às pressas e, por conta de uma auditoria de última hora, Frederico foi colocado temporariamente na chefia do nosso setor naquele dia. Ele liderava com uma calma impressionante, distribuindo as tarefas com educação, mas a exigência de prazos era alta.
Todos trabalhavam em silêncio. Conforme as horas passavam, o relógio corria mais rápido do que a nossa produtividade.
— Pessoal, preciso que todos deixem os relatórios finais na minha mesa antes de irem embora — a voz de Letícia ecoou pelo andar.
Letícia era uma das supervisoras seniores. Uma mulher impecável, de terninhos alinhados e um olhar afiado que parecia vigiar cada passo dos funcionários. Ela também respondia pela chefia, dividindo o espaço com Frederico, e eu já tinha reparado que ela sempre tentava manter a atenção dele voltada para si.
O fim do expediente chegou. Um a um, os funcionários foram entregando seus relatórios e se despedindo. Letícia organizava os papéis na mesa dela, mas seus olhos castanhos estavam fixos em mim, que ainda digitava os últimos dados.
Frederico aproximou-se da minha mesa com algumas folhas.
— Como está indo, Antonella? — perguntou em voz baixa.
— Quase terminando. Falta apenas fechar o balanço do último mês — respondi, limpando uma gota de suor da testa.
— Não tenha pressa. Eu vou ficar até mais tarde para fechar o sistema. Vou deixar você por último para revisarmos juntos com calma, tudo bem? Assim não acumulamos dúvidas para amanhã.
Assenti, grata pela paciência dele. No entanto, quando Frederico se virou, notei o olhar de Letícia. Ela nos encarava de longe, com os lábios cerrados em uma linha fina e os braços cruzados. Havia um brilho de puro ciúme e descontentamento naqueles olhos. Ela não gostou nada de ver que Frederico estaria estendendo o tempo ao meu lado.
Minutos depois, Letícia finalmente recolheu suas coisas e saiu, batendo a porta com uma rigidez que denunciava seu descontentamento. Sobramos apenas Frederico e eu sob a luz fria das luminárias do andar vazio.
Ele caminhou calmamente até a minha baia e puxou uma cadeira, sentando-se bem ao meu lado para começarmos a revisão. O perfume amadeirado dele imediatamente preencheu o espaço, roubando um pouco da minha concentração.
— Vamos ver o que temos aqui... — ele murmurou, aproximando-se para olhar a tela do computador.
Em um movimento involuntário, quando apontei para uma das linhas da planilha, a mão de Frederico cobriu a minha sobre o mouse. Foi um toque leve, sutil, mas a quentura da pele dele contra a minha causou uma reação instantânea. Senti uma descarga elétrica percorrer meu braço e, de repente, meu estômago se encheu de um turbilhão de borboletas, uma agitação boba e intensa que há muito tempo eu não experimentava.
Prendi a respiração, congelada pelo toque. Frederico não retirou a mão imediatamente; seus dedos traçaram um leve carinho no dorso da minha mão antes de ele se afastar devagar. Olhei para ele, com as bochechas queimando de vergonha, e encontrei seus olhos fixos nos meus, escuros de intensidade.
— Perfeito, Antonella. Os números estão exatos — ele disse, com a voz ligeiramente mais grave do que o normal, fingindo que o nosso foco ainda estava no relatório. — Você fez um trabalho impecável hoje. Pode salvar o arquivo e encerrar por aqui.
Com as mãos ainda trêmulas, fechei o sistema e recolhi minha bolsa. Frederico se levantou e me acompanhou até a porta de saída do andar, onde o corredor já estava na penumbra.
— Obrigada pela ajuda e pela paciência, Frederico — agradeci, tentando manter a voz firme enquanto me virava para me despedir.
— O mérito é todo seu — ele respondeu, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre nós.
Antes que eu pudesse processar o movimento, ele se inclinou e depositou um beijo demorado na minha bochecha, bem próximo ao canto da minha boca. Seus lábios eram macios e o calor do seu hálito roçou minha pele. Meu coração deu um salto violento no peito, e aquela sensação de borboletas no estômago retornou com ainda mais força.
— Vá para casa descansar. Boa noite, Antonella — ele sussurrou, afastando-se com um sorriso enigmático nos lábios enquanto entrava no elevador.
Fiquei parada ali por alguns segundos, tocando o lugar onde os lábios dele haviam encostado, sentindo que minha vida naquele escritório nunca mais seria a mesma.
Cheguei à empresa antes que o sol despontasse totalmente no horizonte de Londres. O andar da controladoria estava mergulhado no silêncio e nas sombras da penumbra matutina. Sabia que Frederico ainda demoraria ao menos uma hora para chegar, consumido pela ressaca do hotel e pelo desgaste do confronto da véspera. Era a minha única janela de oportunidade.Caminhei até a antiga sala dele, ajustando a chave reserva da diretoria que eu mantinha no fundo da gaveta desde a época em que organizava sua agenda pessoal. A fechadura estalou com um clique baixo e seco. Entrei, fechei a porta de vidro atrás de mim e puxei as persianas.O cheiro impregnado de uísque e sândalo continuava forte no ambiente. Fui direto para a grande mesa de mogno. Abri as gavetas superiores: apenas relatórios operacionais de rotina e notas fiscais aprovadas. Frederico era arrogante, mas não a ponto de deixar rastros óbvios onde qualquer um pudesse ver.Aproximei-me do arquivo de aço embutido no armário lateral. A chave
Saí da sede da multinacional com passos firmes, o peito queimando em uma mistura de fúria e uma gratidão avassaladora. Ao chegar ao apartamento, encontrei Bia na sala, organizando algumas caixas de papelão que havia separado para a minha mudança.— Antonella? O que aconteceu? — ela perguntou, assustada ao me ver voltar tão cedo. — Você já entregou a carta? Já comprou a passagem para Portugal?— Cancela tudo, Bia. Eu não vou a lugar nenhum.— Como assim não vai? Ontem você disse que estava no seu limite!— Eu descobri a verdade — sentei na borda do sofá, a respiração ainda acelerada. — O Frederico se entregou na minha frente. A transferência do Gustavo para Manchester não foi por carreira e nem por covardia. O Frederico chantageou ele com a denúncia na polícia contra mim. O Gustavo só foi embora para me salvar da cadeia.Bia soltou a caixa no chão, cobrindo a boca com as duas mãos.— Meu Deus... O Gustavo fez isso por você?— Ele aceitou ser banido e mentiu na minha cara para eu não me
— É por causa do Gustavo, não é?! — a voz de Frederico rasgou o ar, alterada e descontrolada. — É por causa da chantagem que eu fiz com aquele auditor medíocre?!— O que você disse? — perguntei, a voz saindo em um fio trêmulo, sentindo meu sangue congelar nas veias.— Antonella... não foi isso o que eu quis dizer — ele gaguejou, dando um passo em minha direção, o desespero estampado na fisionomia. — Eu estava nervoso, eu...— Que chantagem, Frederico? O que você fez com o Gustavo?!— Eu não fiz nada! Ele pediu a transferência porque quis, porque viu que não tinha chance com você!— Mentira! — esmurrei a mesa de vidro com toda a força do meu corpo, fazendo os papéis balançarem. — Você acabou de falar! Fala a verdade, Frederico! Fala agora ou eu saio daqui e vou direto à polícia!— Quer a verdade, Antonella? Quer mesmo? — ele se aproximou, a voz baixando para um sussurro cruel. — O seu precioso Gustavo só foi embora para Manchester porque eu dei uma escolha para ele. Ou ele assinava a t
A porta da mansão em Surrey foi arremessada contra a parede. Helena entrou a passos rápidos, respirando fundo, o rosto transtornado de raiva. Frederico estava no bar da sala, servindo um copo de uísque, e tomou um susto ao ver o estado da esposa.— Helena? Onde você estava a esta hora? Ela arremessou a bolsa de grife sobre o sofá de couro, encarando-o com os olhos empoçados de lágrimas e fúria.— Eu fui até a casa da sua amante, Frederico.— O quê? Você ficou louca?! O que você foi fazer no apartamento da Antonella?!— Fui defender a minha dignidade! Fui olhar na cara da mulher que está destruindo o meu casamento! Mas sabe o que eu descobri lá, Frederico? Eu descobri quem você realmente é!— Não se atreva a gritar comigo na minha casa — ele disse, com a voz baixa e ameaçadora, largando o copo sobre o balcão.— A sua casa?! — Helena riu, um riso histérico e doloroso. — Ela me contou tudo! Disse que você trancou a sala da diretoria hoje cedo, que me chamou de farsa e que pediu para cas
Após finalizar o expediente, fui para casa. Joguei a bolsa no sofá com força e me encostei na parede, tentando respirar. Bia saiu da cozinha, enxugando as mãos num pano de prato. Ao me ver, ela parou no meio da sala.— Antonella! O que aconteceu? Aquele canalha fez alguma coisa?— O Frederico me trancou na sala dele, Bia.— Ele o quê?!— Trancou a porta. Disse que deu entrada no divórcio hoje cedo e que queria casar comigo. E depois... me beijou à força.— Eu vou matar esse homem! Isso é assédio! Você precisa ir ao RH amanhã cedo!— O RH não vai fazer nada, Bia. Ele tem a Vice-Presidente do Grupo nas mãos.— E você? Como saiu de lá?— Eu empurrei ele. Falei que se ele encostar em mim de novo, eu vou direto à polícia. Mas o pior não foi isso.— O que mais aconteceu, Antonella?— O Gustavo foi embora.— Embora como? Foi pra casa?— Não. Foi embora pra Manchester. Pediu transferência definitiva.— Como assim, Manchester?! Ele te deixou sozinha lá dentro?— Deixou. Falou que era uma promo
— Não... você não entende — ele sussurrou, a voz rouca, os olhos faiscando em um desespero cego. — Eu não vou te perder, já disse que você é minha! Antes que eu pudesse reagir ou dar um passo para trás, Frederico avançou sobre mim com rapidez. Sua mão esquerda segurou a minha nuca com firmeza, enquanto o outro braço envolveu a minha cintura, puxando meu corpo com violência contra o dele.— Frederico, me solta! — tentei gritar, mas a voz foi abafada instantaneamente.Ele curvou o rosto e selou seus lábios nos meus em um beijo desesperado, invasivo e sufocante. O cheiro de sândalo que antes me embasbacava agora agredia meus sentidos. Não havia amor ali, apenas a tentativa brutal de reivindicar um domínio que ele sabia que já havia perdido.Segurei o peito do seu terno e empurrei-o com toda a força que me restava, virando o rosto bruscamente. O toque do lábio dele deixou um rastro gélido e repulsivo na minha pele.— Chega! Frederico deu dois passos para trás, a respiração arfante, os l







