INICIAR SESIÓN
ISADORA GUERRA
Sim, contratei um acompanhante sem saber que era um mafioso.
Só depois do encontro, soube que se tratava de Don Lorenzo Maranzano.
Então, ele se achou no direito de me sequestrar.
O odiei por isso, mesmo sendo para minha proteção.
Agora? Olha para mim aqui: tô meio bêbada, assistindo a seu casamento com outra... ah, não, Lorenzo, depois de me fazer te amar?
Não mesmo. Isso não vai ficar assim!
***
Umas Semanas Antes...
Despertei com o som de uma galinha cacarejando.
Até passou pela minha cabeça a ideia de estourar o celular na parede. Felizmente, lembrei que escolhi aquele alarme de propósito: de tão irritante, era capaz de me arrancar dos pesadelos com meu ex, Jonas. Apesar da irritação, era melhor do que acordar com os gritos dele. Ou com o silêncio de quando ele me trancava no quarto, por vários dias. Mutei o aparelho e encarei o teto decorado com adesivos fotoluminescentes, em formato de estrelas. Durante o dia, absorviam a luz e, à noite, brilhavam. Na manhã seguinte, voltavam a desaparecer na cor branca do gesso.
"Por que só no escuro as estrelas conseguem brilhar?", filosofei brevemente, afinal, filosofar não pagaria minhas contas.
Com grande esforço, me sentei na cama. Às vezes, meu corpo parecia prestes a se partir, como se eu fosse uma boneca de porcelana jogada no lixo.
As paredes do quarto eram pintadas num tom azul-bebê. Também eram repletas de adesivos: foguetes e astronautas numa missão secreta. Havia ainda uma estante de livros infantis e bonecos de super-heróis: era o quarto de Noah, filho dela, que passava uma temporada com o pai, na Rússia. Em breve, ele voltaria.
Havia alguns meses que eu morava no apartamento de Camila, desde que fugi de Jonas e ele foi preso. Ela, a amiga da faculdade com aquela vibe de mãezona, me acolheu sem fazer muitas perguntas. E eu precisava me mudar antes do pequeno Noah regressar. Não queria ser a amiga intrusa. Precisava trabalhar o dobro para levantar uma grana e vazar o quanto antes.
Ao sair do quarto, como nos desenhos animados, cheguei a ver o cheiro de torradas me puxando para a cozinha. E me deixei ser levada para encontrar Camila cantando uma música em inglês. Ela dançava enquanto esperava a cafeteira apitar.
— Acordou, Bela Adormecida? — brincou, sem olhar na minha direção. — Sonhou com príncipes ou com sapos?
— Com boletos atrasados. E, pra ser sincera, tô preferindo sapos falantes a príncipes.
Apenas riu em resposta. Mesmo em um moletom velho, com o cabelo preso de qualquer jeito e de pés descalços, parecia mais firme que o prédio antigo onde morávamos.
— Tem cliente hoje. Pediu diretamente por você.
— Diretamente? Como assim?
— Disse que ouviu falar das suas mãos milagrosas num meeting de empresárias. Está passando por problemas difíceis e acredita que uma massagem com... sensibilidade... poderia ajudar. E, antes que você pergunte: é mulher. Relaxa.
Como relaxar se, nos últimos dias, minha vontade era correr até sumir?
— Seria muita sacanagem você me pedir para massagear homens, depois do que passei, né? Não tô pronta. Nem sei se estarei um dia.
— Eu nunca faria isso. — Me fitou com um olhar maternal, sem deixar, no entanto, sua visão de empresária. — E, de certa forma, o spa é seu também. Você me ajudou a montar tudo. Se quiser atender só mulheres, ótimo. Se quiser ficar na recepção também. Só não se sabota no meio do caminho.
Permaneci observando o vapor do café, até que soltei:
— Eu não tô me sabotando. Tô só... testando o terreno. Passo a passo, não é isso que diz a música que você estava cantando?
— Além de testar o terreno, você está carregando um bote inflável, um GPS e um sinalizador. Gosto muito do sinalizador, inclusive. Fica mais fácil de eu te encontrar. O importante mesmo é que você tá indo. Seguiremos juntas e não vamos parar!
— Você acha que voltarei a ser uma profissional completa? Melhor dizendo, uma pessoa completa?
— Eu acho que você já está sendo, só não percebeu ainda.
Assenti, como se concordasse cem porcento. Embora fosse reconfortante ouvir aquelas palavras, eu me sentia bem longe de ser completa.
ISADORA— Você vem ou não?Seu olhar era de quem exigia uma resposta positiva ou negativa. Mas nada de silêncio ou de talvez. Minha resposta se deu na forma de eu sair do quarto antes dele. Ao sair, fechou a porta com um cuidado que ele não costuma ter.Quando chegamos às escadas, ele deu um passo à frente. Percebi que seu terno em três peças, de cor caqui, com um pouco mais de brilho que os de seu uso diário, já se tratava das vestes que usaria no casamento. Ainda nem era dez da manhã. Alguém estava ansioso.Eu também estava.— Onde está Valentina? — perguntei, para quebrar o gelo.— Em sua vida de assassina. Por quê?Meus olhos percorreram os arredores daquela mansão vazia, que parecia ainda mais enorme sem as empregadas e os homens de Lorenzo espreitando entre um cigarro e outro.— Porque espero que vocês não tenham esquecido… — continuaria a frase, perguntando por Camila, mas ele não deixou.— Se eu prometi, será cumprido. Você já deveria saber disso.Ele não estava a fim de conve
LORENZOAmanheceu. Não dormi. Namorei meu uísque mais uma vez, mas preferi deixar para lá — seria um longo dia. Antes que qualquer um da casa acordasse, saí do meu escritório e passei na cozinha. Procurei na geladeira algo que eu pudesse apenas esquentar e comer — não havia sequer jantado no dia anterior. Encontrei uma gororoba de queijos, massa e molhos misturados.Horrível, o aspecto. O gosto? Delicioso.No caminho do meu quarto, ouvi:— Se esgueirando pela própria mansão?A voz era de Valentina. Nada respondi. Ela me seguiu.No meu quarto, tomei banho e pus uma roupa limpa. Ela continuava sentada na minha cama.— Você deveria dormir um pouco.— E você, devia ter me reportado ontem sobre o que acordou com Essan M.— Minha missão era negociar o helicóptero, não era? Ele estará pronto, como combinado. O motorista está ciente de onde vamos nos encontrar. Chequei com Thiago e a casa da Consulente está sendo vigiada, tanto por cima quanto pelos esgotos. Vittorio não fugirá.Ela me ajudou
CAMILAMesmo curiosa por saber o que Valentina ia conversar com Isadora, deixei as duas na cozinha. Maior que minha curiosidade, só meu medo: todos pareciam ter seus planos para depois desse casamento e eu não via nada mudar a meu favor.— Mãe, posso brincar no meu quarto?Noah me trouxe de volta. Percebi que já havíamos subido as escadas e estávamos no corredor dos quartos.— Pode, mas deixe a porta aberta. E nada de sair desse andar, entendeu, mocinho?— Tio Lorenzo disse que não tem mais perigo, mãe.Assanhei seu cabelo, lhe dando um sorriso forçado. Queria dizer “Lorenzo fala muitas coisas e a maioria são um monte de mentira”, mas lembrei do que Valentina me disse sobre “paredes têm ouvidos” e me restringi a falar:— Ele pode ter dito, mas mamãe ainda tem medo. Quero você por perto para me proteger, certo?— Tá bom, mamãe.Ao entrar no quarto, dei de cara com Mikhail sentado à beira da cama, sem camisa, com a tipoia mal ajustada. Parecia que me esperava — não, eu tinha certeza de
VALENTINADessa vez, andar pelos esgotos não foi tão simples. Meu estômago de grávida embrulhava e eu me peguei com medo… e se eu pegasse alguma bactéria ou vírus andando por ali?Meu filho vai pegar também.Balancei a cabeça. Não existia filho. Existia feto.Saí do bueiro e me vi num subsolo — colunas robustas que sustentavam o Softeastly Hotéis no Distrito Golden. Havia câmeras de segurança, mas elas não me intimidaram: tirei do dedo meu anel com o brasão de nossa Famiglia — uma enxada e um punhal — e o direcionei à câmera. Não demorou, seis seguranças chegaram, me cercando e apontando armas.Num filme, seria a hora de puxar um cigarro e acender. Mas eu não fumo.— Quem é você?— Nas ruas, me conhecem como Viúva, a assassina da Família Maranzano.Ouvi o som de um gatilho, e o homem, que parecia liderá-los, falou:— Esperem, melhor falar com o Chefe de Segurança.Pela escuta, alertou sobre a minha presença. Passaram-se uns minutos e eu já estava ficando entediada. Até que, enfim, seu
VALENTINAEu não podia deixar Lorenzo se explodir.Caso eu dissesse “estou grávida de um filho seu!” — talvez ele não se explodisse, mas, com certeza, abriria mão da mulher que ama; provavelmente impediria meu aborto; e ainda correríamos o risco de fazer uma possível criança pagar por nossos pecados.Jamais.Eu jamais deixaria qualquer coisa dessas acontecer. Meu plano era: primeiro, não permitir que Lorenzo se matasse; segundo, fazer ele ir pro Brasil com Isa; terceiro, abortar sem falar um pio e sumir no mundo.Coloquei a mão na barriga.Parecia ser um gesto pequeno, mas que me fez sentir algo estranho. A possibilidade de uma família. A imagem de Camila sorrindo com o Noah no braço, a despeito de Mikhail a fodendo psicologicamente, me acertou em cheio.Talvez o terceiro ponto seja ter meu bebê longe de tudo aqui.Pensei em como conseguir falar com Isadora, já que ela estava me odiando. Mas eu daria um jeito. Portas, janelas e cara feia nunca foram um empecilho para mim.Meu estômago
LORENZOPerder o controle sempre me pareceu distante de mim. Naquele instante, vendo Valentina frágil, me perguntei se algum dia eu o tive e, se o perdi, quando foi. Pois eu não tinha mais controle de nada e só me dava conta naquele momento.Ela virou-se, ficando má posicionada, sem nem acordar. Aproximei-me, deitando-me a seu lado e posicionando a cabeça dela no meu ombro. Me perguntei se tudo aquilo era apenas exaustão.Não, o médico disse que ela sabia do diagnóstico. E ele não esconderia algo trivial.— Viúva, o que você está me escondendo, hein? Antes de sermos Don e Capo, somos amigos, lembra?Murmurei enquanto minha mão passeava de maneira leve por sua cabeça. Notei que seu cabelo estava maior que o de costume e com raízes sem retoque da cor preta.— Lembra o que você disse? Que somos espelhos?Foi então que eu percebi que sermos espelhos era a chave para entender a sua irritação. Se eu merecia morrer, ela também merecia; se eu não tinha cura, ela também não tinha; se eu ia me







