FAZER LOGINJá passava das seis da tarde quando saí para a rua.
Aquele dia estava sendo muito difícil para mim. Só queria chegar em casa e dormir. Sabia que meu meu pai ia me fazer perguntas. Não estava com vontade de falar mais sobre aquele assunto. O dia estava bonito. Senti calor e pensei que um sorvete era exatamente o que precisava. Havia uma sorveteria perto de casa. Decidi cortar caminho e ir até lá. Sentei-me em uma mesa do lado de fora, e a atendente se aproximou. - Boa tarde. O que vai desejar? - perguntou, simpática segurando um tablet nas mãos. - Boa tarde. Quero uma taça de sorvete com dois sabores e calda de chocolate por cima. - Sim. E quais são os sabores? - Stracciatella e cheesecake. - Com certeza. Quer Chantilly? - Pode ser. - Em dois minutos estará pronto. Ela registrou o pedido no tablet, e vi a máquina lá dentro preparando o doce. Pouco depois, a atendente trouxe a taça na bandeja. Era perfeito, como tudo o que saía daquelas máquinas. Ainda bem que o gelado não derretia. Comi devagar, saboreando cada colherada. Renovada pelo açúcar, fui para casa. Meu pai não estava lá, e suspirei aliviada. Tomei um banho e pedi à IA, Gaya, para colocar uma música relaxante de jazz. Meu pai chegou em casa e me chamou. - Olá pai. Como você está? - dei-lhe um beijo e me sentei no sofá, esperando pelas perguntas. - Olá, filha. Estou bem. Fui tomar um café com o Fernando. Como foi? Por alguns instantes, tive a sensação de que ele estava com a voz triste. Não sabia bem porquê e até estranhei. - Fez bem. Correu tudo bem. Amanhã já vai começar o processo. Acredita? - Já amanhã? Mais cedo que o normal. Deve ser por causa das pessoas que morreram esse ano. Qual o nome do seu parceiro de Reprodução? - Sim. Foi exatamente essa a informação que nos deram. Ele se chama Renato. - Muito bem. Então você precisa descansar cedo para estar bem amanhã. A partir de agora, tudo será diferente. - Eu sei pai. - sorri e fui dar-lhe um beijo de boa noite. Entrei no quarto sentindo que precisava cumprir meu dever. Olhei na direção do armário e pensei em pegar aquilo que fazia com que eu me sentisse um pouco melhor. Mudei de ideia. Meu pai ainda estava acordado, e não valia a pena correr aquele risco. Deitei-me na cama e tentei dormir. Virei de um lado para o outro. As horas passavam, e os pensamentos vinham em catadupa. Só por volta das quatro da manhã consegui adormecer, vencida pelo cansaço. Na manhã seguinte, me custou muito abrir os olhos, mas tinha que ser. Arrastei-me para fora da cama. Fui me arrumar. Olhei meu reflexo no espelho e tinha olheiras enormes. Passava pouco das sete e meia quando saí de casa. Meu pai ainda dormia. Tentei não fazer barulho para não acordá-lo. O tempo estava nublado, parecia que ia chover. Eu estava tão nervosa. Cheguei ao Instituto e entrei pela grande porta de vidro. Havia pouca gente lá dentro. O cheiro de limpeza e o ambiente luxuoso contrastavam com a função daquele lugar. Olhei ao meu redor e não havia sinais de Renato. Sentei-me em uma cadeira almofadada, esperando. Era confortável. Não se passaram nem dez minutos quando uma garota com uma postura leve e jovem, veio na minha direção. - Olá, bom dia. É a Mel Medrado? - perguntou, apertando gentilmente minha mão. - Sou sim. - Prazer. Sou a Técnica de Reprodução, Daniele Matias. Então, pode me acompanhar. Seu companheiro de Reprodução Humana já está fazendo o exame. Seguia-a por um corredor comprido e branco. Subimos um lance de escadas e viramos à esquerda. - Pode se despir e vestir isto. - ela me entregou uma espécie de vestido largo e descartável, na cor azul. Até aquilo que era feito para ser descartado tinha qualidade e era bonito. - Muito obrigada. Vou me trocar agora. - Quando estiver vestida, dirija-se aquela porta lá no fundo, entre na máquina e feche a porta. Ela fará o resto. Deixou-me sozinha. Dobrei minhas roupas e entrei na sala. A máquina era realmente grande. Já tinha utilizado outras, mas aquela era muito maior, com várias luzes piscando. Segui as instruções da moça. Assim que fechei a porta, a IA falou: - Controlo de saúde iniciado Feixes de luz invadiram a parte interna da cabine, e todo o meu corpo foi escrutinado por eles. - Controlo de saúde concluído Daniele entrou sorrindo. - Sua saúde está ótima. Tudo dentro dos níveis normais. Seu tipo sanguíneo é raro. - fez uma pausa e, como não respondi, continuou: - Agora vamos passar para a fase de coleta de DNA. Não sei se sabe como funciona, mas garanto que não dói. Dito isso, carregou em alguns botões e foi embora. - Coleta de amostra de DNA iniciada Novas luzes começaram a piscar, diferentes das anteriores. Senti algo metálico, pontiagudo e frio, encostado nas minhas costas. Começou a aquecer, assim que entrou em contacto com a minha pele. Fiquei com medo, admito. Acho que prendi a respiração durante todo o tempo. Senti uma forte vibração, até que tudo parou. - Coleta de amostra de DNA concluída Depois desse processo, vesti-me e segui a técnica até uma sala toda branca, com uma mesa, uma cadeira para o médico, mais duas cadeiras e várias máquinas. Renato, estava sentado em uma delas. Quando me viu entrar, levantou-se. - Bom dia. Como está? - cumprimentou educadamente, com um aceno de cabeça. - Bom dia. Bem, obrigada. E você? - devolvi o cumprimento e me sentei na cadeira ao lado dele. - Estou bem sim. Obrigado. Como não acrescentou mais nada, resolvi fixar o olhar em um cartaz parecido com o que tinha visto ontem, quando fui assinar contrato. Esse era igual, mas tinha outro slogan: A Emoção é Incerta. A Ciência não. Desviei os olhos e me arrependi de ter lido. Como podia ser tudo isso que diziam? Aquilo que eu sei não é… - Vou deixá-los por um instante. O Doutor Fábio vem em cinco minutos. Daniele interrompeu meus pensamentos com a informação e fechou a porta. Renato mexeu-se na cadeira e pousou as mãos no colo. - Alguma vez tinha visto uma máquina tão grande? - perguntou, sem olhar para mim. - Não. Penso que só existem aqui para esse fim. Eu me assustei um pouco com a coleta de DNA. - Eu também. - sorriu e olhou para mim. - Sabe o que vai acontecer agora? - Sei que vão nos dar um dispositivo para acompanharmos o bebê. Para podermos vê-lo se desenvolver. Dizem que, dessa forma, os pais criam empatia por ele. Mas não sei mais nada. - E o sexo do bebé, quando vamos saber? - Acho que vão nos dizer agora, para podermos escolher um nome. O Doutor entrou. Era jovem, tinha por volta de 25 anos. - Boa tarde Mel e Renato. Meu nome é Fábio Oliveira e sou o médico que vai acompanhar vocês durante esse processo. Os exames de vocês estão bons e as amostras de DNA estão em perfeitas condições para avançarmos. O bebê de vocês será do sexo masculino. Na próxima consulta, vocês irão acompanhar a junção das amostras que dará origem à criança. Será entregue a cada um de vocês um monitor para poderem acompanhar de perto toda a evolução do bebê dentro do Núcleo Vital. Alguma dúvida? - Quando será a próxima consulta? - questionou Renato. - Daniele vai marcar agora com vocês. Mas, provavelmente, daqui a uma semana. Mais alguma coisa? - Sim, Doutor. Quando precisamos ter o nome do menino escolhido? - perguntei, ansiosa. - Pouco antes de ele nascer. Mas no monitor que vocês receberão terão todas as informações. Boa tarde e até à próxima. - sorriu e saiu. - De que nomes você gosta? Eu gosto de João, Ricardo, Rodrigo… Eu queria um nome forte para o meu filho e que tivesse alguma coisa a ver com minha mãe, então arrisquei. - Pode ser um nome diferente? Minha mãe se chamava Valena e, como ela já não está entre nós, eu gostaria de chamá-lo de Valen, em memória dela. - Valen… - ele avaliou o nome durante algum tempo. - Claro compreendo, acho que pode ser Valen. Mas podemos pensar melhor sobre isso? Ainda temos algum tempo. - É verdade. Decidimos depois, então. Obrigada. Daniele entrou e marcamos a consulta para exatamente dali a uma semana. Ela nos acompanhou até a porta e me despedi de Renato. Quando cheguei em casa, só conseguia pensar em uma coisa: tomar um banho relaxante depois de todas as emoções fortes daquele dia. Meu pai ainda estava trabalhando. Então, abri a torneira e deixei a banheira encher. Coloquei meus sais de banho favoritos de lavanda e pedi a Gaya para colocar sons da natureza. Deitei-me na água quente e fechei os olhos por um instante. Acordei com a voz de meu pai me chamando. Nem percebi que tinha adormecido. Vesti-me e fui encontrá-lo. - Olá filha. Como você está? - Pai, porque você não me contou como funcionavam esses processos? - Bom, porque, desde que sua mãe… Desde aquela época, você nunca mais quis saber desse assunto. - Eu gostava da ideia de ter um filho… Meu pai parou de lavar a louça e olhou para mim atentamente. - E por que você não gosta mais? - Ainda gosto. - tentei disfarçar. Fiquei vermelha e comecei a sentir as mãos suadas. - Você não mudou de ideia por medo de ter perdido sua mãe, não é? - Não, pai. - as lágrimas já ameaçavam cair. - Estou cansada, vou me deitar. Até amanhã. Boa noite. Dei um beijo de boa noite no meu pai e fui para meu quarto. Esperei um pouco, atualizei minha rede social e ouvi meu pai fechar a porta do quarto e se deitar. Então, fui até meu armário e o tirei para fora. Era um pouco pesado. Tinha um aspecto antigo, com as pontas dobradas. Sentei-me na cama e li uma passagem: Setembro, 2010 “Querido Diário! Hoje fui à praia e ele estava lá. Quando encostou a mão dele na minha por baixo da areia da praia, meu coração disparou e minha pele se arrepiou. Meu Deus, a felicidade vem de coisas tão simples! Se o mundo terminasse hoje, eu morreria feliz. Talvez ainda não seja o momento de ele saber a verdade. Talvez eu conte amanhã… “A técnica se aproximou e o envolveu com a mantinha, enquanto outra cortava seu cordão umbilical. Então, ouvi seu choro! Que emoção! Eu não conseguia conter as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Pensei que fossem me entregar meu filho logo, mas não. Levaram-no até uma máquina pequena e o deitaram ali. Fizeram sinal para que nos aproximássemos. Ela apertou um botão e ouvi um barulho no início e outro no final. Limparam-no com algumas toalhas perfumadas. Finalmente, pude pegá-lo. Era tão lindo, tão perfeitinho. Parou imediatamente de chorar assim que sentiu meu toque. Falei bem baixinho: — Meu amor! É a mamãe. Eu sempre vou amar você! Você é a melhor coisa da minha vida. Renato se aproximou com lágrimas nos olhos. Ele me pediu para segurar o filho e eu o passei para seu colo. Daniele apareceu. — Muitos parabéns aos dois. Como ele se chama? Respondemos ao mesmo tempo: — Valen! — Que nome tão diferente. É bonito. — Podem vir comigo agora. Vou most
Por que os sinais vitais dele estavam tão baixos?O que eu poderia fazer?Sentia minha boca seca e meu peito doía.Não deveria ter feito o que fiz.Se acontecesse alguma coisa com ele, nunca me perdoaria!Estava muito aflita, andando de um lado para o outro, até que, depois de alguns minutos, a luz voltou ao normal e os sinais vitais dele também.Que susto!Foi um alívio tão grande que me deixei cair no chão.Uma mensagem apareceu na tela:“Por enquanto, seu filho está a salvo. Não volte a cometer nenhum erro!”E desapareceu...Fiquei olhando para a tela.Eu me sentia tão aliviada, mas, ao mesmo tempo, uma raiva cresceu dentro de mim.Com certeza tinha sido aquela mulher. Mas, se ela estava ali para me proteger, como tinha conseguido fazer aquilo com meu bebê?Não iria arriscar mais a vida dele.Faria tudo o que estivesse ao meu alcance para mantê-lo em segurança.Agora teria muito mais cuidado, mas só voltaria a investigar quando ele nascesse.O último mês passou tranquilamente.Apro
Saiu a mesma mulher alta e esguia que nos observava.- Mel, nós não temos tempo para perguntas. Você não imagina o que causou.- Ah, não. Lá no hospital disse que ia me dar respostas. - Eu só posso dizer que…- Não, não. Eu quero saber quem você é. Agora!- Digamos que sou uma amiga da sua mãe.- Como se conheceram?- Isso é importante por quê?- Eu preciso saber.Ela respirou fundo.- Eu a conheci antes de ela morrer. Ela pediu para eu tomar conta de você.- Não respondeu à minha pergunta.- Mel, você não entende. Existe muita coisa em jogo. Quanto mais souber, mais em perigo fica.- Em perigo já estamos todos!- Se cumprir as regras, não há perigo nenhum.- Cumprir regras? Obedecer, não ter liberdade? E a felicidade, onde fica?- Você fala exatamente como a Valena. Como sabem todas essas coisas?- Agora eu que digo que não te interessa. Se minha mãe não disse, não sou eu quem vai falar.- Sua mãe era uma pessoa incrível!- Minha mãe morreu de insuficiência renal. Vocês se conhecera
Me assustei quando senti o toque e tentei me virar.- É melhor para você que não se vire. - falou em voz baixa.- Quem é você?- Está louca? Esse edifício vai ser isolado assim que todo o mundo sair daqui. Como você se arrisca a fazer isso, ateando fogo num banheiro?Como sabe? Quem é você?- Sou alguém que prometeu à sua mãe que protegeria você. Precisa sair daqui agora!- Por que não posso ver seu rosto?Terá tempo para isso um dia. Agora vá. Aproveite essa confusão. - Ela me empurrou pela porta até uma saída de emergência no fundo daquele corredor. - Desça essas escadas até a rua. E nada aconteceu! Eu cuido das câmeras.- Como vou saber quem você é?- Vá até os fundos do aeroporto à meia-noite de amanhã. - Por que o aeroporto?- Depois você vai descobrir. Vá logo e pare de fazer perguntas.Não disse mais nada. Nem olhei para trás. Simplesmente corri.Consegui sair ilesa e vi Renato lá no fundo. Ele olhou para mim com um ar desconfiado.Veio na minha direção e se colocou ao meu
Acordei me perguntando o que poderia fazer. Qual seria o primeiro passo para a investigação?A resposta deveria estar no hospital. Tanto naquela sala quanto nas informações sobre Ana.Só precisava de um plano. Sabia que seria muito arriscado.Olhei para Valen, flutuando em seu líquido no Núcleo Vital.Se acontecesse alguma coisa comigo, não sabia o que aconteceria com Valen. A sociedade não permitiria que Renato o criasse sozinho. Um arrepio percorreu meu corpo ao pensar no que poderiam fazer com meu filho. Por alguns momentos, hesitei. Será que valia a pena o risco?Valia, sim. Também estava fazendo isso por ele. Por todos nós.Por um futuro melhor! Pela liberdade!Depois de ter lido o diário pela primeira vez, comecei a me sentir muito mal por viver naquela sociedade.Nós tínhamos uma vida horrível, completamente controlada pelo governo e pela IA.Decidida, fui tomar meu café da manhã.No caminho para o hospital, encontrei Renato.Ele estava com uma aparência péssima. Olhei
Fiquei estática por alguns segundos, olhando para a mensagem na tela.Carreguei para responder. A mensagem desapareceu tão rápido quanto havia aparecido.Já era muito tarde. Não conseguia dormir de jeito nenhum.Fui conferir novamente o monitor, mas não havia qualquer vestígio da mensagem. Tentei entrar em contato com Renato.Apareceu um aviso na tela: - AVISO: Esta opção já não está disponível. Nome para filho concluído!Passei o dia seguinte praticamente na cama. Como era final de semana, meu pai estava em casa e tentou me distrair um pouco.Vimos um filme, mas nem prestei atenção.Quando acordei na manhã do funeral de Ana, sentia meu corpo pesado e estava com dor de cabeça.Fui encontrar meu pai na cozinha.- Bom dia Mel. Conseguiu descansar?- Bom dia. Só um pouco. Senti-me na cadeira e fiquei observando a janela.- Vem tomar café da manhã.- Não estou com fome. - Como você vai aguentar o dia de hoje se não se alimentar?- Eu sei. Mas não consigo mesmo.- Falta um mês e pouco







