FAZER LOGINEu continuava de pé.
Não por escolha. Por instinto. Ficar de pé parecia a única forma de manter algum controlo, mesmo que ilusório. Sentar-me seria aceitar. Aproximar-me seria ceder. O corpo escolheu a rigidez como defesa, ainda que tremesse por dentro. Matteo manteve-se sentado por alguns segundos depois da minha pergunta, observando-me com um olhar lento e pesado, que não se desviava, como se estivesse a percorrer-me por dentro, avaliando algo que não se media em palavras. Não era um olhar curioso. Era um olhar que tomava notas. Que recolhia informação sem pressa. Senti a pele reagir primeiro, um calor incômodo a subir pela nuca, a consciência súbita das pernas, da linha dos ombros, da forma como o vestido simples marcava mais do que eu gostaria de admitir. Tive vontade de cruzar os braços. De me encolher. Não o fiz. Qualquer movimento parecia um convite, uma confirmação involuntária de que aquele olhar tinha efeito. Aquele olhar não pedia licença. Tomava. — Don DeLuca — disse, esforçando-me para manter a voz firme apesar da tensão que me apertava o estômago —, eu não sei por que razão me mandou chamar. O som do meu próprio nome na boca dele ecoou dentro de mim de forma errada, deslocada, como se tivesse sido dito para testar alguma coisa. Ele levantou-se. Devagar. Sem quebrar o contacto visual. O movimento foi controlado, seguro, e houve algo na forma como se colocou de pé que fez o espaço parecer menor, como se a sala tivesse sido redesenhada à volta dele. A mudança de altura alterou tudo. De repente, eu estava consciente da diferença entre nós, do peso físico da presença dele, da forma como o corpo reagia a isso sem pedir permissão. Dei por mim a prender a respiração, sem saber exatamente porquê. — Mudou alguma coisa na situação do meu casamento? — acrescentei, agarrando-me à pergunta como a uma âncora. — Foi por isso? Era uma pergunta segura. Objetiva. Uma tentativa de manter a conversa no território da razão, longe daquilo que eu sentia crescer de forma desconfortável sob a pele. Ele não respondeu de imediato. Começou a andar. Não em linha reta. À volta de mim. Cada passo era medido, silencioso, e senti o corpo enrijecer à medida que ele passava pelas minhas costas, pelo meu lado, demasiado perto para ser casual. A proximidade era calculada. Suficiente para ser sentida, insuficiente para ser denunciada. Não me tocava, mas a proximidade era tão densa que parecia um toque suspenso, algo que podia acontecer a qualquer segundo. A expectativa era pior do que o contacto. O corpo antecipava, a mente recusava, e eu ficava presa nesse intervalo perigoso. Não devia estar a reparar nisto, pensei. Na presença dele. Na forma como o meu corpo reage. Mas reparei. O pensamento veio acompanhado de culpa. Eu não tinha o direito de sentir aquilo. Não depois de tudo. Não naquele contexto. — Não — disse ele, finalmente, a voz surgindo atrás de mim, baixa, firme. — Nada mudou. O som dele tão perto fez-me engolir em seco. O timbre grave parecia desenhar-se diretamente na minha pele, mais do que nos meus ouvidos. — O seu casamento acabou — continuou. — Não por minha causa. Não por decisão sua. Mas porque deixou de ser útil para o homem que a tinha. As palavras atingiram-me como um golpe seco, e ainda assim foi o corpo que me traiu primeiro, um aperto estranho no baixo-ventre, uma reação absurda que me confundiu e me envergonhou. A humilhação misturou-se com uma sensação física que não fazia sentido nenhum, e isso foi talvez a parte mais difícil de aceitar. Eu fui casada, lembrei-me, com uma lucidez desconfortável. E nunca senti isto. Nunca com ele. Nunca em cinco anos de obrigações, de toques funcionais, de noites silenciosas. Dei meia volta para o encarar. Ele parou à minha frente, perto demais para ser confortável. O espaço entre nós desapareceu sem que eu tivesse dado um único passo, e a respiração falhou por um segundo, como se algo em mim tivesse reconhecido aquela proximidade antes da minha mente conseguir rejeitá-la. O corpo inclinou-se impercetivelmente para a frente antes que eu o travasse. O gesto mínimo denunciou-me. Matteo ergueu a mão. Um único dedo sob o meu queixo. O gesto foi preciso, firme o suficiente para não permitir recusa, lento o bastante para que eu sentisse o controlo contido naquele contacto mínimo. A pele ardeu sob o toque, não pelo contacto em si, mas pela intenção que ele carregava. Quando ele me obrigou a levantar o rosto, um choque atravessou-me o corpo, não de medo, mas de consciência. Do meu corpo. Da presença dele. Da forma como nunca me tinham tocado assim. Nunca como se o toque fosse apenas um meio para observar a reação. — Você já foi descartada — disse, baixo. — Isso é um facto. As palavras não vieram como julgamento. Vieram como constatação. O dedo manteve-se ali um segundo a mais, exigente, obrigando-me a sustentar o olhar dele enquanto o meu corpo reagia de forma errada, quente demais, sensível demais para o contexto. A respiração tornou-se superficial. O coração acelerou. O corpo respondeu como se tivesse sido acordado de um longo torpor. Isto não faz sentido. Eu não devia estar a sentir isto. Mas sentia. Ele inclinou-se ligeiramente, o suficiente para que a presença dele se tornasse esmagadora, para que eu sentisse o calor do corpo dele tão perto do meu que todos os pensamentos se dissolveram numa confusão perigosa de alerta e desejo mal colocado. O mundo reduziu-se àquele espaço mínimo. Ao cheiro discreto dele. À tensão acumulada entre dois corpos que não se tocavam. — O que o seu marido fez — murmurou — não me interessa. Soltou-me de repente. A ausência do toque foi quase tão perturbadora quanto a presença tinha sido, o ar a regressar aos pulmões de forma abrupta, o corpo ainda preso à memória de algo que não chegara a acontecer. O que mais me desestabilizou foi a vontade absurda de recuperar aquele contacto. Matteo deu um passo atrás, recuperando a distância como quem recolhe o controlo de uma situação que nunca deixou verdadeiramente escapar. — O que me interessa — acrescentou — é o que sobra depois do descarte. Não explicou. Não clarificou. Deixou a frase aberta, como uma armadilha. Virou-se ligeiramente, como se a conversa tivesse terminado antes mesmo de eu compreender o que estava em jogo. — Pode ir. Fiquei ali, imóvel. O corpo ainda tenso. A pele consciente demais. A mente em conflito. Demorei alguns segundos a perceber que a permissão era apenas aparente. Que sair não significava escapar. Eu tinha sido esposa durante anos sem nunca sentir desejo. E agora, diante de um homem que não me devia nada, que não prometia nada, o meu corpo tinha reagido primeiro. Isso assustava-me mais do que qualquer ameaça explícita. Ele não me tinha chamado para me querer. E isso era precisamente o que tornava tudo muito mais perigoso.Na manhã seguinte, a pasta dos Valenti ainda estava aberta sobre a minha mesa quando Matteo entrou no quarto.Eu tinha passado boa parte da noite relendo os mesmos documentos e descoberto que confirmar uma resposta não fazia as perguntas desaparecerem. Pelo contrário. Agora que sabia exatamente de onde minha mãe vinha, cada lacuna na história dos meus pais parecia maior.Matteo olhou para a mesa.— Você dormiu?— Algumas horas.— Quantas?— O suficiente para não precisar de outra investigação médica.Ele não pareceu convencido, mas não insistiu. Trazia outra pasta, mais fina do que a do dia anterior, e colocou-a perto das folhas que eu tinha separado.— Encontraram mais alguma coisa?— Cruzaram os documentos da Sicília com os registros dos seus pais.— E?— Quero que você veja.Aquilo já estava se tornando um padrão, embora eu preferisse aquele a receber conclusões prontas.— O mesmo homem de ontem?— Está no escritório.Fechei a pasta.— Imagino que também esteja esperando.— Sim.—
Matteo apareceu no meu quarto pouco depois do almoço com uma pasta na mão.Eu estava sentada junto à janela, tentando escrever, e bastou olhar para aquilo para saber que ele não tinha vindo discutir o número de seguranças no corredor. Fechei o caderno enquanto ele colocava a pasta sobre a mesa sem abri-la.— Mais documentos?— Sim.— Dos Valenti?— Parte deles.Levantei-me e fui até a mesa.— E a outra parte?— Verificação nossa.Aquilo prendeu minha atenção de vez.Desde que os primeiros registros tinham chegado da Sicília, eu aprendera a desconfiar da palavra confirmação. Para o Conselho, duas datas próximas e um sobrenome repetido já eram suficientes para começar a discutir alianças. Para mim, não.— O que verificaram?Matteo me observou por um instante.— Sua mãe.Não toquei na pasta.— Isso é uma resposta muito ampla.— Eu sei.— Então tente outra.Um movimento quase imperceptível passou pelo rosto dele.— Conseguimos fechar a ligação.Olhei para a pasta e depois para ele.— Fech
Na manhã seguinte, desci para o café antes de Matteo.Não tinha planejado fazer isso. Acordei cedo, passei tempo demais olhando para o teto e, quando percebi que continuar deitada só me obrigaria a repetir a conversa do Conselho pela centésima vez, levantei-me.Elena pareceu surpresa ao me encontrar na sala de jantar sozinha, embora tivesse a delicadeza de não comentar. Trouxe café, pão, frutas e ovos, provavelmente porque alguém já tinha informado a cozinha de que eu quase desmaiara numa recepção depois de passar o dia comendo como uma criança esquecida num aeroporto.Comi o suficiente para evitar outra investigação médica e estava terminando o café quando ouvi passos no corredor. Matteo entrou alguns segundos depois e os olhos dele foram primeiro para mim, depois para o prato.— Já comeu?— Bom dia para você também.Ele puxou a cadeira habitual.— Comeu?— O suficiente para que ninguém precise chamar uma ambulância.Matteo olhou outra vez para o prato antes de se servir de café.Nor
No dia seguinte à recepção, Matteo voltou a ocupar o escritório como se tivesse decidido compensar as poucas horas que passara fora de casa.Homens entraram e saíram durante toda a manhã. Alguns eu conhecia, outros não, e nenhum parecia particularmente interessado em explicar por que a mansão tinha voltado a funcionar como uma sala de reuniões cercada por seguranças. Também não perguntei, porque depois da noite anterior tinha problemas mais imediatos para administrar, entre eles a certeza de que Matteo já não acreditava completamente nas explicações que eu dava sobre minhas idas à clínica.Passei boa parte da tarde no quarto, tentando trabalhar no meu caderno e conseguindo escrever exatamente três linhas antes de desistir. Quando desci perto do fim do dia, Elena me informou que Matteo ainda estava reunido, o que naquela altura já não era exatamente uma novidade.Fui até a cozinha, comi alguma coisa antes que ele decidisse transformar minha alimentação em mais uma responsabilidade da s
Eu soube que alguma coisa estava diferente quando Matteo saiu do carro sem me oferecer a mão.Não precisava dela. O vestido não era comprido o suficiente para dificultar o movimento e eu conseguia atravessar três degraus sem assistência, mas isso nunca tinha impedido Matteo de decidir onde colocava a mão quando havia outras pessoas olhando.Naquela noite, limitou-se a esperar que eu saísse.Fechei a porta atrás de mim e observei a casa iluminada. Não era exatamente uma festa, embora houvesse carros suficientes ao longo da entrada para provar que também não se tratava de um jantar íntimo. O número de convidados parecia cuidadosamente limitado, o que, no mundo de Matteo, provavelmente significava que cada pessoa ali tinha algum motivo para ter sido convidada.— Quantas pessoas? — perguntei.— Poucas.— Sua definição de poucas costuma envolver homens armados?— Alguns.— Muito esclarecedor.Matteo começou a caminhar e eu o acompanhei, enquanto dois seguranças vinham atrás de nós a uma di
Afastei-me da mesa e fui até a janela. Do lado de fora, um dos novos seguranças atravessava o jardim enquanto outro permanecia próximo ao portão, ambos integrados à estrutura que Matteo tinha construído ao meu redor desde a emboscada. Eu já começava a reconhecer alguns rostos, mas ainda havia momentos em que passava por alguém no corredor e precisava lembrar que aquele homem estava ali por minha causa.Proteção.Matteo chamava aquilo de proteção. O Conselho apresentava os Valenti como outra possibilidade de proteção. E agora pessoas que talvez fossem minha própria família tinham conseguido chegar à mesma palavra antes mesmo de me conhecer.O problema era que, em todas aquelas versões, proteção parecia significar quase sempre a mesma coisa: alguém decidindo onde eu devia estar e quem devia estar perto de mim.— O que exatamente eles oferecem além de informação? — perguntei.— Apoio político se a ligação for confirmada — respondeu Matteo.Virei-me devagar. Ele continuava junto à mesa, u







