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Capítulo 4

last update publish date: 2026-01-13 17:01:53

Eu estava no quarto quando bateram à porta.

O som foi firme, contido, diferente das batidas hesitantes a que me tinha habituado desde que me tornei um incómodo naquela casa, e bastou para me fazer erguer os olhos do caderno onde escrevia havia horas, ainda com a caneta suspensa entre os dedos.

O meu primeiro impulso foi ignorar. Fingir que não tinha ouvido. Naquele quarto, eu ainda controlava alguma coisa: o silêncio, o tempo, a forma como existia. A batida interrompeu isso com uma autoridade que me fez endireitar o corpo sem pensar.

— Senhorita Ivy?

Era uma das empregadas.

— A sua tia mandou chamá-la.

Endireitei-me devagar na cama, o corpo a reagir antes da mente conseguir organizar qualquer pergunta.

O estômago contraiu-se. Ninguém me chamava havia semanas. Quando isso acontecia, nunca era por um bom motivo.

— Para quê?

Ela hesitou, apertando o avental com os dedos.

— Disse para a senhora se arranjar.

Arranjar.

A palavra ficou suspensa no ar, estranha demais para aquele quarto que tinha sido o meu refúgio, o meu esconderijo, o espaço onde eu existia apenas porque ninguém me via.

Arranjar implicava ser vista. Avaliada. Colocada novamente num lugar que eu já não ocupava.

— Agora — acrescentou, antes de se afastar.

Quando a porta se fechou, permaneci sentada por alguns segundos, sentindo aquela inquietação antiga instalar-se sob a pele, a certeza desconfortável de que algo estava prestes a acontecer sem que eu tivesse sido consultada.

A mesma sensação que sempre precedera decisões tomadas por mim, nunca comigo.

Levantei-me.

O guarda-roupa oferecia poucas opções. A maioria das roupas carregava marcas de uma vida que já não era minha, escolhas feitas para agradar, para representar um papel que eu já tinha falhado em sustentar.

Vestidos escolhidos por outras mãos. Tecidos que me lembravam constantemente de expectativas que eu não tinha conseguido cumprir.

Acabei por escolher um vestido preto simples.

Sem adornos.

Sem joias.

Sem intenção de impressionar.

Uma escolha defensiva. Neutra. Quase invisível.

Prendi o cabelo de forma contida e observei o meu reflexo por um instante mais longo do que o necessário, tentando reconhecer naquela imagem algo que ainda me pertencesse.

Os olhos pareciam mais atentos do que cansados. Mais alertas do que resignados. Não gostei disso.

Quando desci as escadas, a casa estava quieta demais.

Não o silêncio confortável das madrugadas, mas o silêncio armado de expectativa.

A sala encontrava-se iluminada, e foi ali que os vi.

A minha tia estava sentada no sofá, postura impecável, expressão satisfeita, como se estivesse a desempenhar um papel que conhecia demasiado bem.

E, em frente a ela, recostado numa das poltronas, estava Don DeLuca.

O impacto foi imediato.

O corpo reagiu antes que qualquer pensamento racional conseguisse se formar, uma tensão seca no peito, um arrepio curto a percorrer-me a espinha, como se a presença dele alterasse a densidade do ar naquele espaço.

Não era medo. Também não era curiosidade. Era algo mais básico, mais físico, como um reconhecimento involuntário de perigo e atenção ao mesmo tempo.

Ele ergueu os olhos quando entrei.

Não sorriu.

Não se levantou.

Limitou-se a observar-me com atenção silenciosa, como se estivesse a confirmar algo que já tinha decidido.

O olhar demorou-se mais do que devia. O suficiente para me fazer sentir visível de uma forma desconfortável, nua apesar do vestido.

A minha tia não perdeu tempo.

Endireitou-se no sofá e sorriu para ele, apontando discretamente na minha direção.

— Como eu lhe estava a dizer — começou, num tom excessivamente seguro —, a Ivy sempre foi uma rapariga complicada. Frágil. Pouco prática. Infelizmente, nunca teve grande utilidade…

Parei a meio da sala.

O rosto aqueceu, mas mantive-me em silêncio, habituada a ser descrita como se não estivesse presente.

Aquela enumeração de falhas era antiga. Conhecia-a de cor. O que mudava era o público.

— Fiz o que pude — continuou ela, embalada pela própria voz. — Dei-lhe teto, educação, oportunidades. Mas certas mulheres simplesmente não nascem para cumprir…

Matteo ergueu a mão.

O gesto foi simples.

Contido.

Definitivo.

O efeito foi imediato. A frase morreu antes de terminar.

Não olhou para ela de imediato.

— Já chega — disse, com calma.

A minha tia piscou os olhos, apanhada de surpresa.

— Peço desculpa?

Ele virou-se então para ela com lentidão calculada, o olhar suficiente para cortar qualquer tentativa de resistência.

Não havia agressividade ali. Havia hierarquia.

— Quero falar com a Ivy — disse. — Sozinho.

O sorriso dela vacilou por um instante.

— Claro, mas eu achei que…

Matteo não a deixou terminar.

Com a mesma mão, fez um gesto vago em direção ao corredor, indicando a saída como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Pode nos deixar.

Não houve ameaça na voz.

Nem pressa.

Apenas certeza.

A sala reorganizou-se em torno daquela certeza.

A minha tia hesitou por um segundo longo demais, claramente a medir forças, até perceber que aquela não era uma conversa em que pudesse insistir.

Levantou-se devagar, alisou o vestido com cuidado excessivo e lançou-me um olhar rápido, carregado de algo entre irritação e alívio, antes de sair da sala sem dizer mais nada.

Como quem se livra de um problema momentâneo.

A porta fechou-se atrás dela com um som baixo, e o ar pareceu reorganizar-se.

O ambiente mudou.

O silêncio tornou-se íntimo. Denso. Direcionado.

Matteo voltou então o olhar para mim, avaliando-me com a mesma calma desconcertante, como se tudo o que tivesse sido dito antes fosse irrelevante.

— Sente-se — disse.

Não era um pedido.

Obedeci.

Sentei-me na ponta do sofá, as mãos pousadas no colo, sentindo os dedos apertarem inconscientemente o tecido do vestido, o coração acelerando de forma traidora enquanto o peso daquele momento se acomodava lentamente.

Estava demasiado consciente do espaço entre nós. Da forma como ele ocupava o lugar oposto sem invadir, mas sem ceder.

— Não vou tomar muito do seu tempo — continuou ele, a voz baixa, controlada. — Mas preciso que me responda a algumas perguntas com honestidade.

O tom não era agressivo.

Era pior.

Era o tom de quem já sabia que teria as respostas que queria.

E que estava ali para confirmar, não para descobrir.

A atenção no espaço tornou-se quase palpável, densa, expectante, e tive a certeza desconfortável de que aquela linha, uma vez atravessada, não permitiria retorno.

— Diga-me, Ivy — disse ele, finalmente, o olhar fixo no meu. — Você sabe por que eu estou aqui?

O ar ficou preso nos meus pulmões por um segundo a mais do que devia.

O corpo respondeu antes da mente, um aperto baixo, um alerta que não tinha nome.

E, naquele instante, compreendi que aquilo não era uma oferta.

Era uma convocação.

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