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Casa comigo?

Autor: Grazy Souza
last update Data de publicação: 2026-04-18 01:06:04

Trevor

Entrei sem bater. O som seco dos meus sapatos de grife ecoou pelo piso de linóleo, quebrando o silêncio do quarto e fazendo-a saltar da cadeira como se tivesse sido pega em flagrante. Os olhos dela vieram direto para mim, e o que encontrei ali não foi medo, nem submissão, nem qualquer uma das reações que eu estava acostumado a provocar. Era algo mais bruto. Mais honesto. Um misto de desconfiança e ódio que me atingiu com força inesperada.

Geralmente, as pessoas me olham com reverência ou cobiça. Algumas, até com admiração ensaiada. Ruby Prestes, no entanto, me encarava como se eu fosse o próprio diabo atravessando a porta do que restava do seu mundo. Como se minha presença contaminasse o pouco de paz que ela ainda tentava manter ali dentro.

— O que você está fazendo aqui? — Ela sussurrou, a voz quebrada, rouca, denunciando horas de choro contido.

Não sei exatamente por quê, mas algo no meu peito apertou por um milésimo de segundo. Foi rápido, rápido o suficiente para eu ignorar. Ela parecia frágil naquela poltrona de plástico duro, o corpo curvado pelo cansaço, os ombros tensos. Ainda assim, mantinha o queixo erguido, firme, como alguém que já perdeu demais para se permitir recuar. Havia resistência nela. E isso… isso era novo.

— Vim pagar minha dívida, Ruby — respondi, mantendo a voz controlada, plana, como sempre. Nenhuma inflexão, nenhuma brecha. Nada que denunciasse o leve acelerar do meu pulso ao encarar aqueles olhos verdes, ainda úmidos.

Mantive as mãos nos bolsos da calça, uma postura ensaiada de absoluto controle, enquanto dava alguns passos pelo quarto.

— Vim te oferecer uma saída para o labirinto onde se encontra.

Ela não respondeu de imediato. Seus dedos se apertaram com mais força ao redor da mão pequena e pálida da menina na cama, como se aquele contato fosse a única coisa que a mantinha de pé. Ruby me observava em silêncio com os olhos semicerrados, desconfiada, avaliando cada palavra, cada movimento. Como uma presa que já entendeu que o predador não desperdiça visitas.

— Eu sei quem você é, Ruby Prestes — continuei, deixando que cada palavra saísse com precisão calculada. — Sei que seus pais faleceram em um acidente de carro. Sei dos seus três empregos. Sei que você está se afogando em contas e que não tem como pagar nem a primeira hora dessa UTI, mesmo ela sendo da rede pública, onde os custos são pela metade.

Caminhei lentamente pelo quarto, deixando meu olhar percorrer o ambiente: paredes sem graça, equipamentos básicos, a iluminação fria demais. Havia um abismo entre aquele lugar e o mundo de onde eu vinha, e eu tinha plena consciência disso.

— E também sei… — pausei, voltando meu olhar para ela — que ela não é sua filha. É sua irmã. Que cuida dela desde seus dezessete anos.

O efeito foi imediato. O rosto dela perdeu a pouca cor que ainda restava. Seus olhos se arregalaram, e por um instante, toda aquela postura firme vacilou. O segredo que ela segurava como um escudo foi quebrado com uma única frase.

— Como você… — ela começou, a voz falhando, mas ergui a mão, interrompendo antes que terminasse.

— Isso não importa.

Dei mais um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre nós.

— O que importa é que sou o diretor deste hospital. E posso fazer com que Esmeralda seja transferida agora mesmo para a suíte VIP. Posso colocar o Dr. Arantes e uma equipe inteira de especialistas cuidando dela em tempo integral. Posso garantir que ela tenha acesso ao melhor tratamento que o dinheiro pode comprar e você não pode pagar.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Quase palpável.

Ruby se levantou devagar, como se cada movimento exigisse um esforço enorme. A respiração dela se tornou mais rápida, mais profunda. Seus olhos foram da irmã deitada na cama… para mim.

— E o que você quer em troca? — perguntou, finalmente. A voz ainda baixa, mas agora firme. — Ninguém dá nada de graça. Muito menos um homem como você.

Um canto quase imperceptível dos meus lábios se ergueu.

— Inteligente — murmurei. — Gosto disso.

Aproximei-me mais um passo, invadindo completamente o espaço dela. O cheiro de café frio e cansaço ainda pairava, misturado a algo mais difícil de definir, algo que não combinava com fragilidade. Força, talvez.

Inclinei levemente a cabeça, sustentando o olhar dela.

— Casa comigo?

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