INICIAR SESIÓNRuby
Arregalei os olhos, parei no meio do quarto e quase tropecei na barra do meu vestido de noiva.
— Eu não posso ficar tanto tempo longe da Esme! — protestei, o coração disparando só de imaginar passar sete dias em outro lugar.
— Pode sim — Trevor rebateu, caminhando passos lentos e calculados na minha direção. A presença dele preencheu cada espaço do quarto, dominante e ina
RubyO toque do gel gelado na minha pele fez meu corpo estremecer. A última vez que estive em uma sala assim, o único som presente era a linha reta e implacável de um monitor sepultando o meu mundo. O medo de que aquilo fosse um sonho ou de que algo estivesse errado fazia minhas costelas apertarem meus pulmões.A Dra. Madelene deslizou o transdutor pela minha barriga. A luz da tela iluminou o ambiente escuro em tons de cinza e preto.— Olhem aqui — a voz do médico soou calma, apontando para o monitor. — Vejam o saco gestacional... e bem aqui, perfeitamente formado para cerca de doze semanas, está o bebê de vocês. Dá para ver a cabeça, o contorno do braço e da perna.Meus olhos se arregalaram. As lágrimas que eu tentava segurar transbordaram de uma vez. Na tela, uma forma diminuta, mas inconfundivelmente humana, descansava com perfeição no meu ventre.— Meu Deus... é verdade… — o sopro de voz escapou dos meus lábios.E então, a Dra. Madelene apertou um botão no painel. E o som mais lin
“Quase três meses.”As palavras do Dr. Arantes ecoaram na minha mente como um trovão no meio de um céu tempestuoso. O choque me paralisou. Olhei para a minha própria barriga, que eu achava estar apenas inchada pela má alimentação dos últimos tempos, e levei minhas duas mãos até ela.Dentro de mim, durante todo aquele tempo de escuridão, dor e culpa... uma vida inteira estava crescendo em segredo. Uma vida que se prendeu a mim enquanto eu pensava que estava morrendo por dentro.Olhei para Trevor. Ele estava petrificado, mas os olhos dele já estavam transbordando em lágrimas. Ele se aproximou devagar, caindo de joelhos na minha frente na sala de estar, colando a testa contra a minha barriga.— Trevor... — o meu choro travou na garganta, um sopro de incredulidade. — Um bebê... O nosso bebê...— É um milagre, amor... É um milagre — a voz de Trevor rasgou em um soluço alto e descontrolado.Ele envolveu minha cintura com os braços fortes, enterrando o rosto na minha cintura e chorando com u
TrevorDepois daquela noite assustadora no banheiro, ver a fraqueza de Ruby e os enjoos constantes me deixou em um estado de alerta total. Não importava quantas vezes ela dissesse que era "apenas estresse" ou culpa acumulada; meu instinto me dizia que o corpo dela estava pedindo socorro.Na manhã seguinte, decidi não esperar. Liguei diretamente para o celular do Dr. Arantes. O médico, que nos acompanhara nos momentos mais difíceis no hospital e guardava um carinho enorme por nossa família, concordou em vir à nossa casa imediatamente para uma avaliação particular.— Como ela está, Trevor? — Arantes perguntou assim que abri a porta, a maleta médica na mão e o olhar atento de sempre.— Pálida, fraca, sem conseguir segurar quase nada no estômago — respondi baixo, conduzindo-o até a sala. — Ela tem crises violentas de enjoo, mas jura que é tudo emocional por causa do luto.Ruby estava sentada no sofá, encolhida sob uma manta. Ela se surpreendeu ao ver o médico entrar, mas não teve forças p
TrevorMeses se passaram desde o dia em que o mundo perdeu a cor, mas o tempo na nossa casa parecia fluir de um jeito arrastado, quase cruel.As coisas no trabalho tinham finalmente tomado o rumo que planejei por tanto tempo. Consegui comprar a última das ações dos conselheiros que jogavam contra mim, consolidando de vez o controle da empresa. Meu pai e meu irmão continuavam mofando atrás das grades, pagando por cada crime, e a minha mãe... bom, a minha mãe parecia florescer a cada dia longe do inferno que vivia. Havia paz no rosto dela pela primeira vez em décadas.Mas a vitória nos negócios e na família parecia cinza. De que adiantava vencer todas as guerras lá fora se, ao voltar para casa, o silêncio me esmagava?Ruby tentava. Deus sabia o quanto ela se esforçava para seguir em frente. Ela acordava, comia, falava o mínimo necessário e cumpria suas rotinas diárias, mas era doloroso assistir. Ela vivia no automático. Era como uma sombra da mulher vibrante que um dia me fez apaixonar.
RubyO toque da pele gelada de Esme sob a ponta dos meus dedos queimou como fogo. Não era um frio comum; era o frio definitivo, a ausência absoluta daquela alma radiante que costumava preencher cada canto da minha existência. A sensação trágica de que não havia mais vida ali, de que aquele sopro de alegria e infância tinha se apagado para sempre, fez o meu mundo ruir em uma poeira densa e sufocante. A realidade caiu como uma rocha esmagadora sobre a minha cabeça: minha garotinha, minha irmãzinha, a razão pela qual eu me levantava todos os dias e enfrentava qualquer batalha, havia partido.Eu não sentia minhas pernas. Não sentia o chão sob meus pés. A única coisa que me mantinha no plano terrestre, impedindo que minha alma evaporasse com a de Esme, era o abraço firme e desesperado de Trevor. O calor do peito dele colado às minhas costas, a respiração pesada dele contra o meu pescoço e a mão enorme dele cobrindo a minha eram os únicos laços que ainda me prendiam à vida. Se ele me soltas
TrevorO ar dentro da UTI parecia subitamente escasso, denso como chumbo derretido. Sentia um nó gélido e paralisante se fechar no meu estômago no exato instante em que o monitor cardíaco, após aquele suspiro falso de esperança, voltou a apitar em um tom contínuo, estridente e impiedoso. Uma linha reta, perfeita e mortal, cruzava a tela digital. Vi os médicos baixarem os braços. Vi o Dr. Arantes tirar as luvas trêmulas, o suor escorrendo pela testa do médico experiente, e declarar a hora da morte em um sussurro derrotado.A pequena Esme, a menininha do sorriso radiante que, sem pedir permissão, havia desarmado todas as minhas defesas e me ensinado o significado de um amor puro, protetor e visceral, estava imóvel. Desfalecida. Sem vida. A palidez assustadora no rosto da garotinha rasgou o meu peito de cima a baixo. Era uma dor física, um soco seco no esterno que me tirou o ar, mas eu sequer tive tempo de processar a minha própria devastação.Porque, nos meus braços, Ruby se despedaçou.







