FAZER LOGINEla ficou em silêncio por um instante, não acreditando no que estava ouvindo.
Aquela situação parecia ser boa demais para ser verdade. — Vocês fornecem esse tipo de serviço aqui também? — perguntou, tentando manter a postura. — É claro que não… Estou abrindo uma exceção especial para você — disse, inclinando-se em direção a ela, uma expressão falsamente inocente estampada em seu rosto enquanto parecia dizer um segredo. Kaily sustentou o olhar dele por mais tempo do que pretendia. Havia algo ali que a prendia, não apenas na sua ousadia, mas na forma como ele dizia as coisas, como se já soubesse qual seria a resposta dela antes mesmo que ela se decidisse. Ela apoiou o cotovelo no balcão, aproximando-se um pouco mais, diminuindo deliberadamente a distância entre os dois. — Você tem certeza disso? — perguntou, a voz mais baixa, carregada de desafio — Ou fala isso para todas que aparecem aqui? Um canto do lábio dele se curvou, lento, como quem aprecia um jogo ficando mais interessante. — Você é a primeira, é claro. A resposta veio sem hesitação. Kaily soltou uma pequena risada nasal, desviando o olhar por um segundo, apenas para voltar a encará-lo logo em seguida. Era visível que as palavras dele não pareciam sinceras. Contudo, isso realmente não importava para ela. Não naquelas condições, afinal, ele estava oferecendo exatamente o que ela procurava ali. — Você parece confiante demais para quem está abrindo uma única exceção — provocou. Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, inclinou-se mais sobre o balcão, invadindo o espaço dela com naturalidade. O cheiro dele chegou antes mesmo das palavras, inundando-a com uma sensação de nostalgia. Era um cheiro familiar, embora ela não soubesse identificar claramente. — Quer uma prova de confiança? A pergunta a atingiu de um jeito inesperado. Kaily manteve o olhar firme. Por um instante, o barulho da música pareceu distante, abafado por aquela proximidade. Kaily respirou fundo, sentindo o próprio coração acelerar de um jeito que não tinha nada a ver com a música, ou com a raiva que sentia há pouco. Então, sem quebrar o contato visual, ela moveu a taça que estava entre os dois, como se aceitasse o jogo. — Certo, me convença. A mão dele tocou de leve o queixo dela, guiando seu rosto alguns centímetros para mais perto. O gesto foi lento o bastante para que ela pudesse recuar… mas ela não recuou. Quando os lábios deles estavam prestes a se tocarem, ele desviou o rosto dela para o lado, saindo da frente sem se afastar completamente, apenas o suficiente para ela ver algo atrás dele: “Atenção! É estritamente proibido o flerte entre clientes e funcionários.” Assim que seus olhos se fixaram na placa, Kaily começou a rir, então se afastou, voltando a se sentar corretamente. — Ok, você me convenceu — ela disse, ainda com um leve sorriso nos lábios — Mas agora ficarei com a consciência pesada. E se você for repreendido por minha culpa? — Ninguém precisa descobrir que vamos quebrar as regras. — E como vamos fazer isso? Os olhos dele brilharam com algo mais intenso, mas, dessa vez, ele não respondeu de imediato. Ele a observou por alguns minutos, como se estivesse avaliando até onde ela iria. Kaily sustentou o olhar, sem recuar. Então o canto do lábio dele se curvou de novo, satisfeito. Só então ele se afastou, o suficiente para alcançar algo atrás do balcão. — Aqui… me dê sua mão — ele estendeu a mão para ela. Ele tomou a mão dela com calma e depositou um cartão de acesso em sua palma, fechando seus dedos ao redor dele. — Último andar — disse, o tom baixo, soltando a mão dela devagar. — Eu não vou demorar aqui. Por um instante, ela não se moveu. Olhou para o cartão em sua mão, sentindo o peso da decisão e do que estava prestes a fazer. Decidida a não voltar atrás, ela pegou a taça, terminou o restante da bebida em um único gole e a colocou de volta no balcão com um leve toque seco. Em seguida, alcançou uma nota de dinheiro na bolsa e a deslizou sobre o mármore. Mas, antes de se levantar, inclinou-se levemente na direção dele, o suficiente para que só ele pudesse ouvir: — Espero que você seja melhor do que a bebida. Sem esperar por uma resposta, ela se levantou e seguiu em direção ao elevador. Atrás dela, o barman a seguiu com o olhar até que ela entrasse no elevador. — Oh, você nunca deixa de me surpreender, Adrian — um rapaz, na banqueta ao lado, disse — Como seus funcionários vão seguir suas regras, sendo que na primeira oportunidade você as quebrou? Adrian sorriu, dando de ombros enquanto pegava a taça deixada no balcão e a entregava para uma funcionária que passava atrás dele. — Tem algo que eu quero testar, então não pude perder a oportunidade, Noah — respondeu, com naturalidade. Noah franziu o cenho, intrigado com a fala do amigo. — Testar? Como assim? — Dizem que sexo com mulher traída é inesquecível. A feição séria de Noah logo se desfez. Um sopro de sorriso escapou de seus lábios. — É só isso? Não é por ela parecer com aquela garota? — Ela é meu tipo. Apenas isso. — Sim. Seu único tipo — ironizou, dando um gole na sua bebida. Adrian sorriu de canto, mas não negou. — O pessoal da reserva chegou? — Sim. Chegaram há pouco. Vim te avisar que seu primo estava te procurando, mas eu não quis interromper. Adrian soltou um suspiro pesado e esfregou a própria têmpora. — Péssimo dia… Não estou nem um pouco a fim de ver o Erick hoje. — Consciência pesada? — Noah provocou. — Por forças maiores… Já ouviu falar que algumas forças você simplesmente não combate? — disse, olhando de relance para Noah — Quanto mais você tenta ir contra, mais elas puxam de volta. — Está usando a física para justificar sua “atração”? — É apenas algo impossível de evitar… mesmo com a consciência pesada — disse, em tom descontraído. — Pelo menos está admitindo — Noah riu — E o que você está fazendo aqui, que essa força ainda não te puxou para seu apartamento? — Já estou indo… Me faça um favor. Diga ao Erick que hoje é por minha conta, mas infelizmente não vou poder me reunir com ele.Vivian voltou-se para ele, surpresa por ouvir o filho se impor daquela maneira. Erick sustentou o olhar dela por um instante, depois olhou para seu pai. Quando tornou a falar, sua voz veio mais baixa e controlada: — Vocês estão sendo desrespeitosos com meu avô… E essa discussão não vai ajudar em nada. O olhar de Erick voltou para sua mãe. — A senhora também está sendo desrespeitosa com a tia Diana e com Adrian… A decisão do vô já está tomada, e a minha também. Por favor, respeite minha escolha. Vivian olhou para cada um dos presentes. Claude a observava com uma mistura de decepção e cansaço; Xavier mantinha os olhos baixos, evitando encará-la; e Erick continuava firme diante dela, embora seu semblante deixasse evidente o quanto desejava que aquela discussão terminasse. Ela apertou os punhos com força. — Façam o que quiserem… Mas, se depender de mim, esse casamento não vai acontecer. Sem esperar por qualquer resposta, Vivian virou-se bruscamente e deixou a sala, os passos pesad
Vivian se virou na direção de Erick, e Xavier a impediu de fazer qualquer coisa.— Você está louco? — Vivian se enfureceu com a resposta. — Vai jogar fora todo meu esforço, a imagem que construí para essa família, tudo por causa do seu amor por uma assistente?Erick permaneceu com a expressão impassível, mesmo diante do desespero da própria mãe, uma frieza que ela normalmente via em seu esposo e sogro, mas nunca havia visto em seu filho.Naquele momento, ela sentiu como se tivesse perdido seu último aliado.Mas na mente de Erick, outra conclusão se desenrolava: não era amor. Era conveniência.Ele não precisou de muito tempo para concluir que Cíntia, naquele momento, era a opção mais conveniente.Se aceitasse se casar com uma mulher escolhida por sua mãe, perderia parte do controle sobre a própria situação. Vivian certamente escolheria alguém de uma família poderosa, e um eventual rompimento poderia trazer consequências pessoais e empresariais que ele não estava disposto a enfrentar.C
— Assistente? O senhor quer ofender meu filho querendo que ele se case com uma das nossas funcionárias? — ela elevou o tom de voz.Claude a olhou, mas manteve o semblante calmo.Ele já esperava aquela reação.Vivian sempre foi muito arrogante e excessivamente preocupada com a imagem que ela e a família transmitiam aos outros. Ela não suportava a ideia de que alguém pudesse olhar para ela e enxergar qualquer sinal de inferioridade.Uma mulher de uma família menos influente poderia até ser competente, educada ou possuir outras qualidades, mas, aos olhos de Vivian, nada disso compensaria a falta de um sobrenome e de um patrimônio à altura dos Laurent.Ela certamente se sentia profundamente ofendida com aquela situação.Durante anos, procurou as moças das famílias mais prestigiadas para estarem ao lado do filho, imaginando um casamento capaz de fortalecer ainda mais a posição dela no próprio meio social. Agora, Claude simplesmente lhe apresentava uma funcionária como futura esposa de Eric
Fazia cerca de duas horas que Erick havia conseguido pregar os olhos. Sua mente permaneceu presa aos acontecimentos daquela noite, até que o sono finalmente o venceu. Porém, seu descanso não durou muito tempo. De repente, sentiu uma mão puxar o cobertor, enquanto uma voz distante insistia em despertá-lo. — Levante-se! Erick abriu os olhos com dificuldade. A claridade que entrava pela janela recém-aberta irritou seus olhos, fazendo-o semicerrá-los. Ainda sonolento, conseguiu distinguir a mãe andando de um lado para o outro pelo quarto, aparentemente procurando alguma roupa que ele deveria vestir. Ele se espreguiçou, ainda um pouco confuso. “Ah, já passou da hora de eu voltar para minha casa.” — pensou, sentindo uma pontada de resignação diante daquela situação. — Olha só que horas já são, Erick. — Eu sempre durmo até mais tarde aos domingos. — Mas hoje não… Levante-se. Seu avô está aqui. — Hmm? O que o vô está fazendo aqui tão cedo? — perguntou, ainda com preguiça.
Cíntia já estava pronta para encontrar seus antigos colegas. Pretendia sair de casa mais cedo, aproveitando o tempo livre para passar em outro lugar antes do encontro, mas seus planos mudaram ao receber uma mensagem do seu pai, dizendo que ele e Evelyn precisavam conversar com ela sobre um assunto importante.A contragosto, Cíntia concordou, então avisou um dos colegas que não poderia participar da reunião.Ainda assim, relutante em abrir mão por completo dos planos que havia feito para aquele dia, decidiu fazer suas compras.Quando se aproximou o horário combinado para encontrar seus pais, seguiu para o restaurante onde haviam marcado de se encontrar.…Ao chegar, encontrou ambos reunidos à mesa, conversando animadamente. A expressão descontraída dos dois chamou sua atenção de imediato.Quando a viram, o sorriso de ambos se alargou ainda mais.— Venha, sente-se aqui — Evelyn falou, indicando a cadeira que estava ao seu lado.— Nossa, vocês estão realmente felizes hoje… Aconteceu algo
Kaily ficou em silêncio por um instante. As lágrimas que ela estava contendo começaram a cair.Então, finalmente, a verdade escapou:— Eu amo ele, Erick — ela disse, a voz tão baixa que quase não foi ouvida.A mão de Erick sobre o pulso dela se soltou.Erick ficou imóvel.Por alguns segundos, pareceu não compreender o que havia acabado de ouvir.— O quê? Você tem sentimentos por ele?— Sim.Erick deu um passo para trás, sem acreditar.— Co-como isso é possível? Foi você quem se declarou primeiro e me pediu em namoro…— Me desculpe… Eu tentei ignorar esse sentimento por saber que ele gosta de outra pessoa, então tentei te usar para esquecê-lo. Mas... — sua voz falhou por um instante — eu não consigo mais fingir.Ela desviou o olhar, enxugando as lágrimas com as costas da mão.— Me desculpe… eu não queria que as coisas chegassem a isso. Eu não queria te magoar…Kaily deu um passo para trás, então outro.— Não faz sentido continua







