LOGINA cobertura de Killian Blackwood era exatamente como ele: fria, imponente e desenhada para intimidar. O motorista deixou Mariane em um hall privativo de mármore negro que levava diretamente à sala de estar, um espaço vasto com janelas que iam do chão ao teto, revelando a cidade como um tabuleiro de xadrez aos pés do Alfa. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido suave do sistema de climatização.
Mariane seguiu as instruções de uma governanta silenciosa que apenas apontou para a ala leste. Ao entrar na suíte que lhe fora designada, ela soltou um suspiro de alívio. O quarto era magnífico, decorado em tons de creme e dourado, com uma cama king-size que parecia uma nuvem. Ela caminhou até suas malas, que já haviam sido entregues, e começou a se despir do terno apertado, sentindo a pele finalmente respirar. Foi então que ela notou. À esquerda da cama, onde deveria haver uma parede sólida separando o seu quarto do de Killian, havia uma imensa divisória de vidro fosco. Não era uma parede de alvenaria. Era uma lâmina de vidro temperado que se estendia por toda a lateral do quarto. Mariane aproximou-se, o coração acelerando. Ao tocar a superfície fria, percebeu que o vidro tinha um tratamento especial: ele não era totalmente opaco. Se houvesse luz no outro lado, ela conseguiria ver silhuetas. E o pior: se ela estivesse com a luz acesa, ele veria tudo o que ela fizesse. — Isso não pode ser real — ela sussurrou, procurando desesperadamente por um interruptor que pudesse escurecer o vidro ou por uma cortina. Não havia nada. Ela caminhou até a extremidade da divisória e encontrou uma porta de correr, também de vidro fosco. Ao tentar puxá-la, a porta deslizou suavemente, sem qualquer resistência. Não havia tranca. Não havia trava. A porta apenas separava os dois mundos por um centímetro de espessura. Mariane espiou o outro lado. O quarto de Killian era o oposto do dela: sombrio, minimalista, exalando um cheiro de testosterona e poder que a fez estremecer. — Gostou da vista, Mariane? A voz dele veio do canto escuro do quarto vizinho. Mariane deu um pulo para trás, fechando a porta de vidro com um baque surdo, mas era inútil; através do vidro fosco, ela viu a silhueta alta e larga de Killian se aproximando da divisória. Ele estava sem o paletó, com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos. — Você é um doente, Killian! — ela gritou através do vidro, as mãos trêmulas. — Que tipo de privacidade é essa? Por que não há uma parede? Do outro lado, ela viu a silhueta dele parar a milímetros do vidro. Ele encostou a palma da mão na superfície, e Mariane pôde ver o contorno perfeito de seus dedos longos. Por instinto, ela recuou, mas seus olhos ficaram presos naquele vulto escuro e imponente. — Transparência — ele disse, a voz abafada pelo vidro, mas ainda carregada de autoridade. — Eu não confio no que não posso ver. E como você é minha responsabilidade agora, eu preciso saber exatamente onde você está e o que está fazendo. — Eu não sou um animal de zoológico! Troque-me de quarto agora! — ela exigiu, sentindo o calor da indignação subir pelo seu pescoço. — Este é o único quarto de hóspedes da cobertura — ele mentiu descaradamente, e ela sabia disso pelo tom divertido em sua voz. — Considere isso um exercício de confiança. Se você se comportar, eu manterei a luz do meu lado apagada. Mas se você tentar fugir, ou se eu sentir que está escondendo algo... eu farei questão de que este vidro seja a única coisa entre nós. Mariane sentiu uma onda de calor que não era apenas raiva. A ideia de que ele poderia estar ali, parado, observando-a se trocar, dormindo ou simplesmente existindo, era uma invasão brutal. Mas havia algo mais... um frisson de perigo que fazia seu sangue correr mais rápido. A loba nela estava agitada, reconhecendo o território do Alfa. — Eu vou colocar um armário na frente desse vidro — ela ameaçou. — Tente — ele desafiou. — Eu adoraria ver você mover os móveis de design italiano sozinha. Agora, vista algo adequado. Vamos jantar em trinta minutos. E Mariane... Ela parou, com a mão na maçaneta da porta do banheiro. — Não se dê ao trabalho de apagar as luzes. Eu enxergo muito bem no escuro. O som dos passos dele se afastando a deixou em um estado de nervos deplorável. Ela olhou para o vidro fosco. Agora que ele estava longe, o silêncio parecia mais opressor. Ela sabia que ele estava jogando com ela, testando seus limites, tentando desestabilizá-la antes mesmo do primeiro jantar oficial. Mariane entrou no banheiro, decidida a não se deixar abater. Ela precisava de uma armadura. Se ele queria uma "inspeção", ela lhe daria algo que ele não esqueceria, mas que o faria se arrepender de ter tanta "transparência". Ela escolheu um vestido de seda preta que deslizava como água sobre sua pele, com um decote profundo nas costas e uma fenda que começava no meio da coxa. Enquanto se vestia, ela sentia o peso do vidro fosco às suas costas. Cada vez que ela passava diante da divisória, seu olhar se desviava para o outro lado, tentando detectar qualquer movimento. Ela se sentia como uma presa sendo observada por um predador escondido na mata alta. O fato de não saber se ele estava olhando ou não era a parte mais excitante e aterrorizante daquele jogo. Quando terminou de se arrumar, ela parou diante do vidro uma última vez. Ela sabia que ele podia estar lá. Ela endireitou os ombros, deixou o vestido cair perfeitamente sobre suas curvas e sussurrou para a silhueta inexistente do outro lado: — Espero que você esteja pronto para o que comprou, Killian. Porque eu não vou facilitar para você. Ela saiu do quarto, o salto dos sapatos estalando no mármore, sem saber que, do outro lado do vidro, Killian estava realmente parado, com um copo de uísque na mão, as pupilas dilatadas enquanto observava o rastro de luz e sombra que o corpo dela projetava. O jogo estava apenas começando, e ele já estava perdendo o controle de suas próprias regras.O trajeto até a parte mais densa da floresta de Obsidian foi feito em silêncio, mas não era o silêncio desconfortável dos laboratórios. Era o silêncio da antecipação. Aidan e Lyra deixaram as motos, os comunicadores e até as adagas de metal para trás. Entraram na mata apenas com a roupa do corpo e o instinto.A cabana de refúgio era rústica, encravada entre carvalhos centenários. Ali, o único sistema operacional era o ciclo da natureza. Não havia luz elétrica, apenas o brilho das pedras lunares incrustadas na lareira e o cheiro de madeira antiga e terra úmida.Antes de qualquer coisa, o corpo precisava ser alimentado. A adrenalina da batalha anterior tinha deixado um vazio no estômago que nenhuma ração militar resolveria.— Se quiser comer, vai ter de correr, Alquimista — provocou Lyra, já retirando as botas e a túnica. Seus olhos brilharam em prata sob o dossel das árvores.Aidan não respondeu com palavras. Ele simplesmente se despiu, deixando que a mutação ocorresse de forma flu
O Porto de Obsidian ainda cheirava a ozônio queimado, mas Aidan já estava farto de telas. Ele olhou para o tablet em sua mão, onde os gráficos de energia da Ordem do Vácuo piscavam como um convite para uma guerra que ele não queria mais lutar com botões. Ele olhou para Lyra, que estava limpando o sangue do braço com uma expressão de puro tédio em relação aos destroços metálicos ao redor.— Eles acham que são deuses porque usam chips — Aidan disse, sua voz perdendo a polidez diplomática e assumindo um tom áspero, mais profundo. — Mas a verdade é que eles estão escondidos atrás de baterias. Se cortarmos o sinal, o que sobra é apenas um bando de lobos que esqueceu como é sentir a terra nas garras.Lyra parou o que estava a fazer e olhou para ele, um sorriso de lado crescendo. — Finalmente, o Príncipe Alquimista disse algo que presta. Eu estou farta de lutar contra eletrodomésticos, Aidan. Eu quero sentir o pulso de um inimigo de verdade.Aidan caminhou até o gerador central das doc
O ar nas docas de Obsidian ficou tão carregado que a respiração de Aidan saía como faíscas azuis. Ele e Lyra eram agora um farol de energia pura no meio de um deserto de metal e ferrugem. O plano de "isca e captura" tinha acabado de entrar na fase crítica.— Sinal de aproximação em dez segundos — avisou Aidan, os dedos traçando runas digitais no ar que se manifestavam como escudos de frequência ao redor deles. — Eles estão a usar um motor de dobra de curta distância. Vão aparecer em cima de nós.— Deixa aparecerem — Lyra respondeu, a voz saindo como um rosnado metálico. Ela estava naquela zona cinzenta entre a forma humana e a loba, os olhos brilhando em um prata líquido e as garras prontas para rasgar qualquer coisa que não tivesse batimento cardíaco. — Eu não vim aqui para negociar o plano de dados.O espaço à frente deles simplesmente rasgou. Não houve explosão, apenas um silêncio absoluto enquanto a realidade se dobrava para cuspir o Corretor Original. Ele não era mais aquel
O plano era simples no papel, mas um pesadelo na execução: usar a tecnologia de Aidan para amplificar os sentidos da alcateia e transformar cada batedor num sensor biológico de alta precisão. Aidan chamou isso de "Rede Neural de Alcateia", mas para Lyra, era apenas "fazer o básico com um upgrade".Eles partiram de Obsidian às duas da manhã. Cinquenta lobos de elite, os Espectros de Prata liderados por Lyra e um destacamento técnico sob o comando de Aidan. Eles não foram para as montanhas, mas para o Setor Industrial Norte, onde a Ordem do Vácuo tinha deixado os rastros mais fortes de interferência de fase.— O sinal está instável, Lyra — avisou Aidan pelo comunicador de ouvido. Ele estava montado num cavalo mecânico silencioso, segurando um tablet de cristal que projetava um mapa de calor térmico à frente de todos. — O Corretor está usando repetidores de sinal nas condutas de esgoto. Ele quer que a gente persiga fantasmas.Lyra, correndo na forma humana mas com os sentidos no limi
O laboratório de Aidan estava com um cheiro que ele detestava: metal queimado e estática. A influência da Ordem do Vácuo tinha deixado um rastro tecnológico que parecia uma infecção nas paredes de Obsidian. Mas, para Lyra, o problema era outro. Enquanto Aidan se perdia em hologramas e frequências, o lado loba dela estava rosnando para o que realmente importava: o território e o sangue.— Aidan, desliga essa porcaria por cinco minutos — Lyra ordenou, entrando no círculo de projeções e atravessando um gráfico de barras com um chute. — Está agindo como um cientista de laboratório humano. Nós somos uma alcateia, não uma startup.Aidan esfregou o rosto, a mecha branca do cabelo colada na testa pelo suor. — Lyra, eles quase derrubaram a muralha usando um vírus de frequência. Se eu não mapear a origem do sinal...— Se você não mapear a origem do sinal, eu vou usar o meu nariz, que é muito mais eficiente que esse teu tablet — retorquiu ela, aproximando-se e invadindo o espaço pessoal dele
A "lua de mel" de Aidan e Lyra durou exatamente o tempo de um café expresso duplo e três horas de sono picado. Enquanto o resto de Obsidian ainda lidava com a ressaca do banquete de oficialização, os novos diretores do "Departamento de Sobrevivência e Chutes na Bunda" estavam trancados no laboratório subterrâneo, tentando entender como um holograma de espelhos quase deletou a história do reino.Aidan estava cercado por projeções holográficas de DNA e códigos de essência, as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos e a mecha de cabelo branca caindo sobre os olhos cansados. Lyra, por outro lado, estava sentada em cima de uma mesa de metal, testando o balanço das suas novas adagas com revestimento de neutralização de fase.— O diagnóstico é o seguinte: o "Corretor" não é uma pessoa, é uma interface — disse Aidan, sem tirar os olhos dos dados. — A Ordem do Vácuo não quer apenas nos matar. Eles querem nos desinstalar. Eles acreditam que a mistura de Lobo e Celeste cria uma "cor







