LOGINO sol se punha em tons de violeta e sangue sobre o horizonte de concreto, mas Mariane não conseguia apreciar a vista. Ela estava trancada em seu quarto, o corpo ainda sentindo o formigamento da água da piscina e o calor fantasma das mãos de Killian em sua cintura. A derrota na competição de natação pesava sobre seus ombros, não apenas pelo orgulho ferido, mas pelo preço que ela sabia que teria de pagar.
Ela havia perdido. E no mundo dos Alfas, dívidas de honra não eram perdoadas; eram cobradas com juros. Um som metálico e seco ecoou na porta de vidro fosco. Mariane girou, o coração disparado. Ela esperava ver a silhueta de Killian, mas a porta não se abriu. Em vez disso, ela notou uma caixa de veludo negro, grande e retangular, depositada sobre o aparador de mármore que ficava exatamente na linha divisória entre os dois quartos. Ao lado da caixa, um envelope de papel texturizado com o brasão da família Blackwood em cera vermelha. Mariane aproximou-se com passos cautelosos, como se o objeto pudesse mordê-la. Suas mãos tremiam levemente ao abrir o envelope. A caligrafia de Killian era impecável, porém agressiva, as letras inclinadas como se tivessem sido gravadas com força. "O contrato exige sua presença. A aposta exige sua rendição. Vista o que está na caixa e venha ao meu quarto às vinte e duas horas. Não se atrase. Eu não aceito desculpas de quem perdeu em campo aberto." Mariane sentiu uma onda de fúria misturada a uma antecipação elétrica que a deixou sem fôlego. "Arrogante. Desgraçado", ela murmurou, mas seus dedos já estavam desfazendo o laço de seda da caixa. Ao abrir a tampa, ela soltou um suspiro audível. Ela esperava um vestido de gala ou uma lingerie vulgar, mas Killian conhecia o poder do luxo silencioso. Dentro da caixa, repousava uma única peça: uma camisola de seda líquida, em um tom de azul tão profundo que beirava o negro, exatamente da cor dos olhos de Killian quando ele estava perdendo o controle. O tecido era quase imaterial. Não havia rendas, não havia bordados. Era apenas a seda mais pura, desenhada para cair sobre o corpo como uma segunda pele. Junto com ela, havia um par de sandálias de tiras finas e um frasco de perfume de essência de sândalo e âmbar — o cheiro dele. Ele não queria apenas que ela se vestisse para ele. Ele queria marcá-la com o seu aroma. Queria que ela entrasse em seu território parecendo uma extensão de sua própria vontade. Mariane passou as próximas duas horas em um ritual que era metade preparação para a guerra, metade entrega. Ela tomou um banho longo, esfolando a pele até que ficasse rosada e sensível. Ao vestir a seda azul, percebeu a genialidade perversa de Killian: a camisola não tinha suporte algum. O decote era profundo na frente e totalmente aberto atrás, terminando apenas na curva perigosa de suas nádegas. Cada movimento que ela fazia fazia o tecido roçar em seus mamilos, que endureceram instantaneamente, reagindo à textura e à ideia de quem a estaria observando. Ela aplicou a essência de sândalo nos pontos de pulsação: pulsos, atrás das orelhas e no vale entre os seios. O cheiro de Killian agora fazia parte dela. Ela se olhou no espelho e viu uma mulher que não reconhecia. O azul-céu de seus olhos estava escurecido, as pupilas dilatadas. Ela parecia uma oferenda, mas seu queixo continuava erguido. Às dez horas em ponto, ela caminhou até a porta de vidro fosco. Pela primeira vez, ela não hesitou. Ela deslizou a divisória. O quarto de Killian estava mergulhado em sombras, iluminado apenas por algumas velas de pavio de madeira que estalavam suavemente, e pelo brilho frio da lua que entrava pela janela panorâmica. O cheiro de uísque caro e testosterona era esmagador. Killian estava sentado em uma poltrona de couro, ainda vestindo a calça do terno preto, mas sem camisa e descalço. Ele tinha um copo de cristal na mão, e seus olhos estavam fixos na porta por onde ela entrou. No momento em que Mariane pisou em seu território, ele parou de respirar por um segundo inteiro. O azul da seda contra a pele dela era uma visão que superava qualquer fantasia que ele tivesse alimentado através do vidro fosco. — Você veio — ele disse, a voz sendo pouco mais que um rosnado vibrante. — Eu pago minhas dívidas, Killian — ela respondeu, a voz firme, apesar do tremor interno. — Mas não pense que isso significa que você me quebrou. Killian levantou-se lentamente, a musculatura do peito e do abdômen brilhando sob a luz das velas. Ele caminhou em direção a ela com a calma de um predador que já cercou sua presa e agora vai saborear o momento do abate. Ele parou diante dela, tão perto que Mariane podia sentir o calor emanando de seu corpo. Ele estendeu a mão e, com as pontas dos dedos, tocou a alça fina da camisola em seu ombro. — O azul ficou melhor em você do que eu imaginei — ele sussurrou, descendo o toque pela linha do seu pescoço. — E o cheiro... você cheira como se finalmente tivesse aceitado a quem pertence. — Eu não pertenço a ninguém — ela desafiou, embora seu corpo estivesse se inclinando em direção ao dele involuntariamente. Killian sorriu, um sorriso sombrio e carregado de promessas. Ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhar diretamente em seus olhos oceânicos. — Esta noite, Mariane, o contrato não importa. A aposta não importa. Só importa o fato de que eu vou tirar cada centímetro dessa seda de você, e vou provar que, mesmo que sua mente diga não, seu sangue uiva pelo meu nome. Ele inclinou a cabeça e, antes de beijá-la, sussurrou contra seus lábios: — Bem-vinda ao meu mundo. Agora, a brincadeira acaba.O trajeto até a parte mais densa da floresta de Obsidian foi feito em silêncio, mas não era o silêncio desconfortável dos laboratórios. Era o silêncio da antecipação. Aidan e Lyra deixaram as motos, os comunicadores e até as adagas de metal para trás. Entraram na mata apenas com a roupa do corpo e o instinto.A cabana de refúgio era rústica, encravada entre carvalhos centenários. Ali, o único sistema operacional era o ciclo da natureza. Não havia luz elétrica, apenas o brilho das pedras lunares incrustadas na lareira e o cheiro de madeira antiga e terra úmida.Antes de qualquer coisa, o corpo precisava ser alimentado. A adrenalina da batalha anterior tinha deixado um vazio no estômago que nenhuma ração militar resolveria.— Se quiser comer, vai ter de correr, Alquimista — provocou Lyra, já retirando as botas e a túnica. Seus olhos brilharam em prata sob o dossel das árvores.Aidan não respondeu com palavras. Ele simplesmente se despiu, deixando que a mutação ocorresse de forma flu
O Porto de Obsidian ainda cheirava a ozônio queimado, mas Aidan já estava farto de telas. Ele olhou para o tablet em sua mão, onde os gráficos de energia da Ordem do Vácuo piscavam como um convite para uma guerra que ele não queria mais lutar com botões. Ele olhou para Lyra, que estava limpando o sangue do braço com uma expressão de puro tédio em relação aos destroços metálicos ao redor.— Eles acham que são deuses porque usam chips — Aidan disse, sua voz perdendo a polidez diplomática e assumindo um tom áspero, mais profundo. — Mas a verdade é que eles estão escondidos atrás de baterias. Se cortarmos o sinal, o que sobra é apenas um bando de lobos que esqueceu como é sentir a terra nas garras.Lyra parou o que estava a fazer e olhou para ele, um sorriso de lado crescendo. — Finalmente, o Príncipe Alquimista disse algo que presta. Eu estou farta de lutar contra eletrodomésticos, Aidan. Eu quero sentir o pulso de um inimigo de verdade.Aidan caminhou até o gerador central das doc
O ar nas docas de Obsidian ficou tão carregado que a respiração de Aidan saía como faíscas azuis. Ele e Lyra eram agora um farol de energia pura no meio de um deserto de metal e ferrugem. O plano de "isca e captura" tinha acabado de entrar na fase crítica.— Sinal de aproximação em dez segundos — avisou Aidan, os dedos traçando runas digitais no ar que se manifestavam como escudos de frequência ao redor deles. — Eles estão a usar um motor de dobra de curta distância. Vão aparecer em cima de nós.— Deixa aparecerem — Lyra respondeu, a voz saindo como um rosnado metálico. Ela estava naquela zona cinzenta entre a forma humana e a loba, os olhos brilhando em um prata líquido e as garras prontas para rasgar qualquer coisa que não tivesse batimento cardíaco. — Eu não vim aqui para negociar o plano de dados.O espaço à frente deles simplesmente rasgou. Não houve explosão, apenas um silêncio absoluto enquanto a realidade se dobrava para cuspir o Corretor Original. Ele não era mais aquel
O plano era simples no papel, mas um pesadelo na execução: usar a tecnologia de Aidan para amplificar os sentidos da alcateia e transformar cada batedor num sensor biológico de alta precisão. Aidan chamou isso de "Rede Neural de Alcateia", mas para Lyra, era apenas "fazer o básico com um upgrade".Eles partiram de Obsidian às duas da manhã. Cinquenta lobos de elite, os Espectros de Prata liderados por Lyra e um destacamento técnico sob o comando de Aidan. Eles não foram para as montanhas, mas para o Setor Industrial Norte, onde a Ordem do Vácuo tinha deixado os rastros mais fortes de interferência de fase.— O sinal está instável, Lyra — avisou Aidan pelo comunicador de ouvido. Ele estava montado num cavalo mecânico silencioso, segurando um tablet de cristal que projetava um mapa de calor térmico à frente de todos. — O Corretor está usando repetidores de sinal nas condutas de esgoto. Ele quer que a gente persiga fantasmas.Lyra, correndo na forma humana mas com os sentidos no limi
O laboratório de Aidan estava com um cheiro que ele detestava: metal queimado e estática. A influência da Ordem do Vácuo tinha deixado um rastro tecnológico que parecia uma infecção nas paredes de Obsidian. Mas, para Lyra, o problema era outro. Enquanto Aidan se perdia em hologramas e frequências, o lado loba dela estava rosnando para o que realmente importava: o território e o sangue.— Aidan, desliga essa porcaria por cinco minutos — Lyra ordenou, entrando no círculo de projeções e atravessando um gráfico de barras com um chute. — Está agindo como um cientista de laboratório humano. Nós somos uma alcateia, não uma startup.Aidan esfregou o rosto, a mecha branca do cabelo colada na testa pelo suor. — Lyra, eles quase derrubaram a muralha usando um vírus de frequência. Se eu não mapear a origem do sinal...— Se você não mapear a origem do sinal, eu vou usar o meu nariz, que é muito mais eficiente que esse teu tablet — retorquiu ela, aproximando-se e invadindo o espaço pessoal dele
A "lua de mel" de Aidan e Lyra durou exatamente o tempo de um café expresso duplo e três horas de sono picado. Enquanto o resto de Obsidian ainda lidava com a ressaca do banquete de oficialização, os novos diretores do "Departamento de Sobrevivência e Chutes na Bunda" estavam trancados no laboratório subterrâneo, tentando entender como um holograma de espelhos quase deletou a história do reino.Aidan estava cercado por projeções holográficas de DNA e códigos de essência, as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos e a mecha de cabelo branca caindo sobre os olhos cansados. Lyra, por outro lado, estava sentada em cima de uma mesa de metal, testando o balanço das suas novas adagas com revestimento de neutralização de fase.— O diagnóstico é o seguinte: o "Corretor" não é uma pessoa, é uma interface — disse Aidan, sem tirar os olhos dos dados. — A Ordem do Vácuo não quer apenas nos matar. Eles querem nos desinstalar. Eles acreditam que a mistura de Lobo e Celeste cria uma "cor







