LOGINLaís
O calor já era impiedoso às oito da manhã quando Laís chegou à ONG Raízes Vivas. Um sobrado simples, com janelas grandes, cartazes coloridos nas paredes e uma recepção cheia de vasos com plantas nativas. Ali, a equipe desenvolvia projetos de educação ambiental e reflorestamento nas escolas da região. Era um lugar acolhedor, mas carregava aquele ritmo frenético de quem tenta salvar o mundo com poucos recursos e muita vontade. Ela estava nervosa. Primeiro dia de estágio. Nova cidade, novas rotinas, rostos desconhecidos — pelo menos, era o que esperava. Até que ele apareceu. Eduardo surgiu no corredor com a camisa social dobrada até os cotovelos, uma mochila nas costas e duas caixas nas mãos cheias de mudas de árvores. A pele suada do sol da manhã brilhava no pescoço, e o cabelo bagunçado só aumentava o efeito perigoso. Laís congelou. Não era possível. — Bom dia, pessoal. — ele falou alto, já entrando com seu jeito casual. — As mudas do viveiro chegaram, deixei mais no carro. Ela só conseguiu soltar o ar quando uma das coordenadoras respondeu de volta e ele virou, dando de cara com ela. — Ah… — O sorriso dele veio automático. E indecente. — Olha só quem vai salvar o mundo comigo. Merda. Merda, merda, merda. — Você trabalha aqui? — ela perguntou, tentando controlar o tom. — Designer da equipe. Faço as artes dos projetos, redes sociais, essas coisas. Cheguei faz uns três meses. — Ele largou a caixa no balcão, ainda sorrindo. — Parece que vamos trabalhar juntos. Merda vezes mil. O coração de Laís deu um salto tão alto que ela sentiu no estômago. Ela queria recuar. Ligar para o coordenador da faculdade e pedir transferência. Mas então ele sorriu de novo, daquele jeito leve, que só ele sabia fazer — e tudo dentro dela quis avançar. A semana começou com agendas compartilhadas, reuniões apertadas e um relatório de impacto que ela teria que escrever com base nos arquivos da equipe. Eduardo foi o responsável por mostrar onde estavam os documentos. Eles passaram boa parte do tempo juntos. E cada minuto era um teste de resistência emocional. Ele era gentil. Atencioso. Profissional. O problema era o resto. O jeito como ele ficava de perfil olhando o computador, os dedos tamborilando na mesa, o cheiro amadeirado que vinha dele quando passavam muito perto. Tudo isso somado à memória do toque rápido na cafeteria, do beijo não resolvido de anos atrás, do corpo que agora parecia ainda mais perigoso. E Laís, que veio para ter paz, estava em guerra por dentro. Eduardo Ele quase deixou a caixa de mudas cair quando viu Laís ali, parada no corredor, com a blusa de linho clara, o cabelo preso de lado e aquele olhar que misturava surpresa e desespero. E depois, fascínio disfarçado. O destino às vezes era poético. Às vezes, cruel. E às vezes, como agora, era puro deboche. Desde que soube que a ONG receberia uma nova estagiária, não passou pela cabeça dele que seria ela. A última pessoa que esperava reencontrar — e ao mesmo tempo, a única que nunca esqueceu. Trabalhar ao lado de Laís era como caminhar sobre vidro fino. Por fora, ele fingia calma. Por dentro, cada gesto dela provocava terremotos silenciosos. Ela falava com os outros com educação, mas com ele havia uma distância medida — como se qualquer passo em falso pudesse explodir tudo. E talvez pudesse mesmo. No segundo dia, estavam juntos numa sala minúscula, revisando os materiais antigos para um novo folder. Laís estava lendo uma ficha técnica em voz baixa, sentada ao lado dele, quando se levantou para pegar um papel na bancada — e tropeçou nos próprios pés. Ela caiu de leve. Contra ele. Um choque de corpo rápido. Mas real. O ombro dela colou ao peito dele, e por um segundo, ele segurou sua cintura para evitar que caísse de vez. O corpo dela encaixou no dele como se o mundo tivesse sido feito para esse instante. Laís se afastou imediatamente, o rosto corado. — Desculpa. Eu sou estabanada desde sempre. — disse, apressada, tentando rir. Eduardo não respondeu de imediato. Estava ocupado demais tentando recuperar o ar. Os olhos dela estavam mais escuros agora. E os dele, cheios de fogo. Era um toque banal. Mas tudo entre eles estava à beira de deixar de ser banal. Nos dias seguintes, ele tentava manter o foco. Mas era impossível não notar como ela mordia o lábio quando se concentrava. Ou como sorria de lado quando alguém fazia uma piada idiota. Ele se perguntava se ela ainda pensava na última noite deles antes da mudança. No beijo não resolvido. Na distância que não foi só geográfica. E mais do que tudo… se agora, com os dois no mesmo lugar de novo, aquela história teria uma segunda chance.Laís A semana correu como um filme que finalmente aprende o próprio ritmo. O relatório preliminar da Controladoria virou definitivo — sem alterações dramáticas, apenas ratificando as recomendações e registrando, por escrito, a “mobilização cidadã exemplar em torno da ONG”. Nanda leu a frase em voz alta, sorriu com o canto da boca e guardou a folha numa pasta transparente, como quem coloca fotografia em álbum. — Não é selo de perfeição. — ela disse. — É licença para continuar. Continuamos. Lucas levantou um painel simples, colorido, com prazos e responsáveis. Rafaela organizou as caixas do arquivo físico como quem monta um mapa do tesouro. Gabriela iniciou uma série de postagens curtas — “Como ler um relatório público sem dor de cabeça” — e, de repente, até quem não gostava de ler começou a comentar. O Coletivo de Tecnologia Cívica nos enviou o laudo acessível sobre a montagem do vídeo falso, e a rádio local convidou Nanda para uma conversa mais longa sobre transparência. A cidade
Laís Os dias seguintes ao relatório foram de correria. A ONG parecia uma colmeia em plena atividade. As recomendações dos auditores viraram listas pregadas em murais, planilhas coloridas no computador de Lucas, lembretes na voz de Nanda. Gabriela preparava textos para as redes explicando cada etapa de adaptação, Rafaela organizava oficinas educativas sobre transparência, e Breno trazia notícias de bastidores como quem carrega água para apagar incêndio. Eu, entre pastas e reuniões, mal percebia a semana avançar. Até que Nanda entrou na sala com um papel na mão e um sorriso enviesado. — Laís, você foi convidada para participar de um programa de rádio local. Querem ouvir uma voz jovem, alguém que represente o trabalho de dentro. Vai ser ao vivo, sexta à noite. Meu estômago deu um salto. — Eu? Sozinha? — Não sozinha. — Nanda tranquilizou. — Eduardo vai com você, nos bastidores. E lembra: você não precisa ter todas as respostas. Precisa só falar a verdade. Sua verdade. O resto vem.
LaísA segunda-feira chegou com cheiro de papel novo e nervos velhos. O e-mail da Controladoria aterrissou às 08:14 com um título tão burocrático quanto ameaçador: “Relatório Preliminar – Visita Técnica”. O coração deu um pulo; meus dedos hesitaram um segundo antes de tocar na tela.Nanda nos reuniu na sala grande. As janelas abertas deixavam entrar o barulho da praça, e, na mesa, o café de tia Zuleica fumegava ao lado de um prato de broas. Eduardo chegou por último, encostou discretamente a mão nas minhas costas; foi o suficiente para eu lembrar de respirar.— Vamos lá. — disse Nanda, abrindo o PDF no projetor.A leitura começou seca, mas foi amolecendo ao longo dos parágrafos. Havia ali um retrato que não nos diminuía: “boa mobilização comunitária”, “processos transparentes em linhas gerais”, “comunicação acessível à população”. O alívio veio em ondas silenciosas, até que surgiram as recomendações: padronizar datas e versões de relatório; criar um protocolo de registro de voluntaria
Laís O dia seguinte à vistoria amanheceu abafado. O céu guardava nuvens pesadas, como se refletisse o peso que pairava sobre todos nós. Na ONG, o cheiro de café recém-passado se misturava ao nervosismo. Cada olhar dizia o mesmo: alívio, sim, mas também a ansiedade pelo relatório que viria. Era como estar entre o fim de uma tempestade e o início de outra. Eduardo foi o primeiro a chegar. Trouxe pão fresco da padaria e um sorriso determinado. — Café da manhã coletivo. — anunciou, tentando arrancar sorrisos. Colocou os pães na mesa e abraçou Nanda de surpresa. — Você foi gigante ontem. — disse. Ela sorriu de leve, mas seus olhos revelavam que a mente já estava na próxima batalha. Eu tentava respirar fundo, mas sentia o peito apertado. Eduardo percebeu, aproximou-se por trás e pousou a mão na minha cintura. — Vai dar tudo certo. — murmurou. — Nós já atravessamos tempestades piores. — O calor do toque dele me ancorou. *** Nanda convocou uma reunião logo cedo. Estávamos na sala grande
Laís O sol nasceu tímido, escondido atrás de nuvens claras. Mesmo assim, o calor da expectativa já pesava no ar. A ONG estava em polvorosa desde as sete da manhã. Pilhas de pastas cuidadosamente revisadas se espalhavam pelas mesas, o café de tia Zuleica exalava aroma forte na cozinha, e o mural na entrada, reforçado com novas cores, brilhava como bandeira de resistência. Tudo parecia ensaiado, mas por dentro todos tremiam. Eu caminhava pelos corredores tentando respirar fundo. Sentia a tensão pairar em cada olhar, em cada gesto. Não era apenas uma visita técnica. Era um teste de credibilidade, a chance de provar que não tínhamos nada a esconder. Eduardo percebeu meu nervosismo e se aproximou devagar, pousando a mão na minha cintura. — Vai dar tudo certo. — disse, com a voz baixa. — Nós já atravessamos tempestades piores. Assenti, tentando acreditar tanto quanto ele. *** Às nove em ponto, uma caminhonete preta estacionou em frente à ONG. Dois auditores desceram: uma mulher de ca
Laís Acordei com o celular vibrando sem parar. Três chamadas perdidas de Rafaela, duas mensagens de Gabriela, uma de Lucas com um link e o aviso: “Não abre sozinha”. O coração desandou antes dos passos. Abri assim mesmo. Um vídeo curto, cortes secos, minha imagem em close no pátio da ONG. A legenda gritava: “ELA ADMITE: É TUDO MANIPULAÇÃO”. No áudio, minha voz — só que costurada para dizer o oposto do que falei semanas atrás: “a melhor mentira é… simples”. O resto, amputado. A montagem era tosca, mas eficaz. Eduardo, ainda com a voz de sono, sentou na cama. — O que aconteceu? Mostrei a tela. Ele assistiu e ficou vermelho. Fechou os punhos, respirou fundo, e depois me puxou para um abraço que segurou meu corpo antes que o pânico me tomasse. — A gente vai resolver. Juntos. *** A sala da ONG virou gabinete de crise. Nanda estava com o cabelo preso alto e os olhos afiados. Lucas abriu o notebook em cima da mesa. — Postaram de madrugada, 03h17. Perfil novo, sem foto, mas a replicação







