LOGINBranca
O mundo desabou de vez.
As mãos começaram a tremer antes mesmo que eu percebesse. O peito apertou como se alguém estivesse esmagando meu coração por dentro, e o ar simplesmente não entrava direito. O monitor ao meu lado começou a apitar mais rápido, denunciando o que eu já sentia.
BrancaAcabei de fazer 80 anos.Sentada na minha velha espreguiçadeira, no jardim da casa que Cássio e eu construímos há uma vida inteira, observo a luz dourada do fim da tarde escorrer entre as árvores. O vento balança os galhos com delicadeza, trazendo o perfume doce do jasmim que plantei quando Aelyn ainda era uma menininha correndo descalça pelo quintal.Às vezes parece que foi ontem. Outras vezes, parece que vivi mil vidas.Ao meu lado, sobre a mesinha de madeira, fotografias antigas contam nossa história sem precisar de palavras. Rostos sorridentes. Abraços congelados no tempo. Instantes que se recusaram a desaparecer.O amor. As perdas. Os recomeços.Passo os dedos sobre uma das fotos e sinto o peito apertar com uma ternura antiga.Lembro do dia em que perdi meu Pedro. A dor foi tão profunda que pensei que nunca mais conseguiria respirar sem ela. Mas a vida, com sua teimosia generosa, encontrou um jeito de me devolver um pedaço dele.Então Aelyn chegou.Primeiro como a garotinh
SophiaUm ano e oito meses haviam se passado desde que tudo começou a se ajeitar.Eu tinha finalmente decidido: queria estudar Arquitetura. Entrei na faculdade, mergulhei nos estudos e descobri que era exatamente o que eu amava. Agora, estava de férias, e a família toda resolveu fazer uma viagem para celebrar a vida que tínhamos reconstruído. Escolhemos uma praia paradisíaca na Flórida, areias brancas, mar turquesa, coqueiros balançando com a brisa. Um lugar que parecia saído de um sonho.Rangel conseguiu férias no mesmo período e veio com a gente. Ele e Felipe agora se davam bem de verdade. Meu irmão ainda fazia cara feia de vez em quando, mas via o quanto Rangel me fazia feliz e, aos poucos, foi aceitando.Meu pai, que também tinha sua implicância, tinha aceitado mais cedo meu namoro, do que meu irmão ciumento. Mesmo com todos os problemas que ele tinha, mais o filho pequeno e a esposa em recuperação, ele adorava dar palpite no meu namoro."Aqui é lindo." Sussurrei e Rangel me olhou
FelipeDois meses haviam se passado desde que saímos do hospital.Dois meses de recuperação lenta, de noites acordados com Pedro, de Aelyn ganhando forças dia após dia. Hoje, finalmente, era o dia do nosso casamento.O jardim que escolhemos era pequeno, íntimo, perfeito. O sol das cinco da tarde pintava tudo de dourado suave, filtrando entre as árvores e iluminando as flores brancas, rosas claras e detalhes em amarelo pálido que decoravam o espaço. Nada exagerado. Nada grandioso. Apenas nós, nossa família e o amor que quase perdemos.Eu estava parado na frente do pequeno altar de madeira rústica, o coração batendo forte. André, meu pai, estava ao meu lado, com a mão no meu ombro."Respira, filho. Ela vai aparecer."Eu sorri nervoso, ajustando a gravata pela décima vez."Eu sei. Mas… depois de tudo que passamos, parece que, se eu piscar, ela some."Ele apertou meu ombro com carinho."Ela não vai sumir. Ela nunca faria isso com você. Finalmente vocês estão realizando o sonho de vocês. F
AelynEu ainda estava fraca, mas acordada.A notícia se espalhou rápido. Em menos de uma hora, o quarto da UTI estava cercado pela minha família inteira. Meus pais, Laís e André, Serena, Sophia, Rangel… todos ali, com os olhos vermelhos e sorrisos trêmulos.A Dra. Helena entrou acompanhada de uma enfermeira, olhando para todos com um sorriso cansado, mas aliviado."A Aelyn está se recuperando bem. Os sinais vitais estão estáveis. Vamos transferi-la para um quarto comum em breve, mas ainda vamos mantê-la em observação rigorosa por mais alguns dias."Todos soltaram suspiros de alívio. Minha mãe apertou minha mão, chorando baixinho."Graças a Deus, minha filha… Graças Deus."A médica hesitou por um segundo, olhando para mim e para Felipe."Preciso falar sobre algo importante." Ela respirou fundo. "Durante a cesariana de emergência, Aelyn sofreu uma hemorragia muito grave. O coração dela quase não suportou a gravidez. Quando a hemorragia começou, o organismo entrou em colapso. Conseguimo
AelynQuando abri os olhos, o mundo estava embaçado.A primeira coisa que senti foi o peso no peito, não mais aquela dor sufocante, mas uma fraqueza profunda, como se meu corpo tivesse lutado uma guerra e finalmente rendido as armas. Pisquei devagar. As luzes eram suaves, os bips dos aparelhos constantes. UTI. Eu reconheci o cheiro de antisséptico e o som distante de monitores.Três semanas. Foi o que me disseram depois. Três semanas entre a vida e a morte, entrando e saindo de um sono pesado, enquanto meu coração lutava para continuar batendo.Virei a cabeça devagar e lá estava ele.Felipe.Sentado na poltrona ao lado da cama, inclinado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto enterrado nas mãos. Ele estava… destruído. Tinha perdido muito peso. As olheiras eram profundas, quase roxas. A barba estava grande, o cabelo bagunçado. Ele parecia ter envelhecido anos em poucas semanas.Meu coração, que parecia estar reaprendendo a bater, apertou de um jeito completamente dife
FelipeDepois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, dois enfermeiros nos orientaram com uma gentileza quase cruel:"Vamos levá-los para a ala de espera da família. É mais confortável. Vocês poderão ficar lá enquanto aguardamos notícias."Eu mal conseguia andar. Meus pés pareciam pesados, como se o chão quisesse me puxar para baixo. Eles nos guiaram por um corredor longo e frio até uma sala reservada com sofás gastos e uma máquina de café que ninguém ousava tocar. Eu me sentei por dois segundos e levantei novamente. Andava de um lado para o outro como um animal enjaulado, as mãos na cabeça, o peito tão apertado que cada respiração doía.O tempo não passava. Cada segundo era uma agonia lenta, uma faca girando no estômago. Eu imaginava Aelyn sozinha naquela sala, pálida, lutando por ar, lutando por vida. E eu aqui, inútil, esperando.Finalmente, depois de quase três horas infernais, a Dra. Helena apareceu na porta, o rosto sério. Todos se levantaram de uma vez."Ela está estáve







