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CAPÍTULO 2

last update Data de publicação: 2026-06-11 02:59:19

O som seco do disparo ecoou pelo campo de treinamento. Alvo atingido. Bem no centro. Isabelly não piscou. Não comemorou. Não respirou aliviada. Apenas abaixou a arma com precisão milimétrica, como se aquilo fosse… nada.

— Impressionante… como sempre.

A voz masculina veio atrás dela. Isabelly não se virou de imediato. Sabia exatamente quem era.

— Você devia tentar errar de vez em quando. Continuou ele. — Só pra parecer humana.

Isabelly finalmente olhou por cima do ombro. Fria. Controlada. Indecifrável.

— E você devia parar de falar tanto. Respondeu, seca. — Só pra parecer inteligente.

O agente Henrique Motta sorriu de lado.

— Ainda charmosa.

— Ainda inútil.

Silêncio. Ele suspirou, cruzando os braços.

— Reunião em cinco minutos. Caso novo. Crime organizado.

Isabelly já estava caminhando antes mesmo dele terminar a frase. Sem pressa. Sem hesitação. Como alguém que já sabia exatamente o que encontraria.

A sala de briefing estava cheia. Agentes experientes. Olhares atentos. Expectativa. Mas quando Isabelly entrou… o ambiente mudou. Não era respeito. Era algo mais próximo de cautela. Talvez até medo. Isabelly se sentou, cruzando as pernas, postura impecável. Sem trocar olhares. Sem socializar. Sem existir além do necessário. O diretor iniciou:

— Temos movimentação de uma rede de alto nível. Tráfico, lavagem de dinheiro, execuções…

Isabelly observava tudo em silêncio. Analisando. Absorvendo. Calculando.

— Esse grupo atua há anos sem deixar rastros consistentes. Extremamente organizado. Extremamente limpo.

Um leve movimento no olhar dele. Interesse.

— Precisamos de alguém que pense como eles. Que antecipe movimentos.

Pausa. O diretor olhou diretamente para Isabelly.

— Precisamos de você.

Isabelly não respondeu. Não precisava.

***

Dois dias depois, Isabelly estava sozinha na sala de análise. Fotos espalhadas, relatórios, nomes, datas, mortes. Isabelly andava de um lado para o outro, como um predador estudando o território. Parou diante de uma imagem. Um corpo. Execução limpa. Sem bagunça. Sem erro. Sem emoção. Seu olhar mudou. Quase imperceptível. Mas mudou.

— Sempre o mesmo padrão…  Seria ele? Murmurou.

Alguém entrou. Fran Maroto falou assim que a viu.

— Sabia que ia te encontrar aqui.

Isabelly não se virou.

— Então veio perder tempo.

— Vim te avisar.

Isabelly finalmente olhou. Era seu superior direto. Ele estava sério. Mas cansado, parecia preocupado.

— Você está se aproximando demais disso.

— Isso é o meu trabalho.

— Não.  Ele deu um passo à frente. — Isso está se tornando pessoal.

Houve um silêncio pesado.

— Já faz anos. Ele continuou. — Você precisa deixar esse caso...

A voz dela cortou o ar, fria, definitiva.

— Eu não deixo pendências.

— Eu sei que foram eles que mataram sua família. Maroto disse, mais baixo agora. — Mas isso não te dá o direito de...

Ela o interrompeu bruscamente.

— Me dá motivo.

Os olhos de Isabelly cravaram nos dele. Sem emoção, sem dor visível. Mas havia algo ali, algo muito perigoso.

— Olha só chefe, eu não estou pedindo justiça. Ela deu uma pausa — Estou terminando o que começaram.

O Maroto passou a mão no rosto.

— Isso vai te destruir.

Isabelly inclinou levemente a cabeça. Quase curiosa.

— Já tentou, mas não conseguiu.

— Você está fora do caso Isabelly. Disse ele.

Houve um breve silêncio entre eles. Maroto a tirou do caso, mas sabia de uma coisa: aquela mulher na frente dele… Não era mais a criança que sobreviveu. Era algo moldado pela dor. Aperfeiçoado pela obsessão. E movido por um único objetivo. Vingança. E ele a conhecia o suficiente para ter certeza disso.

***

Horas depois, já em seu apartamento, o ambiente era exatamente como Isabelly:

Organizado, minimalista, frio, sem lembranças, sem passado. Exceto por uma coisa. Uma caixa, guardada, escondida, intocável… quase sempre.

Isabelly hesitou por um segundo, mas abriu. Dentro, havia apenas alguns itens. Fotos antigas, um objeto quebrado e um desenho infantil. Era uma casa rabiscada com lápis de cor, uma família de mãos dadas ao lado de uma casa enorme. E uma figura… do lado. Alta, escura e sem rosto.

Isabelly passou os dedos sobre o papel com a respiração controlada. Olhou firme.

— Eu ainda estou aqui… Sussurrou — E eu não esqueci.

Ela fechou a caixa com cuidado. Como se estivesse selando algo, ou preparando. Porque, no fundo… Isabelly sabia, estava cada vez mais perto do assassino. E dessa vez… ele não sairia limpo.

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Último capítulo

  • DORMINDO COM O INIMIGO   CAPÍTULO 75

    Duas semanas haviam passado. Quatorze dias. Quatorze amanheceres. Quatorze noites longas demais.E, ainda assim, para Isabelly, parecia que tudo havia acontecido apenas algumas horas antes.A operação que derrubou a organização de Pakeers tornou-se manchete internacional. Empresas foram fechadas. Contas bilionárias congeladas. Políticos, empresários e assassinos foram presos em diversos países. Segredos que permaneceram enterrados por décadas finalmente vieram à tona. Nomes poderosos caíram. Impérios ruíram. Famílias inteiras perderam privilégios construídos sobre sangue. O mundo comemorava. A imprensa chamava aquilo de vitória.Mas Isabelly não conseguia enxergar daquela forma. Porque toda vez que fechava os olhos, não via manchetes. Não via prisões. Não via justiça. Via Adrian.***Pakeers desapareceu. Alguns relatórios afirmavam que ele havia sido morto durante a fuga. Outros garantiam que ele escapara usando documentos falsos e uma nova identidade. Havia até quem dissesse que ele

  • DORMINDO COM O INIMIGO   CAPÍTULO 74

    Adrian não esperou nem mais um segundo. Assim que as portas do elevador se fecharam diante dele, alguma coisa dentro de si simplesmente se rompeu. Ele não podia deixá-la partir daquele jeito. Não depois de tudo. Não depois da verdade. Não depois de finalmente admitir os próprios crimes. Não depois de confessar o que sentia.Sem pensar, saiu correndo pelo corredor. Empurrou a porta que dava para as escadas. Os degraus pareciam intermináveis. Seu coração batia descontrolado. A respiração queimava em seus pulmões. Mas ele continuou. Precisava alcançá-la. Precisava vê-la uma última vez. Precisava fazê-la entender.Quando finalmente chegou ao saguão do edifício, avistou Isabelly próxima à enorme porta de vidro que dava acesso à rua. Ela estava prestes a sair. Prestes a desaparecer de sua vida.— Isabelly!A voz ecoou pelo ambiente. Ela parou. Mas não se virou imediatamente. Adrian aproximou-se rapidamente. Ofegante. O peito subindo e descendo com esforço. Os cabelos desalinhados. Os olhos

  • DORMINDO COM O INIMIGO   CAPÍTULO 73

    O escritório permaneceu mergulhado em um silêncio sufocante. As últimas palavras de Adrian ainda pareciam ecoar pelas paredes. O erro. A missão. A família errada. A confissão. Tudo aquilo girava dentro da mente de Isabelly como uma tempestade impossível de controlar.Ela permanecia imóvel, ajoelhada no chão, enquanto lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto. Adrian também não se movia. Havia dor em seus olhos. Arrependimento. Mas nada daquilo era capaz de apagar o que ele havia feito.Nada. Absolutamente nada. Foi então que duas batidas suaves interromperam aquele momento.Os dois estremeceram. Nenhum deles teve tempo de reagir. A porta se abriu.— Pai? Você está aí?A voz alegre de Clara atravessou o ambiente. Ela entrou sorrindo. Mas o sorriso desapareceu no instante seguinte. Seus olhos passaram de Adrian para Isabelly. Confusão surgiu imediatamente em seu rosto.— Isa?Ela caminhou para dentro do escritório.— Você está aqui!Por um breve instante, Clara voltou a sorrir. Aprox

  • DORMINDO COM O INIMIGO   CAPÍTULO 72

    Adrian respirou profundamente antes de continuar. A voz saiu rouca. Carregada por um peso que ele carregava havia anos.— Mas naquela noite... antes de ir embora... quando vi você escondida...Ela ergueu os olhos imediatamente.— Você me viu?— Vi.As lágrimas desceram pelo rosto dele.— Eu vi você.Isabelly sentiu o mundo girar. Durante anos acreditou que ninguém soubera que ela estava lá. Durante anos acreditou ter sobrevivido por acaso. Mas não. Adrian a tinha visto.— Então por que eu estou viva?A pergunta saiu quase num sussurro. Adrian demorou vários segundos para responder.— Porque eu não consegui.Ela o encarou sem compreender.— O quê?— Eu não consegui matar você.A voz dele quebrou.— Era uma criança.O silêncio voltou. Pesado. Asfixiante.— Você estava escondida dentro do armário no corredor. Tremendo de medo.Ele fechou os olhos.— E quando nossos olhares se encontraram... eu simplesmente não consegui puxar o gatilho. Aquele instante eu lembrei da minha filha Clara, o q

  • DORMINDO COM O INIMIGO   CAPÍTULO 71

    Isabelly sabia exatamente o que precisava fazer. Ou talvez não soubesse. Talvez estivesse apenas correndo contra o inevitável.Depois de ouvir o depoimento de Ane, depois de descobrir que Adrian havia salvado sua vida, depois de compreender que ele impedira Yara de concluir a execução, algo dentro dela entrou em conflito.As peças finalmente se encaixavam. Mas, ao mesmo tempo, nada fazia sentido. O homem que protegia testemunhas era o mesmo homem acusado de matar inocentes. O homem que a fazia sentir-se segura era o mesmo homem que carregava sangue nas mãos. O homem que ela amava... Era o homem que havia destruído sua vida.Mesmo assim, precisava ouvir a verdade da boca dele. Precisava encará-lo. Precisava saber tudo. Sem intermediários. Sem relatórios. Sem testemunhas. Sem retratos falados. Apenas os dois.Ela se despediu de Ane, garantindo que agentes permaneceriam de guarda no corredor. Em seguida saiu do hospital.Assim que atravessou as portas automáticas, a chuva fina da manhã a

  • DORMINDO COM O INIMIGO   CAPÍTULO 70

    Horas mais tarde, o movimento no corredor do hospital havia diminuído consideravelmente. A correria dos médicos dera lugar a um silêncio quase incômodo, interrompido apenas pelo som distante de monitores cardíacos e passos ocasionais de enfermeiros.Isabelly continuava sentada ao lado da janela do quarto de Ane. O cansaço pesava sobre seus ombros. A noite em claro. A investigação. As descobertas. Os segredos. Tudo parecia esmagá-la lentamente.Foi então que ouviu um leve movimento vindo da cama. Imediatamente se levantou. Ane estava despertando. Os olhos da mulher abriram-se lentamente, ainda confusos por causa dos medicamentos e da cirurgia. Ela piscou algumas vezes, tentando se situar.— Ane?A mulher virou o rosto devagar. Quando reconheceu Isabelly, pareceu relaxar.— Você conseguiu...A voz saiu fraca. Quase um sussurro.— Sim. Você está segura agora.Ane permaneceu alguns segundos em silêncio. Como se estivesse reunindo forças. Então respirou fundo.— Preciso contar o que aconte

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