Início / Romance / De Freira a Babá / Mentiras expostas

Compartilhar

Mentiras expostas

Autor: Sasa Roand
last update Data de publicação: 2025-12-08 19:23:43

Era trinta e um de outubro; o dia do aniversário de dezoito anos de Alana. Finalmente teria a maioridade e, na verdade, nem sabia por que desejava tanto aquilo; afinal, não importava se tinha dezoito ou noventa e oito anos — tudo continuaria igual para ela. Nunca sairia do convento, exceto para fazer as compras do mês, realizar algum trabalho de caridade ou participar de um almoço social entediante.

Ela esfregava o chão no escritório da madre Heloísa. Ouviu vozes que se aproximavam, soando preocupadas. A curiosidade lhe picou como um mosquito. Pegou o balde e o empurrou para debaixo da escrivaninha, colocou o esfregão em um canto e correu para se esconder ao lado do balde de água. A porta se abriu.

— Acho que você está exagerando, Marilda — sussurrou a madre Heloísa.

— Não estou exagerando! — gritou a irmã Marilda aos quatro ventos.

— Feche a porta, por favor, e abaixe a voz, por Deus! Quer que todo o convento nos ouça? — explique-me direito o que foi que você viu.

— Já te disse, Heloísa. Aquele homem, Dante Marroquim, estava falando com ela. E não era qualquer coisa. Alana estava branca como uma hóstia, e acho que vi lágrimas querendo cair.

Estavam falando dela, do que havia acontecido no supermercado. Alana não sabia que a irmã Marilda tinha dado tanta importância ao assunto.

— Mas… — a madre Heloísa fez uma pausa — você disse que foi o mais jovem; o bonito.

— Tanto faz qual tenha sido, Heloísa, é um Marroquim, e ele a viu, a viu e falou com ela. E se eles sabem onde ela está?

— Já te disse que pode ter sido coincidência. Dante Marroquim era uma criança quando tudo aconteceu, não creio que tenha nada a ver com isso. Nem acho que saiba de alguma coisa.

— E se estiverem usando ele para procurar Alana? E se ele quiser matar Alana como matou Fernanda?

Um nó se formou na garganta de Alana. Sentiu os pensamentos embaralharem, e de repente voltou a ser a menina pequena que acordava com os choros das irmãs no convento, a garotinha que caminhava pelos corredores sob os olhares piedosos das freiras que iam e vinham… a criança que entrou naquele mesmo escritório tantos anos atrás para receber a notícia de que sua mãe havia sido atropelada por um motorista bêbado.

— Rafael Marroquim não sabe da existência de Alana. Para ele, no dia em que matou Fernanda, naquele mesmo dia eliminou todas as provas que o associavam ao tráfico de mulheres. Ele não faz ideia de que as fitas estão aqui.

— Não, ele não faz ideia… mas se descobrisse que Alana existe e que vive no convento, o que acha que ele pensaria?

— Saberá que Fernanda deixou a filha no mesmo lugar onde deixou as fitas.

Alana estava furiosa. Saiu de debaixo da escrivaninha sem se importar com nada. A madre Heloísa e a irmã Marilda arregalaram os olhos assim que a viram.

— Alana, não é o que você está pensando, querida — disse a irmã Marilda.

— Vocês mentiram para mim! — sentenciou Alana. — Mentiram para mim e eu acreditei como uma tola! — as lágrimas desciam por seu rosto. — Aposto que também sabem quem é meu pai e nunca me disseram só para eu ficar aqui, presa, neste lugar horrível. Eu odeio vocês! Odeio todas vocês! — disse, imaginando que não só aquelas duas sabiam a verdade. — Vocês mentiram e vão para o inferno por isso!

Saiu do escritório dando um forte portazo. Correu até seu quarto e fechou a porta atrás de si, mas um pensamento louco cruzou sua mente: precisava sair dali. Precisava abandonar aquele lugar e nunca mais voltar. Não suportava a ideia de ter sido enganada por toda a vida, e não queria ficar perto daquelas pessoas nem mais um minuto.

Abriu a porta devagar para ver se não a haviam seguido. O corredor estava vazio.

Caminhou até o claustro. As irmãs que cuidavam do jardim estavam se retirando, algumas conversavam perto da fonte. Alana pegou uma vassoura e fingiu que varria. Quando todas estavam distraídas, correu até a saída. Ainda não haviam colocado o cadeado no portão, então conseguiu sair sem problemas.

Caminhou até seus pés doerem. Não sabia para onde ia, mas queria se afastar o máximo possível do convento e nunca mais voltar. A noite havia caído, fazia frio, ela estava sozinha e apavorada — mas, mesmo assim, uma sensação de liberdade a invadiu.

Não sabia o que faria. Entrou por uma rua e depois por outra, e começou a notar crianças vestidas de maneira muito estranha, indo de um lado para outro. Algumas meninas usavam vestidos brilhantes e chamativos; alguns meninos usavam armaduras como cavaleiros medievais, outros pareciam futurísticos, com roupas de robôs.

E não eram só as crianças — alguns adultos também estavam vestidos de forma esquisita. Um rapaz musculoso tinha o corpo inteiro pintado de verde e usava apenas um short roxo. Alana não entendia nada.

Havia uma mulher vestida de freira, mas quando Alana viu seu rosto segurou com força o colar com a cruz em seu pescoço — a mulher estava pálida, com olheiras terríveis e sangue escorrendo da boca. Parecia um demônio vestido de monja.

As pessoas tinham enlouquecido. Alana pensou em voltar ao convento, até que ouviu uma voz atrás dela.

— Adorei sua fantasia! — Alana virou-se. Era uma mulher acompanhada de um garotinho vestido com um macacão vermelho e azul que parecia plástico brilhante. O menino jogou nela uma coisa branca que parecia teias de aranha. — É muito realista, até seu rosto é angelical, como o de uma verdadeira freira.

A mulher usava um vestido preto justo que mal cobria as pernas. Alana ficou alarmada com o quanto aquilo mostrava. Ela também tinha um decote enorme e um chapéu pontudo sobre a cabeça; debaixo dele caíam mechas de cabelo preto muito brilhante.

— Minha… fantasia? — perguntou Alana confusa.

— Sim, sua fantasia de freira. Eu adorei — disse a mulher. — Mas não é meu estilo, eu prefiro ser uma bruxa sexy. — A mulher deu uma volta e as bochechas de Alana queimaram. — Vamos, Leo. Vamos pedir doces naquela casa — disse ao menino da teia de aranha.

— Eu posso… — a voz de Alana saiu como um sussurro. Ela pigarreou. — Posso ir com vocês? É que… eu não sei o que tenho que fazer. É a primeira vez que faço isso.

— Claro! — disse a mulher, sorrindo. — Eu sou Samara, muito prazer.

— Eu sou Alana.

— Vamos, Alana, vou te mostrar todas as maravilhas do Halloween. Mas não agora… primeiro vamos pedir doces com o Leo e… — Samara tirou um celular de dentro do decote e olhou rapidamente. — Mais meia hora. Depois vamos deixá-lo com a babá e sair para comemorar o Halloween como as meninas grandes comemoram.

Alana apenas assentiu.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • De Freira a Babá   Não mexa com a minha família

    Rafael Marroquin ficou ali, sem saber o que dizer ou fazer. Estava paralisado pela raiva, pelo medo, ou por uma mistura cruel dos dois.—Senhor… —uma vozinha aguda se ergueu atrás dele.Rafael se virou para ver de quem se tratava. A mulher loira e magra o encarava com pena. Aquilo o deixou ainda mais irritado.—Acho que o senhor deveria ir embora —acrescentou.Rafael assentiu com a cabeça.O caminho de volta para casa pareceu interminável. Depois de quebrar a cabeça tentando entender como o maldito do Zacary Lincoln tinha conseguido aquelas provas, passou a pensar em possíveis soluções para toda aquela merda que tinha desabado sobre ele. A única forma de se livrar de Zacary Lincoln era recorrendo a Di Auguro. Rafael soltou um suspiro pesado ao considerar essa possibilidade. Pedir um favor a Di Auguro naquele momento não era nada conveniente.Rafael sabia muito bem que, ao entrar no mundo do narcotráfico, ao sujar as mãos com toda aquela imundície, só existe uma forma de sair: dentro d

  • De Freira a Babá   Visita do além 👻🚪🌫️✨

    Para Constança, chegar em casa ao final do dia era uma tortura. Sua casa não era qualquer coisa: era cheia de luxo e conforto. Qualquer pessoa ficaria feliz em chegar a um lugar assim depois de um dia de trabalho árduo, mas Constança odiava cada canto; aquelas paredes frias que pareciam se inclinar sobre ela até esmagá-la, o som alto dos rangidos que seus passos arrancavam do chão, eram um sinal inevitável de que aquele lugar estava tão vazio quanto ela.Soltou um suspiro antes de abrir a porta. Percorreu o corredor até a sala e, ao chegar, deixou cair a bolsa de grife e tirou os sapatos, deixando-os ali, no meio da sala, sobre o tapete cinza que cobria o chão. Foi até a cozinha, pegou uma garrafa de vinho e também uma taça em um dos armários suspensos, mas não a usou; bebeu direto da garrafa.Abriu uma gaveta: estava cheia de maços de cigarro. Havia parado há muito tempo, mas quando Isabela Duarte faleceu, voltou ao vício. Não conseguia dormir sem antes fumar alguns cigarros e beber

  • De Freira a Babá   Desejo 🔥❤️‍🔥✨

    A volta para casa foi estranha; silenciosa, mas alegre. As roupas de Dante e Alana estavam encharcadas. Ela morria de frio, mas uma sensação de calor apertava seu peito. Eram nervos — como quando ia às compras e passava perto de um grupo de rapazes, como aquele bater acelerado do coração quando o coroinha bonito da missa lhe sorria. Era tudo isso… e ainda mais. Intenso. Absoluto.Alana mantinha o olhar fixo na janela. Não conseguia apreciar a paisagem da cidade; as gotas de chuva embaçavam o vidro. Ainda assim, não desviou os olhos por um segundo. Não queria olhar para Dante. Tinha vergonha de encará-lo por muito tempo e que ele percebesse aqueles sentimentos que começavam a emergir.— Vocês deveriam tirar essas roupas o quanto antes — disse Luz assim que o carro estacionou diante da entrada da casa. — Tomem um pouco de sopa quente — balançou a cabeça. — Parecem duas crianças.Dante e Alana se entreolharam e riram. O motorista abriu a porta segurando um guarda-chuva, mas Luz tomou o o

  • De Freira a Babá   Gotas de chuva 🌧️💧

    Dante deu meia-volta. Isabela, Constança e Luz haviam ido atrás dele e o observavam intrigadas.— Entendo que você não consiga lidar com o seu luto — disse Constança. As bochechas de Alana arderam ao ouvi-la falar daquele jeito com Dante. Ela não entendia por que precisava ser tão cruel. — Nem todos são fortes, mas, por favor, não assuste os meus convidados.— Aquela mulher era sua convidada? — perguntou Dante, apontando para a entrada. Não havia ninguém ali.— Era — respondeu Constança, sem qualquer emoção na voz. Alana sentia por ela uma mistura de admiração e medo. Constança usava um conjunto cor de vinho: saia longa até a metade das panturrilhas, blusa branca de tecido sedoso e um blazer ajustado na cintura com botões dourados. — Até você a espantar.Ela falava com Dante, mas não o encarava; seu olhar parecia perdido no vazio.— Quem é ela? — Dante se aproximou de Constança, respirando com força. Parecia sair vapor de suas narinas, e Alana teve a impressão de que ele poderia machu

  • De Freira a Babá   Fantasma 👻🌫️🖤

    Dante virou-se e lançou um olhar ao redor. Em outras circunstâncias, teria ido atrás da senhorita Duarte e a colocado em seu devido lugar por abusar daquela forma, mas pensou no que ela pensaria dele e tentou se controlar. Soltou um suspiro de alívio ao ver o caderno jogado no chão. Pegou-o e ficou alguns instantes contemplando-o.NO DIA SEGUINTEEram seis horas, seis em ponto da tarde, e Dante já havia trocado de roupa três vezes. Não sabia o que vestir para seu encontro falso com Isabela Duarte; ela não lhe dera detalhes sobre para onde iriam, não sabia se seria um lugar formal ou informal, se deveria usar um terno ou jeans.Ele não sabia praticamente nada sobre Isabela. Pensou que precisava descobrir um pouco mais a seu respeito, talvez encontrar alguma pista sobre o lugar para onde ela queria que a acompanhasse. Sentou-se na beira da cama e pegou o celular da mesa de cabeceira. Procurou Isabela Duarte nas redes sociais. Isabela não tinha conta no Facebook, Instagram, Twitter… era

  • De Freira a Babá   Açúcar amargo 🍬💔🖤

    —NÃO, é claro que não vou me cobrir —disparou Dante Marroquin.Ele não estava irritado, estava surpreso com a reação da senhorita Isabela Duarte. Menos de uma hora antes, ela o havia beijado nos lábios, e agora estava constrangida por vê-lo semidespido.Ele estava fascinado por aquela garota doce e, ao mesmo tempo, audaciosa, que usava um vestido estampado de flores e sapatos de senhora. As bochechas dela tinham ficado vermelhas de repente. Era uma mulher adulta reagindo como uma menina. Aquilo era tão estranho quanto irresistível.—Por favor, cubra-se! —implorou, sem olhá-lo.Ela deixou a rosa e o diário sobre a penteadeira e caminhou a passos largos até a cama.—A senhorita entrou no meu quarto sem bater. Não pode vir me dando ordens —ele disse, mas ela ignorou completamente. Apenas pegou o lençol da cama e o atirou sobre ele.Dante não conseguiu conter o riso.—Nunca viu um homem nu?Ele nem estava totalmente nu; uma toalha o cobria da cintura para baixo. Quando Dante fez a pergunt

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status