MasukEle ouviu sirenes se aproximando e abriu os olhos novamente. Não sabia quanto tempo havia passado lamentando sua situação sem tentar fazer nada a respeito, mas tinha sido tempo suficiente para que alguém chamasse o resgate.
Os paramédicos abriram o carro e, depois de avaliá-lo, o retiraram. Dante observou enquanto tiravam Luz e a levavam em uma maca.
— Vou com minha filha — disse ele, afastando a mão do paramédico que tentava limpar seu rosto.
O paramédico revirou os olhos discretamente e deu de ombros. Dante caminhou com dificuldade até a ambulância, fez sinal antes que fechassem a porta traseira e o deixaram subir.
Lá dentro estava Luz. Seu pequeno corpinho jazia sobre a maca; ela usava um colar cervical e, ao lado, um paramédico colocava uma linha intravenosa.
— Acho que esse caderno salvou a vida da sua filha — disse o jovem de macacão azul-marinho e colete verde fluorescente.
Dante sabia que o que o rapaz dizia fazia sentido, mas admitir aquilo significava aceitar que tinha deixado as correias da cadeirinha soltas — e isso o tornava o pior pai do mundo. Ele sabia que não era um bom pai, mas aquilo superava até seu próprio recorde. Abriu o caderno em uma página aleatória e semicerrou os olhos para focar nas letras.
“Minha alma deixou meu corpo no dia em que a sua deixou a terra.
Ele secou uma lágrima antes que caísse. Olhou de lado para o paramédico para garantir que ele não tivesse visto. Fechou o caderno e o colocou debaixo do braço. Achou que quem havia escrito aquilo, mesmo sem técnica ou estética, descrevia exatamente como se sentira nos últimos três anos.
Dante estava sentado na sala de espera, com os cotovelos apoiados nas pernas e a cabeça entre as mãos entrelaçadas como em oração — embora não orasse. Havia parado de rezar, de orar, de acreditar. Acreditava em Deus, mas estava zangado com Ele. Havia implorado de joelhos para que levasse sua vida em vez da de Mirella; prometera doar todas as suas riquezas aos pobres se Ele devolvesse a vida de sua esposa; chegou até a assinar um cheque para um convento que ajudava pessoas sem lar. Jurou a um Deus a quem nunca havia dirigido uma palavra que, se Mirella vivesse, entregaria o cheque sem reclamar. Mas aquele Deus egocêntrico se recusou a ouvi-lo. Por que ouviria seus pedidos por Luz? Não perderia tempo com um Deus insensível ao seu sofrimento.
— Senhor Marroquín? — a voz grave fez com que ele se levantasse de um salto, como se tivesse levado um choque. — Sua filha está bem. Está fora de perigo.
As lágrimas vieram imediatamente. Desde que ouviu “coluna” e “capacidade motora”, sentiu vontade de chorar. Levou as duas mãos à cabeça, respirou fundo e tentou controlar a raiva e a impotência. Secou as lágrimas e perguntou:
— O dano será permanente?
Pela primeira vez em muito tempo, Dante aceitou uma recomendação que não queria aceitar. E o fez sem discutir. Pegou o caderno que trazia desde que saiu da ambulância e caminhou até a saída. Antes de atravessar as portas automáticas, viu um rosto conhecido.
— Rafael! — disse com alívio. O homem se aproximou e o abraçou.
Caminharam para fora, e Dante viu o carro de Rafael estacionado na vaga para deficientes.
— Ah, não. Claro que não, Dante. Você não vai beber — repreendeu-o.
Entraram no carro.
Rafael apenas baixou o olhar. Dante notou a barriga grande do irmão, inconcebível para um policial.
— Ei, irmão, preciso de um favor — disse Dante, abrindo o caderno de Alana na primeira página. — Preciso que encontre uma pessoa.
Rafael Marroquin ficou ali, sem saber o que dizer ou fazer. Estava paralisado pela raiva, pelo medo, ou por uma mistura cruel dos dois.—Senhor… —uma vozinha aguda se ergueu atrás dele.Rafael se virou para ver de quem se tratava. A mulher loira e magra o encarava com pena. Aquilo o deixou ainda mais irritado.—Acho que o senhor deveria ir embora —acrescentou.Rafael assentiu com a cabeça.O caminho de volta para casa pareceu interminável. Depois de quebrar a cabeça tentando entender como o maldito do Zacary Lincoln tinha conseguido aquelas provas, passou a pensar em possíveis soluções para toda aquela merda que tinha desabado sobre ele. A única forma de se livrar de Zacary Lincoln era recorrendo a Di Auguro. Rafael soltou um suspiro pesado ao considerar essa possibilidade. Pedir um favor a Di Auguro naquele momento não era nada conveniente.Rafael sabia muito bem que, ao entrar no mundo do narcotráfico, ao sujar as mãos com toda aquela imundície, só existe uma forma de sair: dentro d
Para Constança, chegar em casa ao final do dia era uma tortura. Sua casa não era qualquer coisa: era cheia de luxo e conforto. Qualquer pessoa ficaria feliz em chegar a um lugar assim depois de um dia de trabalho árduo, mas Constança odiava cada canto; aquelas paredes frias que pareciam se inclinar sobre ela até esmagá-la, o som alto dos rangidos que seus passos arrancavam do chão, eram um sinal inevitável de que aquele lugar estava tão vazio quanto ela.Soltou um suspiro antes de abrir a porta. Percorreu o corredor até a sala e, ao chegar, deixou cair a bolsa de grife e tirou os sapatos, deixando-os ali, no meio da sala, sobre o tapete cinza que cobria o chão. Foi até a cozinha, pegou uma garrafa de vinho e também uma taça em um dos armários suspensos, mas não a usou; bebeu direto da garrafa.Abriu uma gaveta: estava cheia de maços de cigarro. Havia parado há muito tempo, mas quando Isabela Duarte faleceu, voltou ao vício. Não conseguia dormir sem antes fumar alguns cigarros e beber
A volta para casa foi estranha; silenciosa, mas alegre. As roupas de Dante e Alana estavam encharcadas. Ela morria de frio, mas uma sensação de calor apertava seu peito. Eram nervos — como quando ia às compras e passava perto de um grupo de rapazes, como aquele bater acelerado do coração quando o coroinha bonito da missa lhe sorria. Era tudo isso… e ainda mais. Intenso. Absoluto.Alana mantinha o olhar fixo na janela. Não conseguia apreciar a paisagem da cidade; as gotas de chuva embaçavam o vidro. Ainda assim, não desviou os olhos por um segundo. Não queria olhar para Dante. Tinha vergonha de encará-lo por muito tempo e que ele percebesse aqueles sentimentos que começavam a emergir.— Vocês deveriam tirar essas roupas o quanto antes — disse Luz assim que o carro estacionou diante da entrada da casa. — Tomem um pouco de sopa quente — balançou a cabeça. — Parecem duas crianças.Dante e Alana se entreolharam e riram. O motorista abriu a porta segurando um guarda-chuva, mas Luz tomou o o
Dante deu meia-volta. Isabela, Constança e Luz haviam ido atrás dele e o observavam intrigadas.— Entendo que você não consiga lidar com o seu luto — disse Constança. As bochechas de Alana arderam ao ouvi-la falar daquele jeito com Dante. Ela não entendia por que precisava ser tão cruel. — Nem todos são fortes, mas, por favor, não assuste os meus convidados.— Aquela mulher era sua convidada? — perguntou Dante, apontando para a entrada. Não havia ninguém ali.— Era — respondeu Constança, sem qualquer emoção na voz. Alana sentia por ela uma mistura de admiração e medo. Constança usava um conjunto cor de vinho: saia longa até a metade das panturrilhas, blusa branca de tecido sedoso e um blazer ajustado na cintura com botões dourados. — Até você a espantar.Ela falava com Dante, mas não o encarava; seu olhar parecia perdido no vazio.— Quem é ela? — Dante se aproximou de Constança, respirando com força. Parecia sair vapor de suas narinas, e Alana teve a impressão de que ele poderia machu
Dante virou-se e lançou um olhar ao redor. Em outras circunstâncias, teria ido atrás da senhorita Duarte e a colocado em seu devido lugar por abusar daquela forma, mas pensou no que ela pensaria dele e tentou se controlar. Soltou um suspiro de alívio ao ver o caderno jogado no chão. Pegou-o e ficou alguns instantes contemplando-o.NO DIA SEGUINTEEram seis horas, seis em ponto da tarde, e Dante já havia trocado de roupa três vezes. Não sabia o que vestir para seu encontro falso com Isabela Duarte; ela não lhe dera detalhes sobre para onde iriam, não sabia se seria um lugar formal ou informal, se deveria usar um terno ou jeans.Ele não sabia praticamente nada sobre Isabela. Pensou que precisava descobrir um pouco mais a seu respeito, talvez encontrar alguma pista sobre o lugar para onde ela queria que a acompanhasse. Sentou-se na beira da cama e pegou o celular da mesa de cabeceira. Procurou Isabela Duarte nas redes sociais. Isabela não tinha conta no Facebook, Instagram, Twitter… era
—NÃO, é claro que não vou me cobrir —disparou Dante Marroquin.Ele não estava irritado, estava surpreso com a reação da senhorita Isabela Duarte. Menos de uma hora antes, ela o havia beijado nos lábios, e agora estava constrangida por vê-lo semidespido.Ele estava fascinado por aquela garota doce e, ao mesmo tempo, audaciosa, que usava um vestido estampado de flores e sapatos de senhora. As bochechas dela tinham ficado vermelhas de repente. Era uma mulher adulta reagindo como uma menina. Aquilo era tão estranho quanto irresistível.—Por favor, cubra-se! —implorou, sem olhá-lo.Ela deixou a rosa e o diário sobre a penteadeira e caminhou a passos largos até a cama.—A senhorita entrou no meu quarto sem bater. Não pode vir me dando ordens —ele disse, mas ela ignorou completamente. Apenas pegou o lençol da cama e o atirou sobre ele.Dante não conseguiu conter o riso.—Nunca viu um homem nu?Ele nem estava totalmente nu; uma toalha o cobria da cintura para baixo. Quando Dante fez a pergunt







