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CAPÍTULO 10

Author: LIDIANE
last update publish date: 2026-06-29 07:36:42

ELIZIAN

O silêncio depois foi diferente de todos os outros silêncios que já vivi. Não era vazio.

Era denso.

Eu estava sentada no sofá, com as pernas dobradas contra o peito, observando Marcelo caminhar pela sala como se estivesse tentando organizar não apenas os pensamentos, mas o próprio mundo. Ele afrouxou o nó da gravata, passou a mão pelos cabelos e respirou fundo, como alguém que sabia exatamente o tamanho da confusão em que havia se metido — e ainda assim não se arrependia.

— Você pediu d
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    MARCELO Nada daquilo foi planejado. Eu não quero me aproveitar do momento, sei exatamente como ela está se sentindo. Me aproveitar de um momento desse, seria covarde da minha parte. — Elizian, não posso fazer isso. Fiquei a uma distância significativa dela, nos mantendo sempre longe. Sua expressão confusa quase me arrancou um riso. Mas, se eu ousasse sorrir, ela iria embora sem olhar para trás. — Eu não quero fazer isso aqui. Ela me encarou sem desviar os olhos. Como se fosse capaz de ver minha estupidez.— Você está me rejeitando, Marcelo? — Não é isso. Eu nunca rejeitaria você. Eu só acho que esse não seja um lugar apropriado para isso. — Ótimo! Agora me deixa pegar minhas coisas e ir embora, por favor. Eu nunca me importei tanto com alguém, como me importo com Elizian. Não tem nada relacionado a pena, mas há algo ainda mais profundo, que eu não consigo explicar. Observei ela recolher coisa por coisa, depositando cada casa uma dela com cuidado, mesmo que fosse apenas um l

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    MARCELO A ficha caiu no momento em que vi Elizian parada, do outro lado da rua, nos molhando com as sacolas quase caindo das mãos. — Elizian! — Chamei seu nome alto o bastante, mas como era de se esperar, ela não olhou para trás. Eloise continuou parada onde estava, tentando fingir que aquilo a deixou desconfortável, mas não era verdade. — Então aquela é a Elizian? Ela é bonita e bem jovem… — Eu não deveria ter aceito o seu convite. Mas, saiba que eu só vim para deixar as coisas bem resolvidas entre nós dois. — Nunca existiu “nós dois”, Marcelo. Eu traía meu marido com você, porque quis me vingar quando soube que ele estava me tratando com outras mulheres. — Isso não vem ao caso agora, Eloise. Quando nos envolvemos, você me disse que era solteira, eu acreditei em você. O restante da história eu descobri sozinho. — Você realmente gosta dela tanto assim? Ela é só uma garota, Marcelo. — Ela não é uma garota, Eloise. E eu não vou entrar em detalhes sobre isso com você. Quando e

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    ELIZIANO primeiro dia na empresa Ferraz deveria ter sido um recomeço, mas tudo não estava passando de um teste psicológico — apesar de que, apenas eu enxergasse isso. Tudo ali era grande demais. As salas pareciam ser para quatro ou mais pessoas, mas era apenas de uma única pessoa. Nas paredes havia quadros chiques e caríssimos. Tudo ali estava muito fora da minha realidade, mas eu não posso deixar que me subestimem. A sala que ele me deu ficava no último andar. Os vidros enormes, com vista para a cidade inteira. A mesa de madeira escura, computador novo, documentos organizados e até uma máquina com algumas cápsulas de sabores diferentes de cappuccinos. Aquilo não parecia um cargo, parecia que aquela sala foi pensada nos meus gostos. E isso me assusta mais do que deveria, e com motivos. Porque significava que ele havia pensado em tudo, em cada detalhe que eu nem mesmo reparava, ele havia notado. — Senhorita Vasconcellos? — Levantei os olhos e vi uma secretária elegante demais para

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    ELIZIANOs dias seguintes foram estranhamente silenciosos e solitários. Depois do aeroporto, depois da discussão, depois da forma como eu praticamente destruí qualquer chance de termos uma vida simples… Marcelo respeitou meu espaço. E aquilo me confundia ainda mais.Porque eu esperava insistência, ou pressão.Esperava ele aparecer no meu apartamento dizendo que eu estava cometendo um erro, mas ele não apareceu em nenhum momento. Respeitou completamente o meu espaço. Marcelo apenas me olhou naquele aeroporto com uma intensidade quase dolorosa… e disse:"Então fique. Mas fique por você."E me deixou ir, chamou um táxi e pediu para me deixar em casa. Aquilo mexeu comigo mais do que qualquer declaração apaixonada, porque aquilo era o máximo de respeito com alguém. Agora eu estava sentada diante do notebook na mesa da cozinha, cercada de currículos enviados, cafés frios e anúncios de emprego humilhantes. Parece até que eu nunca saí da merda de onde eu vim…A cada email enviado, uma resp

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    MARCELO Viajar parecia a única solução racional no momento em que eu falei. Qualquer coisa que afastasse Elizian daquela cidade eu estava disposto a propor. Mas nada naquela história estava sendo racional há muito tempo. Eu observava Elizian caminhar pelo apartamento enquanto terminava de fechar a mala. Ela usava uma calça de moletom cinza e uma camiseta larga minha, os cabelos presos de qualquer jeito, mas ainda assim conseguia ser absurdamente bonita. E aquilo me irritava. Porque quanto mais eu olhava, mais difícil ficava imaginar minha vida sem ela. Era pra ser só uma noite casual entre dois adultos, mas por algum motivo eu não consegui deixá-la ir embora e também não quis pedir que ela fosse. — Você está me encarando de novo — ela comentou, sem levantar os olhos. — Porque você sempre parece estar preocupada demais com tudo. Deveria relaxar um pouco de vez em quando. Ela soltou uma risada fraca e eu parei de tentar amenizar a situação. — Isso não é um elogio, Marcelo. — Não

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    MARCELOElizian preparava um café enquanto sorria cantarolando alguma coisa, mas essa felicidade durou pouco…— Pai? Abre a porta, preciso falar com você.Abrir antes que a frase fosse dita, porque somente sua voz já me irritava mais que o necessário.Fred estava parado, com as mãos nos bolsos e atrás dele sua… a mulher com quem ele traiu Elizian.— Eu posso entrar ou sua namorada não deixa? — O olhar dele percorreu até encontrar Elizian sentada no sofá.— Me diga o que você quer e pode ir, por favor Fred.— É sério mesmo que você vai trocar seu filho por essa mulher?Elizian surgiu ao meu lado, vestida com uma camiseta minha e os cabelos ainda bagunçados.— O que você faz na casa do seu pai a essa hora? Você nunca vai crescer?Quase rir com sua ousadia, mas mantive as expressões rígidas, porque aquilo também estava me irritando. E foi um erro meu pensar que ela iria parar por ali.— Será que dá pra você não se meter na conversa entre pai e filho? Ah, esqueci que você pega pai e filho

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