LOGINAngélica tinha tudo: o noivo perfeito, o futuro planejado, a vida sob controle, até descobrir que era tudo uma mentira. Traída, enganada e dada como morta, ela é jogada ao mar por quem jurou amá-la. Mas o mar não a leva... ele a devolve. Agora, viva e sem provas para se vingar, Angélica volta disposta a destruir cada um dos responsáveis por sua queda. E para isso, ela precisa de poder. É quando entra em cena Antônio: o herdeiro mais cobiçado do país, um CEO frio, brilhante e perigosamente bonito, conhecido por não se curvar a ninguém, nem ao amor, nem à família. Ele precisa de uma esposa para conquistar sua liberdade em Nova York Ela precisa de um sobrenome para incendiar o passado O que começa como um contrato entre dois estranhos perfeitos vira um jogo perigoso entre vingança e desejo. Porque Antônio não é só o homem que pode mudar o destino de Angélica, ele é o único capaz de fazê-la esquecer por que voltou do mar e isso pode ser ainda mais fatal do que a própria vingança.
View MoreA água entra pelos meus pulmões como fogo líquido.
Eu sinto cada gota queimar por dentro, um ardor que se espalha do peito até a garganta, como se milhares de agulhas me perfurassem de dentro para fora. O escuro é total. Absoluto. Não existe cima nem baixo, não existe direção nenhuma para onde eu possa nadar, só essa escuridão fria que aperta meu corpo de todos os lados, como se o próprio mar quisesse me engolir inteira.
Tento me debater, mas meus braços já não obedecem mais. Parecem presos a um corpo que não é o meu, um corpo que está desistindo antes mesmo que eu decida lutar. O peito queima. A garganta queima. Cada célula do meu corpo grita por ar, e o único som que existe é o silêncio abafado da água em volta dos meus ouvidos, um silêncio que devia ser calmo e que, no entanto, é a coisa mais aterrorizante que eu já senti.
Tenho medo. Um medo tão grande que nem cabe dentro de mim.
E, no entanto, por mais que a dor física seja insuportável, existe algo pior. Algo que dói num lugar que a água nunca vai alcançar.
O coração.
Porque afogar não é a pior sensação desta noite. A pior sensação é saber, ter certeza, com uma clareza cruel que só a beira da morte pode trazer, que a pessoa que me empurrou para dentro desta escuridão é a mesma que jurou me amar para sempre.
Meu noivo.
Como eu cheguei até aqui? Como eu não vi?
...
1 mês antes
O despertador tocou às seis e trinta, como todos os dias. O sol entrava pela cortina de linho bege, desenhando listras douradas sobre o edredom branco. Lucas ainda dormia ao meu lado, o braço jogado sobre o travesseiro.
Levantei, fiz café, fritei ovos do jeito que ele gostava, com a gema ainda mole, e voltei para acordá-lo com um beijo no pescoço.
Ele resmungou, sorriu ainda de olhos fechados e me puxou para perto, me abraçando forte por um bom tempo antes de finalmente se levantar. Beijou minha testa, depois minha boca, depois disse que tinha sonhado comigo. Era assim que ele conseguia me manter sempre por perto, mesmo quando alguma coisa dentro de mim já sussurrava, baixinho, que tinha algo diferente no ar.
Sentamos juntos na mesinha da cozinha, ele já de camisa social entreaberta. Enquanto comíamos, comentei sobre o casamento, animada, mostrando fotos de um espaço em Itu que eu tinha visto na noite anterior.
Ele olhou de relance, disse que estava lindo, me deu um beijo rápido na bochecha e voltou a atenção para o celular, respondendo mensagens de trabalho. Não era grosseiro. Não era frio. Só estava, de um jeito que eu ainda não sabia nomear, ausente.
Naquela noite, ele chegou tarde, cheirando a perfume que não era o dele de sempre, e disse que tinha sido reunião com fornecedor. Eu acreditei, porque era mais fácil acreditar do que perguntar.
Nos dias seguintes, aquilo virou um padrão sutil demais para eu conseguir apontar o dedo. Ele me abraçava no sofá enquanto assistíamos série, mas comentava coisas do trabalho o tempo inteiro, sem realmente estar ali comigo. Beijava minha testa antes de dormir, mas virava de costas rápido demais. Dizia que me amava, mas desconversava toda vez que eu tentava falar sobre a data do casamento, sobre a lista de convidados, sobre qualquer decisão que exigisse dele um compromisso concreto com o nosso futuro.
Lucas tem ficado cada vez mais frio comigo, pensei uma noite, olhando para o teto do quarto enquanto ele já dormia. Será nervosismo pelo casamento?
Ele está tão ocupado com o trabalho, pensei em outra manhã, vendo-o sair de casa sem tomar café comigo pela terceira vez na semana. Não tem tempo pra mim, mas também não é culpa dele. A empresa está exigindo demais.
Eu tinha um talento perigoso para fabricar desculpas por ele.
Foi numa dessas semanas estranhas que esbarrei nele pela primeira vez.
Eu estava saindo apressada da sala de reuniões do décimo andar, os braços cheios de rolos de plantas e uma pasta prestes a escorregar, os olhos grudados no celular tentando responder ao fornecedor de mármore que estava atrasando a entrega da amostra. Virei o corredor rápido demais.
E esbarrei em alguém.
As plantas voaram para todo lado. A pasta abriu no chão, papéis se espalhando por todo o corredor.
— Você não olha por onde anda? — a voz dele era grave, seca, irritada.
Levantei os olhos e me deparei com um maxilar marcado, olhos castanho-escuros que me encaravam com pura impaciência, e uma altura que me fez sentir pequena mesmo eu não sendo baixa. Ele nem se abaixou para me ajudar. Só ficou ali, parado, esperando eu recolher tudo sozinha, com uma expressão de quem já estava atrasado para algo muito mais importante do que aquilo.
— Você que veio andando sem prestar atenção — retruquei, irritada, me abaixando para juntar os papéis.
Ele não respondeu. Só me olhou por mais um segundo, como se estivesse me avaliando, antes de perguntar, seco:
— Qual seu nome e departamento?
— Angélica. Arquitetura — respondi, ainda irritada, achando aquilo uma grosseria tão grande quanto o esbarrão em si.
Ele não disse mais nada. Deu meia volta e seguiu andando pelo corredor, sem se despedir, sem sequer olhar para trás.
Fiquei parada ali, com os papéis ainda desorganizados nas mãos, sem fazer a menor ideia de quem era aquele homem.
Descobri poucas horas depois, quando o burburinho tomou conta da sala de projetos.
— Você já ouviu? — perguntou Renata, minha colega de equipe, vibrando de curiosidade. — O filho do Josué vem trabalhar aqui. Na nossa sede. Ele é da sede do Rio, mas veio pra São Paulo por causa do projeto de Alphaville.
— Como assim, veio trabalhar aqui?
— Dizem que ele quer mostrar pro pai que está pronto pra assumir a sede de Nova York sozinho.
Fechei os olhos por um segundo, juntando as peças.
Trator, pensei, quase rindo sozinha por dentro, sem saber ainda o quanto aquele apelido ia ganhar sentido nos meses seguintes.
O resto do dia foi tomado por reuniões e ajustes de última hora, mas em algum momento da tarde vi Lucas cruzando o corredor na direção da sala do novo diretor, com aquele sorriso ensaiado que ele reservava só para quem podia beneficiar sua carreira. Cumprimentou o filho de Josué com um aperto de mão longo demais, elogios exagerados sobre o projeto de Alphaville, uma risada alta que soou falsa até de longe.
Mais tarde, já no corredor da saída, ouvi Lucas comentando baixinho com um colega, achando que eu não escutava.
— Cara chato pra caramba, esse Antônio. Se acha demais só porque é filho do dono. Vou ter que aturar ele por semanas.
Não sabia, naquele momento, que do outro lado do corredor, encostado perto do elevador, o próprio Antônio tinha ouvido cada palavra.
Quando o relógio bateu dezenove horas, Lucas apareceu na porta da minha sala, blazer no braço, sorriso fácil.
— Pronta? Vou te levar pra casa.
Guardei minhas coisas e saímos juntos pelo corredor, o vidro refletindo as luzes da cidade que começava a se acender lá fora. Chegamos ao elevador. Ele apertou o botão, as portas de metal escovado se abriram com um sinal sonoro suave, e entramos.
As portas se fecharam, mas abriram novamenta no andar debaixo, revelando uma pessoa.
Júlia estava ali, batom vermelho perfeito, sorriso doce demais para ser verdadeiro, e, sem hesitar um segundo sequer, entrou direto no mesmo elevador que nós dois.
Cheguei cedo na empresa, com os olhos pesados e um bocejo que insistia em escapar toda vez que eu relaxava o maxilar.Eu tinha dormido três horas. A culpa tinha nome, sobrenome e um sorriso safado que, naquela manhã, eu preferi não encarar sobre a mesa do café. Aquela pergunta, "o que vai ser de nós?", ficou no ar no meio da madrugada, sem resposta, repetida em silêncio por dois adultos que tinham medo demais da própria resposta. Saí de casa antes dele acordar, deixando só um bilhete no travesseiro e um beijo na testa que ele provavelmente nem sentiu.Bocejei de novo, no elevador, e pensei, rindo sozinha: "Sabia que o Antônio não ia me deixar dormir."Às dez em ponto, sentei na cabeceira da sala de reuniões, com a pasta aberta, o café na mão e a postura de quem não tinha nenhuma dúvida sobre quem mandava naquele andar. Lucas chegou primeiro, o terno meio amassado, o olhar de quem não dormiu também, mas por motivos bem diferentes. Atrás dele, Patrícia Moura, a líder de interiores, uma
A encomenda chegou no fim da tarde, num envelope pardo sem identificação: um gravador do tamanho de um pendrive, desses que parecem carregador de celular. Testei três vezes no banheiro da empresa, gravei a minha própria voz sussurrando "Lucas é um péssimo profissional", ri sozinha e escondi o aparelho no fundo da gaveta da minha sala, pronto pra funcionar. Eu não ia gastar bala à toa. Mas, quando chegasse a hora, a arma estava carregada.Jantei com o Antônio na cozinha, os dois de pé, comendo o que a Dona Rosa deixou no forno e conversando sobre trivialidades com a leveza de quem finge que o resto do mundo não existe. Ele me contou de uma reunião de acionistas, eu contei do olhar do Lucas no elevador, e rimos juntos, e foi tão bom que, por uns minutos, eu me esqueci de ter medo.À noite, eu estava me preparando pra dormir, a cara cheia de creme, o cabelo preso num coque torto, o pijama mais velho da minha mala, aquele de ursinho que a minha mãe me deu aos quinze anos, quando bateram n
Perto das 11:50h, fechei o notebook, retoquei o batom e subi pro andar da diretoria sem avisar. Queria ver a cara dele quando eu aparecesse.O andar de cima era outro mundo. Carpete grosso, silêncio de igreja, uma recepção de madeira escura onde, atrás do balcão, a assistente pessoal do Antônio digitava num computador com a elegância e uma postura que só se consegue com anos de balé. A mesma moça que eu já tinha visto diversas vezes dando em cima dele. Será que ele já tinha percebido?— Bom dia — falei, parando diante do balcão. — Eu vim falar com o Antônio.— O senhor Antônio está em ligação e pediu pra não ser interrompido — respondeu ela, sem levantar os olhos da tela. — São ordens.Ordens. Eu quase ri.— Tudo bem — respondi, doce. — Eu espero.Encostei no balcão dela, peguei uma caneta do porta-lápis e comecei a girar entre os dedos, devagar, só pra ela ver. Não tinha como não ver. O anel já brilhava sozinho, jogando pequenos arco-íris no tampo de madeira, na tela do computador, n
O elevador subiu em silêncio, com aquele zumbido baixo que deixa qualquer tensão mais audível. Antônio ao meu lado, o celular na mão, trabalhando, alheio a tudo, os olhos correndo pelas mensagens como se o elevador fosse uma sala de reunião qualquer. Lucas encostado no fundo, ainda hipnotizado, os olhos presos na minha mão como se o diamante fosse um insulto pessoal. Júlia ao lado dele, de braços cruzados, o queixo erguido, o perfume enjoativo ocupando cada centímetro de ar.O painel marcou o andar dela, e as portas se abriram.Eu achei que ela fosse sair e pronto.Achei errado.Júlia deu um passo à frente e, em vez de contornar o Antônio pelo lado livre, passou rente a ele, esfregando o corpo inteiro no braço dele num movimento tão calculado, tão lento, que ninguém naquele elevador teve dúvida do que aquilo era. Uma provocação. Nem Antônio nem eu olhamos.Ele manteve os olhos fixos na tela do celular, o rosto de pedra, o maxilar tão travado que dava pra ouvir os dentes, o polegar ro






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