LOGINMARCELO
Ela saiu antes que eu pudesse tomar qualquer outra atitude. Enquanto isso, Fred não parava de me ligar, mesmo eu já tendo dito que estava ocupado. Mas, contra a minha vontade, resolvi atender pela última vez: — Sinceramente, acho que você já tem tamanho suficiente para cuidar das porras dos seus problemas. — Pai, pode liberar o segurança, por favor? Ele está me barrando aqui fora. Por favor! Em alguns instantes, Fred já estava na sala, à vontade, bebendo como se nada estivesse acontecendo na vida dele. Enquanto a minha, ironicamente, estava finalmente se tornando interessante. — Então? O que quer me pedir desta vez? Espero que não tenha vindo se lamentar, como sempre faz. — Eu vim pedir conselhos. — Não sei se é imaturidade ou idiotice do meu filho. — Eu sei... eu errei, mas estou arrependido do que fiz. Eu não sei onde estava com a cabeça. — E o que você quer que eu diga? Que estou orgulhoso de você? Sinceramente, Fred, acho que já passou da hora de aprender a ser homem. Pensei que tivesse absorvido ao menos alguma coisa de tudo o que cansei de te ensinar. A principal delas foi ter caráter, mas nem isso você aprendeu, porra. — Elizian... — Elizian? A mesma Elizian que estava comigo há minutos? — Não vai querer me ver nem pintado de ouro. E sabe o pior? O senhor está certo... e eu estou perdido sem aquela mulher. — A mesma Elizian que trabalha para o Moretti? Você nunca me disse que ela era sua noiva. — Eu estava sem palavras. Me sentia sem reação. — É... a mesma. — Ele continuava bebendo, como se a bebida pudesse apagar tudo. Talvez eu devesse fazer o mesmo. — Mas a culpa é dela por eu tê-la traído. Ela dava mais atenção àquele trabalho de merda e àquele patrão idiota do que a mim. — Não culpe os outros pelos erros que você cometeu mais de uma vez e com plena consciência. Isso é covardia, Fred. Se não estivesse feliz, não seria mais conveniente terminar? — Vai ficar do lado dela agora? Se a conhecesse, ficaria do meu lado. Aposto que ela também já me traiu, só não sei com quem. Aquela vadia escrota. — Sabe, Fred? Se eu fosse uma mulher, nunca foderia com um babaca como você, quem dirá noivar. Agradeça à Elizian pela caridade que ela te fez. E agora, por favor, saia daqui e não volte a me perturbar. Você já não é minha responsabilidade, e eu estou cansado de ter um filho tão sem caráter. — Está me expulsando porque estou sendo sincero? Você deveria me ensinar a ser um bom marido, mas preferiu me criar sozinho, sem me mostrar como... — Como ser um homem? Porque sua mãe foi embora sem nem olhar para trás, enquanto eu te segurava no colo, tentando te acalmar, e ela entrava no carro. Você acha que eu não te mostrei e não te ensinei o valor das coisas — tanto das que se compram quanto das que não se compram? — Ele se calou, diante da minha frieza, com a expressão de quem não se importa com nada. — Eu fiz de tudo por você, Fred. Te daria minha vida, se preciso, mas cansei de passar a mão nos seus erros. Isso só te tornou ainda mais sem escrúpulos. — Até mais, Marcelo. Obrigado por tudo... que não fez por mim. — E assim ele foi embora, como quem não tinha nada, mesmo tendo tudo. Me joguei na cama, ainda vestindo apenas um roupão, e tentei não pensar em nada. Mas o cheiro dela ainda impregnava meu travesseiro, meus lençóis... e as imagens da noite passada invadiam minha mente. — Eu transei com a ex-noiva do meu filho... e não me sinto nem um pouco arrependido. Será que sou tão safado quanto ele? — Enquanto a pergunta pairava no ar, sorri ao lembrar que, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia vivo novamente. ELIZIAN Por pouco não dei de cara com Fred — o vi no corredor e preferi ir pelas escadas, deixando-o sozinho no elevador. Cheguei ao meu apartamento eufórica, sem saber se ligava para Bianca ou se refletia sobre tudo que aconteceu na noite anterior. Mas logo me lembrei: eu precisava trabalhar. A vida não é só transar com Marcelo Ferraz. Após o banho, me vesti o mais rápido que pude e, em quarenta minutos, estava pronta. Peguei as chaves e desci para tirar o carro, mas, ao chegar no penúltimo andar, dei de cara com Fred — ele estava no mesmo elevador que eu precisaria usar. — Posso falar com você um minuto? — Ele insistia, mas eu fingia que não o via, mesmo estando ao meu lado. — Por favor, Elizian. Me dá uma chance de me explicar. Então, ele tocou meu braço. Aquilo era inaceitável. — Se você ousar encostar as mãos podres em mim de novo, juro que não haverá segunda vez. E não, eu não quero ouvir nada do que você tem a dizer. Eu vi o suficiente. E quer saber, Fred? Você e a Bruna formam até um casal bonitinho. Espero que sejam muito felizes... e que você pare de me perturbar. — Eu estou arrependido, Eliz... eu... — Elizian. Meu nome é Elizian. E pega o seu arrependimento e enfia... onde você quiser. Só me deixa em paz. Porque, se não, você vai conhecer o próprio demônio na sua frente. E mais: eu vou infernizar tanto a sua vida que você vai pedir para nunca ter me conhecido. — Eu estou arrependido. Ela nunca vai ser igual a você. Com ela era só diversão. Ela é só uma... — Claro que ela nunca vai chegar aos meus pés, seu idiota. Olha bem pra mim... eu estava trabalhando enquanto você fodia a minha amiga. Acha mesmo que ela vai ser igual a mim algum dia? Acha mesmo que ela vai querer algo sério com você? Sabe... eu não sei onde estava com a cabeça quando aceitei casar com você. Acho que era carência. Depois da noite que eu tive ontem, não tive dúvidas: era realmente carência. O elevador abriu, ele tentou me seguir, mas eu corri até o meu carro, abri a porta e entrei o mais rápido que pude. Precisava me livrar daquele homem... nem que isso me custasse transar mais vezes com o pai dele.MARCELO Nada daquilo foi planejado. Eu não quero me aproveitar do momento, sei exatamente como ela está se sentindo. Me aproveitar de um momento desse, seria covarde da minha parte. — Elizian, não posso fazer isso. Fiquei a uma distância significativa dela, nos mantendo sempre longe. Sua expressão confusa quase me arrancou um riso. Mas, se eu ousasse sorrir, ela iria embora sem olhar para trás. — Eu não quero fazer isso aqui. Ela me encarou sem desviar os olhos. Como se fosse capaz de ver minha estupidez.— Você está me rejeitando, Marcelo? — Não é isso. Eu nunca rejeitaria você. Eu só acho que esse não seja um lugar apropriado para isso. — Ótimo! Agora me deixa pegar minhas coisas e ir embora, por favor. Eu nunca me importei tanto com alguém, como me importo com Elizian. Não tem nada relacionado a pena, mas há algo ainda mais profundo, que eu não consigo explicar. Observei ela recolher coisa por coisa, depositando cada casa uma dela com cuidado, mesmo que fosse apenas um l
MARCELO A ficha caiu no momento em que vi Elizian parada, do outro lado da rua, nos molhando com as sacolas quase caindo das mãos. — Elizian! — Chamei seu nome alto o bastante, mas como era de se esperar, ela não olhou para trás. Eloise continuou parada onde estava, tentando fingir que aquilo a deixou desconfortável, mas não era verdade. — Então aquela é a Elizian? Ela é bonita e bem jovem… — Eu não deveria ter aceito o seu convite. Mas, saiba que eu só vim para deixar as coisas bem resolvidas entre nós dois. — Nunca existiu “nós dois”, Marcelo. Eu traía meu marido com você, porque quis me vingar quando soube que ele estava me tratando com outras mulheres. — Isso não vem ao caso agora, Eloise. Quando nos envolvemos, você me disse que era solteira, eu acreditei em você. O restante da história eu descobri sozinho. — Você realmente gosta dela tanto assim? Ela é só uma garota, Marcelo. — Ela não é uma garota, Eloise. E eu não vou entrar em detalhes sobre isso com você. Quando e
ELIZIANO primeiro dia na empresa Ferraz deveria ter sido um recomeço, mas tudo não estava passando de um teste psicológico — apesar de que, apenas eu enxergasse isso. Tudo ali era grande demais. As salas pareciam ser para quatro ou mais pessoas, mas era apenas de uma única pessoa. Nas paredes havia quadros chiques e caríssimos. Tudo ali estava muito fora da minha realidade, mas eu não posso deixar que me subestimem. A sala que ele me deu ficava no último andar. Os vidros enormes, com vista para a cidade inteira. A mesa de madeira escura, computador novo, documentos organizados e até uma máquina com algumas cápsulas de sabores diferentes de cappuccinos. Aquilo não parecia um cargo, parecia que aquela sala foi pensada nos meus gostos. E isso me assusta mais do que deveria, e com motivos. Porque significava que ele havia pensado em tudo, em cada detalhe que eu nem mesmo reparava, ele havia notado. — Senhorita Vasconcellos? — Levantei os olhos e vi uma secretária elegante demais para
ELIZIANOs dias seguintes foram estranhamente silenciosos e solitários. Depois do aeroporto, depois da discussão, depois da forma como eu praticamente destruí qualquer chance de termos uma vida simples… Marcelo respeitou meu espaço. E aquilo me confundia ainda mais.Porque eu esperava insistência, ou pressão.Esperava ele aparecer no meu apartamento dizendo que eu estava cometendo um erro, mas ele não apareceu em nenhum momento. Respeitou completamente o meu espaço. Marcelo apenas me olhou naquele aeroporto com uma intensidade quase dolorosa… e disse:"Então fique. Mas fique por você."E me deixou ir, chamou um táxi e pediu para me deixar em casa. Aquilo mexeu comigo mais do que qualquer declaração apaixonada, porque aquilo era o máximo de respeito com alguém. Agora eu estava sentada diante do notebook na mesa da cozinha, cercada de currículos enviados, cafés frios e anúncios de emprego humilhantes. Parece até que eu nunca saí da merda de onde eu vim…A cada email enviado, uma resp
MARCELO Viajar parecia a única solução racional no momento em que eu falei. Qualquer coisa que afastasse Elizian daquela cidade eu estava disposto a propor. Mas nada naquela história estava sendo racional há muito tempo. Eu observava Elizian caminhar pelo apartamento enquanto terminava de fechar a mala. Ela usava uma calça de moletom cinza e uma camiseta larga minha, os cabelos presos de qualquer jeito, mas ainda assim conseguia ser absurdamente bonita. E aquilo me irritava. Porque quanto mais eu olhava, mais difícil ficava imaginar minha vida sem ela. Era pra ser só uma noite casual entre dois adultos, mas por algum motivo eu não consegui deixá-la ir embora e também não quis pedir que ela fosse. — Você está me encarando de novo — ela comentou, sem levantar os olhos. — Porque você sempre parece estar preocupada demais com tudo. Deveria relaxar um pouco de vez em quando. Ela soltou uma risada fraca e eu parei de tentar amenizar a situação. — Isso não é um elogio, Marcelo. — Não
MARCELOElizian preparava um café enquanto sorria cantarolando alguma coisa, mas essa felicidade durou pouco…— Pai? Abre a porta, preciso falar com você.Abrir antes que a frase fosse dita, porque somente sua voz já me irritava mais que o necessário.Fred estava parado, com as mãos nos bolsos e atrás dele sua… a mulher com quem ele traiu Elizian.— Eu posso entrar ou sua namorada não deixa? — O olhar dele percorreu até encontrar Elizian sentada no sofá.— Me diga o que você quer e pode ir, por favor Fred.— É sério mesmo que você vai trocar seu filho por essa mulher?Elizian surgiu ao meu lado, vestida com uma camiseta minha e os cabelos ainda bagunçados.— O que você faz na casa do seu pai a essa hora? Você nunca vai crescer?Quase rir com sua ousadia, mas mantive as expressões rígidas, porque aquilo também estava me irritando. E foi um erro meu pensar que ela iria parar por ali.— Será que dá pra você não se meter na conversa entre pai e filho? Ah, esqueci que você pega pai e filho







