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Capítulo 6: O Ultimato

Author: Mallu Prado
last update publish date: 2026-09-02 00:34:16

POV Sebastian Carter

Acordei com a respiração pesada e a sensação fantasma de uma pele febril queimando contra a minha.

Três anos. Já faziam três longos anos, e aquela noite no Grand Imperial ainda voltava para assombrar minhas madrugadas com a precisão de um relógio suíço.

Sentei-me na borda da cama king-size da cobertura, passando as mãos pelo rosto para afastar os resquícios do sonho. Dezenas de mulheres passaram pela minha vida na Europa — herdeiras, modelos, mulheres sofisticadas e calculistas. Nenhuma delas conseguiu apagar o rastro daquela mulher de perfume floral suave, que desaparecera antes do nascer do sol deixando apenas o eco de sua voz me chamando de amor e uma mancha de sangue virginal sobre o linho branco.

Sacudi a cabeça, afastando as lembranças. Eu não tinha tempo para fantasmas do passado.

Vesti um terno sob medida grafite, ajustei o relógio e rumei para a sede do Grupo Carter em Manhattan. Era um dia decisivo: além da rotina da holding, eu precisava conduzir pessoalmente a entrevista para a nova assistente executiva da presidência, indicada com insistência por Noah Whitmore. Minha última secretária pedira demissão após quarenta dias; eu precisava de alguém com nervos de aço e imune a pressões emocionais.

Contudo, ao abrir as portas de carvalho maciço do meu gabinete no quadragésimo andar, deparei-me com uma presença que tensionou o ar instantaneamente.

Sentado na poltrona de couro em frente à minha mesa, apoiando as duas mãos sobre a bengala com cabo de prata, estava Harrison Carter.

— Bom dia, Sebastian — a voz do meu avô soou austera, cortando o silêncio.

— Avô. Não esperava vê-lo na sede tão cedo — respondi, assumindo a postura formal de negócios enquanto dava a volta na mesa.

Harrison não respondeu de imediato. Com movimentos deliberados, tirou uma pasta de couro do sobretudo e a abriu sobre o tampo de vidro. Ali dentro não havia relatórios contábeis, mas perfis detalhados e fotografias de três jovens herdeiras da alta sociedade nova-iorquina.

— Você completa trinta anos exatamente daqui a um mês — Harrison disparou, os olhos azuis e gélidos cravados em mim. — E continua se recusando a assumir as responsabilidades que acompanham o sobrenome Carter. O conselho de administração não vai entregar o comando da holding para um homem solteiro e vulnerável a manchetes de colunas sociais.

Cerrei os punhos sob a mesa, contendo a raiva:

— Meus números em Genebra foram recordes históricos para este grupo. Minha competência fala por si só.

— Competência financeira não substitui alianças dinásticas — rebateu o patriarca com frieza implacável. — Essas três jovens pertencem às famílias mais tradicionais e influentes da Costa Leste. Escolha uma delas. O noivado deve ser anunciado antes do seu aniversário de trinta anos. Se você insistir nessa postura intratável e não subir ao altar, a nomeação oficial para a presidência executiva será revogada. O cargo irá direto para o seu irmão. Damian é casado, construiu uma base sólida e passa ao conselho a estabilidade que você se recusa a ter.

Uma onda de fúria cega queimou dentro do meu peito.

Damian. O irmão que cresceu alimentando uma inveja corrosiva que culminara na maior traição da minha vida, seduzindo e casando-se com Victoria, a mulher que eu pretendia pedir em noivado. Fora essa humilhação calculada que me fizera partir para o exílio em Genebra. E agora, aquele traidor estava a um passo de herdar a presidência que me pertencia por direito, tudo porque usava uma aliança no dedo.

Olhei para as fotos das herdeiras sobre a mesa com profundo asco. Eram mulheres moldadas em conveniências superficiais, vazias e ávidas por status — o tipo de interesseira que eu jurara jamais deixar entrar em minha vida.

— Não vou me casar com nenhuma das suas candidatas compradas — declarei, o tom cortante como gelo.

Harrison ergueu as sobrancelhas brancas, apoiando o peso na bengala para se levantar:

— Então você já fez a sua escolha, Sebastian. A presidência será transferida para Damian no final do mês.

A menção a Damian triunfando diante de toda a cidade fez meu sangue ferver. Agindo por puro impulso estratégico, levantei-me e sustentei o olhar do meu avô com firmeza inabalável:

— Não haverá transferência alguma, porque eu já tenho alguém.

Harrison congelou o movimento, os olhos faiscando em um misto de surpresa e desconfiança.

— Como disse?

— Eu tenho um relacionamento sério — menti, sem pestanejar, usando a frieza que lapidei durante anos em negociações hostis. — Estivemos juntos em segredo para preservá-la do circo midiático. Eu não preciso das suas candidatas arranjadas porque já escolhi a mulher com quem vou construir minha vida.

O patriarca estreitou os olhos, tentando medir a veracidade das minhas palavras.

— Um relacionamento sério mantido no anonimato? Curioso, vindo de alguém com a sua aversão a compromissos. E quem é essa mulher?

— O senhor saberá no momento oportuno — desconversei com naturalidade calculada. — Vou apresentá-la oficialmente à família e aos acionistas no jantar comemorativo do meu aniversário de trinta anos, daqui a quatro semanas. E no dia seguinte, nós nos casaremos.

Harrison avaliou minhas feições por longos segundos antes de dar dois passos com a bengala em direção à saída. Parou na soleira da porta, virou-se e avisou:

— Quatro semanas, Sebastian. Apresente essa sua namorada a todos nós e assine a certidão no dia do seu aniversário. Mas se isso for apenas um blefe barato para ganhar tempo, você perderá a presidência e será afastado definitivamente do conselho.

A porta pesada se fechou atrás dele, deixando um silêncio sepulcral na sala.

Passei a mão pelo maxilar, sentindo a têmpora latejar de raiva. Eu havia acabado de criar uma armadilha monumental para mim mesmo. Tinha exatamente trinta dias para encontrar uma mulher disposta a fingir um namoro convincente, enganar o olhar clínico de Harrison e subir ao altar comigo antes do fim do mês.

O bipe suave do interfone cortou a sala.

Apertei o botão com firmeza:

— Fale.

— Senhor Carter, com licença — a voz da recepcionista soou pelo alto-falante. — A candidata recomendada pelo Dr. Whitmore para a vaga de assistente executiva acabou de chegar e aguarda na antessala. Devo mandá-la entrar?

Respirei fundo, ajeitando o paletó para recuperar a postura corporativa.

— Mande entrar.

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