LOGINPOV: Sebastian Carter A descida pelo elevador social da torre corporativa às dez da manhã não tinha nada do protocolo distante que reinava no sexagésimo quinto andar semanas atrás. Nicholas havia ficado na St. Jude’s sem qualquer sobressalto. O menino cruzara os portões de ferro forjado de cabeça erguida, acenando para nós do pátio sob a vigilância discreta de dois seguranças posicionados a uma distância respeitosa. Nenhuma lente. Nenhum repórter. Apenas a infância serena que lhe fora devolvida. Quando as portas de vidro fosco do hall executivo se abriram, o silêncio respeitoso dos assessores e analistas da antessala congelou em reverência imediata. Eu não caminhava três passos à frente. Minha mão direita mantinha-se firmemente entrelaçada aos dedos de Olivia, sem a menor concessão a dúvidas ou sussurros de bastidores. Ela vestia um terninho de corte milimétrico em tom verde-petróleo, os cabelos soltos em ondas polidas sobre os ombros e o semblante emanando uma altivez tranq
POV: Olivia Bennett O sol de outono entrava sem pedir licença pelas vidraças monumentais da suíte master, desenhando faixas douradas sobre os lençóis de linho desfeitos. Acordei devagar, sentindo o calor constante e firme das costas de Sebastian coladas ao meu peito, um braço pesado repousado com posse sobre a minha cintura. Por longos segundos, fiquei apenas respirando o cheiro amadeirado de sândalo que agora impregnava os travesseiros, absorvendo a ausência inédita de qualquer aperto no peito. Não havia alarmes falsos, nem passos contidos pelo corredor, nem o fantasma do anexo de gelo pairando entre nós. Movi os dedos pela pele nua do ombro dele, sentindo os músculos relaxados sob o sono profundo. Sebastian soltou um murmúrio rouco, puxando meu corpo ainda mais para perto sem abrir os olhos, enterrando o rosto na curva do meu pescoço: — Que horas são? — a voz dele saiu áspera de sono, reverberando contra a minha pele com uma intimidade preguiçosa. — Quase oito — respondi com
POV: Olivia Bennett O clique metálico da tranca da suíte master soou diferente desta vez. Não havia fuga, nem regras, nem o eco estéril de contratos rasgados. Apenas o silêncio denso e morno da tarde caindo sobre Manhattan através das cortinas entreabertas. Eu ainda sentia a adrenalina daquela sala de reuniões correndo nas veias, mas no momento em que soltei a bolsa sobre a poltrona de linho, o peso do mundo pareceu escorrer pelos meus pés. Lucas Miller não passava de um espectro aniquilado. O passado estava morto. Virei-me devagar. Sebastian já havia despido o paletó de risca de giz, jogando a peça de qualquer jeito sobre o divã. As mãos dele desfaziam a gravata escura com uma pressa que eu nunca tinha visto no homem milimetricamente controlado da presidência. Havia uma tempestade crua nos olhos azuis dele, despida do terno, despida da armadura corporativa. Ele não era o CEO intocável agora. Era apenas o homem que queimava por mim. — Olivia... — o nome escapou da garganta dele
POV: Olivia Bennett O conjunto de alfaiataria que escolhi para aquela manhã era preto absoluto, cortado em linhas afiadas que não deixavam margem para qualquer fragilidade. Cabelos presos num coque polido, lábios marcados por um tom sóbrio e a aliança de platina cintilando como uma lâmina fria na mão esquerda. Quando me encarei no espelho da suíte master antes de descer para o subsolo, não restava um único vestígio da garota que implorara de joelhos pelo aluguel atrasado na sala de um cortiço no Queens. A dor e o medo haviam sido purificados pelo fogo; no lugar da vítima, havia uma mulher forjada em ferro. O comboio parou pontualmente às 09h50 diante da torre de vidro espelhado da Vance Capital, na Park Avenue. Seis seguranças armados sob o comando de Kane desceram primeiro, abrindo o perímetro e garantindo que o saguão estivesse bloqueado para a imprensa. Sebastian desceu ao meu lado, impecável em um terno de três peças risca-de-giz azul-marinho, a postura emanando aquela autori
POV: Sebastian Carter O escritório privativo da ala oeste transformara-se em um centro de comando tático às oito da noite. Arthur estava de pé diante da bancada de carvalho, com o tablet conectado à rede criptografada da presidência. Ao lado dele, Marcus Kane — o ex-agente federal que chefiava a inteligência e a segurança armada da Carter Holding — mantinha sobre a mesa um mapa digital de Manhattan com três perímetros delimitados em vermelho. Olivia estava sentada na poltrona diante de mim. Ela não chorava; as lágrimas haviam secado no instante em que o instinto materno assumira o controle absoluto de seu corpo. As mãos repousavam sobre os joelhos com os nós dos dedos rígidos, o olhar gélido fixo nas pastas de antecedentes que Marcus acabara de imprimir. — O paradeiro dele foi confirmado há quarenta minutos — Kane começou, a voz áspera e profissional cortando o silêncio do ambiente. — Lucas Miller desembarcou no Aeroporto LaGuardia na sexta-feira à noite, vindo de Miami em u
POV: Olivia Bennett O almoço na varanda envidraçada da mansão transcorreu sob uma calmaria que parecia quase milagrosa. A luz do outono entrava filtrada pelas copas dos carvalhos, iluminando a prataria secular e as taças de cristal da família. Nicholas devorou a torta de maçã rústica enquanto contava a Harrison, com riqueza de detalhes imaginários, como o dinossauro Rex havia ensinado o pônei Trovão a galopar em linha reta. Pela primeira vez, vi o patriarca rir — uma risada rouca e genuína que fez até a tia-avó Beatrice relaxar os ombros e elogiar os projetos da fundação pediátrica. O sol começava a descer no horizonte quando os motores dos três sedãs blindados foram ligados novamente no cascalho branco. A viagem de volta para Manhattan foi silenciosa e serena. Nicholas adormeceu no meio do caminho, com a cabecinha caída sobre a minha coxa e as duas mãozinhas pequenas agarradas à barra do meu casaco. Sebastian manteve a mão esquerda pousada sobre a minha perna o tempo todo, o pol







