LOGINPOV Elliot Parker O som do clique seco na linha telefônica ecoou no quarto como o disparo de uma arma de fogo a queima-roupa. Fiquei imóvel por três segundos intermináveis, com o fone de baquelite dourado do Raffles Hotel colado ao ouvido. O zumbido mudo da ligação encerrada disputava espaço com o chiado suave do ar-condicionado central da suíte executiva. A raiva subiu pela minha garganta em uma labareda cega, violenta, queimando qualquer resquício de racionalidade corporativa. — Merda! — rugi no vazio do aposento. Arremessei o fone contra a parede de lambril de teca com toda a força do meu braço. O aparelho despedaçou-se em dois pedaços de plástico reforçado e fiação de cobre antes de despencar sobre o tapete persa. Caminhei até a janela panorâmica, puxando a cortina de linho com um puxão brusco. Lá fora, a madrugada de Singapura não tinha nada da névoa limpa e gélida de Dorset. Era um calor abafado, quase sufocante, com umidade de noventa por cento mesmo às quatro da ma
POV CamilleO dia na livraria arrastou-se como um suplício silencioso.Cada cliente que entrava pela porta de carvalho, cada cumprimento casual de um vizinho no balcão parecia carregar um peso invisível. O jornal com a fotografia permanecia escondido sob a pilha de livros de contabilidade na colina, mas a imagem daquela mão espalmada sobre o peito de Elliot queimava na minha mente a cada vez que eu tentava carimbar uma nota fiscal ou organizar uma estante.Eu não disse uma única palavra a Thomas. Quando ele passou na livraria ao meio-dia para levar Leo até a oficina para lixar as quilhas sobressalentes, mantive a voz polida, o sorriso medido e a distância calculada. Thomas conhecia o mar, mas também conhecia os homens; se percebesse a tempestade nos meus olhos, reviraria Port Regis até arrancar a verdade. E aquela humilhação era minha — apenas minha — para carregar.Às sete da noite, fechei a loja, peguei Leo na carpintaria e subimos a colina sob uma garoa miúda que tornava a estrada
POV Camille A geada da madrugada havia desenhado ramificações brancas nos cantos inferiores da vidraça da cozinha. O relógio de parede de carvalho acabara de bater sete badaladas curtas, e a névoa que subia do canal de Port Regis estava tão espessa que engolia o mastro da escuna de Thomas no ancoradouro lá embaixo. Eu descera a escada descalça, enrolada em um roupão grosso de lã crua. A casa estava mergulhada naquele silêncio pacífico das manhãs de sábado; Leo ainda dormia no quarto da torre, e a caldeira soltava um murmúrio morno e ritmado pelos canos de cobre. Passei o café, cortei duas fatias de pão de centeio e caminhei até o alpendre da entrada para recolher as correspondências que o carteiro do vilarejo deixava na caixa de madeira pregada ao portão lateral. Havia três cartas de editoras endereçadas à livraria, duas notas fiscais de ferragens enviadas para Thomas e o exemplar semanal do The London Chronicle — que a livraria assinava e que eu costumava folhear antes de descer
POV Camille O outono em Port Regis não pedia licença para despir as árvores. Em quatro semanas, as copas verdes dos carvalhos na colina oeste tornaram-se esqueletos retorcidos contra um céu que raramente abandonava o cinza-chumbo. Trinta e dois dias haviam se passado desde a partida do utilitário preto. A rotina da casa senhorial encontrou um compasso próprio, rigoroso e disciplinado, como se a ausência de Elliot exigisse que cada engrenagem funcionasse sem folgas para manter a saudade sob controle. Pela manhã, a descida para o vilarejo com Leo seguia o mesmo roteiro: ele passava na oficina de Thomas para inspecionar as tábuas de cedro e verificar se os cabos de amarração do píer estavam esticados, antes de subirmos a rua de pedras até a Livraria Histórica. A livraria tornara-se um centro silencioso da comunidade. As três senhoras da paróquia agora organizavam os clubes de leitura de quarta-feira na mesa redonda dos fundos, e o velho Higgins raramente deixava de passar pelo balc
POV Camille O som dos pneus triturando o cascalho da alameda antes das cinco da manhã cortou a névoa com a frieza de uma contagem regressiva. O carro preto de Harrison já aguardava na base da varanda, as lanternas traseiras pintando de vermelho os troncos dos carvalhos adormecidos. O motor rodava em marcha lenta, um sussurro mecânico impaciente que lembrava a cada segundo que o fuso horário de Londres e o corredor aéreo de Heathrow não toleravam atrasos. No hall de entrada, a mala rígida de couro escuro de Elliot repousava junto à porta dupla. Ele usava um sobretudo de lã cinza-chumbo sobre o terno sem gravata. O homem corporativo de Mayfair parecia ter retornado na elegância impecável do corte das roupas, mas os olhos azuis que me encaravam na penumbra daquele corredor não tinham nada da frieza dos arranha-céus da capital. Eram os olhos do homem que passara a madrugada inteira velando o meu sono, com o compasso de latão guardado no bolso interno, bem contra o lado esquerdo do pei
POV Elliot Parker Contar aos acionistas em Londres que eu cruzaria metade do globo para assumir uma trincheira jurídica era uma questão de estratégia fria. Explicar a situação para Thomas envolvia apenas honra e pragmatismo entre marinheiros. Mas subir os degraus em caracol da torre para explicar a uma criança de quatro anos e meio que o pai se ausentaria por noventa dias exigia uma coragem que nenhum conselho de administração jamais me ensinara. Antes de subir, chamei Thomas e Harrison para a biblioteca térrea. A lareira crepitava com duas toras grossas de carvalho. Harrison mantinha abertas sobre a mesa as procurações com plenos poderes fiduciários e de representação legal lavradas em cartório naquela tarde. — A Parker Crown Marine responde a partir de segunda-feira sob a gestão conjunta de vocês dois em solo britânico — instruí, assinando a última via com a caneta de tinta permanente antes de fechar o livro de registros com um baque seco. — Harrison cuida do bloqueio fina







