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Capítulo 2 — O Covil

Author: Algaba
last update publish date: 2026-01-27 00:33:02

O prédio da Aragon Corp era exatamente como Natasha imaginara.

Um monumento à frieza.

Vidro espelhado, aço polido, ângulos retos, superfícies que refletiam o mundo sem jamais absorver nada dele. Nenhuma curva acolhedora. Nenhum detalhe hugmano. Tudo ali fora projetado para comunicar poder.

E domínio.

Natasha parou por um instante diante da fachada, observando seu próprio reflexo distorcido nos painéis de vidro.

Você pertence aqui.

Você merece estar aqui.

Você vai entrar.

Atravessou a porta giratória sentindo o peso simbólico daquele gesto. O ar-condicionado era forte demais. O cheiro, uma mistura cara de limpeza e perfume corporativo. O saguão era amplo, silencioso, com funcionários caminhando em trajetórias perfeitamente calculadas.

Saltos firmes.

Coluna ereta.

Rosto neutro.

Por dentro, o ódio pulsava como um coração paralelo.

Cada passo a levava para mais perto do homem que destruíra sua família.

Dante Aragon.

O nome ecoava em sua mente como um mantra sombrio.

O dono do carro.

O dono do dinheiro.

O dono da impunidade.

Você não pode falhar.

Repetiu isso enquanto se aproximava da recepção, entregava o documento, recebia um crachá temporário.

O celular vibrou dentro da bolsa quando aguardava o elevador.

Ela já sabia quem era antes mesmo de olhar.

— Natasha… — a voz da mãe saiu fraca, carregada de preocupação. — Você chegou bem?

Natasha fechou os olhos por um breve segundo.

— Cheguei, mãe.

— Eu sonhei com você essa noite.

O coração de Natasha apertou, apesar de tentar manter a mente blindada.

— Sonhei que você estava andando num lugar muito alto… e sem corrimão.

— Mãe…

— Filha, esse caminho que você escolheu… isso não vai te devolver o que perdeu.

Natasha apertou a alça da bolsa.

— Não é sobre devolver.

— Então é sobre quê?

Ela hesitou.

— É sobre não deixar que fique impune.

Silêncio.

— Vingança não traz descanso, minha filha. Só muda o tipo de dor.

O elevador apitou, abrindo as portas.

— Eu te ligo depois — disse Natasha, encerrando antes que a voz da mãe quebrasse sua armadura.

Dentro do elevador, encarou o próprio reflexo no espelho.

Você é forte.

Você é fria.

Você está no controle.

A entrevista aconteceu em uma sala ampla, minimalista demais para parecer confortável.

A mulher do RH era educada, mas distante. Olhos que mediam, catalogavam, julgavam.

Natasha respondeu tudo corretamente.

Experiência.

Disponibilidade.

Comprometimento.

Mas não sorriu o suficiente.

Não se mostrou empolgada.

Não se curvou.

Percebeu o momento exato em que perdeu pontos.

— Entraremos em contato — disseram ao final.

Palavras bonitas para quase nunca.

Natasha saiu da sala com a mandíbula tensa, irritada consigo mesma.

Talvez tivesse sido rígida demais.

Talvez tivesse deixado transparecer que não precisava da vaga.

Estava tão absorta nesses pensamentos que não percebeu a aproximação de alguém.

Até esbarrar.

— Ei…

O impacto foi leve, mas suficiente para desequilibrá-la.

Mãos fortes seguraram sua cintura.

Por reflexo, Natasha ergueu o olhar.

O homem era bonito de um jeito perigoso. Bem vestido, barba por fazer, sorriso fácil demais para um lugar como aquele. Olhos claros que pareciam observar mais do que deveriam.

— Me desculpa — ele disse. — Você se machucou?

— Não — respondeu Natasha, percebendo que ele ainda não a soltara.

O contato se estendeu um segundo a mais do que o necessário.

— Rafael Montenegro.

Ela avaliou rápido.

— Natasha.

— Prazer, Natasha.

Um sorriso.

— Só Natasha? — ele provocou.

— Por enquanto.

O canto da boca dele se curvou, divertido.

Trocaram poucas frases.

Ela mencionou a entrevista.

Ele comentou, como quem não quer nada:

— Sou um dos sócios daqui.

O estômago de Natasha deu um pequeno salto.

Mas por fora, apenas ergueu levemente as sobrancelhas.

— Então você manda bastante.

— O suficiente para ajudar alguém interessante.

A engrenagem girou na mente dela.

Mudou o corpo.

Mudou o tom.

Deixou os ombros relaxarem.

Baixou levemente a voz.

Sorriu.

— Alguém interessante merece ao menos um café, não?

Rafael gostou.

— Conheço um lugar aqui perto.

No café, Natasha deixou que ele conduzisse a conversa.

Ouviu sobre contratos.

Expansões.

E, casualmente, sobre Dante Aragon.

— Um gênio dos negócios — Rafael comentou. — Frio, mas eficiente.

Natasha apenas assentiu, guardando cada palavra.

Tocou o braço dele ao rir.

Sustentou o olhar.

Não prometeu nada.

Sedução era sugestão, não entrega.

Quando se despediram, Rafael parecia decidido.

— Vou conversar com o RH. Você merece uma chance.

Natasha sorriu.

Dessa vez, o sorriso era real.

Ao se afastar, o coração batia acelerado.

Não de medo.

De conquista.

Ela não tinha perdido a vaga.

Tinha encontrado um atalho.

E, sem perceber…

Acabara de colocar o primeiro pé dentro do verdadeiro covil.

E também ao lado de um homem que, em breve, poderia ser sua maior arma…

Ou sua ruína.

 

 

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