FAZER LOGINNatasha acordou antes do despertador.
O quarto ainda estava mergulhado na penumbra suave da madrugada, e o teto branco foi a primeira coisa que seus olhos encontraram.
Piscou algumas vezes, sentindo a consciência despertar antes do corpo. Não houve transição suave entre sono e vigília. Foi como ser puxada abruptamente para a realidade.
O estômago estava apertado.
Hoje.
A palavra não precisava de complemento.
Virou de lado, sentou-se na cama e deixou os pés tocarem o chão frio. O arrepio que percorreu seu corpo não tinha relação apenas com a temperatura.
Tomou banho em silêncio.
Deixou a água quente escorrer pelas costas, pelos ombros, pelo cabelo, tentando — inutilmente — dissolver a tensão acumulada sob a pele. Fechou os olhos, respirou fundo, apoiou as mãos na parede do box.
Você pediu por isso.
Vestiu-se com método.
Blusa neutra.
Nada que chamasse atenção.
Elegância contida.
Prendeu o cabelo em um coque baixo, passou um pouco de hidratante no rosto, nada de maquiagem pesada. Quanto menos marcante, melhor.
Na cozinha, o celular vibrou sobre o balcão.
Laura.
Boa sorte hoje, tive que sair cedo não consegui esperar voce acordar...
Natasha encarou a mensagem por alguns segundos.
O canto da boca se ergueu, quase imperceptível.
Digitou:
Eu sei.
Mas, ao guardar o celular, sentiu o peso diferente da frase.
Você é mais forte do que pensa.
Não soava como certeza.
O caminho até a Aragon Corp pareceu mais curto do que no dia anterior. Ou talvez fosse sua mente que já estivesse lá, atravessando corredores invisíveis, antecipando rostos, desenhando cenários.
Quando o prédio surgiu à frente, imponente, cortando o céu com suas linhas retas e frias, Natasha sentiu um aperto no peito.
Vidro.
Atravessou a porta giratória e foi recebida novamente pelo ar gelado, pelo cheiro padronizado, pelo silêncio coreografado.
Desta vez, o crachá em seu pescoço não era provisório.
Funcionária.
A palavra reverberou dentro dela como um sino distante.
Foi conduzida até o setor designado, recebeu um rápido tour, um computador, uma mesa.
Colegas sorriram.
Ela assentiu.
Mas nada ficou.
Natasha estava em outro lugar.
Observava.
Aqui, pensou, ninguém errava em público.
Sentou-se, ligou o computador, organizou alguns papéis vazios de significado imediato.
Mas não por muito tempo.
Porque, para ela, tudo era potencialmente útil.
Um e-mail esquecido.
A vingança não era explosão.
O telefone tocou.
O som cortou o ambiente como uma lâmina.
Natasha demorou um segundo a mais do que o aceitável antes de atender.
— Aragon Corp, bom dia.
— Natasha? — a voz feminina soou objetiva, sem emoção. — Pode levar um café para a sala da diretoria, por favor?
O coração falhou um compasso.
Sala da diretoria.
— Claro.
Desligou devagar.
Sentiu os dedos levemente dormentes.
Nada grave.
Mas suficiente para denunciar que algo dentro dela se preparava para o impacto.
Levantou-se.
Na copa, seus movimentos foram automáticos.
Filtro.
O cheiro forte do café subiu e invadiu seus sentidos.
Alerta.
Você está no controle.
Repetiu como um mantra.
O corredor até a diretoria parecia mais estreito do que deveria.
Mais longo.
Cada passo ecoava alto demais em sua cabeça.
Parou diante da porta de vidro fosco.
Inspirou.
Bateu.
— Pode entrar.
A voz masculina veio grave, firme.
Natasha abriu a porta.
A sala era ampla, sofisticada, fria.
Mesa grande.
Rafael estava ali, de pé, próximo à janela, conversando com alguém fora do seu campo de visão.
E então…
Ela o viu.
Dante Aragon.
Sentado à cabeceira.
O tempo perdeu coerência.
O mundo encolheu até caber apenas naquele homem.
O rosto que ela conhecia de fotos.
Os olhos escuros se ergueram lentamente.
Sem pressa.
Como se a estivesse esperando.
Natasha sentiu um frio atravessar seu corpo de cima a baixo.
As pernas ameaçaram falhar.
O café na xícara tremeu quando deu um passo à frente.
Rafael lançou-lhe um olhar curioso.
— Obrigado — disse ele.
Natasha não ouviu.
Porque Dante Aragon continuava olhando.
Como se estivesse desmontando cada camada dela.
O silêncio durou segundos demais.
Natasha colocou a bandeja sobre a mesa.
Cuidou para não derramar.
Quando ergueu o rosto novamente, os olhos dele ainda estavam nela.
Fixos.
Não havia hostilidade.
Havia interesse.
E aquilo era pior.
Dante inclinou levemente a cabeça.
Um gesto pequeno.
Mas carregado de significado.
Natasha entendeu, com uma clareza aterradora:
Ela não era mais invisível.
O predador tinha notado sua presença.
E, naquele instante silencioso, enquanto sustentava o olhar do homem que jurara destruir, Natasha soube:
O jogo acabara de mudar.
E nada, absolutamente nada, seria simples a partir dali.
O carro avançava pela estrada escura como se fugisse não só de um lugar… mas de um destino.Dante mantinha as mãos firmes no volante, os dedos tensos, os olhos fixos à frente. A respiração ainda estava irregular, mas ele não podia se dar ao luxo de perder o controle agora.Atrás, Helena gemia baixo.— Ela tá piorando… — Laura murmurou, segurando o corpo frágil dela contra si. — A gente precisa parar.— Parar não é uma opção — Raul respondeu, olhando pelo retrovisor, ainda esperando ver faróis surgirem atrás deles. — Ele pode estar vindo.Natasha virou o rosto para trás, observando Helena com preocupação.— Se a gente não parar, ela pode não aguentar.O silêncio caiu pesado dentro do carro.Dante apertou mais o volante.— Tem algum lugar… qualquer lugar… — Natasha continuou, a voz mais urgente agora. — Um hospital, um posto, alguma coisa.— Hospital? — Raul soltou um riso nervoso. — E explicar o quê? Que a gente sequestrou uma garota desacordada?— Ela não foi sequestrada! — Laura retr
O corpo de Rafael caiu pesado no chão, sem qualquer reação. O copo escapou de sua mão e se estilhaçou ao tocar o piso, espalhando o líquido restante em volta dele. Por um segundo, o silêncio tomou conta do ambiente, um silêncio denso, sufocante, como se o mundo tivesse parado.— Rafael! — Natasha gritou, o desespero rasgando sua voz.Tadeu tentou segurá-lo, mas já era tarde. Rafael estava desacordado, completamente entregue ao efeito do que havia ingerido.O olhar de Tadeu mudou naquele instante.Frio.Calculista.Perigoso.Sem perder tempo, ele girou o corpo com rapidez, puxando a arma da cintura. Em poucos segundos, atravessou o espaço e agarrou Helena, que ainda estava caída no chão, confusa e fraca. Ele a puxou com brutalidade, envolvendo o braço em volta de seu pescoço e pressionando a arma contra sua cabeça.— NINGUÉM SE MEXE! — ele gritou, a voz carregada de fúria.Helena soltou um gemido baixo, o corpo tremendo.— Tadeu… — ela murmurou, quase sem forças.— Cala a boca! — ele a







