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Capítulo 6

Author: Luana
last update publish date: 2026-07-17 01:23:58

(Carlos narrando)

O sono não veio.

Fiquei ali uma hora.

Duas.

Olhando pro teto feito um idiota.

A Amanda dormindo do lado, respirando baixinho, tranquila.

E eu ali.

Acordado.

Com fome.

Levantei devagar.

Coloquei uma regata.

Desci a escada descalço.

A casa tava com as luzes baixas.

Passei pela sala.

Fernanda ainda tava no sofá.

A amiga dela também.

As duas conversando baixo, rindo de alguma coisa no celular.

— Vai dormir tarde, Fernanda — falei sem parar.

— Tá cedo, Carlos.

Não respondi.

Passei direto.

Nem olhei pra amiga dela.

Nem vi a cara da menina.

Não me interessava.

Fui pra cozinha.

Acendi a luz.

Abri a panela da feijoada.

Ainda tava quente.

Peguei um prato.

Servi bastante.

Arroz, feijoada, couve, farofa.

Sentei na mesa da cozinha sozinho.

Comi em silêncio.

A comida tava boa.

Amanda sempre cozinhou bem.

Isso eu nunca neguei.

A mulher sabia fazer uma feijoada que fazia qualquer um calar a boca e comer.

Comi tudo.

Repeti.

Lavei o prato.

Sequei.

Guardei.

Eu sempre fiz isso.

Não gosto de deixar louça na pia.

Coisa de quem cresceu sem ninguém pra arrumar nada.

Apaguei a luz da cozinha.

Passei pela sala de novo.

As meninas tinham ido dormir.

Sofá vazio.

Televisão desligada.

Subi a escada.

Abri a porta do quarto devagar.

Amanda não tava deitada.

Tava sentada na cama.

Encostada na cabeceira.

Luz do abajur acesa.

Braços cruzados.

Me olhando.

Porra.

Eu conhecia aquele olhar.

Era o olhar de quem tava juntando coragem pra falar alguma coisa que eu não ia querer ouvir.

Entrei.

Fechei a porta.

— Que foi? — perguntei.

— Senta aqui.

— Amanda, eu tô cansado pra caralho.

— Senta, Carlos.

O tom dela mudou.

Não era pedido.

Era ordem.

E Amanda não costumava me dar ordem.

Sentei na beira da cama.

De costas pra ela.

— Olha pra mim — ela disse.

Virei o corpo.

Olhei.

Ela tava com os olhos vermelhos.

Não tava chorando.

Mas tinha chorado.

— Eu vou viajar — ela disse.

— Viajar pra onde?

— Espanha.

Fiquei quieto.

— Com quem?

— Com a Cláudia, a Regina e a Sônia.

— Espanha — repeti.

— É.

— Fazer o quê na Espanha?

Ela respirou fundo.

Descruzou os braços.

Colocou as mãos no colo.

— Pensar, Carlos. Pensar na gente.

Não falei nada.

— Você sabe o que tá acontecendo — ela disse. — Eu sei que você sabe. Você não é burro.

— Fala.

— Esse casamento tá morrendo.

Silêncio.

— Eu me arrumo pra você, Carlos. Todo dia. Cuido da casa. Faço comida. Coloco perfume. Coloco camisola. E você... — a voz dela tremeu. — Você me olha como se eu fosse um móvel.

Não respondi.

Porque ela tava certa.

— Eu não sei o que aconteceu — ela continuou. — Eu não sei quando você parou de me ver. Mas você parou. Faz tempo. E eu cansei de fingir que tá tudo bem.

— Eu não tô fingindo nada.

— Tá sim. A gente acabou de transar e você levantou e foi embora. Nem ficou na cama comigo. Nem me abraçou. Você gozou e saiu de perto de mim como se eu fosse uma qualquer.

Aquilo doeu.

Não porque era mentira.

Porque era verdade.

— Amanda...

— Não. Deixa eu terminar. — Ela levantou a mão. — Eu te amo, Carlos. Eu te amo desde o dia que você apareceu na minha vida. Desde que a Fernanda tinha seis anos e eu tava sozinha, fudida, sem saber como pagar o aluguel. Você apareceu e cuidou de mim. Cuidou da minha filha. Me deu uma casa. Me deu uma vida. Eu nunca esqueci disso. Nunca.

Fiquei olhando pra ela.

— Mas eu não vou ficar num casamento onde eu sou invisível — ela disse. — Eu mereço mais que isso. Eu mereço um homem que me olhe. Que me queira. Que me toque porque quer me tocar, não porque eu tô implorando.

— Eu não quero que você implore.

— Mas é o que eu faço, Carlos. Toda noite. Eu imploro com a camisola. Imploro com a comida. Imploro com o perfume. E você não vê. Ou vê e não se importa. E eu não sei qual dos dois é pior.

Silêncio.

Longo.

Pesado.

— Quanto tempo? — perguntei.

— O quê?

— Na Espanha. Quanto tempo.

— Não sei. Um mês. Talvez dois.

— Dois meses.

— É. Dois meses pra eu pensar. Pra você pensar. Pra gente decidir se isso aqui ainda faz sentido.

Fiquei quieto.

Olhei pro chão.

Passei a mão na cabeça.

— E a Fernanda? — perguntei.

— Fica aqui. Ela é adulta. Tem a vida dela. E você tá aqui.

— Tá.

— Tá o quê?

— Tá. Vai.

Ela me olhou.

Esperando mais.

Esperando que eu dissesse "não vai", "fica", "eu mudo", "eu te amo", qualquer coisa.

Eu não disse.

Porque eu não sabia o que dizer.

Não sabia o que eu sentia.

Não sabia se queria que ela ficasse ou fosse.

Não sabia de porra nenhuma.

— É só isso? — ela perguntou. — "Tá, vai"?

— O que você quer que eu fale, Amanda?

— Qualquer coisa, Carlos! Qualquer coisa que me mostre que você se importa!

— Eu me importo.

— Não parece.

Silêncio de novo.

Ela balançou a cabeça.

Os olhos encheram d'água.

Mas ela não chorou.

Amanda era forte demais pra chorar na minha frente.

— Eu viajo semana que vem — ela disse. — Já comprei a passagem.

— Já comprou.

— Já.

— Então por que tá me perguntando?

— Não tô perguntando. Tô te avisando. E tô te dando uma chance de reagir. Mas pelo visto...

Ela não terminou a frase.

Não precisava.

Levantou da cama.

Foi pro banheiro.

Fechou a porta.

Eu ouvi a água da torneira.

Ela tava chorando.

Eu sabia.

Ela abria a torneira pra eu não ouvir.

Fazia isso fazia anos.

Achava que eu não sabia.

Eu sabia.

Sempre soube.

E nunca fiz nada.

Deitei na cama.

De barriga pra cima.

Olhando pro teto.

De novo.

Sempre o mesmo teto.

Sempre o mesmo vazio.

Amanda ia embora.

E eu não senti nada.

Nem medo.

Nem tristeza.

Nem alívio.

Nada.

Só aquele buraco no peito.

Aquele buraco filho da puta que não fechava nunca.

Fechei os olhos.

E dessa vez o sono veio.

Pesado.

Escuro.

Sem sonho nenhum.

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