LOGINLevei-a ao Irish's Club. Vick parecia deslumbrada com a decoração rústica. Escolhi uma mesa estratégica — nunca dou as costas para a porta; é o instinto que me mantém vivo. Pedi uma garrafa de Bordeaux para ela e um uísque puro para mim.
— Kavanaugh... Você conhece a origem do seu nome, Victoria? — perguntei, o sobrenome soando como uma oração. — Pode me chamar de Vick... — ela respondeu, a voz como uma carícia. Ela me contou sobre a mãe e o vazio na sua linhagem materna. Enquanto falava, bebia rápido demais; vi suas pálpebras pesarem. De repente, ela entrou em pânico ao ver a hora: o último trem era às 22h. Ela disparou para a saída. Ninguém no clube ousou tocá-la; todos sabiam que ela estava sob a minha sombra. Encontrei-a do lado de fora, apoiada ao muro, parecendo um passarinho machucado. Propus levá-la para casa, pois ela não estava em condições de pegar um trem sozinha. Após hesitar, ela acabou aceitando. Eu sabia onde ela morava, mas precisei perguntar o endereço; notei que ela me dera o endereço de sua amiga, Julia. De forma divertida, perguntei se ela estava com medo de me dar o endereço de sua casa... Ela riu e disse que já havia planejado passar a noite com a amiga. Deixei-a na porta de Julia, que ficou visivelmente espantada ao me ver. Me apresentei, beijei a mão de Vick e parti. Deixei três dos meus homens vigiando a casa: os brutamontes de Maiza e Roberto não deveriam se aproximar dela ou de Julia. Voltei para a mansão no Alto da Boa Vista, mas não conseguia dormir. O cheiro dela parecia impregnado no meu nariz. Aqueles olhos... aquela tristeza... a forma como ela bebia rápido o vinho, como se tentasse afogar alguma coisa. Não vi o tempo passar. Fui para o banheiro e tomei um banho; o dia começava a despertar no horizonte. Quando estava terminando de me arrumar, o telefone tocou e meu mundo virou de cabeça para baixo. Fred, com raiva na voz, informou-me o ocorrido: vira Victoria sendo carregada pelos ombros por um capanga. Estavam acompanhados de Roberto e Maiza, indo para os fundos do armazém onde havia um homem estranho, também escoltado por dois seguranças armados. Corri para o carro e parti. No trajeto, Fred continuava a me informar os detalhes; ele conseguira se aproximar sem ser visto e ouvira o que falavam. Mallacht! (merda!) Aqueles filhos da puta estavam entregando a minha Vick para o pagamento de uma dívida! — Fred, faça o que for necessário, mas não deixe que toquem num só fio de cabelo dela! Mate todo mundo se for preciso, estou chegando! na estrada, eu não conseguia ver nada; a raiva me consumia. Cheguei àquele "muquifo" que aqueles malditos chamam de armazém. Minha Vick estava no chão, desacordada. Havia quatro homens mortos pelo local; Roberto e sua puta de esposa conseguiram fugir. Eu me ocuparia pessoalmente daqueles dois depois; minha prioridade era Victoria. Ela estava jogada naquele chão sujo, como se fosse nada. Peguei-a, verificando sua respiração; ela queimava de febre. Suas pupilas estavam dilatadas: ela fora drogada! Mallacht! Fred se aproximou com o blindado e saímos dali em alta velocidade. Ele me informou que já havia chamado a equipe de limpeza e apagado o disco rígido das câmeras de vigilância. Ao chegar em casa, ela estava completamente mole nos meus braços. A senhora Walsh veio ao meu encontro e, quando a viu, levou as mãos à boca. Ficou impressionada com a semelhança de Victoria com sua mãe, Siobhán. Indiquei que a levaria para o meu quarto e ordenei que chamassem nosso médico de confiança, explicando que ela fora drogada. Em trinta minutos, o médico chegou. Colocou-a no soro e disse que ela estava desidratada e, talvez, com anemia ou falta de vitaminas. Fez uma coleta de sangue para análise e alertou que levaria tempo para o organismo filtrar o entorpecente; ela fora drogada com Cetamina um analgésico veterinário muito forte. A senhora Walsh aproximou-se e disse: — Vou cuidar dela, Killian. Vou limpá-la e tirar essas roupas com sangue e sujeira, não se preocupe. Eu estava hipnotizado pela raiva. Disse à senhora Walsh: — Ela seria vendida como um animal... uma Kavanaugh sendo vendida como um objeto sem valor! Eu vou queimar tudo; quero as famílias Volpe e Callahan no chão! Senhora Walsh pôs a mão no meu ombro com carinho: — Deixe seus homens cuidando disso por enquanto. Quando ela acordar, estará atordoada; seria bom que a primeira pessoa que ela visse fosse você. Victoria dormiu por três dias inteiros. Eu não a deixava nem por um segundo. Cochilava ao seu lado, comia ao seu lado e, quando ia tomar banho, deixava a porta aberta, atento a cada barulho.Epílogo: O Legado do Sangue e do AmorSeis anos depois...O outono irlandês tingia os jardins e os vales do Castelo Black em tons sublimes de âmbar, cobre e dourado. O vento que soprava do norte, antes uivante e gélido, agora trazia o aroma aconchegante de terra molhada, lenha queimada e folhas secas. A fortaleza secular de pedra escura, que durante décadas servira de trincheira fria contra o mundo, brilhava sob a luz de um crepúsculo sereno.No pátio central, o eco de gargalhadas infantis preenchia cada canto da balaustrada.Liam e Freya, com seis anos completos, corriam entre as arcadas de carvalho. O menino, com os olhos negros e a postura firme do pai, empunhava uma espada de madeira artesanal lapidada pelo próprio Fred. Logo atrás, Freya — um prodígio de cachos ruivos flamejantes e íris verdes penetrantes como as de Victoria — contornava as colunas com a agilidade e a astúcia mística da linhagem Kavanaug.— Cuidado com os degraus, meu pequeno príncipe! — a voz grave e ressonante
A agitação médica dera lugar a uma quietude quase reverente. O ambiente aquecido pela lareira cheirava a tecido limpo, lavanda e àquela fragrância inconfundível de vida recém-chegada. Os exames de rotina estavam concluídos, os pequenos limpos e envoltos em mantas macias de lã branca tecidas à mão.Victoria descansava recostada em travesseiros altos de linho. Embora a exaustão física estivesse estampada em seu rosto, a palidez habitual dera lugar a um brilho maternal radiante. Ao seu lado, sentado na borda da grande cama de carvalho, Killian mantinha um dos braços ao redor dos ombros da esposa, enquanto apoiava a filha pequenina com uma delicadeza inacreditável no braço oposto. O primogênito repousava tranquilamente no peito de Victoria.Na entrada da suíte, a porta de carvalho rangeu de leve. Sra. Walsh vinha à frente, trazendo uma bandeja de prata com chá morno de ervas e infusões para Victoria. Logo atrás, Fred e Julia avançaram a passos lentos, hesitantes em romper o silêncio sagra
A tempestade do lado de fora parecia rugir em uníssono com a força que emanava da suíte master. A luz das chamas da lareira dançava pelas paredes de pedra, misturando-se ao brilho dos monitores médicos que mediam os batimentos vitais acelerados da mãe e dos bebês.Victoria mantinha os olhos cravados nos de Killian a cada onda brutal de dor. A Rainha do clã não gritava; sua determinação transparecia na respiração ritmada, no suor que brilhava em sua testa e no aperto de ferro com que segurava a mão maciça do marido.Ao redor da grande cama de carvalho, a atmosfera tornou-se densa e viva. Das vigas do teto e das extremidades mais escuras do quarto, as Sombras Ancestrais descenderam em espirais sutis e prateadas. Não era uma presença ameaçadora, mas uma cúpula mística de proteção — uma manifestação palpável da linhagem dos Kavanaug abraçando a nova geração que chegava ao mundo.— Falta pouco, Victoria! Mais uma força, na próxima contração! — comandou a Dra. Evans com voz firme e calma.A
Eram exatamente três horas e quarenta e dois minutos da madrugada quando o relógio de pêndulo do corredor principal badalou. Do lado de fora, o vento uivava contra os vitrais do Castelo Black, mas dentro da suíte master o silêncio era absoluto — até o momento em que a respiração de Victoria mudou drasticamente.Um estalo de dor visceral cortou a quietude da mente de Victoria. A primeira contração real e avassaladora veio como uma onda de choque que fez a Rainha cravar os dedos nos lençóis de linho e prender o ar no peito.Instintivamente, Killian abriu os olhos. O líder do clã sentiu a tensão no corpo da esposa antes mesmo que ela emitisse qualquer som.— Victoria... — disse Killian, a voz grave e rouca rasgando a penumbra enquanto se erguia sobre um dos cotovelos.— É agora, Killian... — murmurou Victoria, a voz baixa, mas firme através da dor que tensionava seu maxilar. Ela soltou o ar devagar, encarando-o com os olhos verdes brilhando sob a luz da lareira. — Eles escolheram esta no
O cheiro denso de mofo antigo, couro tratado e uísque turfado preenchia o escritório tático no segundo andar do Castelo Black. As pesadas cortinas de veludo verde-musgo estavam parcialmente fechadas, barrando a garoa fria da noite irlandesa, enquanto a vasta mesa de carvalho nobre ao centro estava coberta por plantas arquitetônicas da propriedade, monitores táticos portáteis e relatórios de inteligência impressos.Após o jantar aquecido, a atmosfera da casa transicionou com precisão militar para o rigor que a iminência do parto exigia.Killian estava de pé na cabeceira da mesa. O líder do clã vestia uma túnica escura de lã, com as mangas dobradas até os antebraços, revelando as marcas de anos de combate. Seu olhar escuro e penetrante alternava entre os painéis digitais e as figuras diante dele. Ao seu lado, Victoria permanecia acomodada em uma poltrona de couro de encosto alto. A Rainha da Irlanda, mesmo na fase final da gestação dupla, exalava uma autoridade serena e implacável, com
Após o frio cortante do pátio, o interior do Castelo Black abraçou o grupo com o calor crepitante das imensas lareiras de pedra e o aroma inconfundível do assado de carneiro com ervas selvagens e vinho tinto encorpado. No grande salão de jantar, sob o lustre de ferro forjado que projetava luzes douradas pelas paredes rústicas, a mesa de carvalho maciço fora posta com o esmero das grandes ocasiões. Cristais lapidados, talheres de prata pesados e louças com o brasão do clã reluziam sobre o trilho de linho escuro. A Sra. Walsh ajustava os últimos detalhes dos castiçais quando os dois casais adentraram o recinto. A governanta secular do castelo, com os cabelos brancos impecavelmente presos em um coque firme e o avental engomado, parou imediatamente. Seu olhar maternal, acostumado a ver o silêncio rígido daquele castelo por décadas, marejou ao encarar Fred e Julia. — Bem-vindos ao lar, meus filhos! — disse a Sra. Walsh, rompendo qualquer protocolo ao caminhar a passos rápidos para abraç







