LOGINDizem que o primeiro ano é o mais difícil para um herdeiro. Dizem que o sangue ainda quente do pai no túmulo atrai os tubarões. Eles estavam certos. Durante doze meses, tive que ensinar a Dublin que o luto, para um Black, não se faz com lágrimas, mas com pólvora e silêncio.
Meu nome é Killian Black. Há pouco mais de um ano, eu era apenas o "filho do velho". Hoje, sou o motivo pelo qual meus inimigos verificam embaixo do carro antes de dar a partida. Eu não pedi por este império, mas eu o tomei. Limpei as ruas da Irlanda da imundície que meu pai permitiu que crescesse e transformei o Clã Black na engrenagem que faz aquele país girar. Eu não governo pelo caos; o caos é para amadores. Eu governo pela ordem. E a minha ordem é absoluta. Mas agora, Dublin ficou pequena para o meu alcance. Desembarcar no Rio de Janeiro vindo do ar gelado da Irlanda é como levar um soco de umidade no peito. É como se eu estivesse bebendo água pelo nariz a cada trago de ar. Mal cruzei o portão da área VIP e minha equipe de segurança já havia montado um perímetro: rostos conhecidos e armas ocultas sob ternos sob medida. A reunião fora transferida para a zona portuária, em uma das ruelas mais decrépitas da cidade. Detesto mudanças de última hora; no meu mundo, imprevistos cheiram a emboscada. Mas, sem alternativa, ordenei o deslocamento. Esta cidade é um paradoxo sangrento. No meio da miséria que escorre pelas calçadas, há uma alegria irritantemente simples. Uma vida que eu nunca conheci. Chegamos a uma carcaça de alvenaria antiga — o esconderijo perfeito para pecados. Lá dentro, a célula brasileira de irlandeses me aguardava. Eu não estava satisfeito com os lucros. Cruzei o oceano para descobrir se o problema era incompetência ou traição. O suor frio no rosto dos meus subordinados confirmava que eles sabiam: cada passagem minha por este solo costuma deixar um rastro de cadáveres longo o suficiente para servir de aviso. Dei o ultimato: eles têm até o fim da semana. Caso contrário, cabeças rolariam, literalmente, pelo chão sujo daquele galpão. Afinal, por baixo da seda dos meus ternos, ainda sou o homem que sabe exatamente como o aço se sente contra um osso. Saí para a rua, o tédio pesando como o calor úmido. Encostei-me em uma pilastra, as sombras me ocultando, e foi então que a vi... Ela era deslumbrante. Alta, com pernas longas que uma saia comportada e levemente desbotada que tentava, sem sucesso, esconder sua beleza. Seus cabelos estavam presos e ela parecia imersa em um universo paralelo, com os olhos fixos em um livro. Fiquei hipnotizado... até que o inevitável aconteceu: ela acertou em cheio, com a testa, um poste de ferro antigo. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto. Como alguém podia ser tão deliciosamente distraída? Ela ficou vermelha, fugindo da própria timidez, e eu, movido por um impulso que não sentia há anos, comecei a segui-la. Ordenei a Fred, meu homem de confiança, que a rastreasse. Queria saber tudo: onde morava, com quem falava... até o nome de um maldito animal de estimação, se ela tivesse um. O Rio acabava de ficar interessante. Dois dias depois, Fred colocou a pasta sobre minha mesa. Victoria Volpe. Havia um vácuo sobre a mãe dela, um erro raro de Fred que revelava sombras profundas em sua árvore genealógica. Mas o que me foi revelado me deixou ainda mais chocado. Ela era vítima do descaso do pai e vítima do sadismo da madrasta. Mas o que as páginas seguintes traziam era pior do que qualquer ausência de dados. O relatório detalhava a podridão em que ela estava submersa. Roberto Volpe, o pai, estava atolado em dívidas e favores com o Clã Callahan, a máfia americana que não costuma ser gentil com quem falha. Esse clã era nossos inimigos a anos, meu pai não foi capaz de destruí-los, mas eu não daria uma segunda chance. Mas o verdadeiro asco subiu pela minha garganta ao ler sobre a madrasta, Maísa. O armazém na Zona Norte era apenas a fachada para algo muito mais sombrio: tráfico de drogas e, o que eu considero o pecado capital, tráfico humano. Aquela mulher estava brincando com vidas, usando o solo brasileiro para alimentar mercados negros internacionais. Nas fotos anexadas, Victoria alternava entre uma tristeza profunda e momentos de brilho ao lado de uma amiga, Julia Santiago. Senti um aperto estranho no peito, algo que costumo enterrar com uísque e pólvora. Eu, que causei o inferno para tantos, não suportava imaginar o suplício particular em que ela vivia com aquela família de ratos e criminosos de quinta categoria. Uma determinação fria tomou forma: era hora de um monstro maior entrar na história e mudar as regras. Fiz Fred comprar um crédito alto na empresa dela, exigindo atendimento exclusivo. Quando soube que o sistema barrou o valor por ela ser novata, quase fui até lá fazer aquele gerente porco sangrar. Mas não importava; ela não ficaria ali muito tempo. No mundo de Roberto, Maísa e dos Callahan, ela era uma mercadoria pronta para ser vendida a qualquer momento ou um estorvo. No meu, ela seria a prioridade. Na quarta-feira, posicionei-me perto do escritório. Eu a vi de longe, sempre tão distraída. Eu poderia ter me afastado e dar o espaço para ela passar; mas eu queria sentir seu calor e seu perfume. Me coloquei na frente dela. E ela se chocou com o meu peito, o choque foi tão forte que se eu não tivesse tido o reflexo de segurá-la pelos ombros ela teria caído no asfalto quente. O cheiro dela, uma mistura de lírios, rosas e baunilha me invadiu antes que ela me olhasse com aqueles olhos grandes azuis profundo... Envergonhada, ficou vermelha me pedindo desculpas e momentaneamente ela ficou... Perplexa? A soltei com um sorriso, que nem sabia que era capaz de dar a alguém. Aqueles olhos fizeram parte dos meus pensamentos e sonho durante alguns dias... Os dias foram longos. Por sorte dos meus subordinados, acabei adiando sem data de partida do Rio. Na nossa última reunião, decidi sair e respirar um pouco antes de ir beber alguma coisa. Por ironia do destino fui pego de surpresa. Ao sair de um beco, nossos ombros colidiram com violência. O impacto foi seco. Segurei-a pelos ombros para que não caísse no calçamento de pedras de novo. — Você está bem? — perguntei, a voz saindo mais profunda do que o planejado. Aqueles olhos azuis, que me perseguiram por dias, estavam ali. Senti uma descarga elétrica. Pensamentos possessivos invadiram minha mente; eu queria beijar aquela boca ali mesmo, à luz do dia. Soltei-a antes de perder o controle. — Você realmente precisa olhar por onde anda — eu disse, tentando soar gentil. — Vai acabar sofrendo um acidente. Ela riu, acanhada, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha; mencionando que a amiga dizia o mesmo. Fui direto ao ponto e a convidei para beber. Quando ela revelou seu nome completo, meu mundo girou. Kavanaugh. “Como assim?”. Como ela podia carregar esse nome de peso e viver aquela vida deplorável? Eu precisava investigar mais, mas antes, precisava dela por perto.Após o frio cortante do pátio, o interior do Castelo Black abraçou o grupo com o calor crepitante das imensas lareiras de pedra e o aroma inconfundível do assado de carneiro com ervas selvagens e vinho tinto encorpado. No grande salão de jantar, sob o lustre de ferro forjado que projetava luzes douradas pelas paredes rústicas, a mesa de carvalho maciço fora posta com o esmero das grandes ocasiões. Cristais lapidados, talheres de prata pesados e louças com o brasão do clã reluziam sobre o trilho de linho escuro. A Sra. Walsh ajustava os últimos detalhes dos castiçais quando os dois casais adentraram o recinto. A governanta secular do castelo, com os cabelos brancos impecavelmente presos em um coque firme e o avental engomado, parou imediatamente. Seu olhar maternal, acostumado a ver o silêncio rígido daquele castelo por décadas, marejou ao encarar Fred e Julia. — Bem-vindos ao lar, meus filhos! — disse a Sra. Walsh, rompendo qualquer protocolo ao caminhar a passos rápidos para abraç
O céu de veludo cinzento da Irlanda recebia o jato privado do clã com a costumeira garoa fina e o vento cortante do norte. A mudança drástica de clima — do calor abrasador e do mar cristalino de Noronha para a atmosfera sóbria e imponente do velho continente — marcava o fim do parêntese dourado da lua de mel. Quando a turbina do avião finalmente silenciou na pista privativa dentro dos domínios do Castelo Black, Fred foi o primeiro a se posicionar na porta. O gigante vestia uma calça tática escura, coturnos pesados e um sobretudo de lã densa que cobria seu porte colossal. Embora seu semblante tivesse recuperado a postura vigilante de um chefe de segurança, havia uma calma profunda e inabalável em seus olhos escuros. Ao seu lado, Julia ajeitou o casaco de corte impecável sobre os ombros. Sua pele morena ainda guardava o tom dourado e radiante do sol tropical, e a cascata de cabelos negros caía em ondas ricas sobre o tecido escuro. O colar de diamantes brilhava discreto sob a gola, mas
Os dias que se seguiram ao casamento em Fernando de Noronha transformaram-se em um capítulos de entrega irrestrita, onde a força bruta do gigante e a paixão avassaladora de sua mulher fundiram-se em uma rotina de amor e devoção sem precedentes. O Ritual das Manhãs no Bangalô Suspenso A rotina do casal Sulivan não conhecia relógios. As manhãs começavam com a luz dourada do sol atravessando os painéis de vidro da suíte principal, banhando a pele morena e aveludada de Julia, que descansava sobre o peito largo e maciço de Fred. Fred despertava primeiro, mas permanecia imóvel por longos minutos apenas para contemplar a esposa. Seus dedos calejados traçavam lentamente os contornos das costas de Julia, descendo pelas curvas de seu quadril até a marca roxa e recente do amor da noite anterior. Quando Julia abria os olhos escuros, ainda marejados de sono, encontrava o olhar do marido cravado no seu com uma fome que o casamento só fizera aumentar. Os despertares invariavelmente terminavam em
(Me perdoem se houver algum erro) O aplauso caloroso ecoou pela enseada no instante em que Fred encerrou o beijo e colocou os pés de Julia de volta sobre a areia. O sol já havia se recolhido completamente, dando lugar a uma penumbra dourada e azul-profunda. Varais de lâmpadas quentes e archotes de bambu ganhavam vida ao longo de toda a orla, transformando a praia privativa em um verdadeiro refúgio tropical sob o céu pontilhado de estrelas. A atmosfera transicionou da solene reverência do altar para uma celebração vibrante e genuinamente brasileira. O aroma de carne nobre assando na brasa de carvão de café misturava-se ao perfume de frutas frescas das estações de caipirinhas e à brisa salgada do Atlântico. A Primeira Dança dos Sulivan O grupo musical deu início a um samba-canção lento e envolvente, liderado por violão de nylon e cavaco. Fred e Julia caminharam para o centro da pista de madeira nobre montada sobre a areia. O gigante de quase dois metros retirou o paletó de linho, d
O murmurinho da brisa marinha e o suave arrebentar das ondas formavam a sinfonia perfeita para o momento mais esperado da tarde. No altar de madeira nobre, decorado com orquídeas e folhagens tropicais, o tempo parecia ter parado. O celebrante fez um breve sinal de cabeça, convidando o noivo a falar. Fred deu um passo à frente, ajustando a postura de gigante de quase dois metros. Suas mãos massivas e calejadas — mãos que o mundo conhecia por sua precisão cirúrgica e força bruta — envolveram as mãos finas e quentes de Julia com um cuidado reverente, como se segurasse a joia mais frágil e valiosa do universo. Fred olhou bem fundo nos olhos escuros e brilhantes da noiva. A voz grave, profunda e ressonante que costumava impor respeito absoluto em qualquer sala de operações, tremeu logo na primeira sílaba: "Julia... eu passei a maior parte da minha vida nas sombras. Aprendi a não sentir, a não esperar nada do mundo além de dever, lealdade e disciplina. Para mim, a vida era apenas uma seq
(Pode haver erros, estou mudando de corretor) O murmurinho suave dos convidados cessou no instante em que as notas graves e aveludadas de um violino de sete cordas começaram a ecoar pela praia, entrelaçando-se ao som calmo das ondas do Atlântico. A brisa morna do fim de tarde trazia o aroma doce das floradas tropicais e da maresia aquecida pelo sol alaranjado que começava a se deitar no horizonte. No altar de madeira nobre, Fred mantinha a postura ereta e implacável de um centinela. No entanto, por baixo do corte impecável do seu terno de linho cru, o coração do gigante batia num ritmo desordenado que nenhuma batalha em sua vida jamais conseguira provocar. Suas mãos massivas e calejadas, entrelaçadas à frente do corpo, tencionavam-se a cada acorde da música. Então, o cortejo se abriu. Quando Julia surgiu no início do caminho de areia coberto por pétalas de jasmim e bougainvilles, o tempo pareceu congelar. Fred travou no lugar. O ar fugiu completamente de seus pulmões, e por uma f







