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Capítulo 3

Autor: Crisfer
last update Fecha de publicación: 2025-05-08 06:05:36

O escritório Assunção & Assunção era conhecido pela elegância, discrição e pelo cheiro constante de café passado na hora. João Assunção, sócio-fundador, estava sentado à sua mesa de mogno, revendo um processo complexo quando Roberto entrou, sem bater, como sempre fazia.

— Bom dia, velhote. Dormiu bem ou passou a noite brigando com os fantasmas da Justiça brasileira?

— Dormi bem, por incrível que pareça. — João ergueu os olhos e deu um raro sorriso. — Mas quem me tirou o sono nos últimos tempos não foi nenhum juiz.

Roberto riu e se jogou na poltrona de frente pra mesa do pai.

— Ih, lá vem história.

— História, não. Confissão. — João disse, recostando-se. — Preciso te contar algo que nunca falei pra ninguém. E se tem alguém com quem posso dividir, é você.

Roberto se ajeitou, curioso.

— Vai, manda.

— Lembra daquela viagem que fiz à Grécia no verão retrasado?

— Claro. Você voltou bronzeado e mais leve. Pensei até que tinha arrumado um affair por lá.

— Foi exatamente isso. — João sorriu de lado, como um homem que revive mentalmente uma lembrança que o incendiava por dentro. — Conheci uma mulher... Uma jovem. Muito mais jovem que eu. Linda, dona de um sorriso doce e um corpo... bom, não vem ao caso. A conexão foi absurda, intensa. Quase primitiva. A gente se entendeu no olhar. E foi só uma noite, mas...

Ele fez uma pausa. Não era fácil admitir tanta vulnerabilidade, mesmo para o filho.

— ...mas ela me marcou, Roberto. Me fez sentir homem de novo. Vivo.

— Uau. — Roberto arregalou os olhos, impressionado. — E vocês trocaram contato?

— Nada. Nem nomes. Só sei que ela é brasileira, mora aqui no país, talvez até na mesma cidade. Mas nunca mais a vi.

— E se visse?

— Se ela aparecesse hoje na minha frente... — João encarou o filho com firmeza, sem hesitar. — ... eu largava tudo e me casava com ela. Sem pensar duas vezes.

Roberto soltou um riso surpreso, mas logo depois ficou sério.

— Sabe... fico feliz por ouvir isso. Desde que a mamãe morreu, você virou um homem fechado. Frio às vezes. Você merece ser feliz, pai. Merece viver outra grande história de amor.

— Obrigado, filho. — João estendeu a mão, e Roberto a apertou com carinho. — Só espero que o destino não tenha brincado comigo dessa vez.

E lá fora, pelas grandes janelas de vidro, o mundo seguia, alheio ao detalhe mais irônico de todos: o destino não só estava brincando... como estava prestes a unir aquelas histórias de uma forma impensável.

Depois de um expediente longo e cheio de reuniões arrastadas, Roberto encostou na porta da sala do pai com as mãos nos bolsos e aquele sorriso fácil que herdara da mãe.

— Que tal uma saideira hoje, hein, velhote? Um barzinho com música boa, gente interessante e uns drinks pra relaxar. Você tá precisando.

— Barzinho? — João arqueou uma sobrancelha, mas não recusou de imediato. — Com essas suas companhias modernas?

— Exato. Gente de todas as idades, não vai ser só jovem não. E, vai por mim... você vai se divertir.

João hesitou por dois segundos. O terno estava apertando, o cansaço pesava nas costas, mas a lembrança da jovem misteriosa ainda fervia em sua mente. Talvez distrair fosse bom.

— Tá. Mas só uma dose. E só porque você tá insistindo.

Meia hora depois, estavam acomodados em um bar animado da zona sul, com luz baixa, música dançante — um samba misturado com jazz — e gente bonita por todos os lados. Casais trocando sorrisos, mulheres rindo em grupos, homens encostados no balcão. Um lugar onde ninguém parecia se importar com idade ou status.

Assim que chegaram, uma moça de vestido justo e cabelos cacheados bateu os olhos em Roberto e soltou um sorriso de canto. Ele devolveu o olhar, cheio de intenção.

— Já volto, pai. — disse, inclinando-se discretamente. — A senhorita da mesa três me pareceu simpática.

João balançou a cabeça, achando graça. Puxou um banco no balcão e pediu uma dose de whisky sem gelo. Observava o filho se aproximar da moça, puxar conversa com aquele jeito descomplicado, como se tudo na vida fosse leve.

— Ele é bom nisso... — murmurou o senhor Assunção, quase com orgulho. — Puxou a mãe.

Enquanto isso, ao som de "Sampa" em versão acústica, João observava o bar através dos reflexos do copo. Casais se formavam, beijos furtivos aqui e ali, risadas se misturavam com batidas suaves.

Por um momento, ele fechou os olhos. A imagem do corpo quente de Alicia sob o seu voltava com nitidez. O cheiro, os gemidos, o gosto da juventude na boca. Ele nunca mais sentira nada parecido. Desde então, todas as mulheres com quem tentou algo pareciam pálidas comparadas a ela. Era como se ela tivesse acendido um fogo que ninguém mais soubesse alimentar.

E ali estava ele, sozinho com seu copo de whisky, admirando o filho aproveitar a noite como ele próprio fazia aos trinta. Mas havia algo em João que o impedia de se entregar de novo à noite, ao jogo da sedução, aos olhares. Era como se já tivesse encontrado o que buscava... e perdido logo depois.

O destino, no entanto, estava ali. Em algum lugar. Talvez a poucos passos. Talvez prestes a rir da cara dele mais uma vez.

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Último capítulo

  • EM NOME DO FILHO    FINAL

    Dez anos se passaram desde o dia em que Alicia, Roberto e João assinaram juntos a certidão que reconhecia oficialmente o que o coração deles já sabia há tempos: eram uma família. Completa. Inusitada. Real.A casa onde viviam era outra — não porque haviam se mudado, mas porque o tempo tinha deixado suas marcas boas. A varanda agora era coberta por trepadeiras floridas, um balanço de cordas e madeira pendia de uma árvore robusta no quintal, e os risos infantis ecoavam como trilha sonora constante.Pietro tinha doze anos e era a mistura viva dos três. Herdara a sensibilidade de Alicia, o senso de justiça aguçado de Roberto e a serenidade encantadora de João. Estela, com nove, era pura luz, como o nome que Pietro escolheu quando ainda era uma criança. Tinha olhos atentos ao mundo, perguntas afiadas e uma forma de abraçar que desarmava qualquer dureza.Aquela manhã de sábado começara com cheiro de café e bolo de laranja saindo do forno. Alicia andava pela cozinha descalça, os cabelos mais

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 85

    O dia amanheceu sereno, com uma brisa suave entrando pelas frestas da janela e espalhando pelo quarto um cheiro leve de lavanda. Estela dormia tranquila no berço improvisado entre o quarto de Alicia e o de Roberto. Pietro, já mais crescido e falante, tinha passado a noite com os avós, deixando o trio com um raro silêncio — e uma rara privacidade.A casa parecia respirar junto com eles. Cada detalhe da decoração, cada foto na parede, cada brinquedo no chão, carregava história. Um lar construído entre amores improváveis, barreiras vencidas e promessas cumpridas. Mas naquele dia, algo maior os esperava: a formalização daquilo que o coração deles já reconhecia há muito tempo. Uma família.— Tá pronta? — João perguntou, ajeitando o colarinho da camisa clara, os olhos brilhando por trás dos óculos de leitura que ele sempre esquecia no topo da cabeça.Alicia respondeu com um sorriso que era meio nervoso, meio incrédulo, enquanto ajeitava o vestido azul escuro que escolhera especialmente para

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 84

    O sol ainda não havia se debruçado completamente no horizonte quando o silêncio daquela manhã foi rompido por um gemido abafado vindo do quarto. A cidade ainda bocejava quando dentro da casa de tons claros, aquecido por cortinas translúcidas e móveis acolhedores, o tempo parava. Alicia segurava na mão de Roberto enquanto olhava para João com os olhos marejados de dor e emoção. O momento havia chegado.Ela queria aquele parto em casa. Queria sentir cada parte da vida nascendo com intimidade, acolhimento e amor. Eles haviam se preparado juntos, com cursos, consultas e planos. Pietro estava com a avó materna, levado carinhosamente no dia anterior, quando as contrações se tornaram ritmadas.A sala agora parecia uma extensão do coração daquela família. O colchão no chão, lençóis estendidos, a banqueta de parto, as essências no difusor, a playlist suave de fundo e os dois homens que Alicia amava de verdade, ajoelhados ao seu lado. Roberto fazia compressas mornas, acariciava as costas dela e

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 83

    O sol de fim de tarde entrava pela grande janela da sala, dourando as cortinas e os brinquedos espalhados por Pietro. No centro do cômodo, Alicia dobrava algumas roupinhas recém-compradas para o novo bebê, sorrindo ao ver os tamanhos minúsculos das peças, tão parecidos com as que Pietro usava pouco tempo atrás. O menino agora corria pela casa com seus dois anos bem vividos, falando sem parar, cheio de perguntas e risadas. Ele era o tipo de criança que preenchia o ambiente com luz — e barulho.João vinha da cozinha com as mãos molhadas, secando-as no avental que ele insistia em usar nas tardes em que cozinhava. Roberto, sentado no chão ao lado do filho, tentava montar uma pista de carrinhos.— Mamãe, o papai João disse que hoje vai ter lasanha! — gritou Pietro, correndo até Alicia e segurando sua perna com força.— Vai sim, meu amor — ela respondeu, acariciando os cabelos do filho. — Mas primeiro, você precisa guardar esses brinquedos, certo?Pietro fez uma careta exagerada, que arranc

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 82

    A brisa da manhã entrava suave pelas janelas abertas da nova casa. O campo ao redor parecia emoldurar a cena que se desenrolava lá dentro com uma delicadeza quase cinematográfica. Em meio aos móveis de madeira clara e às cores aconchegantes da decoração, Alicia caminhava descalça pela sala, a mão repousando com ternura sobre a barriga já arredondada pela nova gravidez.O tempo tinha passado rápido. Um ano se fora desde que haviam deixado a cidade grande. O antigo apartamento, os olhares tortos no elevador, os cochichos no parquinho… tudo parecia tão distante agora. A nova vida no interior, cercada pela natureza, pelas galinhas da vizinha, pelo cheiro de mato molhado e pelas caminhadas no fim da tarde, era o cenário perfeito para a família que eles estavam construindo — juntos.Pietro, agora com dois anos completos, era o reflexo vivo daquela nova fase. Curioso, carinhoso e falante, corria pela casa como um raio de sol, seus cachinhos balançando, os pezinhos fazendo barulho no assoalho

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 81

    A luz do sol filtrava-se suavemente pelas cortinas de linho claro, tingindo o quarto com um brilho dourado e morno. A manhã invadia o ambiente sem pressa, como quem respeita o silêncio e a paz de quem dorme. No centro da cama, uma bagunça de corpos entrelaçados respirava devagar, sob uma coberta felpuda cor de creme que parecia abraçá-los ainda mais do que os braços um do outro.João despertou primeiro. Ainda sem abrir os olhos, sentiu o cheiro leve de lavanda nos cabelos de Alicia, repousados sobre seu peito. Uma de suas pernas estava entrelaçada na de Roberto, e por um instante, ele apenas sorriu, em paz. A casa estava em silêncio. Nem mesmo o balbuciar de Pietro vinha da babá eletrônica — talvez ainda dormisse, o que era raro, mas muito bem-vindo naquela manhã especial.Ele não teve pressa de se mover. Com um carinho delicado, deslizou os dedos pelas costas nuas de Alicia, desenhando um caminho imaginário da base da coluna até o ombro. Ela se remexeu levemente, um suspiro escapando

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