FAZER LOGINA casa de Camila estava iluminada, perfumada, vibrante. Era o tipo de reunião que Alicia adorava: nada de exageros, apenas gente bonita, risadas soltas, vinho de qualidade e uma playlist que passeava entre jazz e R&B como quem acaricia a alma.
Alicia estava impecável — um vestido longo, justo na medida certa, que realçava suas curvas sem vulgaridade. Cabelos soltos, levemente ondulados, caindo pelas costas. A maquiagem leve apenas ressaltava o que já era marcante: olhos expressivos, boca convidativa, pele dourada e luminosa. Enquanto segurava uma taça de vinho branco, conversando com duas amigas sobre viagens, Camila surgiu sorrindo, puxando alguém pelo braço. — Li, quero te apresentar um advogado maravilhoso. Ele é amigo do Tobias, mas já considero um dos meus melhores amigos. Alicia virou-se com um sorriso educado... e congelou por dentro ao encarar o homem alto, bronzeado, terno casual, cabelo perfeitamente penteado e um olhar indecente de tão intenso. — Prazer, Alicia. — disse ele, com voz firme e grave. — Me chamo Roberto. Antes mesmo que ela pudesse responder, ele inclinou-se e beijou seu rosto, tocando de leve sua cintura. O toque foi sutil, mas cheio de uma intenção silenciosa. Aquela mão quente e firme fez Alicia estremecer por dentro — um choque elétrico suave, mas inegável. Era como se seu corpo tivesse acabado de lembrar o que era desejo real. A última vez que sentira isso... foi naquela noite na Grécia. Com o homem de cabelos grisalhos que ela jamais conseguiu esquecer. Mas Roberto não tinha cabelos grisalhos. Tinha o olhar sagaz, sorriso perigoso e uma autoconfiança que deixava o ar mais denso ao redor dele. — E você, Alicia? — perguntou ele, após trocarem um brinde. — O que faz da vida? — Sou nutricionista. Tenho meu próprio consultório — disse ela, orgulhosa. — E você? — Advogado. Tenho um escritório com meu pai, chamado Assunção & Assunção. Meu pai é um velho durão, mas o melhor mentor que eu poderia ter. A conversa fluía com facilidade absurda. Em questão de minutos, já estavam rindo, falando de séries, livros, músicas, comidas favoritas. Era como se as bolhas ao redor da festa tivessem desaparecido. Camila, do outro lado da sala, observava a cena e resmungava para a amiga ao lado: — Eu devia ter cobrado ingresso por esse encontro. Acho que acabei de perder dois amigos de uma vez... Horas depois, já era madrugada. A casa esvaziava aos poucos. A brisa da noite entrava pela varanda e o vinho tinha aquecido não só os corpos, mas também as intenções. — Eu te levo em casa, se quiser. — Roberto disse com naturalidade, como se aquela fosse a coisa mais certa a se fazer. Alicia hesitou por meio segundo. Depois sorriu. — Pode ser... O caminho até o carro foi silencioso, mas cheio de tensão. No carro, as mãos dele estavam firmes no volante, mas os olhos... cada vez que paravam no sinal vermelho, ele a encarava como quem já imaginava o gosto da sua pele. Alicia desviava o olhar, mas sorria por dentro. Sentia o estômago revirar como se tivesse 17 anos de novo. Ela não sabia quem era Roberto. Só sabia que havia algo nele. Algo quente, curioso, perigoso e reconfortante ao mesmo tempo. O mesmo algo que ela sentiu na Grécia. E que agora, parecia querer arder novamente. Roberto estacionou diante do prédio de Alicia com calma, como se não quisesse que aquele instante tivesse fim. O motor ainda ligado, o rádio tocando baixinho uma balada suave. Alicia desfez o cinto e se virou para ele, o sorriso ainda nos lábios. — Me passa seu número? — ele pediu, os olhos fixos nos dela, a voz baixa e rouca, como se estivesse segurando algo dentro de si. — Claro. — Alicia recitou os números enquanto ele digitava no celular, mas sua voz soava diferente. Mais baixa, mais hesitante. Como se o clima estivesse espesso demais para qualquer palavra comum. Assim que salvou o contato, ele colocou o celular no painel, mas não se moveu. Ficou olhando para ela, como se esperasse uma permissão silenciosa. Alicia notou o olhar dele descendo discretamente pelo seu rosto, pela curva dos lábios, pelo pescoço exposto e, por fim, retornando para os olhos dela. — Eu posso... — ele começou a falar, mas parou, apenas se inclinando devagar, dando a ela tempo para recuar — ou corresponder. Ela não se mexeu. Então, ele a beijou. Foi um beijo contido no início, quase inseguro. Um roçar lento de lábios, como se testassem o território. Mas bastou Alicia entreabrir a boca, puxando levemente o lábio inferior dele, para tudo mudar. O beijo ficou mais denso, quente, carregado. As línguas se encontraram num ritmo envolvente e faminto, e a mão de Roberto deslizou para a nuca dela, puxando-a com mais intensidade. Os corpos se aproximaram ainda mais no banco apertado. Alicia sentia o calor subindo pelas coxas enquanto as mãos dele exploravam sua cintura com firmeza, depois descendo pelas costas até a curva dos quadris. Ela o tocava também, os dedos passeando pelos ombros largos, sentindo cada músculo sob o tecido da camisa. Seus corpos falavam uma língua própria, cheia de vontades. Um suspiro escapou dos lábios dela entre um beijo e outro. Ele sorriu contra sua boca, satisfeito, e voltou a beijá-la, dessa vez mais lento, como se quisesse gravar cada segundo daquilo na memória. — Se eu continuar — ele murmurou com a voz abafada pelo desejo — não vou conseguir te deixar subir sozinha. Alicia abriu os olhos, respirando fundo, com a testa encostada na dele. Um turbilhão rodava dentro dela. — Então é melhor eu subir agora... antes que eu mesma mude de ideia. Ele riu baixo, ainda colado a ela. — Você é diferente, Alicia. E isso está me deixando louco. Ela desceu do carro com as pernas um pouco trêmulas, o coração disparado, como se tivesse saído de um furacão. Virou-se uma última vez na porta do prédio e o viu ali, ainda no carro, olhando fixamente para ela como se quisesse trazê-la de volta com o olhar. Ela entrou em casa sabendo que algo muito grande tinha começado ali. Mal sabia ela… o quanto.Dez anos se passaram desde o dia em que Alicia, Roberto e João assinaram juntos a certidão que reconhecia oficialmente o que o coração deles já sabia há tempos: eram uma família. Completa. Inusitada. Real.A casa onde viviam era outra — não porque haviam se mudado, mas porque o tempo tinha deixado suas marcas boas. A varanda agora era coberta por trepadeiras floridas, um balanço de cordas e madeira pendia de uma árvore robusta no quintal, e os risos infantis ecoavam como trilha sonora constante.Pietro tinha doze anos e era a mistura viva dos três. Herdara a sensibilidade de Alicia, o senso de justiça aguçado de Roberto e a serenidade encantadora de João. Estela, com nove, era pura luz, como o nome que Pietro escolheu quando ainda era uma criança. Tinha olhos atentos ao mundo, perguntas afiadas e uma forma de abraçar que desarmava qualquer dureza.Aquela manhã de sábado começara com cheiro de café e bolo de laranja saindo do forno. Alicia andava pela cozinha descalça, os cabelos mais
O dia amanheceu sereno, com uma brisa suave entrando pelas frestas da janela e espalhando pelo quarto um cheiro leve de lavanda. Estela dormia tranquila no berço improvisado entre o quarto de Alicia e o de Roberto. Pietro, já mais crescido e falante, tinha passado a noite com os avós, deixando o trio com um raro silêncio — e uma rara privacidade.A casa parecia respirar junto com eles. Cada detalhe da decoração, cada foto na parede, cada brinquedo no chão, carregava história. Um lar construído entre amores improváveis, barreiras vencidas e promessas cumpridas. Mas naquele dia, algo maior os esperava: a formalização daquilo que o coração deles já reconhecia há muito tempo. Uma família.— Tá pronta? — João perguntou, ajeitando o colarinho da camisa clara, os olhos brilhando por trás dos óculos de leitura que ele sempre esquecia no topo da cabeça.Alicia respondeu com um sorriso que era meio nervoso, meio incrédulo, enquanto ajeitava o vestido azul escuro que escolhera especialmente para
O sol ainda não havia se debruçado completamente no horizonte quando o silêncio daquela manhã foi rompido por um gemido abafado vindo do quarto. A cidade ainda bocejava quando dentro da casa de tons claros, aquecido por cortinas translúcidas e móveis acolhedores, o tempo parava. Alicia segurava na mão de Roberto enquanto olhava para João com os olhos marejados de dor e emoção. O momento havia chegado.Ela queria aquele parto em casa. Queria sentir cada parte da vida nascendo com intimidade, acolhimento e amor. Eles haviam se preparado juntos, com cursos, consultas e planos. Pietro estava com a avó materna, levado carinhosamente no dia anterior, quando as contrações se tornaram ritmadas.A sala agora parecia uma extensão do coração daquela família. O colchão no chão, lençóis estendidos, a banqueta de parto, as essências no difusor, a playlist suave de fundo e os dois homens que Alicia amava de verdade, ajoelhados ao seu lado. Roberto fazia compressas mornas, acariciava as costas dela e
O sol de fim de tarde entrava pela grande janela da sala, dourando as cortinas e os brinquedos espalhados por Pietro. No centro do cômodo, Alicia dobrava algumas roupinhas recém-compradas para o novo bebê, sorrindo ao ver os tamanhos minúsculos das peças, tão parecidos com as que Pietro usava pouco tempo atrás. O menino agora corria pela casa com seus dois anos bem vividos, falando sem parar, cheio de perguntas e risadas. Ele era o tipo de criança que preenchia o ambiente com luz — e barulho.João vinha da cozinha com as mãos molhadas, secando-as no avental que ele insistia em usar nas tardes em que cozinhava. Roberto, sentado no chão ao lado do filho, tentava montar uma pista de carrinhos.— Mamãe, o papai João disse que hoje vai ter lasanha! — gritou Pietro, correndo até Alicia e segurando sua perna com força.— Vai sim, meu amor — ela respondeu, acariciando os cabelos do filho. — Mas primeiro, você precisa guardar esses brinquedos, certo?Pietro fez uma careta exagerada, que arranc
A brisa da manhã entrava suave pelas janelas abertas da nova casa. O campo ao redor parecia emoldurar a cena que se desenrolava lá dentro com uma delicadeza quase cinematográfica. Em meio aos móveis de madeira clara e às cores aconchegantes da decoração, Alicia caminhava descalça pela sala, a mão repousando com ternura sobre a barriga já arredondada pela nova gravidez.O tempo tinha passado rápido. Um ano se fora desde que haviam deixado a cidade grande. O antigo apartamento, os olhares tortos no elevador, os cochichos no parquinho… tudo parecia tão distante agora. A nova vida no interior, cercada pela natureza, pelas galinhas da vizinha, pelo cheiro de mato molhado e pelas caminhadas no fim da tarde, era o cenário perfeito para a família que eles estavam construindo — juntos.Pietro, agora com dois anos completos, era o reflexo vivo daquela nova fase. Curioso, carinhoso e falante, corria pela casa como um raio de sol, seus cachinhos balançando, os pezinhos fazendo barulho no assoalho
A luz do sol filtrava-se suavemente pelas cortinas de linho claro, tingindo o quarto com um brilho dourado e morno. A manhã invadia o ambiente sem pressa, como quem respeita o silêncio e a paz de quem dorme. No centro da cama, uma bagunça de corpos entrelaçados respirava devagar, sob uma coberta felpuda cor de creme que parecia abraçá-los ainda mais do que os braços um do outro.João despertou primeiro. Ainda sem abrir os olhos, sentiu o cheiro leve de lavanda nos cabelos de Alicia, repousados sobre seu peito. Uma de suas pernas estava entrelaçada na de Roberto, e por um instante, ele apenas sorriu, em paz. A casa estava em silêncio. Nem mesmo o balbuciar de Pietro vinha da babá eletrônica — talvez ainda dormisse, o que era raro, mas muito bem-vindo naquela manhã especial.Ele não teve pressa de se mover. Com um carinho delicado, deslizou os dedos pelas costas nuas de Alicia, desenhando um caminho imaginário da base da coluna até o ombro. Ela se remexeu levemente, um suspiro escapando







