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Capítulo 7

Autor: Crisfer
last update Fecha de publicación: 2025-05-17 22:21:34

No escritório Assunção & Assunção, a sexta-feira seguia tranquila. João revisava um contrato antigo quando Roberto entrou sorrindo de orelha a orelha, sentando-se à frente da mesa do pai com um brilho no olhar que João não via há muito tempo.

— Aconteceu alguma coisa? — João perguntou, fechando a pasta e tirando os óculos. — Essa sua cara aí... parece até que ganhou na loteria.

— Melhor que isso. — Roberto apoiou os cotovelos nos joelhos, inclinando-se animado. — Acho que encontrei a mulher da minha vida.

João arqueou uma sobrancelha, interessado.

— É mesmo?

— Sério, pai. A Alicia é diferente. Linda, inteligente, tem uma risada que me desmonta, um jeito doce e firme ao mesmo tempo. Me deixa à vontade, mas também me tira o chão. Não sei explicar. Só sei que eu quero ela. Quero pra minha vida. Pra casar.

João levantou-se e foi até o filho, emocionado. Apertou seu ombro, depois o puxou para um abraço cheio de orgulho.

— Então já ganhou minha bênção antes mesmo de eu conhecer. Você merece isso, meu filho. Depois de tudo... está na hora de ser feliz.

— Quero que vocês se conheçam o quanto antes. Prometo marcar um jantar.

— Estarei esperando — João respondeu sorrindo. — Já estou curioso com essa mulher que conseguiu fazer você pensar em casamento.

---

Mas o tal jantar nunca aconteceu.

Dias depois, enquanto Roberto e Alicia passavam mais um fim de semana juntos no apartamento dela, o noticiário anunciou: Lockdown decretado. A cidade inteira pararia. Sem transportes, sem visitas, sem previsão.

— Acho que você vai ficar preso aqui comigo — Alicia comentou, segurando a xícara de chá e sorrindo de canto.

— Pior coisa do mundo, né? — ele respondeu, puxando ela pela cintura e beijando seu pescoço.

Ficar preso não foi ruim. Pelo contrário. Foi o começo de algo ainda mais forte. A convivência intensa fez o sentimento crescer como fogo em mato seco.

Eles dividiram a cama, as refeições, os silêncios. Viraram parceiros de séries, de jogos de cartas, de receitas improvisadas. Cozinharam macarrão, bolos e até pão — riram quando o primeiro ficou duro como uma pedra e comemoraram quando o segundo saiu fofinho.

— Se a vida continuar assim, eu caso com você amanhã — Roberto disse um dia, vendo Alicia de avental, suja de farinha.

— Se prometer lavar a louça, eu aceito.

E assim os dias se tornaram semanas, e as semanas, um mundo só deles. Isolados do resto, mas inteiros um no outro.

Longe do escritório, longe de João.

E ainda sem saber o que o destino estava preparando. Porque, às vezes, a vida gosta de brincar com ironias... e algumas verdades, por mais inevitáveis, gostam de chegar no momento mais inesperado.

---

Os dias se sucediam num ritmo calmo, quase encantado. A cidade estava silenciosa do lado de fora, mas dentro do apartamento de Alicia, havia música, riso e calor.

Roberto e Alicia acordavam tarde, sem pressa. Ela fazia café enquanto ele colocava uma playlist suave para tocar. Dividiam o pão que aprenderam a fazer juntos — e que agora já saía perfeito — e conversavam sobre tudo: infância, sonhos, medos, traumas. Cada conversa parecia encaixar como peças de um quebra-cabeça que finalmente fazia sentido.

Às vezes, Alicia o observava em silêncio, distraído na varanda, e o coração dela aquecia. Tinha algo nele que ia além da beleza: era o cuidado, a atenção, a forma como ouvia o que ela dizia, como se cada palavra dela tivesse valor.

E Roberto… se sentia em casa. Pela primeira vez na vida, estar com uma mulher não era só prazer — era paz. Era desejo com profundidade, carinho com tesão, admiração com cumplicidade. Ele amava o jeito dela andar descalça pela casa, o modo que cuidava das plantas, como penteava o cabelo ao sair do banho.

Ficavam horas no sofá, deitados um no outro, assistindo filmes ou apenas trocando carinhos. Riam até das bobagens. Discutiam a melhor forma de dobrar roupa, brigavam pelo controle remoto, faziam as pazes na cozinha e se redescobriam na cama.

O sexo entre eles era constante, sim, mas também era terno, conectado, cheio de entrega. Roberto aprendeu os ritmos do corpo dela. Alicia sabia quando ele precisava de um abraço silencioso mais do que qualquer palavra. O amor não foi dito de forma apressada, mas nas atitudes, nos gestos, nas entrelinhas.

Numa tarde de domingo, deitados no tapete da sala com taças de vinho ao lado, Alicia acariciava os cabelos dele, e Roberto, com a cabeça no colo dela, suspirou:

— Eu poderia viver assim o resto da vida.

Ela não respondeu. Apenas sorriu e beijou a testa dele com doçura.

Naquela noite, enquanto Alicia dormia abraçada a ele, Roberto ficou acordado olhando para o teto. Era aquilo. Era ela. O que ele e o pai sempre conversaram... quando a mulher certa aparecesse, ele saberia. E ele sabia.

Ele queria Alicia para sempre.

O lockdown, que parecia um problema para o mundo, se tornava o cenário perfeito para dois corações que se encontraram no tempo certo, mesmo que com passados cheios de pontas soltas.

Mas o tempo… o tempo sempre cobra.

Enquanto Roberto e Alicia viviam aquele conto de amor moderno dentro do apartamento dela, do outro lado da cidade João passava os dias em isolamento com a fiel empregada, Dona Cida, que cuidava da casa há anos. O silêncio da mansão parecia mais pesado do que nunca, e a ausência do filho só era amenizada pelas chamadas de vídeo noturnas.

— E aí, como foi o dia? — João perguntava todas as noites, com a máscara pendurada no pescoço e um frasco de álcool sempre por perto.

— Especial, pai… mais um dia desses que não parece ter nada demais, mas vira tudo só porque estou com ela — Roberto respondia, com aquele sorriso bobo de quem está completamente entregue.

João sorria junto. Ele ouvia o filho falar da rotina simples: as manhãs com panquecas, as tardes de filmes e riso, as noites de cartas e vinho. O brilho nos olhos de Roberto deixava claro que ele não estava vivendo um simples romance de quarentena. Era algo maior.

— Ela é diferente, pai. É leve, é engraçada, é carinhosa… Não tem um dia igual com ela. Mesmo dentro do apartamento, tudo parece novo com a Alicia.

João ficava em silêncio por alguns segundos, absorvendo cada palavra. Aquilo acalmava o coração dele. Desde a morte da esposa, via o filho levar a vida amorosa com leveza demais, sem se entregar de verdade. Agora, parecia que Roberto estava pronto para algo real.

— Fico feliz por você, meu filho. E já te disse: quando o homem encontra a mulher certa, ele sabe. É como se algo dentro da gente gritasse: “é ela”.

— É exatamente assim que me sinto, pai.

João desligava a ligação com o coração aquecido, mesmo rodeado por solidão. Seu único contato era com Dona Cida, que cuidava dele como uma mãe.

— Vai passar, seu João. Logo o senhor vai poder abraçar seu filho, conhecer a moça... — ela dizia, enquanto limpava os móveis pela milésima vez no dia.

— Espero que sim, Cida. Quero ver esse amor acontecer de perto. Ver meu filho casar, formar família... Já pensou? Ser avô?

Dona Cida sorriu, mas logo apontou o borrifador com álcool para ele.

— Vamos lá, né? Máscara no rosto e álcool nas mãos. Grupo de risco, lembra?

João soltou uma risada cansada e obedeceu, como vinha fazendo todos os dias. Isolado, cuidadoso, com saudade da vida lá fora, mas alimentado pelas palavras do filho, que a cada ligação parecia mais apaixonado.

Ele só não imaginava que o destino tinha planos ainda mais surpreendentes — que o amor do filho estava prestes a mexer com o passado que ele pensava ter deixado para trás.

E esse reencontro, quando viesse, teria gosto de revelação.

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Último capítulo

  • EM NOME DO FILHO    FINAL

    Dez anos se passaram desde o dia em que Alicia, Roberto e João assinaram juntos a certidão que reconhecia oficialmente o que o coração deles já sabia há tempos: eram uma família. Completa. Inusitada. Real.A casa onde viviam era outra — não porque haviam se mudado, mas porque o tempo tinha deixado suas marcas boas. A varanda agora era coberta por trepadeiras floridas, um balanço de cordas e madeira pendia de uma árvore robusta no quintal, e os risos infantis ecoavam como trilha sonora constante.Pietro tinha doze anos e era a mistura viva dos três. Herdara a sensibilidade de Alicia, o senso de justiça aguçado de Roberto e a serenidade encantadora de João. Estela, com nove, era pura luz, como o nome que Pietro escolheu quando ainda era uma criança. Tinha olhos atentos ao mundo, perguntas afiadas e uma forma de abraçar que desarmava qualquer dureza.Aquela manhã de sábado começara com cheiro de café e bolo de laranja saindo do forno. Alicia andava pela cozinha descalça, os cabelos mais

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 85

    O dia amanheceu sereno, com uma brisa suave entrando pelas frestas da janela e espalhando pelo quarto um cheiro leve de lavanda. Estela dormia tranquila no berço improvisado entre o quarto de Alicia e o de Roberto. Pietro, já mais crescido e falante, tinha passado a noite com os avós, deixando o trio com um raro silêncio — e uma rara privacidade.A casa parecia respirar junto com eles. Cada detalhe da decoração, cada foto na parede, cada brinquedo no chão, carregava história. Um lar construído entre amores improváveis, barreiras vencidas e promessas cumpridas. Mas naquele dia, algo maior os esperava: a formalização daquilo que o coração deles já reconhecia há muito tempo. Uma família.— Tá pronta? — João perguntou, ajeitando o colarinho da camisa clara, os olhos brilhando por trás dos óculos de leitura que ele sempre esquecia no topo da cabeça.Alicia respondeu com um sorriso que era meio nervoso, meio incrédulo, enquanto ajeitava o vestido azul escuro que escolhera especialmente para

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 84

    O sol ainda não havia se debruçado completamente no horizonte quando o silêncio daquela manhã foi rompido por um gemido abafado vindo do quarto. A cidade ainda bocejava quando dentro da casa de tons claros, aquecido por cortinas translúcidas e móveis acolhedores, o tempo parava. Alicia segurava na mão de Roberto enquanto olhava para João com os olhos marejados de dor e emoção. O momento havia chegado.Ela queria aquele parto em casa. Queria sentir cada parte da vida nascendo com intimidade, acolhimento e amor. Eles haviam se preparado juntos, com cursos, consultas e planos. Pietro estava com a avó materna, levado carinhosamente no dia anterior, quando as contrações se tornaram ritmadas.A sala agora parecia uma extensão do coração daquela família. O colchão no chão, lençóis estendidos, a banqueta de parto, as essências no difusor, a playlist suave de fundo e os dois homens que Alicia amava de verdade, ajoelhados ao seu lado. Roberto fazia compressas mornas, acariciava as costas dela e

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 83

    O sol de fim de tarde entrava pela grande janela da sala, dourando as cortinas e os brinquedos espalhados por Pietro. No centro do cômodo, Alicia dobrava algumas roupinhas recém-compradas para o novo bebê, sorrindo ao ver os tamanhos minúsculos das peças, tão parecidos com as que Pietro usava pouco tempo atrás. O menino agora corria pela casa com seus dois anos bem vividos, falando sem parar, cheio de perguntas e risadas. Ele era o tipo de criança que preenchia o ambiente com luz — e barulho.João vinha da cozinha com as mãos molhadas, secando-as no avental que ele insistia em usar nas tardes em que cozinhava. Roberto, sentado no chão ao lado do filho, tentava montar uma pista de carrinhos.— Mamãe, o papai João disse que hoje vai ter lasanha! — gritou Pietro, correndo até Alicia e segurando sua perna com força.— Vai sim, meu amor — ela respondeu, acariciando os cabelos do filho. — Mas primeiro, você precisa guardar esses brinquedos, certo?Pietro fez uma careta exagerada, que arranc

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 82

    A brisa da manhã entrava suave pelas janelas abertas da nova casa. O campo ao redor parecia emoldurar a cena que se desenrolava lá dentro com uma delicadeza quase cinematográfica. Em meio aos móveis de madeira clara e às cores aconchegantes da decoração, Alicia caminhava descalça pela sala, a mão repousando com ternura sobre a barriga já arredondada pela nova gravidez.O tempo tinha passado rápido. Um ano se fora desde que haviam deixado a cidade grande. O antigo apartamento, os olhares tortos no elevador, os cochichos no parquinho… tudo parecia tão distante agora. A nova vida no interior, cercada pela natureza, pelas galinhas da vizinha, pelo cheiro de mato molhado e pelas caminhadas no fim da tarde, era o cenário perfeito para a família que eles estavam construindo — juntos.Pietro, agora com dois anos completos, era o reflexo vivo daquela nova fase. Curioso, carinhoso e falante, corria pela casa como um raio de sol, seus cachinhos balançando, os pezinhos fazendo barulho no assoalho

  • EM NOME DO FILHO    Capítulo 81

    A luz do sol filtrava-se suavemente pelas cortinas de linho claro, tingindo o quarto com um brilho dourado e morno. A manhã invadia o ambiente sem pressa, como quem respeita o silêncio e a paz de quem dorme. No centro da cama, uma bagunça de corpos entrelaçados respirava devagar, sob uma coberta felpuda cor de creme que parecia abraçá-los ainda mais do que os braços um do outro.João despertou primeiro. Ainda sem abrir os olhos, sentiu o cheiro leve de lavanda nos cabelos de Alicia, repousados sobre seu peito. Uma de suas pernas estava entrelaçada na de Roberto, e por um instante, ele apenas sorriu, em paz. A casa estava em silêncio. Nem mesmo o balbuciar de Pietro vinha da babá eletrônica — talvez ainda dormisse, o que era raro, mas muito bem-vindo naquela manhã especial.Ele não teve pressa de se mover. Com um carinho delicado, deslizou os dedos pelas costas nuas de Alicia, desenhando um caminho imaginário da base da coluna até o ombro. Ela se remexeu levemente, um suspiro escapando

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