FAZER LOGINDante
Virei-me devagar, encarando o verme que ainda tremia no canto. Jorge Almeida. Encolhido contra o sofá como um rato acuado, rosto pálido, suor escorrendo, olhos arregalados me fitando como se eu fosse o próprio diabo. Talvez eu fosse. Mas se eu era o diabo, ele era algo pior: um covarde que vendia a própria filha como carne barata para ganhar mais um dia de vida.
— Levante-se — ordenei, voz baixa, mas carregada de raiva que eu mal continha.
Ele obedeceu cambaleando, mãos trêmulas se apoiando no braço do sofá sujo.
— Dante, eu... eu não queria... — começou, voz rouca e patética.
Levantei a mão. Corte seco.
— Não me venha com desculpas imundas. — Dei um passo à frente. O fedor de álcool velho e medo dele me acertou como soco no estômago. Nojo subiu pela garganta. — Eu sei do seu acordo com Salazar. Acha que não tenho olhos em cada esquina dessa cidade? Você ofereceu sua filha para aquele animal. Achou que eu não descobriria, seu filho da puta?
Ele abriu a boca. Nada saiu. Apenas um gemido baixo, animalesco.
Joguei o charuto no chão. Esmaguei com o calcanhar. Som seco ecoando na sala como osso quebrando.
— Você me enoja — rosnei, voz caindo para um tom quase animal. — Um homem que entrega a filha para um monstro como Salazar não merece respirar o mesmo ar que ela. Eu te recusei naquela noite porque achei que você não podia cair mais baixo. Mas você caiu. E caiu fundo.
— Dante, por favor... — implorou, olhos marejados, voz quebrada.
— Chega. — Apontei o dedo para ele, perto o suficiente para que sentisse o calor da minha raiva. — Vim aqui para te dar uma chance de pagar sua dívida comigo. Mas você não merece nem isso. Escute bem: Emma está sob minha proteção agora. Ela é minha responsabilidade. Você perdeu qualquer direito no momento em que abriu essa boca podre para negociá-la.
Ele piscou, confuso, como se as palavras não fizessem sentido.
— Mas... ela é minha filha...
— Queria que ela se prostituísse para bancar seus vícios, não é? — cuspi, enojado só de imaginar. — Não acho que sua filha sirva como puta. Não para você. Nem para ninguém.
Ele baixou o olhar para o chão, um lixo humano.
— O que vai fazer com ela? — perguntou, voz quase inaudível.
— Saia desta cidade — respondi, cada palavra afiada como navalha. — Pegue o que sobrou dessa vida miserável e suma. Não volte. Nunca. Se eu te vir perto dela de novo, eu acabo com você. E não vai ser rápido. Nem limpo.
Ele me encarou, rosto desmoronando em lágrimas silenciosas. Não senti pena. Apenas desprezo puro. Virei as costas, ajustei o casaco e caminhei para a porta sem olhar para trás. O ar frio da noite me envolveu lá fora cortante, mas não tão gelado quanto o vazio que aquele homem deixara no meu peito.
A viagem de volta foi silenciosa. O ronco do motor preenchia o espaço que meus pensamentos se recusavam a ocupar. Quando os portões da mansão se abriram automaticamente, o carro deslizou até a entrada principal. A casa estava quieta, luzes suaves nas janelas contrastando com a escuridão que sempre a cercava. Subi os degraus, eco dos meus passos reverberando no salão de mármore frio.
Maria apareceu no corredor, avental impecável, mas testa franzida — sinal raro de preocupação.
— Senhor Dante — começou ela, cruzando os braços. — A garota. Instalei-a no quarto do andar de cima, como mandou. Mas... ela não está bem. Não parou de chorar desde que chegou. Tentei acalmá-la, mas está muito aflita.
Parei. As palavras me acertaram como parede. Emma chorando. Claro que estava. Eu a arrancara da vida dela, jogara-a no meu mundo sombrio. Mas imaginar aqueles olhos castanhos cheios de lágrimas, rosto molhado, corpo pequeno tremendo... mexeu comigo de um jeito que eu não esperava. Uma pontada no peito — algo que eu odiava admitir. Culpa? Não. Algo pior: desejo misturado com necessidade de proteger.
Balancei a cabeça, afastando a imagem.
— Ela vai se acostumar — murmurei, mais para mim mesmo. — Não tem escolha.
Maria me olhou de lado, aquele olhar que dizia que ela via através de mim.
— Não sei o que espera, Dante, mas vai ter trabalho com ela. Muito trabalho.
— Eu sei — respondi, voz mais dura do que pretendia. — Pode ir descansar, Maria. Eu cuido disso.
Ela assentiu, hesitante, e se retirou pelo corredor. Fiquei sozinho no hall, silêncio da casa me engolindo como sempre. Emma estava lá em cima, chorando por minha causa. Presa. Minha.
E mesmo assim... eu não conseguia me arrepender. Ela estava segura comigo. Longe de Salazar. Longe daquele pai inútil. Longe de qualquer um que pudesse machucá-la.
Mas enquanto subia as escadas devagar, o som imaginário dos soluços dela ecoava na minha cabeça. E eu sabia que Maria estava certa. Emma me daria trabalho. Muito.
E, no fundo bem no fundo, onde eu não admitia nem para mim mesmo , uma parte sombria queria exatamente isso. Queria que ela lutasse. Que me enfrentasse. Que me desafiasse com aqueles olhos de fogo. Porque quanto mais ela resistisse... mais eu ia querer dobrá-la. Devagar. Até que ela se rendesse. Até que gritasse meu nome não de ódio... mas de outra coisa.
Parei no topo da escada, mão no corrimão frio. Olhei para o corredor escuro que levava ao quarto dela.
Ela era minha agora.
E eu ia provar isso para ela. Para mim. Para o mundo.
EmmaA casa de Vitória ficava no subúrbio cinzento de Nápoles, uma construção modesta de tijolos descascados, cercada por um jardim selvagem que ninguém mais cuidava. Eu estacionara o carro a duas quadras de distância, o capuz do casaco cobrindo meu rosto apesar do sol fraco da tarde. Vitória abriu a porta com um suspiro cansado.— Você vai se meter em problemas, Emma — murmurou ela, olhando para os lados como se as sombras já nos vigiassem.Sorri, um sorriso amargo que não chegava aos olhos.— Preciso falar com ele uma última vez.Vitória hesitou, mas assentiu, abrindo espaço.— Ele está lá dentro.Entrei. O ar cheirava a mofo e café requentado, o mesmo cheiro da infância que eu tentara esquecer. Meu pai estava na sala pequena, sentado em uma poltrona gasta, mais magro do que me lembrava, o rosto marcado por anos de vícios e arrependimentos. Ao me ver, levantou-se devagar, os olhos marejados.— Emma...Ele me abraçou com força, como se eu fosse a âncora que o impedia de afundar. Sent
DanteO escritório em casa era meu refúgio absoluto, um santuário blindado contra o mundo exterior. As paredes, revestidas de madeira escura de carvalho envelhecido, absorviam a luz fraca do abajur de latão antigo, criando sombras longas e densas que pareciam se mover sozinhas. Estantes altas, quase até o teto, estavam abarrotadas de livros encadernados em couro volumes de direito, história da máfia siciliana, tratados de estratégia militar , a maioria com as páginas ainda intocadas, acumulando uma fina camada de poeira que denunciava minha ausência prolongada da leitura por prazer. O ar carregava aquele cheiro persistente e reconfortante de charuto cubano, com notas terrosas e amadeiradas, misturado ao aroma rico e envelhecido do couro macio da poltrona Chesterfeld onde eu passava tantas noites em claro. Sentado à imponente mesa de mogno polido, cujas veias escuras pareciam mapas de rios subterrâneos, folheava relatórios de carregamentos páginas cheias de números frios, datas de ch
EmmaA luz branca do hospital filtrava pelas persianas, desenhando listras douradas no lençol. O curativo na orelha latejava, mas a dor era suportável — um lembrete de que eu estava viva, de que sobrevivera ao inferno do galpão. Alguém estava ao pé da cama. Uma mulher jovem e loira, cabelos ondulados, olhos verdes. O rosto... idêntico às fotos antigas de Laura. Meu coração disparou.— Laura...? — A palavra saiu rouca, assustada. Sentei-me rápido. A cabeça girou, dor explodindo na orelha.— Cuidado! — Voz suave, ela sorriu, aproximando-se. — De fato, pareço-me muito com minha irmã mais velha. Mas me chamo Lena. Quero agradecer por cuidar do meu sobrinho. Ele não para de falar sobre você.Pisquei, atordoada com a semelhança, mas olhando bem via a diferença — talvez o sorriso mais afiado, o brilho malicioso nos olhos. Dante entrou naquele momento, camisa branca com mangas dobradas, olhos cansados mas vivos. Veio direto para mim, beijando minha testa. O cheiro dele — madeira, uísque, segu
DanteO galpão surgiu na escuridão como um túmulo de metal enferrujado, uma lâmpada solitária pendendo do teto, balançando e lançando sombras que dançavam como demônios nas vigas. Deslizei o carro a vinte metros, desliguei o motor — o silêncio engoliu o ronco, deixando apenas o zumbido nos ouvidos e o sangue pulsando nas têmporas. Minha mão checou o peso familiar da pistola, deslizando-a um centímetro para fora do coldre, o metal frio uma promessa de vingança.Saí. Fechei a porta com clique controlado, olhando a escuridão absoluta, esperando o clarão de um tiro. O vento frio da divisa trazia óleo queimado e poeira industrial, grudando na pele como suor de medo. Comecei a caminhar, cada passo no cascalho um ruído ensurdecedor na quietude, a adrenalina queimando na nuca como fogo lento.Entrei. O cheiro me acertou primeiro: ferrugem, mofo, suor velho — o fedor de armadilhas passadas.Salazar no centro, sob a lâmpada oscilante.Emma amarrada numa cadeira de metal, cabeça baixa, o vestido
DanteO telefone vibrou contra meu peito como um coração de metal enjaulado, cada pulso uma acusação. O ar do escritório estava pesado, impregnado do couro queimado pelo sol da tarde, do uísque derramado na madeira antiga e daquele cheiro metálico de sangue que nunca sai das minhas mãos — um lembrete eterno de que eu era a Fera, não o homem. Caminhei em círculos, os sapatos de couro rangendo no chão como um predador que sabe que a jaula está prestes a se abrir.A voz de Salazar escorreu pelo fone, oleosa e fria como veneno diluído.— Moretti. Tenho algo que você quer.Emma.O nome não foi pronunciado, mas ecoou dentro de mim como um tiro no escuro, rasgando o que restava de controle.— Fala — rosnei, a garganta seca como areia.— Ela está viva. Por enquanto. Não gostei de saber que está com a minha carga — vale muito dinheiro —, mas aceito o acordo. — Pausa, saboreando o silêncio como um predador lambendo ferida. — Galpão na divisa. Meia-noite. Sozinho. Entrego-a, quero minha mercador
EmmaO quarto era uma prisão disfarçada de luxo decadente. As paredes, pintadas de um vermelho escuro que evocava sangue seco, pareciam se fechar ao meu redor, sufocando o ar já rarefeito e carregado de um silêncio opressivo. Uma cama king size dominava o centro, com lençóis de seda preta amarrotados — vestígios de uma luta recente ou de noites que eu preferia não imaginar. Uma única janela, alta e estreita, exibia grades ornamentadas que fingiam elegância, mas eram barras de ferro forjado, projetadas para impedir qualquer fuga. O chão de madeira rangia a cada passo hesitante que eu dava, ecoando como um aviso implacável: Você está presa, Emma. Presa de verdade.Andei de um lado para o outro por horas — ou assim parecia, pois o tempo se dissolvia naquela penumbra. O relógio na parede marcava os segundos com um tique-taque irritante, como um coração mecânico que se recusava a parar. Meu vestido, o mesmo da boate na noite anterior, estava sujo de poeira das ruas e manchado de suor, o tec







