FAZER LOGINOlhei o relógio na parede: quase oito. Meu pai ainda não tinha saído, mas logo iria. Para os jogos. Para a bebida. Para afundar mais no poço que cavava sozinho. Suspirei, larguei a colher na pia e me encostei no balcão frio. Ele chegara mais cedo da rua, largado no sofá como um trapo: rosto inchado do soco que levara dias antes (cortesia de Dante), copo vazio na mão trêmula. Não disse nada. Só resmungou “vou dar um jeito”. Não respondi. Senti pena e raiva. Pena do homem que um dia me carregara nos ombros, rindo enquanto eu pedalava na rua de terra. Raiva do estranho que restara depois da morte da minha mãe.
O álcool e as cartas levaram tudo. Restou um bêbado que apostava até o ar que respirava. Ainda assim... ele era tudo o que eu tinha. Se ele morresse, eu ficaria sozinha. De verdade. A ideia me gelava os ossos.
Pneus cantando na rua me arrancaram do transe. Coração disparou sem motivo aparente. Corri para a janela da sala, dedos trêmulos afastando a cortina fina. Três carros pretos estacionados. Homens de terno emergindo como sombras vivas. E no centro deles... Dante Moretti.
O ar sumiu dos pulmões.
A porta explodiu com um chute violento antes que eu pudesse trancar. Madeira estalando. Meu pai saltou do sofá, copo rolando pelo chão, mas eu fiquei paralisada, sangue gelando. Dante entrou como se a casa fosse dele terno preto impecável, contrastando com a miséria ao redor. Olhos escuros me encontraram no mesmo instante, intensos, devoradores. A cicatriz profunda pulsava sob a luz fraca da lâmpada, tornando-o ainda mais ameaçador. Alto, largo, presença que sugava o oxigênio do ambiente. Atrás dele, dois capangas se posicionaram: armas visíveis nos coldres, olhos vazios.
— Almeida — voz grave, cortante, sem nem olhar para meu pai. — Pensei melhor sobre sua proposta. Você me deve mais do que pode pagar. Nunca conseguirá nem para mim, nem para os inimigos que também te cobram. Decidi aceitar. Sua filha vem comigo até a dívida ser quitada.
Meu pai gaguejou, pálido como cera.
— Dante, eu... amanhã terei o dinheiro...
Dante o empurrou com desprezo, força contida mas brutal.
— Cale a boca. Sei que conseguiu. Mas a que preço? Não aceito esse dinheiro sujo. Deveria te matar agora pela ousadia.
O chão sumiu. Olhei do monstro para meu pai, esperando rezando que ele lutasse. Que dissesse não. Que me protegesse. Ele apenas baixou a cabeça, covarde até o osso.
Raiva queimou no peito, misturada ao medo que me consumia há dias. Dei um passo à frente, punhos cerrados, encarando Dante como se pudesse matá-lo com o olhar.
— Você disse que não negociava com carne — cuspi, voz tremendo de ódio puro. — Disse que não sujaria as mãos. Pensei que tivesse palavra. Mas você não tem honra nenhuma, Dante Moretti.
Ele me encarou de volta. Por um segundo, algo brilhou nos olhos negros raiva? Tristeza? Desejo? Desapareceu rápido. A cicatriz endureceu a expressão, máscara fria voltando.
— Palavras não pagam dívidas — respondeu baixo, cortante, voz que parecia roçar na minha pele. — Isso é o melhor para você. Acredite ou não.
— O melhor para mim? — Ri amargo, som ecoando na sala pequena. — Arrancar-me da minha vida para ser sua prisioneira é o melhor? Você é um monstro sem palavra.
Silêncio sufocante. Olhos dele cravados nos meus poços sem fundo, carregados de ódio e algo escuro que eu recusava nomear. O ar entre nós crepitava. Ele estava perto demais. Cheiro de couro caro, charuto e algo masculino, perigoso, invadiu meu espaço. Meu corpo reagiu contra minha vontade: arrepio na nuca, calor subindo pelo peito. Odeio isso.
Ele fez um gesto com a cabeça. Antes que eu pudesse reagir, mãos fortes agarraram meus braços ferro vivo.
— Não! — gritei, debatendo-me, unhas cravando na pele deles. Inútil.
Olhei para Dante uma última vez, esperando... o quê? Que recuasse? Que mostrasse piedade? Ele virou as costas, acendendo um charuto com calma deliberada, como se eu fosse nada.
— Covarde! — joguei a palavra contra ele, voz quebrando.
Não olhou para trás.
Me arrastaram para fora. Ar frio da noite batendo no rosto como tapa. Empurraram-me para o banco traseiro de um carro preto. Meu pai não veio atrás. Ninguém veio. Motor rugiu. A casa ficou para trás, pequena e patética no retrovisor.
Jurei a mim mesma, dentes cerrados, lágrimas quentes escorrendo: faria Dante Moretti se arrepender. Ele podia me prender. Podia me possuir. Mas não me quebraria.
A viagem foi um borrão de luzes e sombras. Paramos diante de uma mansão que engolia a escuridão: portões altos de ferro negro, paredes de pedra antiga, janelas escuras como olhos vazios. Um castelo para um rei cruel.
Capangas me levaram para dentro sem palavra. Uma sala enorme: móveis escuros e caros, cheiro forte de couro, madeira polida e poder. Porta fechou com clique definitivo.
Sozinha, coração martelando, encostei na parede fria.
Ele pensava que eu era só garantia. Moeda de troca.
Mas eu provaria a Dante Moretti que acabara de aprisionar sua pior inimiga.
E que eu lutaria com unhas, dentes e fogo até o fim.
EmmaA casa de Vitória ficava no subúrbio cinzento de Nápoles, uma construção modesta de tijolos descascados, cercada por um jardim selvagem que ninguém mais cuidava. Eu estacionara o carro a duas quadras de distância, o capuz do casaco cobrindo meu rosto apesar do sol fraco da tarde. Vitória abriu a porta com um suspiro cansado.— Você vai se meter em problemas, Emma — murmurou ela, olhando para os lados como se as sombras já nos vigiassem.Sorri, um sorriso amargo que não chegava aos olhos.— Preciso falar com ele uma última vez.Vitória hesitou, mas assentiu, abrindo espaço.— Ele está lá dentro.Entrei. O ar cheirava a mofo e café requentado, o mesmo cheiro da infância que eu tentara esquecer. Meu pai estava na sala pequena, sentado em uma poltrona gasta, mais magro do que me lembrava, o rosto marcado por anos de vícios e arrependimentos. Ao me ver, levantou-se devagar, os olhos marejados.— Emma...Ele me abraçou com força, como se eu fosse a âncora que o impedia de afundar. Sent
DanteO escritório em casa era meu refúgio absoluto, um santuário blindado contra o mundo exterior. As paredes, revestidas de madeira escura de carvalho envelhecido, absorviam a luz fraca do abajur de latão antigo, criando sombras longas e densas que pareciam se mover sozinhas. Estantes altas, quase até o teto, estavam abarrotadas de livros encadernados em couro volumes de direito, história da máfia siciliana, tratados de estratégia militar , a maioria com as páginas ainda intocadas, acumulando uma fina camada de poeira que denunciava minha ausência prolongada da leitura por prazer. O ar carregava aquele cheiro persistente e reconfortante de charuto cubano, com notas terrosas e amadeiradas, misturado ao aroma rico e envelhecido do couro macio da poltrona Chesterfeld onde eu passava tantas noites em claro. Sentado à imponente mesa de mogno polido, cujas veias escuras pareciam mapas de rios subterrâneos, folheava relatórios de carregamentos páginas cheias de números frios, datas de ch
EmmaA luz branca do hospital filtrava pelas persianas, desenhando listras douradas no lençol. O curativo na orelha latejava, mas a dor era suportável — um lembrete de que eu estava viva, de que sobrevivera ao inferno do galpão. Alguém estava ao pé da cama. Uma mulher jovem e loira, cabelos ondulados, olhos verdes. O rosto... idêntico às fotos antigas de Laura. Meu coração disparou.— Laura...? — A palavra saiu rouca, assustada. Sentei-me rápido. A cabeça girou, dor explodindo na orelha.— Cuidado! — Voz suave, ela sorriu, aproximando-se. — De fato, pareço-me muito com minha irmã mais velha. Mas me chamo Lena. Quero agradecer por cuidar do meu sobrinho. Ele não para de falar sobre você.Pisquei, atordoada com a semelhança, mas olhando bem via a diferença — talvez o sorriso mais afiado, o brilho malicioso nos olhos. Dante entrou naquele momento, camisa branca com mangas dobradas, olhos cansados mas vivos. Veio direto para mim, beijando minha testa. O cheiro dele — madeira, uísque, segu
DanteO galpão surgiu na escuridão como um túmulo de metal enferrujado, uma lâmpada solitária pendendo do teto, balançando e lançando sombras que dançavam como demônios nas vigas. Deslizei o carro a vinte metros, desliguei o motor — o silêncio engoliu o ronco, deixando apenas o zumbido nos ouvidos e o sangue pulsando nas têmporas. Minha mão checou o peso familiar da pistola, deslizando-a um centímetro para fora do coldre, o metal frio uma promessa de vingança.Saí. Fechei a porta com clique controlado, olhando a escuridão absoluta, esperando o clarão de um tiro. O vento frio da divisa trazia óleo queimado e poeira industrial, grudando na pele como suor de medo. Comecei a caminhar, cada passo no cascalho um ruído ensurdecedor na quietude, a adrenalina queimando na nuca como fogo lento.Entrei. O cheiro me acertou primeiro: ferrugem, mofo, suor velho — o fedor de armadilhas passadas.Salazar no centro, sob a lâmpada oscilante.Emma amarrada numa cadeira de metal, cabeça baixa, o vestido
DanteO telefone vibrou contra meu peito como um coração de metal enjaulado, cada pulso uma acusação. O ar do escritório estava pesado, impregnado do couro queimado pelo sol da tarde, do uísque derramado na madeira antiga e daquele cheiro metálico de sangue que nunca sai das minhas mãos — um lembrete eterno de que eu era a Fera, não o homem. Caminhei em círculos, os sapatos de couro rangendo no chão como um predador que sabe que a jaula está prestes a se abrir.A voz de Salazar escorreu pelo fone, oleosa e fria como veneno diluído.— Moretti. Tenho algo que você quer.Emma.O nome não foi pronunciado, mas ecoou dentro de mim como um tiro no escuro, rasgando o que restava de controle.— Fala — rosnei, a garganta seca como areia.— Ela está viva. Por enquanto. Não gostei de saber que está com a minha carga — vale muito dinheiro —, mas aceito o acordo. — Pausa, saboreando o silêncio como um predador lambendo ferida. — Galpão na divisa. Meia-noite. Sozinho. Entrego-a, quero minha mercador
EmmaO quarto era uma prisão disfarçada de luxo decadente. As paredes, pintadas de um vermelho escuro que evocava sangue seco, pareciam se fechar ao meu redor, sufocando o ar já rarefeito e carregado de um silêncio opressivo. Uma cama king size dominava o centro, com lençóis de seda preta amarrotados — vestígios de uma luta recente ou de noites que eu preferia não imaginar. Uma única janela, alta e estreita, exibia grades ornamentadas que fingiam elegância, mas eram barras de ferro forjado, projetadas para impedir qualquer fuga. O chão de madeira rangia a cada passo hesitante que eu dava, ecoando como um aviso implacável: Você está presa, Emma. Presa de verdade.Andei de um lado para o outro por horas — ou assim parecia, pois o tempo se dissolvia naquela penumbra. O relógio na parede marcava os segundos com um tique-taque irritante, como um coração mecânico que se recusava a parar. Meu vestido, o mesmo da boate na noite anterior, estava sujo de poeira das ruas e manchado de suor, o tec







