FAZER LOGINDante
O crepúsculo tingia o céu de um roxo profundo, visível através das janelas altas da mansão, enquanto eu estava no escritório, o charuto apagado entre os dedos. A inquietação que me perseguia desde a noite anterior não dava trégua, os olhos castanhos de Emma cravados em minha mente como uma lâmina que eu não conseguia extrair. Um leve toque na porta interrompeu meus pensamentos, e Maria entrou, o avental impecável contrastando com a expressão preocupada que raramente exibia.
— Senhor Dante — começou ela, cruzando os braços —, a garota, Emma... ela não comeu nada o dia todo. Nem no café da manhã, nem no almoço. Mas cuidou bem do Luca. Tomou banho com ele, deu jantar, leu uma história antes de dormir. Ele está encantado com ela.
Eu assenti, o peso das palavras de Maria se somando à culpa que eu tentava ignorar. Emma, com sua teimosia, estava se privando para me desafiar, mas a imagem de Luca sorrindo com ela suavizou algo em mim.
— E as roupas? — perguntei, lembrando-me das malas que mandara entregar.
Maria suspirou, um leve franzir na testa.
— Ela escolheu as mais simples: uma blusa, uma calça jeans e um vestido. Só três peças. Disse que era o bastante e pediu que eu devolvesse o resto.
Três peças. A recusa dela em aceitar mais era um tapa na minha cara, uma rejeição ao que eu oferecia.
— Vou falar com ela — declarei, levantando-me da cadeira. — Chame-a para o jantar.
Maria hesitou, mas assentiu e saiu. Minutos depois, ela voltou, o rosto ainda mais tenso.
— Ela se recusa a descer, senhor. Disse que não está com fome.
Puxei o ar com força, a raiva subindo pelo peito. Ninguém morreria de fome sob meu teto, não enquanto eu tivesse controle. Sem dizer uma palavra, caminhei até o quarto de Emma, a determinação queimando em cada passo.
***
A sala de jantar estava iluminada por candelabros de cristal, o brilho suave refletindo nas taças de vinho e nos pratos de porcelana fina. O aroma de carne assada e ervas frescas preenchia o ar, mas o silêncio entre nós era palpável, carregado de uma tensão que parecia vibrar como uma corda esticada. Emma sentou-se à minha frente, os movimentos rígidos, vestindo um roupão, cabelos molhados, não era de longe um vestimento digno, e o fato dela estar nua debaixo do roupão deixa meu sangue fervendo. Seus olhos castanhos, menos inchados agora, me encaravam com uma mistura de desafio e fadiga, e eu sentia o peso daquela manhã ecoando em cada olhar trocado.
Servi-me de um gole de vinho tinto, observando-a enquanto ela cutucava o prato com o garfo, sem levar nada à boca. A recusa dela em comer, relatada por Maria, me irritava, mas ver aqueles olhos, marcados pelo cansaço e pela luta, trouxe uma pontada de culpa que eu não queria nomear. Eu a trouxera para cá para protegê-la, mas estava claro que havia arrancado muito mais do que uma dívida.
— Mandei ficar todas as roupas que enviaram. — disse, quebrando o silêncio, minha voz ecoando na sala vasta. — Três peças não vão durar por muito tempo. Você precisa de mais.
Ela ergueu o olhar, os lábios apertados em uma linha fina.
— Quando o uniforme chega? — perguntou, o tom seco, como se estivesse negociando em um tribunal.
Franzi a testa, surpreso com a pergunta.
— Uniforme? Você quer um uniforme?
— Se sou empregada — retruquei ela, o queixo erguido —, ao menos quero os direitos de uma empregada.
Um sorriso involuntário curvou meus lábios, uma mistura de diversão e irritação. Aquela garota tinha fogo, desafiando-me mesmo em sua posição precária. A cicatriz em meu rosto pareceu formigar, um lembrete de batalhas passadas, mas ali, à mesa, ela era uma adversária diferente.
— Vou providenciar — respondi, o sorriso ainda presente, mas os olhos fixos nos dela. — Mas as roupas ficam com você.
Ela balançou a cabeça, o garfo parando no prato.
— Não quero que a dívida aumente por causa disso.
O vinho azedou em minha boca por um instante. Ela ainda pensava em dívida, como se eu a visse como uma transação. Apoiei os cotovelos na mesa, inclinando-me ligeiramente para a frente.
— Nada sobre você será cobrado — declarei, a voz firme. — Você fica aqui até pagar a dívida do seu pai. É simples assim.
— Quanto tempo? — insistiu ela, os olhos flamejando.
— Até que eu a libere — respondi, o tom endurecendo. — Pare de fazer perguntas.
O silêncio caiu novamente, mais pesado, e eu vi a frustração em seu rosto. Mas ela não desistiu.
— Posso entrar em contato com a faculdade? — perguntou, a voz baixando, quase suplicante. — Eu começaria medicina hoje.
As palavras me acertaram como um golpe inesperado. Medicina. Um sonho que eu havia destruído sem pensar, arrancando-a de sua vida como se fosse uma peça em meu tabuleiro. Por um momento, visualizei o que tirara dela: aulas, amigos, um futuro além das sombras da máfia. Meu peito apertou, e respirei fundo, forçando a compostura.
— Vou cuidar disso — disse, finalmente, a voz mais baixa do que pretendia. — Mas, até que eu confie em você, não vai ter contato com ninguém de fora desta mansão.
Ela me encarou, os olhos cheios de uma raiva contida, e o ar entre nós pareceu crepitar. A tensão era elétrica, uma dança perigosa de poder e resistência que me atraía de forma inquietante. Levantei-me, sinalizando o fim do jantar, mas, enquanto saía da sala, sabia que aquela mulher estava mudando as regras do meu jogo. E, pela primeira vez em anos, eu não tinha certeza de quem venceria.
EmmaA casa de Vitória ficava no subúrbio cinzento de Nápoles, uma construção modesta de tijolos descascados, cercada por um jardim selvagem que ninguém mais cuidava. Eu estacionara o carro a duas quadras de distância, o capuz do casaco cobrindo meu rosto apesar do sol fraco da tarde. Vitória abriu a porta com um suspiro cansado.— Você vai se meter em problemas, Emma — murmurou ela, olhando para os lados como se as sombras já nos vigiassem.Sorri, um sorriso amargo que não chegava aos olhos.— Preciso falar com ele uma última vez.Vitória hesitou, mas assentiu, abrindo espaço.— Ele está lá dentro.Entrei. O ar cheirava a mofo e café requentado, o mesmo cheiro da infância que eu tentara esquecer. Meu pai estava na sala pequena, sentado em uma poltrona gasta, mais magro do que me lembrava, o rosto marcado por anos de vícios e arrependimentos. Ao me ver, levantou-se devagar, os olhos marejados.— Emma...Ele me abraçou com força, como se eu fosse a âncora que o impedia de afundar. Sent
DanteO escritório em casa era meu refúgio absoluto, um santuário blindado contra o mundo exterior. As paredes, revestidas de madeira escura de carvalho envelhecido, absorviam a luz fraca do abajur de latão antigo, criando sombras longas e densas que pareciam se mover sozinhas. Estantes altas, quase até o teto, estavam abarrotadas de livros encadernados em couro volumes de direito, história da máfia siciliana, tratados de estratégia militar , a maioria com as páginas ainda intocadas, acumulando uma fina camada de poeira que denunciava minha ausência prolongada da leitura por prazer. O ar carregava aquele cheiro persistente e reconfortante de charuto cubano, com notas terrosas e amadeiradas, misturado ao aroma rico e envelhecido do couro macio da poltrona Chesterfeld onde eu passava tantas noites em claro. Sentado à imponente mesa de mogno polido, cujas veias escuras pareciam mapas de rios subterrâneos, folheava relatórios de carregamentos páginas cheias de números frios, datas de ch
EmmaA luz branca do hospital filtrava pelas persianas, desenhando listras douradas no lençol. O curativo na orelha latejava, mas a dor era suportável — um lembrete de que eu estava viva, de que sobrevivera ao inferno do galpão. Alguém estava ao pé da cama. Uma mulher jovem e loira, cabelos ondulados, olhos verdes. O rosto... idêntico às fotos antigas de Laura. Meu coração disparou.— Laura...? — A palavra saiu rouca, assustada. Sentei-me rápido. A cabeça girou, dor explodindo na orelha.— Cuidado! — Voz suave, ela sorriu, aproximando-se. — De fato, pareço-me muito com minha irmã mais velha. Mas me chamo Lena. Quero agradecer por cuidar do meu sobrinho. Ele não para de falar sobre você.Pisquei, atordoada com a semelhança, mas olhando bem via a diferença — talvez o sorriso mais afiado, o brilho malicioso nos olhos. Dante entrou naquele momento, camisa branca com mangas dobradas, olhos cansados mas vivos. Veio direto para mim, beijando minha testa. O cheiro dele — madeira, uísque, segu
DanteO galpão surgiu na escuridão como um túmulo de metal enferrujado, uma lâmpada solitária pendendo do teto, balançando e lançando sombras que dançavam como demônios nas vigas. Deslizei o carro a vinte metros, desliguei o motor — o silêncio engoliu o ronco, deixando apenas o zumbido nos ouvidos e o sangue pulsando nas têmporas. Minha mão checou o peso familiar da pistola, deslizando-a um centímetro para fora do coldre, o metal frio uma promessa de vingança.Saí. Fechei a porta com clique controlado, olhando a escuridão absoluta, esperando o clarão de um tiro. O vento frio da divisa trazia óleo queimado e poeira industrial, grudando na pele como suor de medo. Comecei a caminhar, cada passo no cascalho um ruído ensurdecedor na quietude, a adrenalina queimando na nuca como fogo lento.Entrei. O cheiro me acertou primeiro: ferrugem, mofo, suor velho — o fedor de armadilhas passadas.Salazar no centro, sob a lâmpada oscilante.Emma amarrada numa cadeira de metal, cabeça baixa, o vestido
DanteO telefone vibrou contra meu peito como um coração de metal enjaulado, cada pulso uma acusação. O ar do escritório estava pesado, impregnado do couro queimado pelo sol da tarde, do uísque derramado na madeira antiga e daquele cheiro metálico de sangue que nunca sai das minhas mãos — um lembrete eterno de que eu era a Fera, não o homem. Caminhei em círculos, os sapatos de couro rangendo no chão como um predador que sabe que a jaula está prestes a se abrir.A voz de Salazar escorreu pelo fone, oleosa e fria como veneno diluído.— Moretti. Tenho algo que você quer.Emma.O nome não foi pronunciado, mas ecoou dentro de mim como um tiro no escuro, rasgando o que restava de controle.— Fala — rosnei, a garganta seca como areia.— Ela está viva. Por enquanto. Não gostei de saber que está com a minha carga — vale muito dinheiro —, mas aceito o acordo. — Pausa, saboreando o silêncio como um predador lambendo ferida. — Galpão na divisa. Meia-noite. Sozinho. Entrego-a, quero minha mercador
EmmaO quarto era uma prisão disfarçada de luxo decadente. As paredes, pintadas de um vermelho escuro que evocava sangue seco, pareciam se fechar ao meu redor, sufocando o ar já rarefeito e carregado de um silêncio opressivo. Uma cama king size dominava o centro, com lençóis de seda preta amarrotados — vestígios de uma luta recente ou de noites que eu preferia não imaginar. Uma única janela, alta e estreita, exibia grades ornamentadas que fingiam elegância, mas eram barras de ferro forjado, projetadas para impedir qualquer fuga. O chão de madeira rangia a cada passo hesitante que eu dava, ecoando como um aviso implacável: Você está presa, Emma. Presa de verdade.Andei de um lado para o outro por horas — ou assim parecia, pois o tempo se dissolvia naquela penumbra. O relógio na parede marcava os segundos com um tique-taque irritante, como um coração mecânico que se recusava a parar. Meu vestido, o mesmo da boate na noite anterior, estava sujo de poeira das ruas e manchado de suor, o tec







