INICIAR SESIÓN
PRIMEIRA BATALHA
AVA Caramba! Definitivamente, hoje não é o meu dia. Primeiro dia substituindo a mamãe na empresa onde ela trabalha, e eu começo a jornada pisando com toda a força no caco de um copo de vidro que tinha esquecido de juntar na noite anterior. Claro, tinha que ser com o pé esquerdo. O estalo seco do vidro partindo na sola do meu pé foi seguido por uma fisgada aguda que subiu até a minha espinha. Resultado? Um talho feio, fundo, sangue avermelhado se espalhando rápido pelo piso de taco do quarto e eu pulando de um pé só até o banheiro, praguejando em um espanhol arranhado e português fluente, equilibrando-me nas paredes estreitas do corredor. — Ótimo, Ava! Parabéns, sua desastrada! — resmunguei para mim mesma enquanto me sentava na beirada da privada e tentava estancar o sangramento com um pedaço de papel higiênico que logo ficou encharcado. Tá vendo? É por isso que eu digo que a vida não apenas gosta de brincar comigo; ela parece ter um senso de humor bastante sádico. Apertei o calcanhar, segurando o grito para não acordar a casa inteira antes da hora. Respirei fundo três vezes. Ainda bem que a Carlinha terminou o high school no mês passado. Ela mesma disse, com toda a firmeza de quem tem dezoito anos e acha que já entendeu como o mundo funciona, que esse ano vai ficar em casa ajudando a mamãe a respirar. E olha... a mamãe precisa mesmo. O diagnóstico médico veio há três dias, frio e direto como uma sentença: esgotamento severo, síndrome de burnout acompanhada de uma fadiga crônica que quase a fez desmaiar no meio do corredor de um dos escritórios que limpava. Isso acontece quando você passa anos e anos limpando a sujeira dos outros, esfregando pisos espelhados, carregando baldes pesados e correndo de um emprego pro outro como se fosse um robô sem direito de desligar a tomada. Agora o médico foi taxativo: ela vai ter que repousar três meses inteiros. Sem esforço, sem produtos de limpeza pesados, sem o estresse diário de tentar manter o teto sobre as nossas cabeças. E, sinceramente? Só o salário do meu pai, por mais que ele se mate de trabalhar em turnos dobrados na construção civil, simplesmente não dá. As contas nos Estados Unidos não esperam ninguém recuperar a saúde. A luz chega, o aluguel vence, o mercado cobra cada dólar. Então, adivinhem quem foi que teve que trancar a faculdade de Administração no meio do semestre? Pois é. Euzinha. Eu amava meus estudos. Amava a sensação de estar construindo um futuro onde eu não precisaria usar joelheiras para ganhar a vida. Mas entre a faculdade e a saúde da mamãe, a escolha era óbvia. Família vem primeiro. Sempre. Enquanto limpava o corte com um pouco de antisséptico — o que me fez ver estrelas por alguns segundos —, passei um esparadrapo firme ao redor do pé. Ajustei a faixa, calcei uma meia grossa para amortecer a pisada e me levantei. Mancava um pouco, mas dava para encarar o dia. Me olhei no espelho do banheiro enquanto arrumava o cabelo em um coque alto e firme. Tenho 1,75 de altura, setenta quilos muito bem distribuídos — filha de brasileiros, né? Curva é meu sobrenome e a genética não nega. Não sou magrinha, nunca fui, e nem quero ser. Tenho corpo de mulher real, pernas grossas, cintura marcada e um orgulho danado disso. O problema mesmo são os meus olhos verdes, uma herança direta da vovó paterna. Esses olhos só me renderam problema até hoje. Gente ignorante acha que beleza abre portas de forma mágica, mas eu queria ver se beleza paga conta no final do mês. Porque aqui em casa estamos atoladas em dívidas até o pescoço. A terra do Tio Sam pode até ser maravilhosa para quem tem dinheiro no bolso, mas para a classe trabalhadora, você precisa ralar o dobro, suar o triplo e engolir muito sapo para ter uma vida minimamente digna. Nasci aqui, nos Estados Unidos. Meus pais vieram do Brasil nos anos noventa como imigrantes clandestinos. Passaram desertos metafóricos e reais, ralaram, suaram, se humilharam em subempregos e enfrentaram o medo constante da deportação até finalmente conseguirem a tão sonhada documentação e o green card. Eu e Carlinha já nascemos em solo americano, somos cidadãs, mas crescemos sabendo muito bem de onde viemos e que nada nesta vida viria fácil para nós. Respirei fundo, empurrei a dor do corte no pé para o fundo da mente e fui até o quarto dos meus pais. O ambiente cheirava a remédio e lavanda. A iluminação era fraca, apenas a luz da manhã querendo entrar pelas frestas da cortina. Mamãe estava deitada, coberta até o peito. Os olhos, sempre tão vivos, estavam fundos e cansados, mas ela ainda tentou abrir um sorriso doce quando me viu encostada na porta. Olhei para a mesinha de cabeceira. O frasco do remédio para pressão e para o cansaço cardíaco estava ali. Já tinha conferido mais cedo: estava quase no fim, precisávamos pedir a receita nova na farmácia. — Mamãe, já tomou o remédio? — perguntei, me aproximando devagar. — Tomei, minha filha... — a voz dela saiu fraca, rouca, mas carregada daquela doçura que só mãe tem. Ela me olhou com um aperto visível no peito. — Eu não queria que você trancasse a faculdade, Ava... Você batalhou tanto para entrar lá... Senti um nó na garganta, mas engoli a seco. Não podia demonstrar fraqueza na frente dela. Me ajoelhei ao lado da cama, ignorando a fisgada no meu pé machucado, e segurei a mão dela. A mão da minha mãe é calejada, áspera do sabão e do cloro, mas é o porto seguro mais aconchegante do mundo. — Entre a faculdade e a senhora, a senhora é infinitamente mais importante — respondi com firmeza, olhando bem nos olhos dela. — Faculdade eu retomo depois. A matéria eu estudo de novo, as provas eu refaço. Mas a senhora eu não posso perder. Você é mais importante do que qualquer diploma, mãezinha. As lágrimas transbordaram dos olhos dela e escorreram lentamente pelas rugas do rosto. Ela tentou esconder de mim, virando um pouco o rosto contra o travesseiro. Eu sorri, mesmo com o meu próprio coração apertado e sangrando por vê-la daquele jeito. — Então se cuide, tá bom? — continuei, acariciando o rosto dela. — Porque eu vou cobrir a senhora nesse período, vou fazer o trabalho impecável que a senhora sempre fez, e quero a senhora de pé, firme, forte e corada quando eu voltar pra universidade. Combinado? Ela assentiu com a cabeça, incapaz de falar. Beijei a testa dela com carinho, ajeitei a coberta bem quentinha ao redor dos ombros dela e deixei o quarto em absoluto silêncio. Meu pai já tinha saído de madrugada, por volta das quatro da manhã. Ouvi o barulho do motor da caminhonete velha dele pegando no tranco lá fora. Como sempre, ele saiu carregando o mundo nas costas sem dar um único pio de reclamação. E eu? Agora era a minha vez de carregar a minha parte também. Fui até o armário do corredor, peguei a roupa de trabalho da mamãe — uma calça confortável, camisa polo escura e o avental com o logotipo da empresa de terceirização de limpeza —, dobrei tudo direitinho e coloquei na mochila. Pensei comigo mesma: Vamos lá, Ava. Hoje começa a tua batalha. E fazer limpeza não é humilhação para ninguém. Humilhação é roubar, é ser desonesta. Ganhar o pão com o suor do próprio rosto é a coisa mais nobre que existe. Depois de garantir que a mamãe estava bem acomodada, segui pelo corredor até o quarto da minha irmã. Bati de leve na porta de madeira e enfiei a cabeça para dentro. Carlinha estava enterrada debaixo das cobertas, parecendo um casulo. — Carlinha, bora levantar, preguiçosa! — chamei, mantendo o tom firme. — Vou preparar o café. Você dá o café da mamãe assim que ela despertar direito, porque o remédio ela já tomou. Minha irmã se espreguiçou lentamente, esfregando os olhos e bocejando. — Tá bom, tá bom... Eu cuido dela, pode ir despreocupada, mana. Fui para a cozinha minúscula da nossa casa. Coloquei a água no fogo para passar um café bem forte, do jeito que os brasileiros gostam e que aprende com os meus pais. Enquanto ouvia o quieto chiar da chaleira, olhei para a minha irmã que entrava na cozinha ainda de pijama, ajustando o coque bagunçado. Adotei aquele tom de irmã mais velha, de quem dá bronca, mas transborda amor por todos os poros: — Não esquece de preparar a comida dela na hora certa, Carlinha. Nada de dar besteira para a mamãe. Tem que dar o lanche da manhã, o remédio do meio-dia e, se o sol estiver mais brando à tarde, leva a mamãe para passear um pouco no quintal ou na calçada. Andar faz bem para a circulação dela. Eu e o papai seguramos as pontas no trabalho pesado lá fora. Carlinha me serviu uma xícara de café quente e encostou na pia, me olhando nos olhos. — Você sacrificou o início do seu semestre na faculdade, Ava... Eu também vou fazer a minha parte. Mas não considero sacrifício — disse ela, com uma maturidade que me surpreendeu. — Papai e mamãe sacrificaram a vida inteira pela gente desde que pisaram neste país. Agora é a nossa vez de dar o retorno. Ela me encarou com os mesmos olhos verdes e vibrantes que os meus, herança da nossa família, e abriu um sorriso teimoso, cheio de garra. — Relaxa, Ava. Vou cuidar bem da mamãe. Qualquer coisa fora do normal, eu te ligo imediatamente no celular. Suspirei fundo, sentindo o peso do cansaço físico e mental só de pensar no dia puxado que me esperava pela frente. — Tá bom. Mas ó, quando eu sair do prédio da primeira empresa, já vou direto para o segundo contrato da mamãe, naquela fábrica do outro lado da cidade. Vou chegar em casa só à noite, bem tarde. Talvez... talvez eu tire este ano inteiro só trabalhando, para juntar uma grana boa e fazer a mamãe descansar sem nenhuma preocupação com dívida. Quem sabe eu volte para a faculdade só no ano que vem? Ou tento fazer algumas matérias a distância à noite... Afinal, só faltavam seis meses para eu me formar... Minha irmã franziu a testa, ensaiando uma contestação sobre eu adiar meu sonho por tanto tempo, mas fechou a boca e não discutiu. Ela me conhecia melhor do que ninguém: quando eu, Ava, tomava uma decisão e fincava os pés no chão, ninguém neste mundo me fazia voltar atrás. Tomei o último gole do café quente, sentindo o líquido amargo queimar agradavelmente a garganta e me dar um sopro de energia. Peguei a mochila pesada com os uniformes e o meu marmitex, respirei fundo na porta da frente e ajustei a alça no ombro. — Vamos lá, Ava — murmurei para mim mesma antes de girar a maçaneta e encarar a manhã fria lá fora. — É hora de provar que você também tem força de sobra para carregar essa família nas costas. E ninguém vai me dobrar.REFLEXÃO DA AUTORAO LADO PSICOLÓGICO DO DOMÍNIO E DA SUBMISSÃOQuando comecei a escrever esta história, minha intenção não era apresentar apenas o romance entre duas pessoas de personalidades diferentes. Eu desejava explorar as marcas que determinadas experiências deixam em nossa maneira de compreender o amor, a confiança e os relacionamentos. Adam surge como um homem bem-sucedido, poderoso e acostumado a controlar praticamente tudo ao seu redor. Entretanto, por trás daquela aparência de segurança, existe alguém que nunca conseguiu compreender plenamente as consequências emocionais da própria infância. Ele acreditava dominar seus sentimentos, quando, na verdade, ainda era influenciado por lembranças que jamais havia aprendido a enfrentar.Adam cresceu observando a mãe sofrer num relacionamento marcado pelo autoritarismo, pela humilhação e pela desigualdade. A figura paterna lhe apresentou um modelo distorcido de poder, enquanto a submissão de Clarence acabou sendo confundida, em sua
O TEMPO E O PERDÃO ADAM É uma sexta-feira tranquila, véspera do primeiro aniversário de Hermes e Narciso. Estou em meu escritório, revisando alguns relatórios e selecionando as fotografias que serão exibidas no telão durante a comemoração. Parece impossível que nossos meninos estejam prestes a completar um ano. Ainda me lembro da emoção que senti quando os segurei pela primeira vez, e agora observo imagens de dois garotinhos curiosos, sorridentes e cada vez mais interessados em descobrir o mundo. Estou tão concentrado na escolha das fotografias que quase não percebo quando minha secretária anuncia a chegada de uma visita inesperada. — Doutor Adam, seu pai está aqui e gostaria de conversar com o senhor. Levanto os olhos do computador, surpreso. Faz muito tempo que não conversamos pessoalmente, e não consigo imaginar o que o teria levado até minha empresa justamente naquele dia. Depois de alguns instantes, autorizo sua entrada e permaneço sentado, aguardando para descobrir o motivo d
O TEMPO E O PERDÃO ADAM É uma sexta-feira tranquila, véspera do primeiro aniversário de Hermes e Narciso. Estou em meu escritório, revisando alguns relatórios e selecionando as fotografias que serão exibidas no telão durante a comemoração. Parece impossível que nossos meninos estejam prestes a completar um ano. Ainda me lembro da emoção que senti quando os segurei pela primeira vez, e agora observo imagens de dois garotinhos curiosos, sorridentes e cada vez mais interessados em descobrir o mundo. Estou tão concentrado na escolha das fotografias que quase não percebo quando minha secretária anuncia a chegada de uma visita inesperada. — Doutor Adam, seu pai está aqui e gostaria de conversar com o senhor. Levanto os olhos do computador, surpreso. Faz muito tempo que não conversamos pessoalmente, e não consigo imaginar o que o teria levado até minha empresa justamente naquele dia. Depois de alguns instantes, autorizo sua entrada e permaneço sentado, aguardando para descobrir o motivo d
O TEMPO E O PERDÃO ADAM É uma sexta-feira tranquila, véspera do primeiro aniversário de Hermes e Narciso. Estou em meu escritório, revisando alguns relatórios e selecionando as fotografias que serão exibidas no telão durante a comemoração. Parece impossível que nossos meninos estejam prestes a completar um ano. Ainda me lembro da emoção que senti quando os segurei pela primeira vez, e agora observo imagens de dois garotinhos curiosos, sorridentes e cada vez mais interessados em descobrir o mundo. Estou tão concentrado na escolha das fotografias que quase não percebo quando minha secretária anuncia a chegada de uma visita inesperada. — Doutor Adam, seu pai está aqui e gostaria de conversar com o senhor. Levanto os olhos do computador, surpreso. Faz muito tempo que não conversamos pessoalmente, e não consigo imaginar o que o teria levado até minha empresa justamente naquele dia. Depois de alguns instantes, autorizo sua entrada e permaneço sentado, aguardando para descobrir o motivo d
EU NÃO SOU SUBMISSA NOVOS CAMINHOS ADAM O tempo passa depressa, e mal consigo acreditar que Hermes e Narciso já estão prestes a completar dois meses. Nossa rotina mudou completamente desde o nascimento dos meninos, mas não poderia estar mais satisfeito com a família que Ava e eu construímos. Aprendi a dividir meu tempo entre as responsabilidades da empresa e os cuidados com nossos filhos, descobrindo que existem alegrias que nenhuma conquista profissional consegue superar. Naquela manhã, estou concentrado em alguns documentos quando a porta do escritório se abre e Jeffrey aparece, exibindo um sorriso tão largo que imediatamente percebo que tem alguma novidade importante para compartilhar. — Primo, você não vai acreditar no que aconteceu! — anuncia, entrando sem bater, como costuma fazer desde que começamos a trabalhar juntos. Levanto os olhos do computador e observo sua expressão radiante. Jeffrey parece incapaz de permanecer parado, e sua animação me faz suspeitar de que recebeu
UMA FAMÍLIA DE TUBARÕES AVA O tempo passa, e nossa vida começa a tomar rumos que eu jamais poderia imaginar quando conheci Adam. Nosso casamento continua sendo uma mistura de companheirismo, descobertas e provocações, mas também representa uma fase de crescimento para toda a família. Carlinha, por exemplo, finalmente consegue realizar um sonho antigo: criar seu próprio site de relacionamentos. Com o incentivo e o patrocínio de Adam, minha irmã transforma uma ideia que antes parecia distante num empreendimento de verdade. O projeto cresce rapidamente, conquista usuários e começa a apresentar resultados que superam nossas expectativas. Fico orgulhosa ao acompanhar seu entusiasmo, principalmente porque sei quanto desejava conquistar independência financeira por meio de algo que fosse realmente seu. — Se não fosse Adam acreditar em mim, provavelmente eu ainda estaria perdida naqueles aplicativos de relacionamento que nunca davam certo — comenta Carlinha, examinando os resultados do site







