FAZER LOGINO café do hospital era pequeno, com luz fria e cheiro de pão amanhecido misturado ao de desinfetante. Ethan escolheu uma mesa no canto, afastada da movimentação. Precisava de silêncio para organizar os próprios pensamentos, mas era Miguel quem estava à sua frente, e Miguel nunca foi sinônimo de silêncio.
Miguel deu um gole generoso no café, fez uma careta e soltou um riso baixo. MIGUEL: Sabe o que é engraçado, Ravelli? Você entra naquele quarto achando que vai mandar, e a garota… pá! Te desmonta como se fosse nada. Ethan passou a mão pelo rosto, respirando fundo. Não respondeu. MIGUEL: Nunca vi você perder o controle assim. Nunca. Cara, você está de quatro por ela. Assuma logo. Os dedos de Ethan se fecharam ao redor da xícara. Ele manteve o olhar fixo no líquido escuro, como se pudesse afogar a raiva ali. ETHAN: Miguel… Cala a boca! A voz dele saiu baixa, carregada de ameaça. Mas Miguel sorriu mais largo, como sempre fazia quando via uma brecha. MIGUEL : Ah, qual é. É bonito ver você assim. Todo... humano. Fez um gesto teatral com a mão. MIGUEL: O grande Ethan Ravelli, o homem que não erra, perdendo a cabeça por uma universitária teimosa. Isso dava um filme, meu amigo. Ethan ergueu os olhos devagar. Olhar de aço, frio, mortal. Mas Miguel continuou, sem medo. MIGUEL: E a melhor parte? Você não vai conseguir domar essa menina. Nunca. Não importa quantos seguranças coloque, quantas ordens dê… ela vai olhar na sua cara e mandar você enfiar a autoridade sabe onde. Um músculo pulsou na mandíbula de Ethan. Ele largou a xícara sobre a mesa com força demais, o som seco ecoando pelo café. Algumas pessoas olharam, mas ele não se importou. ETHAN: Eu não estou tentando domar ninguém. Você ouviu muito bem o que a médica disse… só estou tentando mantê-las seguras. Ela não vai para o meu apartamento, aquela garota é teimosa como uma mula. Vou precisar da sua ajuda. MIGUEL: Diga o que você precisa? ETHAN: Vou passar um tempo com você, na sua casa. Assim, Isabella pode ficar à vontade na cobertura. Sem estresse e sem aborrecimento. MIGUEL: Não? O senhor escuridão vai deixar a masmorra para a jovem em perigo? O QUE ela fez com você? Hahaha! Eu vivi para ver Ethan Ravelli encantado por uma menina muito mais jovem que ele e linguaruda. ETHAN: Vai pro inferno, Miguel! Miguel se recostou na cadeira, satisfeito com o próprio veneno, e completou com um sussurro carregado de provocação: MIGUEL: Ela é diferente, cara. Você não manda nela. E sabe de uma coisa? Acho que é por isso que você está ferrado. Está interessado no desafio. Ethan fechou os olhos por um segundo, buscando paciência. Quando voltou a abri-los, a frase saiu baixa, firme: ETHAN: Acabou, Miguel. Terminou as gracinhas ? O outro ergueu as mãos em rendição, rindo. MIGUEL: Beleza, beleza… mas só por enquanto. Porque, meu amigo… você está caindo, e não têm paraquedas. Ethan respirou fundo, mas não respondeu. Não porque Miguel estava certo… mas porque, no fundo, ele sabia que estava. MIGUEL: Tenha paciência com ela. Ella já era teimosa, difícil de lidar e linguaruda como você disse, vai piorar agora. Ela se sente frágil, desprotegida. Ela sofreu um abuso. Cara é no mínimo compreensível que esteja na defensiva. E essa ideia de deixar o apartamento para ela é excelente. Assim ela não se sente violada, me entende? Ethan ouviu com atenção. MIGUEL: Agora grandão, vai comprar flores e chocolates para sua pequena. Vai pedir desculpa pela grosseria. ETHAN: Mas nem ferrando, Miguel! Pedir desculpas para uma garota estúpida. Miguel gargalhou novamente. Ethan saiu do café com passos pesados, como se cada um fosse um insulto à própria dignidade. Miguel vinha ao lado, sorrindo feito criança em dia de parque. MIGUEL: Olha a sua cara, Ravelli. Parece que vai cometer um homicídio só porque vai comprar um buquê. Ninguém morre por ser gentil. ETHAN: Cala a boca, Miguel… Você precisa parar de me encher o saco. Mas continue, e eu vou diminuir seu lucro no escritório. MIGUEL: Você não faria isso. E não dá, meu amigo. Isso aqui é histórico! Ethan Ravelli, o homem que nunca pede desculpas, indo comprar flores e chocolates. Eu devia filmar. Ethan lançou um olhar tão gélido que faria qualquer um congelar por dentro. Qualquer um, menos Miguel, que apenas riu mais alto. Na floricultura ao lado do hospital, a cena foi digna de registro. Sim, Miguel fez Ethan Ravelli comprar flores. Ethan, parado diante do balcão, imponente, mas com a expressão de quem estava prestes a declarar guerra. ATENDENTE: Posso ajudar? Ethan pigarreou, a voz grave e arrastada: ETHAN: Flores. E chocolates. Os melhores. MIGUEL: Ele quer algo bem romântico. Corações, muito vermelho, aquela coisa que grita “estou apaixonado e desesperado”. Fica comigo pelo amor de Deus? Ethan girou lentamente a cabeça para Miguel, e por um segundo, parecia que ia esmagá-lo ali mesmo com as próprias mãos. ETHAN: Miguel. Miguel segurou o riso na hora. MIGUEL: Tá bom, tá bom… só estou tentando ajudar. No final, saiu de lá com um buquê impecável. Rosas, claro, e uma caixa de bombons caros. Parecia uma cena de propaganda, se não fosse a expressão de puro ódio no rosto dele. De volta ao hospital, Miguel não parava de rir enquanto caminhavam pelo corredor. MIGUEL: Sabe o que eu mais gosto nessa história? É que você vai entrar naquele quarto, com essa cara fechada, tentando parecer no controle… mas por dentro, tá rezando para a menina aceitar suas flores. Hahaha! Cara, isso é ouro! Ethan ignorou, ou tentou. Cada palavra de Miguel era uma faísca no barril de pólvora. Quando chegou à porta do quarto, respirou fundo. A mão segurando as flores estava firme, mas os nós dos dedos estavam brancos. Ethan entrou e eu estava sentada, os cabelos ainda um pouco bagunçados, olhando pela janela. Quando ouvi a porta, virei o rosto e o encarei. Olhar afiado, desafiador. Ele ergueu o buquê e a caixa, sem jeito. ETHAN: Trouxe isso… para você. Eu arquei uma sobrancelha. Confesso que ver aquele homem charmoso, forte e “bonito” com um buquê de flores na mão, me desconcertou. “Nossa… que honra. O senhor Ravelli comprando flores? Aposto que foi ideia do Miguel.” Atrás dele, no corredor, Miguel quase engasgava de tanto rir. Ethan fingiu não ouvir. ETHAN: É um gesto. Para você entender que não precisa ter medo. Quero que fique no meu apartamento. Vai ser melhor para sua segurança. " E quem disse que eu quero? Eu não vou e nem quero morar com um desconhecido. Não confio em homens como você Ravelli.” Ethan fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. ETHAN: Fontana… não começa. “Já comecei. Eu não vou. Acha mesmo que pode mandar em mim? Porque trouxe umas flores? Que bonitinho.” Ele sentiu o sangue subir. Apertou o buquê com tanta força que algumas pétalas se soltaram. Num movimento seco, jogou as flores e os bombons na lixeira. ETHAN: Quer saber? Vai pro inferno, Ella! Virou as costas e saiu do quarto com passos duros, a raiva queimando por baixo da pele. Quando abriu a porta, encontrou Miguel quase caído de tanto rir. MIGUEL: Meu Deus, Ethan! Você é uma comédia! Eu te avisei que ela ia acabar contigo! Deveria ter abordado a situação de outra forma… ETHAN: Vai você também Miguel… você e suas ideias estúpidas! Ainda diz que entende de mulher. Não entende porra nenhuma! TANTO que a última te trocou por outra mulher! Se fosse bom de cama pelo menos ela não ia escolher… MIGUEL: Ei! Não precisa perder a paciência e ofender! Ethan só lançou um olhar mortal e continuou andando.Naquela noite, já deitada com Ethan, finalmente falei. “ E se der tudo errado?” Ele virou o rosto para mim imediatamente. ETHAN: O que exatamente? “ O casamento… As pessoas… A pressão. Tudo.”Ele passou o polegar pelo meu queixo com calma. ETHAN: Isabella… Nada disso importa se, no final do dia, você estiver comigo. Respirei fundo. “Promete?” ETHAN: Prometo. Vai dar tudo certo.Dois meses se passaram num piscar de olhos.Provas de vestido, ajustes, decisões intermináveis, reuniões com cerimonialistas, convites enviados para nomes que eu só via em jornais e tribunais. A fazenda foi transformada. O jardim virou cenário de filme. Isso mesmo, tanto Lia quanto eu decidimos que seria na fazenda. No dia do casamento, acordei com o coração acelerado. Meu vestido estava pendurado diante da janela. Branco, elegante, clássico. Renda delicada nos ombros, saia leve, quase flutuando. Quando vesti, senti o peso simbólico de tudo o que eu estava escolhendo.GIULIETTA: Você está l
Era uma sexta-feira tranquila, e Ethan insistiu para irmos até a fazenda. Um fim de semana em família. Onde Paolo e Giulietta, Miguel, Lia e Theo, todos estariam reunidos. Um almoço em família organizado por Paolo. Eu sabia que aquele almoço não era apenas mais um encontro em família. A mesa estava impecável demais. Paolo não fazia nada sem intenção, e quando ele se empenhava daquele jeito, porcelana fina, talheres alinhados com precisão quase militar, flores discretas e vinho escolhido a dedo, era porque algo importante estava prestes a acontecer. O ambiente era elegante, sim, mas acima de tudo humano. Havia risos, pequenas provocações, comentários sobre negócios misturados a lembranças antigas. Ethan estava ao meu lado, sereno demais. Calmo num nível que só ele conseguia sustentar quando estava prestes a virar tudo de cabeça para baixo. Depois do almoço, Paolo pediu que ficássemos na sala. Todos, sem exceção. O coração começou a bater diferente. Ethan soltou minha mão apenas pa
Acordei com o lençol ainda quente e o cheiro dele impregnado na pele, mas o espaço ao meu lado estava vazio. Por um segundo, achei que ainda estivesse sonhando. Pisquei devagar, virei o rosto… nada de Ethan. Me sentei na cama, puxando o lençol até o peito, e foi quando notei a luz suave entrando pela janela. Caminhei até lá ainda descalça e afastei a cortina. E sorri. No jardim, uma toalha de piquenique estava estendida sobre a grama perfeitamente aparada. Ethan estava sentado ali, completamente fora do personagem Ravelli que o mundo conhecia. Regata branca colada ao corpo, ombros largos à mostra, a tatuagem escura contrastando com a pele. Um short simples, pés descalços na grama. Felippo estava no colo dele, batendo as mãos no ar. Melissa engatinhava perigosamente perto da borda da toalha, enquanto Giulia reclamava no tom exato que antecede o choro. E Luce… Luce ria, sentada ao lado, observando o caos com prazer. Era a cena mais improvável e mais perfeita que eu já tinha vi
A água quente continuava caindo quando levei as mãos até ele, devagar, sem pressa, como se aquele momento fosse só nosso e o mundo inteiro tivesse aprendido a esperar. Abri os botões da camisa molhada um por um, sentindo o tecido escorregar dos meus dedos até revelar o peito largo, marcado, firme, aquele peitoral que sempre me fez esquecer qualquer linha de raciocínio. Passei a palma da mão pelo tórax dele, sentindo o calor da pele, o músculo sob meus dedos, a respiração dele mudar no mesmo instante. “Você fica ainda mais bonito assim… cansado e real. Tão lindo e gostoso.” ETHAN: Abelhinha… Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse absorvendo cada palavra. Quando puxei a camisa para fora dos ombros dele, deixei meus dedos deslizarem lentamente pelo peito, pelo abdômen, sentindo o corpo que sempre foi força, mas que comigo se permite vulnerável. ETHAN: Você faz isso parecer perigoso. Sorri, puxando-o mais para perto da água. Peguei o sabonete e comecei a lavá-lo
Ella… Chegar em casa depois da festa foi como atravessar um campo minado feito de balões murchos, presentes abertos pela metade e restos de bolo estrategicamente espalhados pelo caminho. O silêncio durou exatamente vinte e três segundos, o tempo de fecharmos a porta. Depois disso, o caos acordou junto com os trigêmeos. Giulia começou primeiro, um choro fino e indignado, daqueles que parecem uma reclamação formal. Melissa veio logo em seguida, ofendida com a própria existência. Felippo demorou mais três segundos, só para garantir que o coro ficasse completo. ETHAN: Eles estavam dormindo…Todos os três. Perfeitamente dormindo. “E você acreditou que isso ia durar?” Ele me olhou com aquela expressão de homem traído pela própria esperança. ETHAN: Eu só achei que… depois da festa… “Amor, eles são bebês. Não negociam com lógica.” Antes que pudéssemos nos mover, Luce passou correndo pela sala, rindo alto, o cabelo todo bagunçado e o pijama torto. LUCE: Eles estão gritandooooo! Ela c
LIA… Existe um tipo específico de silêncio que só acontece antes de uma catástrofe ou de um milagre. No caso da Isabella, eram os dois. O hospital inteiro parecia saber quem ela era, mesmo que ninguém dissesse em voz alta. Enfermeiras falavam baixo demais, médicos explicavam tudo com cuidado excessivo, como se estivessem lidando com alguém emocionalmente instável e potencialmente incendiária. Ela instalou o pânico no Ravelli, e ele espalhou por todos os corredores. Ethan Ravelli estava irreconhecível. Ele andava de um lado para o outro no corredor da maternidade com um copo de café que já tinha esfriado há horas, explicando absolutamente tudo para a Isabella, mesmo ela estando em trabalho de parto e claramente sem paciência para discursos. ETHAN: Amor, o médico disse que está tudo correndo perfeitamente dentro do esperado, a pressão está ótima, os batimentos estão excelentes, os bebês estão bem posicionados, qualquer coisa que você sentir diferente você me fala imediatamen







