INICIAR SESIÓNMiguel entrou no quarto com um sorriso que eu reconheci de longe: aquele sorriso de quem estava se divertindo às minhas custas. Encostou na porta, cruzando os braços, e eu tive certeza de que era uma armadilha.
MIGUEL: Então… eu chego no corredor e encontro um homem de quase quarenta anos, andando com cara de funeral, depois de jogar flores e chocolates no lixo. Quer me contar o que fez, pequena Fontana? Revirei os olhos. “Ah, claro. Agora a culpa é minha porque o Sr. Controle Absoluto não sabe lidar com a palavra “não”. Miguel riu baixo, se aproximando devagar. Ele parecia se deliciar com a tensão que ficou no ar depois que Ethan saiu daqui todo bravo. Aposto que ele nunca tinha visto o amigo perder a linha daquele jeito. MIGUEL: Você é incrível. Sério mesmo. Dez minutos com você e ele parece um adolescente rejeitado no baile da escola. Dei um sorriso torto. “Que pena que não tenho o troféu para isso.” Ele puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado, apoiando o braço na beirada da cama como quem não tinha pressa nenhuma. MIGUEL: Vou ser direto, Ella. Você precisa sair daqui. Não é seguro. Cruzei os braços, olhando bem nos olhos dele. “Ah, não me diga. E a solução milagrosa é morar no castelo do Conde Drácula?” Miguel riu alto. MIGUEL: Ele vai adorar saber que você chamou o apartamento dele de castelo. ELLA: Chamei ele de Conde Drácula, Miguel. Presta atenção. Ele inclinou a cabeça, ainda sorrindo. MIGUEL: Sabe por que ele quer que você vá para lá? Porque ele se importa, Ella. Ele não é bom em mostrar isso, e olha que hoje ele tentou, trouxe flores, chocolates… para Ethan Ravelli isso é praticamente ajoelhar no chão. Revirei os olhos de novo, mas algo dentro de mim se mexeu. Droga. Eu não podia deixar Miguel perceber. “Ele não precisa se ajoelhar. Só precisa parar de achar que pode me mandar. Eu passei a minha vida toda servindo de capacho para todos. Miguel suspirou, como quem estava cansado do meu orgulho. MIGUEL: Escuta… você não é do tipo que abaixa a cabeça. Eu sei disso. Mas, dessa vez, tenta olhar além. Não é sobre ele mandar. É sobre você ficar viva. E o único que pode te ajudar a sair de toda essa confusão é ele. O seu irmão está com sérios problemas e colocou você no meio. Silêncio. Eu odiei o jeito como as palavras dele acertaram. Miguel não tinha aquela voz de deboche agora. Era sério. “Eu não gosto de dever nada a ninguém.” MIGUEL: E quem disse que você deve? Ele quer ajudar porque quer você bem. Só isso. Fiquei quieta por alguns segundos, tentando decidir se dava ou não o braço a torcer. Do lado de fora, ouvi passos pesados no corredor. Aposto que era o próprio Conde Drácula rosnando pela terceira vez no dia. Miguel percebeu meu silêncio e se levantou, abrindo um sorriso vitorioso. MIGUEL: Ótimo. Vou dizer que você vai aceitar. Ele vai ficar feliz. “Eu não disse nada!” MIGUEL: Não precisa, pequena Fontana. Eu sei ler olhares. Ele piscou para mim e saiu, deixando a porta entreaberta. Eu me joguei contra o travesseiro, bufando. Maldito Miguel. Maldito Ethan. Maldito mundo que acha que pode decidir por mim. “ Porque eu tenho que viver tantas coisas ruins? Por que isso foi acontecer comigo?” Eu não sei como Miguel fez isso, mas dois dias depois estava dentro do elevador luxuoso do prédio de Ethan Ravelli, que parecia mais caro do que tudo o que já tive na vida. A cada andar que passava, meu estômago se contorcia. Era raiva misturada com cansaço e um medo que eu não queria admitir nem para mim mesma. Quando as portas do elevador se abriram, dei de cara com Miguel. Miguel abriu os braços como se fosse o anfitrião. MIGUEL: Bem-vinda ao lar doce lar! Ou, como eu gosto de chamar, a jaula do lobo. Revirei os olhos, apertando a alça da mochila contra o ombro. “Uma jaula dourada continua sendo uma jaula, Miguel.” Ele sorriu como quem não ligava para veneno nenhum e pegou minha mochila da mão sem pedir permissão. MIGUEL: Anda, pequena Fontana. Vou te mostrar o quarto. Prometo que não tem grades. Ainda. Dei uma olhada rápida pelo ambiente, esperando ver Ethan aparecer para dar aquele discurso de macho alfa controlador. Mas ele estava lá no fundo, perto do balcão da cozinha, parado, com as mãos nos bolsos e uma expressão que eu não sabia decifrar. Parecia desconfortável. Como se não soubesse o que fazer comigo dentro do território dele. E eu gostei disso. Muito. Ele se aproximou devagar, e eu senti os olhos dele percorrendo cada centímetro do meu corpo como se quisesse ter certeza de que eu estava bem. Mas ficou calado. Nada daquele tom autoritário. Nada de ordens. Só silêncio. Miguel, claro, não deixou passar. MIGUEL: Que lindo, vocês dois parecendo um casal que brigou e agora não sabe como conversar. Querem que eu acenda umas velas? Coloque uma música romântica? ELLA: Miguel, cala a boca! MIGUEL: Olha a intimidade! Ela já manda em mim também. Ethan, meu amigo… Antes que ele pudesse terminar, Ethan o interrompeu. ETHAN: Já pode ir Miguel. Miguel o ignorou e em seguida beijou minha testa de forma irritante. Em seguida saiu rindo de forma debochada. ETHAN: O quarto é o último à direita. Olhei para ele, arqueando a sobrancelha. “Só isso? Sem discurso? Sem regras? Sem um “não saia daqui sem minha permissão”? Estou decepcionada.” ETHAN: Já chega de gracinhas Isabella. Só me envolvi com seus problemas porque de certa forma me sinto culpado. Eu te chamei aqui naquela noite… se estivesse em casa nada disso teria acontecido. “Talvez Miguel tenha razão, o conde Drácula não é tão ruim.” ETHAN: Senhor escuridão, conde Drácula… o que mais Ella? Vamos, abre a boca. O que aconteceu, ficou sem palavras? Enquanto o senhor escuridão me repreendia. Miguel e Lia se divertiam no andar de baixo. Todos na expectativa de como íamos nos matar. “ Porque tanto interesse em mim? Abre o jogo Ethan Ravelli. Seja claro comigo e me diga a verdade. Só assim eu irei confiar em você!” Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas fechou de novo. Vi a tensão no maxilar, os punhos cerrados dentro dos bolsos. E, por um segundo, ele vacilou. ETHAN: Se precisar de algo, estou no escritório no fim do corredor do outro lado. Fui para o quarto e coloquei minhas coisas na cama. Era tudo muito luxuoso, nada comparado à vida que sempre tive. A minha consciência me castigava. “Eu estou dependendo dele, mesmo não gostando nem um pouco disso tudo. O que está fazendo Isabella? você não é assim!” Tranquei a porta do quarto e em seguida entrei no banheiro. Eu queria tirar aquela roupa com cheiro de hospital, mas estava com medo demais para me despir no banheiro de um estranho. Tranquei a porta, como sempre faço. Estava tão cansada que nem percebi os detalhes daquela tecnologia absurda. O banho quente escorreu pelo meu corpo, trazendo um pouco de alívio, mas não o suficiente para silenciar a tempestade na minha cabeça. Enrolei-me na toalha e respirei fundo antes de girar a maçaneta. Só que ela não girou. Tentei de novo, com mais força. Nada. Apertei o painel ao lado da porta, toquei na tela como se aquilo fosse ajudar. Um bip soou, vermelho. “Não, não, não…” O pânico tomou conta de mim. Comecei a bater com força. A respiração acelerou, os olhos se encheram de lágrimas e o som dos meus próprios gritos ecoou naquele espaço luxuoso. “Socorro! Tem alguém aí? Me tira daqui! Pelo amor de Deus!” Bati mais forte. O coração parecia que ia explodir. Estava trancada, sozinha, enrolada numa toalha, e a sensação de vulnerabilidade foi como um soco no estômago. Ouvi passos apressados no corredor, depois a voz grave dele. ETHAN: Ella? O que houve? O que está acontecendo? Minha garganta doía, mas respondi entre soluços: “Estou trancada aqui, senhor Ravelli! Por favor… me ajuda!” A porta do quarto se abriu com força. Senti a presença dele do outro lado da barreira que me prendia. ETHAN: Tudo bem, calma. Apenas digite o código que está num cartão na primeira gaveta à sua direita. Olhei em volta, desesperada. Gaveta? Direita? Meu corpo tremia tanto que nem sabia onde era o quê. A toalha escorregava, minhas mãos estavam molhadas, eu mal conseguia respirar. “Eu não sei… eu não acho nada! Me ajuda, por favor! SOCORRO!” O choro tomou conta de mim. Os soluços vinham com tanta força que eu já nem falava direito. Do outro lado, ouvi um barulho seco. ETHAN: Merda! O som de algo sendo arrancado me fez parar por um segundo. Ethan não hesitou: socou o painel da porta com as próprias mãos, os fios se soltaram num estalo e, segundos depois, a trava fez um clique. A porta se abriu de repente. Eu nem pensei. Simplesmente corri para ele. Me joguei nos braços dele como se minha vida dependesse daquilo. E, naquele momento, dependia. Meu corpo colidiu com o dele, e eu desabei. Senti as mãos grandes segurando firme minha cintura, o calor dele contra minha pele fria, a respiração pesada dele misturada à minha. ETHAN: Shhh… está tudo bem. Eu estou aqui. A voz dele era grave, mas suave. Um tom que eu nunca tinha ouvido antes. Eu chorava tanto que mal conseguia falar. Apertei o rosto contra o peito dele, sentindo o tecido da camisa encharcar com minhas lágrimas. “Eu… eu pensei… eu não conseguia sair… eu achei que…” ETHAN: Acabou, Ella. Escuta a minha voz: você está segura. Ele me apertou mais contra si, uma das mãos subiu para minha nuca, os dedos se enrolaram nos fios molhados do meu cabelo. O coração dele batia forte, e, por algum motivo, isso me acalmava. ETHAN: Respira comigo… isso… devagar.” Fechei os olhos e tentei seguir o ritmo da respiração dele. Aos poucos, meus soluços diminuíram, mas as lágrimas ainda corriam. Eu odiava isso. Odiava me sentir fraca. Mas naquele instante, no meio daquele desespero, eu só conseguia me agarrar nele. Quando finalmente consegui erguer o rosto, encontrei os olhos dele. Estavam mais escuros do que nunca, carregados de algo que eu não soube decifrar. Ele também parecia abalado. ETHAN: Eu não vou deixar nada acontecer com você.” Ele disse baixo, mas com tanta firmeza que eu acreditei. Pela primeira vez, eu realmente acreditei. Fiquei ali, envolvida pelo cheiro dele, pelo calor dele, pelo silêncio que pesava mais do que qualquer palavra. Um silêncio que dizia tudo.Naquela noite, já deitada com Ethan, finalmente falei. “ E se der tudo errado?” Ele virou o rosto para mim imediatamente. ETHAN: O que exatamente? “ O casamento… As pessoas… A pressão. Tudo.”Ele passou o polegar pelo meu queixo com calma. ETHAN: Isabella… Nada disso importa se, no final do dia, você estiver comigo. Respirei fundo. “Promete?” ETHAN: Prometo. Vai dar tudo certo.Dois meses se passaram num piscar de olhos.Provas de vestido, ajustes, decisões intermináveis, reuniões com cerimonialistas, convites enviados para nomes que eu só via em jornais e tribunais. A fazenda foi transformada. O jardim virou cenário de filme. Isso mesmo, tanto Lia quanto eu decidimos que seria na fazenda. No dia do casamento, acordei com o coração acelerado. Meu vestido estava pendurado diante da janela. Branco, elegante, clássico. Renda delicada nos ombros, saia leve, quase flutuando. Quando vesti, senti o peso simbólico de tudo o que eu estava escolhendo.GIULIETTA: Você está l
Era uma sexta-feira tranquila, e Ethan insistiu para irmos até a fazenda. Um fim de semana em família. Onde Paolo e Giulietta, Miguel, Lia e Theo, todos estariam reunidos. Um almoço em família organizado por Paolo. Eu sabia que aquele almoço não era apenas mais um encontro em família. A mesa estava impecável demais. Paolo não fazia nada sem intenção, e quando ele se empenhava daquele jeito, porcelana fina, talheres alinhados com precisão quase militar, flores discretas e vinho escolhido a dedo, era porque algo importante estava prestes a acontecer. O ambiente era elegante, sim, mas acima de tudo humano. Havia risos, pequenas provocações, comentários sobre negócios misturados a lembranças antigas. Ethan estava ao meu lado, sereno demais. Calmo num nível que só ele conseguia sustentar quando estava prestes a virar tudo de cabeça para baixo. Depois do almoço, Paolo pediu que ficássemos na sala. Todos, sem exceção. O coração começou a bater diferente. Ethan soltou minha mão apenas pa
Acordei com o lençol ainda quente e o cheiro dele impregnado na pele, mas o espaço ao meu lado estava vazio. Por um segundo, achei que ainda estivesse sonhando. Pisquei devagar, virei o rosto… nada de Ethan. Me sentei na cama, puxando o lençol até o peito, e foi quando notei a luz suave entrando pela janela. Caminhei até lá ainda descalça e afastei a cortina. E sorri. No jardim, uma toalha de piquenique estava estendida sobre a grama perfeitamente aparada. Ethan estava sentado ali, completamente fora do personagem Ravelli que o mundo conhecia. Regata branca colada ao corpo, ombros largos à mostra, a tatuagem escura contrastando com a pele. Um short simples, pés descalços na grama. Felippo estava no colo dele, batendo as mãos no ar. Melissa engatinhava perigosamente perto da borda da toalha, enquanto Giulia reclamava no tom exato que antecede o choro. E Luce… Luce ria, sentada ao lado, observando o caos com prazer. Era a cena mais improvável e mais perfeita que eu já tinha vi
A água quente continuava caindo quando levei as mãos até ele, devagar, sem pressa, como se aquele momento fosse só nosso e o mundo inteiro tivesse aprendido a esperar. Abri os botões da camisa molhada um por um, sentindo o tecido escorregar dos meus dedos até revelar o peito largo, marcado, firme, aquele peitoral que sempre me fez esquecer qualquer linha de raciocínio. Passei a palma da mão pelo tórax dele, sentindo o calor da pele, o músculo sob meus dedos, a respiração dele mudar no mesmo instante. “Você fica ainda mais bonito assim… cansado e real. Tão lindo e gostoso.” ETHAN: Abelhinha… Ele fechou os olhos por um segundo, como se estivesse absorvendo cada palavra. Quando puxei a camisa para fora dos ombros dele, deixei meus dedos deslizarem lentamente pelo peito, pelo abdômen, sentindo o corpo que sempre foi força, mas que comigo se permite vulnerável. ETHAN: Você faz isso parecer perigoso. Sorri, puxando-o mais para perto da água. Peguei o sabonete e comecei a lavá-lo
Ella… Chegar em casa depois da festa foi como atravessar um campo minado feito de balões murchos, presentes abertos pela metade e restos de bolo estrategicamente espalhados pelo caminho. O silêncio durou exatamente vinte e três segundos, o tempo de fecharmos a porta. Depois disso, o caos acordou junto com os trigêmeos. Giulia começou primeiro, um choro fino e indignado, daqueles que parecem uma reclamação formal. Melissa veio logo em seguida, ofendida com a própria existência. Felippo demorou mais três segundos, só para garantir que o coro ficasse completo. ETHAN: Eles estavam dormindo…Todos os três. Perfeitamente dormindo. “E você acreditou que isso ia durar?” Ele me olhou com aquela expressão de homem traído pela própria esperança. ETHAN: Eu só achei que… depois da festa… “Amor, eles são bebês. Não negociam com lógica.” Antes que pudéssemos nos mover, Luce passou correndo pela sala, rindo alto, o cabelo todo bagunçado e o pijama torto. LUCE: Eles estão gritandooooo! Ela c
LIA… Existe um tipo específico de silêncio que só acontece antes de uma catástrofe ou de um milagre. No caso da Isabella, eram os dois. O hospital inteiro parecia saber quem ela era, mesmo que ninguém dissesse em voz alta. Enfermeiras falavam baixo demais, médicos explicavam tudo com cuidado excessivo, como se estivessem lidando com alguém emocionalmente instável e potencialmente incendiária. Ela instalou o pânico no Ravelli, e ele espalhou por todos os corredores. Ethan Ravelli estava irreconhecível. Ele andava de um lado para o outro no corredor da maternidade com um copo de café que já tinha esfriado há horas, explicando absolutamente tudo para a Isabella, mesmo ela estando em trabalho de parto e claramente sem paciência para discursos. ETHAN: Amor, o médico disse que está tudo correndo perfeitamente dentro do esperado, a pressão está ótima, os batimentos estão excelentes, os bebês estão bem posicionados, qualquer coisa que você sentir diferente você me fala imediatamen







