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Enganada no Casamento, Protegida pelo Chefão das Armas
Enganada no Casamento, Protegida pelo Chefão das Armas
作者: Tiely

Capítulo 1

作者: Tiely
— Sra. Ophelia, o laudo indica que a principal causa do seu aborto foi o uso excessivo de medicamentos hormonais.

A voz do médico soara fria e cortante, como o aço dos fórceps cirúrgicos.

— A senhora tinha pouco mais de dois meses de gestação. Nessa fase, qualquer coisinha, qualquer risco mínimo, já pode fazer o embrião parar de se desenvolver. Imagine, então, o efeito de hormônios em excesso.

Os olhos de Ophelia estavam cheios de lágrimas, ardendo e pesados. Ela piscou, perdida.

— Eu não estava doente… eu não tomei medicamento nenhum.

O médico entendeu que, naquele momento, ela mal conseguia assimilar o que tinha acontecido, mas sabia que ela tinha o direito de saber.

— A senhora ainda é jovem. Esses hormônios machucaram o seu corpo, sim, mas, se a senhora se cuidar direitinho daqui para a frente, ainda vai ter chance de engravidar de novo.

Os cílios de Ophelia tremiam quando ela baixou o olhar. As lágrimas, porém, escaparam de vez, sem controle.

— O que o senhor quer dizer com "ainda tem chance"?

Ela pensou se o que ele estava dizendo era que talvez nunca mais tivesse um filho.

O médico não quis continuar cutucando a ferida e mudou de assunto:

— Foi um funcionário do cartório que chamou a ambulância para a senhora hoje mais cedo. Agora nós vamos avisar o seu marido para vir. Com o seu marido aqui, a senhora provavelmente vai se sentir um pouco melhor.

O rosto de Ophelia enrijeceu, e os dedos se fecharam, em reflexo.

Se não fosse por ela ter passado por acaso em frente ao cartório e visto Jasper Ashford e Lila Bennett saindo de lá com a certidão de casamento na mão, Ophelia ainda não saberia que o homem a quem ela tinha entregado a vida inteira tinha usado uma certidão falsa para enganá‑la.

Ela própria tinha ouvido Lila dizer:

— Eu acho que a Ophelia gosta mesmo de você. E se ela não topar se afastar?

Jasper respondeu, cheio de convicção:

— Ela nunca foi um problema entre nós. No meu coração, desde o começo até agora, só existe você.

Lila sorriu doce.

— Meus pais não querem que a gente fique junto. Você sabe o que eu passei para conseguir voltar para o país. Enquanto a Ophelia continuar servindo de fachada para nós dois, vou ter muito menos dor de cabeça. Então, vamos deixá-la bancar a Sra. Ashford por mais alguns dias.

A forma como Jasper olhava para Lila tinha sido tão cheia de carinho que parecia transbordar pelos olhos.

— Eu não vou deixar você ser humilhada. Assim que esses dois projetos em que eu estou trabalhando saírem do papel e a empresa estabilizar de vez, eu vou poder dar uma explicação decente para os seus pais. Aí eu invento qualquer desculpa para mandar a Ophelia embora, e nós dois vamos poder ficar juntos sem precisar esconder nada.

As famílias Bennett e Ashford eram amigas de longa data. Jasper e Lila tinham estudado na mesma turma do jardim de infância até o fim do ensino médio. Sempre que os pais de Lila viajavam a trabalho, Lila ficava hospedada na casa dos Ashford. Aos olhos de todo mundo, os dois eram praticamente inseparáveis e pareciam destinados a ficar juntos desde pequenos.

No último ano da escola, a empresa da família Ashford entrou em crise, e Jasper foi obrigado a abrir mão do plano de prestar vestibular para Belas Artes com Lila. Ele acabou se inscrevendo em Administração.

No fim, eles apenas foram estudar em universidades diferentes. Não era como se nunca mais fossem se ver.

Só que ninguém tinha previsto que, pouco tempo depois, os negócios da família Bennett também fossem afundar. De uma hora para outra, eles liquidaram todos os bens e partiram para o exterior. Lila nem teve tempo de se despedir de Jasper, só deixou para trás uma carta borrada de tanto choro.

Houve quem dissesse que, como a família Ashford tinha ido à falência, Lila não quis arriscar a própria vida casando com ele e fugiu sem olhar para trás.

Ophelia, ao contrário, tinha ficado ao lado de Jasper e o ajudado a reconstruir a empresa passo a passo. Por isso, mesmo quando Lila, seu primeiro amor, voltou para o país, Ophelia acreditou que Jasper jamais faria algo para traí‑la.

Ao ver os dois saindo juntos do cartório, uma farpa se cravou fundo no coração de Ophelia. Agarrada a um fio de esperança, ela entrou no setor de registro civil e mentiu, dizendo que queria tirar a segunda via da própria certidão de casamento. Passou o número do seu documento.

O funcionário lançou um olhar estranho para ela e respondeu, sem jeito:

— Moça, a senhora nunca tirou certidão nenhuma para precisar de segunda via.

A cabeça de Ophelia explodiu, como se um trovão tivesse caído ali dentro. Logo em seguida, sentiu um peso dolorido na parte de baixo do ventre. Quando acordou, já estava no hospital. O filho dela tinha ido embora.

— Sra. Ophelia? — A voz do médico cortou o turbilhão de pensamentos dela. — A senhora pode me dizer o número do celular do seu marido? Talvez ele se lembre de algum medicamento que a senhora possa ter tomado.

Ao ouvir aquilo, Ophelia pareceu se lembrar de algo. Ela enfiou a mão no bolso do vestido e puxou um frasco de medicamento.

— A única coisa que eu tomo todo dia é isso aqui.

O médico lançou um olhar rápido para o frasco.

— Isso é só ácido fólico comum.

— Eu sei. — Ela se esforçou para que a própria voz saísse firme, mas o frasco tremia em sua mão. A tampa, que não estava totalmente rosqueada, se soltou, e alguns comprimidos caíram.

— Desde que eu engravidei, o único medicamento que eu tomei foi ácido fólico.

O médico suspirou, impotente.

— Sra. Ophelia, eu entendo que a senhora…

De repente, o médico franziu a testa ao ver os comprimidos na palma da mão que ela lhe estendera, quase encostando em seu rosto, ansiosa para que ele os examinasse.

Aqueles comprimidos…

Ele pegou alguns, examinou com atenção e ficou lívido.

— Sra. Ophelia, como é que a senhora está com um medicamento desses no bolso?

O coração de Ophelia deu um salto.

O médico falou com uma seriedade cortante:

— Onde a senhora conseguiu isso?

O peito de Ophelia estremeceu. A voz saiu rouca.

— Isso aqui… não é ácido fólico?

— Esse medicamento tem quase o mesmo tamanho e a mesma cor do ácido fólico, mas, na verdade, é um hormônio de alta potência. Existe uma norma clara que proíbe a venda desse tipo de medicamento em hospitais.

O rosto de Ophelia ficou completamente sem cor. Ela sentiu um arrepio gelado subir da sola dos pés até a nuca.

Jasper, não importava a hora que chegasse em casa, no dia seguinte fazia questão de servir água e ficar olhando enquanto ela tomava o "ácido fólico".

As empregadas da casa viviam repetindo:

— O Sr. Ashford faz questão de ir pessoalmente ao hospital buscar o seu medicamento. Ele fala que não confia deixar isso com o motorista. Por mais atarefado e cansado que esteja, ele coloca a senhora em primeiro lugar.

A imagem de Jasper, sempre tão gentil e dedicado, tomou conta da mente de Ophelia. Na noite anterior, eles ainda estavam abraçados, escolhendo juntos o berço do bebê…

Era como se uma corda fosse apertando o coração dela, volta após volta. Ophelia precisou morder os lábios com tanta força para não soltar um grito de dor que quase sentiu o gosto de sangue. Tudo o que ela conseguia fazer era suportar a dor atravessando o corpo inteiro, lenta e cruelmente, como se estivesse sendo dilacerada em vida.

Cinco anos de relacionamento, mil e oitocentos dias e noites lado a lado, e, tal qual aquela certidão de casamento falsa, tudo, absolutamente tudo, era mentira. Ela não passava de uma fachada, um instrumento de conveniência, alguém cujo destino já tinha sido decidido desde o começo. Até o filho, aos olhos dele, não passava de um peso morto.

Pensando bem, talvez esse desfecho até fosse o melhor. Se ela tinha sido cega e tola, problema dela; pelo menos o bebê não cresceria como um filho ilegítimo escondido nas sombras.

A dor, que parecia afiar cada batida do coração, se espalhou pelo corpo inteiro. Ophelia nem percebeu que, mais uma vez, o sangue tinha começado a jorrar entre as pernas. Quem notou foi o médico, ao ver o lençol branco sendo tingido de vermelho. Ele gritou, em alerta:

— Preparem a sala! A paciente está com sinais de hemorragia grave, rápido!

A luz vermelha da porta da cirurgia se acendeu. Ophelia mergulhou em um sonho longo demais.

Ela era filha única e, no começo, tinha sido tão mimada pelos próprios pais quanto Lila tinha sido pelos dela, criada cercada de carinho e mimos. Aos doze anos, porém, ela adoeceu seriamente. Quando recebeu alta, algo na atitude dos pais em relação a ela tinha mudado radicalmente. Primeiro, eles a colocaram em um internato; depois, foram sumindo até mesmo as ligações e mensagens perguntando se ela estava bem.

Quando ela voltava da escola nas férias, os pais saíam de casa muito cedo e chegavam tarde, sempre usando o trabalho como desculpa, evitando cruzar com ela de propósito. A situação mais constrangedora era a reunião de pais e mestres: enquanto os colegas abriam os cadernos para mostrar as notas, orgulhosos, aos pais, o lugar dos pais de Ophelia ficava vazio. Isso durou seis anos inteiros.

Ela já tinha chorado, feito escândalo e até chegado a machucar o próprio corpo de propósito, achando que assim ia obrigar os dois a olhar para ela. Em troca, ouviu apenas a voz fria da mãe:

— Se você continuar atrapalhando o meu trabalho desse jeito, eu vou mandar você para um colégio interno em regime totalmente fechado. Lá nem existem férias.

Nos momentos em que Ophelia mais se sentia perdida, mais precisava de alguém do lado, ela se viu obrigada a aprender a resolver tudo sozinha. Depois, já adulta, ela tentou acreditar em outra versão: talvez os pais só não quisessem que ela ficasse dependente de ninguém. Por isso tinham endurecido o coração, para que ela aprendesse a enfrentar o mundo por conta própria.

Mas a verdade só veio à tona quando os dois adoeceram e morreram. Toda a herança foi doada a um abrigo infantil. O advogado então contou o que ela nunca tinha imaginado: não existia laço de sangue nenhum entre ela e aquele casal. Por causa desse fato, o casamento dos dois quase tinha acabado. Só não se separaram porque os interesses financeiros estavam completamente misturados.

Pior do que descobrir que os pais não a amavam e não a queriam… foi perceber que, dali em diante, ela não tinha mais nem sequer uma casa para chamar de lar.

Naquela época, Ophelia estava no primeiro semestre da faculdade. Mal teve tempo de viver o luto: precisava, acima de tudo, arrumar uma forma de se sustentar.

A partir dali, ela começou a trabalhar onde surgisse uma vaga, juntando dinheiro para pagar a própria mensalidade.

No segundo ano, a faculdade organizou uma competição de inovação tecnológica. O prêmio do primeiro lugar cobria os custos de todo o restante do curso.

Ophelia passou várias noites em claro terminando o protótipo. Só que, por causa dos custos, o resultado final ficou aquém do esperado. Ela acabou levando o segundo lugar. Ganhou reconhecimento, mas não levou o dinheiro. Em compensação, foi ali que ela conheceu Jasper.

Ele surgiu na frente dela como um deus caído do céu, alto, elegante, com um olhar tão suave quanto firme.

— Eu sou um dos patrocinadores dessa competição. — Ele se apresentou. — Eu gostei muito da sua ideia e do seu projeto. Acredito que isso tem mercado no futuro. Eu posso bancar os custos, desde que você continue pesquisando.

Jasper deu a ela coragem para continuar estudando… e deu também um tipo de tratamento especial que qualquer pessoa invejaria.

Em aparência, em caráter, em competência, Jasper era impecável. E, mais do que tudo, Ophelia precisava desesperadamente ser amada.

Finalmente apareceu alguém para dividir uma refeição com ela, para se preocupar com o dedo cortado enquanto ela mexia nos modelos, para implicar com as noites em claro que ela passava trabalhando. Ophelia nunca tinha achado aquilo um sacrifício, mas se importava, e muito, com a presença de alguém ao lado.

— Ophie, vem trabalhar na minha empresa. — Ele sussurrava, abraçando‑a por trás, a voz aveludada. — Assim a gente se vê todo dia.

— Ophie, você é incrível. Quatro anos seguidos, quatro pedidos de patente aprovados. O pessoal de Recursos Humanos das concorrentes já começou a perguntar de você. — Ele dizia, encurralando‑a no sofá do escritório da presidência. — Eu juro que eu tenho vontade de esconder você do mundo, não deixar ninguém disputar você comigo.

— Vamos casar. Eu quero que você nunca mais vá embora.

Foi Jasper quem primeiro disse que gostava dela, quem primeiro falou em amor, quem primeiro propôs casamento, quem primeiro insistiu em ter um filho com ela.

E foi o mesmo Jasper quem rasgou, com as próprias mãos, cada uma das mentiras que tinha tecido em volta de Ophelia.

…

Bip… bip… bip.

O som agudo da máquina de monitoramento cortou o ar da sala de cirurgia. Meio consciente, meio perdida, Ophelia ouviu a voz aflita do assistente falando com o médico:

— O tipo sanguíneo dela é raro demais. Somando as reservas de todos os bancos de sangue dos hospitais da cidade, não chegamos a duzentos mililitros. E nem o termo de consentimento de risco cirúrgico tem a assinatura de um familiar. Se ela morrer na mesa, o que a gente faz?

Era verdade. Se ela morresse ali, não ia ter uma única lágrima esperando do lado de fora.

O médico limpou o suor da testa com o dorso da mão.

— O banco de sangue da família Harris mantém uma reserva.

O assistente achou que tinha escutado errado.

— Da família Harris, da cidade Monteluz? Doutor, nem o diretor do hospital tem acesso a isso.

O médico continuou olhando fixamente para Ophelia Moore na mesa. De repente, uma suposição ousada atravessou a cabeça dele.

Seis meses antes, a herdeira da família Harris tinha dado entrada no hospital às pressas e precisou de transfusão. Foi nessa hora que descobriram que ela não era filha biológica do casal. Mais de vinte anos atrás, a Sra. Harris tinha dado à luz uma menina prematura num hospital da cidade Altamira. Naquela mesma noite, na mesma ala, outra mulher, a Sra. Moore, também tinha entrado em trabalho de parto.

O horário, o lugar, o sobrenome… tudo batia.

A paciente deitada naquela mesa tinha grandes chances de ser a verdadeira filha da família Harris, trocada ao nascer e criada por outra família por mais de vinte anos.

O médico respirou fundo, como se precisasse firmar a própria decisão.

— No meu escritório eu tenho o contato do secretário pessoal da família Harris. Liga agora. Diz que nós temos uma pista concreta sobre a filha biológica do Sr. Harris. E pede, por favor, que eles liberem o sangue do banco de reserva!

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