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Capítulo 2

Penulis: Tiely
Meia hora depois.

Em Monteluz ficava a sede do Grupo Noronha, pertencente à família Harris.

O presidente do conselho, Cassian Harris, olhava para o relatório de DNA à sua frente. O olhar dele, sempre tão profundo e contido, tremeu algumas vezes, e ele tentou se levantar apoiando‑se na bengala, mas não conseguiu.

O secretário Carlos também estava visivelmente emocionado.

— Sr. Harris, não há dúvida, é a sua filha. As bolsas de sangue já foram enviadas para o Hospital Central de Altamira. Ela vai sair da zona de risco em pouco tempo.

O canto dos olhos de Cassian se contraiu.

— Por que a minha filha teve uma hemorragia grave?

Cassian sempre tinha amado muito a esposa. Por causa de um problema de saúde, o casal só pôde ter um único filho. Quando a esposa descobriu que a filha criada por mais de vinte anos não era filha biológica, ela não conseguiu lidar com o abalo. A doença antiga piorou de repente e, antes de morrer, ela segurou a mão dele e pediu, quase implorando, que ele encontrasse a filha verdadeira dos dois.

A família Harris tinha poder e influência suficientes para influenciar a economia inteira do país de Ravênia, e mesmo assim a filha biológica deles tinha passado mais de vinte anos perdida por aí, à própria sorte. Cassian mal conseguia imaginar como ela tinha vivido esse tempo todo. Só de ouvir a palavra "hemorragia", o coração dele apertava.

Se tivessem demorado um pouco mais, será que ele só teria visto o corpo da própria filha? E, se não fosse por essa sucessão de coincidências, talvez ele jamais tivesse descoberto a verdade, e morresse sem reencontrar a filha biológica.

— A causa exata ainda não está clara. — Carlos respondeu.

Aquela pressão silenciosa deixava Carlos tenso. Ele nem teve coragem de repetir o que o hospital tinha relatado: que não havia nenhum familiar acompanhando Ophelia.

— Vá pessoalmente para Altamira com a equipe médica e com todos os medicamentos necessários. — Cassian ordenou, a voz rouca, porém firme. — Eu quero que você traga a minha filha de volta sem um arranhão. E ligue imediatamente para o Lucian. Diga a ele para largar tudo o que estiver fazendo e voltar para o país.

— Vocês não disseram que todos os índices dela já tinham voltado ao normal? Como é que passou um dia e uma noite inteira e ela ainda não acordou?

Ophelia, entre o sono e a consciência, enxergou uma figura alta e esguia parada ao lado da cama. A voz baixa, fria e grave deixava transparecer uma preocupação evidente; a preocupação ali não parecia fingimento.

Será que Jasper tinha vindo?

Ela fez força para abrir os olhos. As lembranças de antes da cirurgia voltaram todas de uma vez, e o coração dela pareceu se rasgar, ardendo de dor.

Quando finalmente enxergou o rosto totalmente desconhecido de quem estava ao seu lado, Ophelia riu de si mesma por dentro. Como poderia ser Jasper? Ele devia era estar torcendo para nunca mais ver a cara dela.

O médico fez um exame rápido nela. Carlos acompanhou o médico até a porta, despediu‑se e só entrou novamente depois de ajeitar a gravata.

— Srta. Ophelia, boa tarde. Eu sou Carlos, secretário do presidente do Grupo Noronha, o Sr. Harris.

Ophelia conhecia o Grupo Noronha. No último ano da faculdade, ela tinha quase conseguido uma indicação para estagiar em uma das subsidiárias do grupo. Tinha desistido por causa de Jasper.

— Muito prazer, Sr. Carlos. — Ela respondeu com educação, inclinando levemente a cabeça, sem esconder a estranheza ao encará‑lo.

Carlos entregou a Ophelia um relatório de DNA.

— Pelas apurações iniciais, tudo indica que houve um erro de procedimento da equipe médica naquela época, e os bebês de duas famílias foram trocados. Foi isso que acabou separando a senhora e o Sr. Harris por tantos anos.

A postura de Carlos era extremamente respeitosa.

— Mas, graças a Deus, nós finalmente encontramos a senhora.

Ophelia encarou, atônita, o relatório de DNA em suas mãos. Se o resultado não estivesse ali, estampado em preto no branco, ela teria certeza de que aquele homem estava tentando atraí‑la para algum tipo de cirurgia de transplante de órgãos.

Ela era, na verdade, filha de Cassian Harris, o rei dos negócios em Ravênia, alguém que, mesmo dentro do círculo mais restrito da alta sociedade, ocupava o topo da hierarquia.

Carlos não viu no rosto dela a reação que tinha imaginado e continuou:

— A Sra. Harris faleceu há três meses. A doença antiga dela voltou com força e tudo aconteceu de forma muito repentina. O Sr. Harris ficou devastado. Ele ainda está em recuperação. Ele quer muito, mas muito mesmo, conhecer a senhora.

Ophelia voltou a si aos poucos. Nos últimos dias, ela tinha enxergado o verdadeiro rosto do marido traidor e perdido o filho.

Quando ela achou que tinha chegado ao fundo do poço, sobreviveu por um triz e foi reconhecida pelos pais biológicos. O destino parecia estar brincando com ela.

— Como a família Harris descobriu que tinha havido uma troca de bebês? — Ela perguntou, cansada.

— Há cerca de seis meses. — Explicou Carlos — A filha do Sr. Harris precisou de uma transfusão durante um procedimento de emergência. Foi então que eles descobriram que ela não tinha nenhum laço de sangue com o Sr. Harris.

A família Harris tinha criado a filha "errada" bem demais. Só depois de tanto tempo assim é que foram perceber.

— Entendi. — Respondeu Ophelia, com os cílios tremendo ligeiramente. Ela não fez mais perguntas.

Carlos ajustou os óculos de armação dourada.

— O seu corpo precisa de cuidados. Em Monteluz, as condições são melhores. A família Harris tem médicos e nutricionistas próprios. Quando o seu quadro estiver estável e os ferimentos tiverem cicatrizado, nós vamos levá‑la de volta para Monteluz, tudo bem?

Ophelia abriu a boca para responder, mas, nesse instante, a tela do celular acendeu. A chamada era de Jasper.

Ela apertou o botão e desligou na cara dele. Depois falou, em tom calmo:

— Eu posso ir com você para Monteluz, mas eu ainda preciso de um tempo para resolver algumas coisas.

Carlos não esperava que ela aceitasse tão rápido. Na mesma hora, ele entregou um cartão de visitas.

— Srta. Ophelia, a senhora é a joia mais preciosa do Sr. Harris, a filha do dono do Grupo Noronha. Se a senhora precisar de qualquer coisa, é só me dizer.

Ophelia guardou o cartão, e Carlos saiu para informar ao presidente do conselho como as coisas tinham ficado.

Ela pegou o celular de novo. Jasper tinha acabado de mandar mensagem dizendo que, à noite, ele ia acompanhar um cliente e que ela não precisava esperá‑lo em casa. Tinha escrito também que, nesses dias, ele estava muito ocupado, mas que, assim que o contrato de investimento fosse assinado, ele ia compensar e passar mais tempo com ela e com o bebê.

A palavra "bebê" fez arder os olhos de Ophelia. Ela apertou o celular com força. A essa altura, como ela poderia deixar o projeto da empresa de Jasper sair do papel?

A família Ashford teria de devolver em dobro tudo o que devia a ela.

Os medicamentos que Carlos trouxera fizeram efeito rápido, e, no dia seguinte, Ophelia já se movimentava quase sem dificuldade.

Ela pediu que Carlos providenciasse um carro. Ela pretendia voltar para casa.

Assim que entrou no carro, o celular tocou. Era Jasper.

— O que foi?

A voz límpida de Ophelia soou do outro lado da linha. Jasper ficou surpreso; ele não achava que ela fosse atender.

Já fazia alguns dias que ela não atendia ligações, não respondia às mensagens. Antes, quando ela sabia que ele estava na rua com clientes, ela ligava três, quatro vezes para pedir que ele pegasse leve na bebida, perguntava o endereço do restaurante e ia encontrar com ele levando medicamento para ressaca. Várias vezes ela tinha esperado a noite inteira do lado de fora.

Dessa vez, ele só tinha percebido que Ophelia estava há dias sem dar notícias quando terminou uma sequência interminável de compromissos e olhou o celular. O peito dele pesou como se tivesse um bloco de pedra ali dentro.

Ele ligou para Ophelia mais de dez vezes seguidas. Já estava irritado, mas, assim que ouviu a voz dela, o humor dele se acalmou um pouco. Mesmo com o tom frio, ele achou que era normal. O médico tinha dito que a gravidez podia causar muitas oscilações de humor. Com certeza era porque ele não tinha voltado para casa esses dias que ela estava chateada.

Jasper nunca gostou de mulher grudada nele a qualquer hora e em qualquer lugar. Nesse ponto, Ophelia era perfeita: ela se calava, engolia tudo, nunca fazia cena. Mesmo agora, depois de tantos dias sem atender, no fim das contas não tinha resistido à saudade.

Pensando assim, ele falou, como se fosse a coisa mais natural do mundo:

— Daqui a uns dias a Lila vai inaugurar uma exposição e ainda falta uma tela de destaque. A minha mãe disse que o plátano do nosso jardim está lindo e sugeriu que a Lila venha ficar aqui em casa. Pede para a Ana arrumar o quarto para ela.

Ele falou com tanta naturalidade que Ophelia demorou alguns segundos para responder.

— Ophie? — Jasper chamou, com a voz suave. Ele estava acostumado com Ophelia falando muito; aquele silêncio o incomodou.

Ophelia soltou uma risada fria.

— Está bem. Então pede para a Ana dormir no quarto de hóspedes esses dias.

Jasper não entendeu de primeira.

— Como é?

Aquela casa no condomínio Alto da Serra não era grande. Além da suíte principal e do escritório, só havia um quarto de hóspedes bem pequeno, que nem era tão claro quanto o quarto de serviço da empregada no térreo.

— A janela do quarto da Ana dá de frente para o plátano. É o melhor ponto para compor os quadros. — Explicou Ophelia, com uma voz aparentemente ingênua, sem nenhuma malícia.

Jasper franziu a testa. Como ele podia colocar a Lila no quarto da empregada Ana?

Antes que ele dissesse qualquer coisa, Ophelia continuou:

— Vocês cresceram juntos, e a sua mãe sempre tratou a Lila como filha. Você mesmo me falou que vocês são mais próximos do que irmãos de sangue. Eu acredito que, pelo bem da arte, a Lila não vai se importar em ficar no quarto da empregada, né?

Ela ainda completou, atenciosa:

— O tempo é curto, mas eu vou pedir para a Ana trocar todo o enxoval por lençóis e cobertores novinhos.

Aquilo não tinha nada a ver com lençol. Jasper sabia que Ophelia não era uma mulher descuidada. Mesmo irritada, ela não faria uma "brincadeira" dessas à toa.

Ele respirou fundo e tentou manter a calma.

— Os pais da Lila moram fora. Ela voltou para o país sozinha, não tem mais ninguém aqui além da gente. Mesmo que esse quarto seja o melhor para ela pintar, eu não posso deixar a Lila dormir no quarto da empregada.

— O quarto de hóspedes não tem janela. Esses dias estão bem frios e úmidos. E se a Lila ficar doente? — Ophelia falou sem se apressar. — Então faz assim: na Mansão dos Ashford, os pés de bordo do jardim também dão um ótimo clima de outono. E lá todos os quartos de hóspedes são amplos. A Lila pode escolher qualquer um.

— Não. — Jasper rejeitou na mesma hora, sem nem pensar, com tanta firmeza que Ophelia até se surpreendeu.

Por dentro, ela o xingou. Eles tinham ido registrar o casamento ontem e hoje já iam morar juntos. Provavelmente ele já tinha até pensado em qual desculpa usar para mandá‑la embora.

E, de fato, Jasper respondeu:

— A suíte principal e o quarto da empregada ficam voltados para o mesmo lado. As janelas são maiores e entra mais sol.

Ophelia engoliu o enjoo.

— Eu e a Lila não temos intimidade. Vai ser constrangedor dividir o mesmo quarto. A não ser que você queira…

Ela alongou de propósito o final da frase. O coração de Jasper disparou. Culpado, ele ergueu o tom de voz:

— Como é que eu vou morar com a Lila?

Por mais que ele quisesse, em público, Ophelia ainda era a esposa dele.

Do outro lado da linha, ele achou que tinha ouvido um risinho.

— Eu estou falando para você conversar com a Lila. O que é que está passando aí na sua cabeça?

A ironia tranquila de Ophelia fez Jasper se arrepiar.

Nesse momento, a mãe dele, Fernanda, apareceu chamando para o jantar. Jasper cobriu o microfone com a mão, se afastou alguns passos e falou para Ophelia:

— Depois a gente resolve isso. Eu tenho que desligar agora.

Mesmo assim, Ophelia ainda ouviu, do outro lado da linha, a voz de Fernanda:

— O seu pai está viajando. Eu só chamei você e a Lila para jantarem comigo. Você não ouse chamar a Ophelia. Quando eu vejo aquela menina, eu perco a fome.

— Mãe, eu só pedi para a Ophelia arrumar um quarto para a Lila. Mas parece que ela não está muito disposta a ceder a suíte principal.

Quando ele tinha prometido à Lila que ela poderia ficar lá em casa, Jasper, no fundo, tinha certeza de que Ophelia ia concordar.

Fernanda se irritou na mesma hora:

— Desde quando precisa da aprovação dela? Você já mimou demais essa mulher.

A ligação caiu de repente. Jasper encarou a tela do celular, irritado. Mais do que se preocupar com o que a mãe tinha dito, a primeira coisa que lhe veio à mente foi: Ophelia nunca desligava na cara dele.

Ophelia estava estranha naquele dia.

Mesmo assim, quando ele lembrou que tinha passado vários dias grudado com a Lila no hotel, enquanto Ophelia tinha medo de escuro e dormia mal sozinha, finalmente sentiu um pouco de culpa. Ele decidiu passar em uma confeitaria mais tarde, comprar as sobremesas de que Ophelia mais gostava e dar um pulo em casa.

"Ia ficar tudo bem. Ophelia sempre cedia no fim. Ela era fácil de acalmar", ele pensou.

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