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Capítulo 3

ผู้เขียน: Tiely
O carro parou em frente ao condomínio Alto da Serra. Assim que entrou em casa, Ophelia percebeu que a sala estava entulhada de caixas de papelão de todos os tamanhos. Ana estava colocando dentro de uma delas uma caixa de madeira com detalhes em relevo.

Ophelia reconheceu na hora: era a caixa de madeira artesanal que ela tinha encomendado três meses antes, onde ela guardava todos os documentos dela desde criança.

— O que você está fazendo? — Ophelia arrancou a caixa da mão dela e perguntou, com a voz fria. — No seu primeiro dia aqui em casa eu já falei que você não podia mexer nas caixas que eu guardo dentro do meu guarda‑roupa.

Ana fez um bico.

— Os empregados da mansão dos Ashford mandaram muita coisa da Lila para cá. Dona Fernanda pediu para eu esvaziar o quarto. A única saída foi colocar primeiro as suas coisas nas caixas.

Desde o dia em que Jasper a tinha trazido para aquela casa, Fernanda nunca tinha ido com a cara dela. Não importava o quanto Ophelia tentasse agradar ou engolir sapo. Todo outono e inverno, Fernanda passava quatro meses em um spa de repouso, e Ophelia praticamente se desdobrava, indo e voltando todo dia para cuidar dela. Mesmo assim, não ganhava um gesto de carinho.

Fernanda vivia dizendo que Ophelia não tinha berço, que a comida que ela fazia era simples demais para a família, e por isso colocou Ana na casa.

No papel, Ana era babá. Na prática, era um par de olhos a serviço de Fernanda. Como Ophelia tinha certeza da própria lealdade a Jasper, nunca tinha se incomodado com o fato de ser vigiada.

Antes, quando Ana a criticava diante de Jasper, Ophelia sempre engolia o orgulho. Mas naquele dia, o olhar que ela lançou para Ana estava afiado e gelado.

Sem saber por quê, Ana sentiu um arrepio.

— Se a senhora não acreditar, pergunta para a Dona Fernanda. — Ela disse.

Ophelia endireitou os ombros.

— Esta casa é minha. Hoje você mexe nas minhas coisas porque outra pessoa mandou. Amanhã, se sumir alguma coisa de valor, é você quem vai assumir?

Ana era registrada por uma empresa de serviços domésticos. Quando ouviu aquilo, ficou ainda mais irritada.

— Como assim "outra pessoa"? — Ela retrucou. — Dona Fernanda é a sua sogra.

Certa de que Ophelia não teria coragem de bater de frente com a sogra, Ana continuou reclamando:

— Se a senhora estiver com raiva, discute com a Dona Fernanda. Ela vive chamando a atenção da senhora e eu nunca vi a senhora fazer essa cara para ela.

A sobrancelha de Ophelia tremeu. Ela segurou o ímpeto de explodir.

— Quem assinou o seu contrato de trabalho fui eu. Quem paga o seu salário sou eu. E mesmo assim, da sua boca só sai "Dona Fernanda". Quem ouvir vai achar que é ela a sua patroa, não eu.

Ana nunca tinha visto aquele rosto tão fechado. E, como Ophelia tinha acertado em cheio o ponto fraco dela, as pernas dela começaram a bambear.

— Dona Ophelia, na verdade eu… — Ela tentou se explicar.

Ophelia pegou o celular e resolveu sem rodeios:

— O salário deste mês já está na sua conta. Você vai arrumar as suas coisas agora e sair da minha casa. Quanto a ter mexido nas minhas coisas sem permissão e colocado objetos de terceiros aqui dentro, se der problema, eu vou seguir o que está no contrato e responsabilizar você.

O coração de Ana disparou. Ela deu um passo à frente e tentou segurar o braço de Ophelia, querendo se mostrar íntima.

— Dona Ophelia, isso é… tudo um mal‑entendido. A Dona Fernanda sempre foi muito rígida, a senhora sabe. Eu sou só uma empregada, como é que eu ia ter coragem de dizer não para ela?

Ophelia se desviou, tirando o braço do alcance dela. Os olhos que normalmente eram escuros e suaves naquele dia estavam frios e cortantes.

— Você quer que eu chame o segurança para ajudar você a fazer a mala?

O rosto de Ana murchou.

— Eu fui irresponsável, eu errei. A senhora me perdoa só dessa vez. Eu prometo que, daqui para frente, eu vou ficar sempre do seu lado. Só não fala nada para a empresa, por favor. Se eles me dispensarem, eu nunca mais vou conseguir trabalho.

Ophelia não se mexeu.

— Se eu descobrir depois que alguma coisa minha foi danificada, a indenização vai seguir o procedimento normal, conforme o contrato, linha por linha.

Ana sentiu a visão escurecer. Lá no interior, o filho e o neto dependiam do dinheiro que ela mandava todo mês. Se ela perdesse o emprego, o que seria deles?

Ela só tinha obedecido às ordens de Fernanda, e agora Ophelia, que não tinha coragem de se voltar contra a própria sogra, vinha descontar tudo nela. Uma garota sem pai nem mãe, que tinha se agarrado ao herdeiro da família Ashford graças à cara bonita e a muita bajulação, queria mesmo se achar mais nobre do que ela? Agora ainda queria posar de grande senhora da casa?

Quando viu Ophelia subir as escadas, Ana puxou o celular do bolso e mandou uma mensagem para Fernanda.

Ophelia abriu a porta da suíte. A maior parte das coisas dela já tinha sido retirada. Em vez de desespero, ela sentiu um certo alívio. Ela tinha temido ficar sufocada ao ver o quarto cheio de rastros da vida de casada com Jasper. Mas, afinal, ela já tinha decidido abrir mão de Jasper; a casa e os objetos também tinham perdido qualquer importância.

Ela separou uma pilha de dados brutos do projeto. Ainda havia patentes e uma parte essencial das informações no computador de Jasper, na empresa, protegidas por senha e criptografia. O mais irônico era que, sendo ela a inventora e titular das patentes, ela não tinha sequer o direito de ligar o computador de Jasper.

Aquela dor aguda atravessou o peito de novo. Doía pensar na mulher que ela tinha sido: alguém que tinha colocado o coração inteiro nas mãos dele, sem deixar nenhuma rota de fuga para si mesma.

A campainha interrompeu os pensamentos de Ophelia. Fernanda tinha chegado, trazendo Lila.

Assim que viu Fernanda, Ana correu até ela com o rosto cheio de mágoa.

— Dona Fernanda, eu só arrumei o quarto para a Lila como a senhora mandou. Eu não mexi nas coisas da Ophelia de propósito. A senhora fala com ela por mim. A Ophelia foi cruel demais, quer acabar com o meu emprego de vez.

Ana ficou esperando Fernanda explodir, pronta para ver Ophelia ser esculachada. E agora que Lila estava de volta, ela tinha certeza: quem ia acabar sendo posta para fora daquela casa talvez não fosse exatamente ela.

Fernanda tinha recebido no meio do caminho a mensagem de Ana dizendo que Ophelia queria demiti‑la. Assim que entrou e viu a sala naquele caos, cheia de caixas, sem um único canto decente onde ela e Lila pudessem ficar em pé, os olhos dela pareciam ter pegado fogo na mesma hora.

Nesse momento, Ophelia desceu a escada com calma.

— Ana, eu achei que você só tivesse sido imprudente, mas agora eu vejo que a sua intenção é bem pior do que eu imaginava. Dona Fernanda mandou a Lila se mudar para cá e não falou nada comigo, mas falou com você. Você faz besteira e ainda tenta jogar a culpa na Dona Fernanda, como se ela não tivesse a menor educação.

Ana engoliu em seco.

Fernanda gostava de se fazer de senhora distinta, cheia de boas maneiras. Em público, vivia falando de regras e etiqueta. Engolindo a raiva, ela franziu a testa.

— O Jasper não falou disso com você na hora do almoço?

Ophelia arqueou as sobrancelhas.

— Ele comentou por alto. Mas os outros dois quartos da casa não são adequados. Ele disse que ia conversar com a Lila e me dar uma resposta, e até agora não falou mais nada.

Os outros dois quartos não eram justamente o quarto de hóspedes e o quarto da empregada? O olhar de Fernanda escureceu ainda mais de raiva.

— A Ana mexeu nas minhas coisas por conta própria e ainda disse que foi você que mandou ela preparar a nossa suíte para a Lila. — Ophelia continuou, como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais absurda do mundo, com um tom carregado de ironia. — A empresa ainda está na fase de análise do edital do governo. Se alguém descobre que a Lila está dormindo no meu quarto, basta uma empresa concorrente espalhar que o casamento do Jasper está em crise ou que ele leva uma vida pessoal promíscua para jogar lama no nome dele.

Ophelia tomou a dianteira, escolhendo bem as palavras.

— A senhora ama tanto o Jasper. Como é que a senhora ia tomar, por conta própria, uma decisão de colocar a Lila na nossa suíte?

Fernanda ficou sem resposta. A frase travou no peito, como se Ophelia tivesse apertado exatamente no ponto mais sensível. Ela detestava Ophelia, mas se importava ainda mais com o filho e com o império da família.

— Que absurdo! — Fernanda se engasgou, e acabou xingando só para não ficar muda.

Quando ouviu as palavras "vida promíscua", o rosto de Lila também mudou.

Na primeira vez em que ela tinha visto Ophelia, aqueles olhos escuros e brilhantes, os traços delicados e lindos, a pele tão clara que parecia iluminar o ambiente, tudo nela passava uma elegância discreta, uma beleza suave e inteligente. Lila, por outro lado, que se considerava uma artista plástica da nova geração, estava dos pés à cabeça de grife, mas nem assim conseguia transmitir nada de realmente refinado.

Cada frase de Ophelia soava como uma clara demonstração de autoridade. Lila se sentiu extremamente contrariada. A dona daquela casa deveria ser ela. Quando tinha entrado no condomínio, mais cedo, ela tinha visto logo de cara um Rolls‑Royce Silver Shadow estacionado do lado de fora, um carro de luxo que valia alguns milhões de reais, tão raro que nem em Monteluz se via muitos iguais. E Jasper tinha colocado Ophelia para morar ali, no meio de milionários discretos.

Ophelia, uma simples "esposa de fachada", agora falava assim na frente da verdadeira dona do lugar, e o pior era que Lila nem podia rasgar aquele verniz de cordialidade.

Ela forçou um ar de coitadinha.

— Ophelia, a tia Fernanda e o Jasper só estão preocupados comigo, porque eu moro sozinha e não é muito seguro. Você tem razão em não concordar. A culpa é minha, não desconta na Ana.

Ophelia olhou para aquela atuação perfeita, para aquela falsa humildade, e pensou que ela e Jasper realmente formavam um belo par: dois atores profissionais.

Ela respondeu em tom calmo:

— Eu não disse que não concordo em você vir morar aqui. O problema está na escolha do quarto. E, além disso, a Ana quebrou regras do contrato de trabalho durante o expediente. Eu só estou defendendo os meus direitos.

As unhas de Lila se enterraram na palma da mão. Ela tinha tentado fazer o papel de boa samaritana e, no fim, parecia que era ela a desequilibrada.

Como Lila não respondeu, Ophelia olhou para Ana, que estava visivelmente nervosa, e levou a mão ao celular, como se fosse ligar para a segurança.

— Ou você errou no trabalho ou tentou criar intriga dentro da casa dos patrões. Você escolhe.

— Dona Fernanda, pelo amor de Deus, me ajuda! — Ana, completamente sem saída, caiu de joelhos na frente de Fernanda e começou a chorar.

Fernanda não queria nem ouvir falar em segurança subindo até lá. Se a história virasse escândalo, quem ia passar vergonha era a família Ashford.

— Cala a boca! Sai daqui agora. — Ela mandou.

Ana não ousou irritar a última pessoa de quem ainda podia depender. Enxugando as lágrimas, saiu a contragosto, e, ainda assim, não perdeu a chance de lançar um olhar de ódio para Ophelia.

"Hum… mexer com a Fernanda… ela também não vai ter um fim muito bonito." Ana pensou, furiosa.

Ophelia olhou para Lila.

— Justamente agora que a Ana foi embora, o quarto dela ficou vazio. Lila, você pode ir ver o quarto. A vista daquele lado é ótima.

O rosto de Lila ficou visivelmente desconfortável.

— Não precisa. Eu posso pintar no jardim mesmo.

Dessa vez Fernanda perdeu o controle.

— Chega! — Ela explodiu. — Ophelia, esta casa é da família Ashford. O Jasper deixou você morar aqui por um ano, dois, e você realmente acha que é a dona do lugar? A Lila para mim é como se fosse minha própria filha. Se você acha o quarto de hóspedes pequeno, então é você quem vai para o quarto da empregada!

Fernanda tremia de raiva. Na cabeça dela, Ophelia vivia às custas de Jasper, comia e se vestia às custas dele, morava sob o teto que o filho lhe havia dado e, ainda por cima, não sabia reconhecer tudo o que ele fazia por ela. Agora, ela ainda tinha a audácia de usar a reputação de Jasper para ameaçá-la e obrigá-la a tratar Lila com injustiça.

Fernanda apontou o dedo para o rosto de Ophelia, o olhar cheio de veneno.

— Se eu souber que você teve a língua grande o bastante para sair espalhando isso por aí, você vai sair daqui na mesma hora e nunca mais chega perto da família Ashford!

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