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Capítulo 4

Autor: Tiely
— Fernanda, mandando tanta coisa para cá e fazendo o maior alarde, você ainda acha que precisa de alguém para sair espalhando isso por aí? — Ophelia riu de tanta indignação. — Você chega aqui, invade tudo e quer mandar em tudo. Qual é a diferença entre isso e agir como uma bandida? Se você quer tratar a Lila como uma filha, problema seu. O que eu tenho a ver com isso? E, já que você gosta tanto de bancar a mãe dela, por que não cede a sua própria suíte? A minha casa é pequena. Vai que eu acabo tratando mal a princesa Lila.

— Você… você vai embora agora! Some da minha frente!

Ophelia lançou um olhar frio, duro como lâmina, e falou palavra por palavra:

— Dona Fernanda, neste momento, quem está dentro da casa dos outros, fazendo escândalo, é a senhora. Essa história toda de educação e regras que a senhora vive pregando só vale para os outros? Quando é com a senhora, pode fazer o que bem entende?

— Você teve a coragem de dizer que eu estou fazendo escândalo? Você enlouqueceu de vez! — Fernanda jamais tinha imaginado que Ophelia um dia teria coragem de cravar uma faca bem no peito dela.

— Tia Fernanda, calma, por favor. — Lila correu para o lado de Fernanda, fingindo acalmá-la, enquanto, por dentro, pensava que nem sequer tinha tido tempo de fazer nada ainda e Ophelia já estava armando aquele escândalo para colocar as duas para fora.

Ela forçou um sorrisinho educado.

— Ophelia, eu juro que eu só quero pintar. Eu não entendo por que você está reagindo assim por causa disso. Se você não gostou, tudo bem, mas não precisa deixar a tia Fernanda tão nervosa. O Jasper vai ficar numa situação muito complicada entre vocês duas.

O estômago de Ophelia revirou só de olhar para ela. O rosto dela se fechou de impaciência. Ela ergueu a mão e apontou para Fernanda:

— Você. Cai fora.

Em seguida, ela virou o dedo para Lila, que continuava se fazendo de boazinha:

— E você, também. Cai fora! Aqui é a minha casa. Você quer morar onde, quer pintar o que for, é problema seu, eu não tenho nada com isso. Só não aparece aqui para estragar o meu dia.

O sorriso falso escorregou do rosto de Lila.

— Ophelia, a Fernanda é mãe do Jasper, é sua sogra. Ela só falou umas coisas de cabeça quente. No fim das contas, esta casa é da família Ashford. Você não tem moral para mandar ninguém embora daqui.

— A Lila tem razão! — Fernanda emendou na hora. — Você come graças à família Ashford, se veste com o dinheiro da família Ashford, e ainda tem a cara de pau de fazer esse tipo de cena aqui dentro. Desde o começo você só colocou os olhos no poder e no dinheiro da família Ashford, fez o Jasper cair no seu conto, e agora está se achando muito importante. Não demorou muitos dias para você largar a máscara, né? Já mostrou a verdadeira cara. Se você acha que vai ficar com a casa da família Ashford, pode continuar sonhando!

Lila aproveitou para cutucar também:

— Ophelia, se você pedir desculpa agora ainda dá tempo. Coisa de família não se espalha por aí. Se acabar sendo expulsa, quem vai passar vergonha é você.

— Quem tem que sair são vocês duas. — A voz de Ophelia desceu de tom, fria, com os olhos duros como gelo. — Eu já disse que aqui é a minha casa. Este apartamento está no meu nome, e foi comprado exclusivamente no meu nome. Não tem relação nenhuma com a família Ashford nem com o Jasper. Eu já estou sendo muito gentil em só colocar vocês para fora. Eu poderia muito bem ligar para a polícia. Aí eu quero ver se vocês aguentam responder por invasão de domicílio.

Ela tinha se apaixonado por aquela casa na hora em que a viu. Na época, não importava o que Jasper dissesse, Ophelia insistiu em comprar com o próprio dinheiro. Ela queria deixar claro para ele que não dependia dele para viver. E queria que Fernanda, um dia, fosse obrigada a olhar para ela de outro jeito.

Sem falar que até a certidão de casamento deles era falsa. Não existia nem sequer o conceito de "bens comuns do casal".

Ao pensar nisso, Ophelia deixou escapar um sorriso de puro deboche.

Lila notou o canto da boca de Ophelia se curvando daquele jeito e o rosto dela enrijeceu. Ela pensou que Jasper não precisava ter ido tão longe na encenação: colocar o apartamento no nome de Ophelia? Por quê?

Ela rangia os dentes quando falou:

— Ophelia, eu até entendo que você queira se sentir dona deste lugar, mas a vaidade também precisa ter limite. Aqui é bairro de gente muito rica. Você dizer que este imóvel é só seu… você acha mesmo que alguém vai acreditar? Mesmo que você tenha convencido o Jasper a registrar o apartamento no seu nome, no fim das contas continua sendo patrimônio da família Ashford.

Na cabeça de Lila, tinha acabado de desmascarar o truque de Ophelia. Ela queria ver até onde Ophelia ia sustentar aquela pose.

Mas Ophelia não demonstrou o mínimo constrangimento.

— Nem todo mundo é como você. — Ela retrucou. — Você voltou para o país carregando o sobrenome Bennett e, mesmo assim, ainda precisa disputar uma casa com os outros para ter onde morar.

Lila engasgou.

— O que você disse?

Ophelia repetiu, sílaba por sílaba:

— Eu disse que eu não tenho o hábito de cobiçar a cama de casal dos outros. Eu também não tenho a cara de pau da Fernanda de vir aqui tomar o quarto à força e ainda dizer que ama você como filha. Se ela ama tanto assim, por que é que ela não acha um apartamento para você em Altamira inteira e precisa justamente cismar com esta casa aqui?

— Ophelia! — O peito de Fernanda subia e descia, descontrolado, como se ela fosse desmaiar de ódio. — Eu quero ver você repetir isso! Nós é que tivemos consideração demais com você!

Ophelia arregaçou as mangas e começou a empurrar as duas sem dó:

— Errado. Fui eu que tive consideração demais com vocês todos esses anos. Fui eu que deixei vocês se aproveitarem de mim e passarem por cima de mim uma vez atrás da outra. Mas acabou. Fora daqui!

Ela nem sabia de onde tirou tanta força. Em um único impulso, empurrou as duas da sala até a porta e as jogou para fora. Em seguida, bateu a porta com um estrondo.

Fernanda e Lila foram pegas completamente de surpresa. As duas quase caíram, tiveram que se apoiar uma na outra para não ir ao chão. Depois disso, quase desmaiaram de tanta raiva.

Os olhos de Lila se encheram de lágrimas.

— Tia Fernanda, o Jasper realmente mima muito a Ophelia, né? Senão ela nunca teria coragem de falar assim com você. Se não fosse por causa do meu ateliê, você não precisava passar essa humilhação. No fim das contas, é por minha causa, uma intrusa, que a senhora está brigando com ela.

Fernanda ainda estava com a mão no peito, tentando recuperar o fôlego, quando rosnou:

— Você tem razão. O Jasper mimou tanto aquela mulher que ela ficou desse jeito! Eu vou ligar para ele agora, mandar ele tomar essa casa de volta. Aí você se muda para cá e pinta o quanto quiser!

Assim que a chamada completou, Fernanda disparou, em tom cortante:

— Aquela Ophelia, que você vive dizendo que é educada, sensata e sabe se colocar, acabou de me colocar para fora de casa junto com a Lila! E ainda teve a cara de pau de dizer que este apartamento não tem nada a ver com a família Ashford! Eu sempre disse que esse tipo de mulher só se aproxima de homens como você para arrancar dinheiro, mas você nunca acreditou. Ela jogou o nome da nossa família Ashford na lama. Você trata de se divorciar dela o quanto antes!

Do lado de dentro da porta, Ophelia estava encostada, ofegante. Ela tinha achado que finalmente ia ter um pouco de paz, mas Fernanda mal tinha saído do hall do prédio e já estava ligando para o filho para fazer escândalo.

Ophelia soltou um riso irônico. Divórcio? Para isso, primeiro precisava existir casamento. Será que Jasper tinha coragem de contar para todo mundo que a certidão deles era falsa?

Com a cabeça zunindo de tanta gritaria, Ophelia pegou o celular e ligou direto para a portaria, pedindo que a segurança resolvesse a situação.

Não demorou muito para Fernanda ficar sem voz. Do outro lado da linha, Jasper, que no começo ainda tinha duvidado da mãe, agora ouvia com os próprios ouvidos os seguranças do condomínio, em tom ameaçador, mandando a mãe dele e a Lila saírem da porta do apartamento. Na hora, a testa dele se fechou.

Mesmo sabendo que a mãe não suportava Ophelia, Jasper sempre achou que Ophelia era razoável o bastante para não colocá-lo no meio das duas. Então por que, logo hoje, ela tinha passado tanto dos limites assim?

…

Ophelia arrumou o que precisava e foi direto para o aeroporto encontrar Carlos. Antes de embarcar, o celular vibrou duas vezes: eram mensagens de Jasper.

[A Lila só foi para nossa casa para pintar por dois dias. Você precisava mesmo fazer esse escândalo todo?]

[Liga para a minha mãe agora, pede desculpa e convida a Lila para ficar lá de novo. Eu falo por você, e a gente finge que nada disso aconteceu.]

Ophelia riu de puro cansaço, apagou as mensagens sem responder e desligou o celular.

Carlos, que estava observando de lado, ficou com a expressão ainda mais fria que a dela. Ele já tinha ficado indignado quando soube que Jasper tinha deixado Ophelia sozinha no hospital quando ela foi submetida a uma cirurgia. Depois que ele conheceu em detalhes tudo o que ela tinha vivido aqueles anos todos, ele teve mais de uma vez vontade de partir para cima de Jasper.

Carlos falou, tomado de indignação:

— Srta. Ophelia, o Jasper não chega nem aos seus pés. Quando nós voltarmos para Monteluz, eu acho melhor a senhora mandar o advogado dar entrada no divórcio.

Quando ouviu aquilo, Ophelia soltou uma risada amarga:

— Eu e ele nem temos casamento de verdade. A nossa certidão é falsa. Eu fui muito idiota todos esses anos.

"Falsa? Ophelia tinha sido enganada por cinco anos."

Carlos apertou o punho com força para engolir a raiva e, com o olhar cheio de culpa, respondeu:

— Não foi culpa sua. Foi porque eu fui incapaz. Eu não consegui encontrar você antes e acabei deixando a senhora sofrer tudo isso sozinha. A partir de agora, ninguém mais vai ter o direito de fazer você passar por nenhum tipo de humilhação. Em Monteluz, são incontáveis os herdeiros de famílias influentes e os jovens mais promissores que querem se aproximar da senhora. Sem falar que…

Ophelia acabou rindo de verdade dessa vez:

— Eu também não preciso arrumar outro homem para sustentar.

Carlos percebeu na hora o deslize que tinha cometido.

— Me desculpe, eu não quis dizer isso.

O olhar de Ophelia suavizou.

— Eu sei.

Carlos soltou um suspiro quase imperceptível. Mas ficou claro que aquele assunto não podia continuar.

Ele ajeitou os óculos e mudou de rumo com habilidade, começando a apresentar de forma objetiva a situação atual do Grupo Noronha.

Além dos vinte e quatro por cento das ações que Cassian e a esposa tinham transferido para Ophelia, a tia dela, Clara Harris, e o primo, Antônio Smith, possuíam dez por cento cada um. A filha trocada na maternidade, Felícia Harris, tinha outros dez por cento. O filho adotivo, Lucian Harris, também detinha dez por cento. Os trinta e seis por cento restantes estavam nas mãos de outros três acionistas.

— Lucian? Filho adotivo? — Ophelia franziu a testa, surpresa. Ela nunca tinha ouvido falar de um "jovem herdeiro" no Grupo Noronha.

Carlos explicou:

— O Sr. Lucian tinha dez anos quando o Sr. Harris o tirou de uma zona de guerra. Foi o próprio Sr. Harris que o criou e o preparou. O mercado europeu do Grupo Noronha só se firmou por causa dele. E o mais impressionante é que, mesmo sem laço de sangue, o Sr. Lucian e o Sr. Harris sempre tiveram uma relação melhor do que a de muitos pais e filhos de verdade.

Ophelia manteve a expressão neutra, mas entendeu o recado. Se Lucian tinha a mesma porcentagem de ações que Felícia, isso mostrava o nível de confiança que o pai dela depositava nele.

— O Sr. Harris só tinha a senhora como filha biológica. Quando ele decidiu investir na formação do Sr. Lucian, a intenção sempre foi que ele ajudasse a senhora a proteger o Grupo Noronha. Por isso, há muito tempo ele já tinha acertado o casamento de vocês dois. — Carlos enfim chegou no ponto principal. — Atrás da escritura de transferência de ações que o Sr. Cassian deixou para a senhora, existe uma cláusula. O acordo só passa a valer depois que a senhora e o Sr. Lucian se casarem.

Ophelia pensou que o pai realmente era um ótimo pai: tinha deixado dinheiro, poder... e ainda um homem de brinde.

Só que casamento…

Ela franziu o cenho por instinto, mas logo organizou os pensamentos. Com vinte e quatro por cento das ações, ela passaria a ser, na prática, a controladora do Grupo Noronha. Casar, naquelas circunstâncias, não significava viver um grande romance, e sim fechar uma sociedade. Desde que o outro lado fosse alguém com quem ela conseguisse conviver e que não desse dor de cabeça, não parecia um preço tão alto assim.

…

No aeroporto do exterior.

— Sr. Lucian, a Srta. Ophelia já chegou em Monteluz. Pelo ritmo das coisas, na melhor das hipóteses, nós só vamos conseguir voltar depois de amanhã.

Na sala VIP silenciosa, um homem de expressão severa, traços firmes e presença imponente estava sentado no sofá, impecável em um terno bem cortado. Ele afrouxou o botão do paletó com dois dedos longos. As pontas dos dedos ainda estavam manchadas de sangue fresco.

Lucian franziu o nariz, com visível repulsa:

— Manda o pessoal em País Z vigiar aquele grupo de perto. Se eles continuarem se achando espertos, manda eles direto para o inferno. Eu não quero ninguém atrasando o meu tempo.

— Sim, senhor. — Michel respondeu, com o corpo inteiro tenso.

Lucian tinha gasto anos de esforço para fazer com que os negócios da família no País Z deixassem a ilegalidade e passassem a operar no mercado formal. Alguns dos outros herdeiros, aproveitando que ele estava fora, tinham tentado voltar às velhas práticas e foram pegos. Foi isso que acabou atrasando a volta de Lucian para Monteluz.

Quando ele terminou de limpar todo o sangue das próprias mãos, Michel entregou um tablet.

— Sr. Lucian, aqui está tudo o que nós conseguimos descobrir sobre a Srta. Ophelia em Altamira até agora.

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