Michel lançou um olhar cauteloso para o rosto de Lucian, onde a sombra de ferocidade ainda não tinha se dissipado.
— O Carlos disse que a Srta. Ophelia não se opôs ao acordo de noivado com o senhor.
Ele parou por um instante, como se ainda tivesse coisa a acrescentar.
Michel achava que, diante da dívida de gratidão que Lucian tinha com Cassian, ele já tinha feito tudo o que precisava para retribuir aquele favor. Não havia motivo para exigir que Lucian sacrificasse o próprio casamento em troca, mesmo que ele nunca tivesse se interessado muito por mulher nenhuma. Antes de Ophelia ser encontrada, a noiva "oficial" de Lucian era Felícia.
Felícia era mimada e rebelde, tratava Lucian como se ele fosse um empregado, dava ordens à vontade e chegou a recusar o noivado em público, para logo depois fugir com um astro do pop. Durante aquele meio ano, Lucian tinha sido motivo de piada para muita gente. Agora Cassian, mais uma vez, colocava Lucian no pacote, como se fosse só mais um ativo a ser entregue junto com as ações para Ophelia, sem sequer perguntar se Lucian aceitava ou não.
Michel ainda não sabia que tipo de temperamento aquela verdadeira filha, Ophelia, tinha. Mas, pela experiência dele, as filhas de famílias ricas geralmente davam trabalho. As moças e senhoras que circulavam nas rodas de elite quase nunca eram agradáveis de conviver.
Foi então que Lucian leu, na ficha, que Ophelia quase tinha morrido sozinha em uma mesa de cirurgia. A expressão dele continuou neutra quando ele disse:
— Eu prometi ao Sr. Harris que ia proteger o império que ele construiu. Isso inclui proteger o Grupo Noronha e a filha dele. Casar ou não casar não muda muita coisa.
— Se ela topar casar, muita dor de cabeça já deixa de existir. — Completou, sem que um único músculo do rosto se mexesse, mas com uma frieza que arrepiava.
No segundo seguinte, Lucian deslizou o dedo até chegar ao currículo de Ophelia na época da faculdade e parou. Os olhos dele voltaram para a foto: traços delicados, olhos escuros e brilhantes como pérolas negras, um ar ainda juvenil, mas com uma firmeza silenciosa por trás.
Era ela…
O canto da boca de Lucian se moveu quase imperceptivelmente, enquanto um reflexo metálico passou pelos botões dos punhos do paletó.
Ele devolveu o tablet para Michel e ordenou:
— Compre o apartamento da Ophelia em Altamira. Pague o dobro do preço.
Michel arregalou um pouco os olhos, surpreso, sem entender o motivo.
…
Em Monteluz.
A mansão da família Harris ficava no centro de uma imensa propriedade particular. Ophelia seguiu ao lado de Carlos, atravessando o portão de ferro forjado do lado leste até alcançar o corpo principal da casa.
O terreno era tomado por árvores altas e jardins muito bem cuidados. Os canteiros de flores eram cuidadosamente aparados, e fontes e esculturas surgiam aqui e ali, dando ao lugar um ar clássico e luxuoso, como o de um antigo solar europeu. Os muros altos isolavam por completo a propriedade do mundo lá fora; no topo, o brasão da família se repetia em intervalos regulares. Dentro, o pátio reunia jardins desenhados com rigor, estátuas de pedra e fontes antigas, tudo refletindo a longa tradição e o prestígio da família Harris.
A paleta de cores da mansão era discreta, mas a imponência e a solenidade transpareciam em cada detalhe. Parecia que até os pássaros presos nas gaiolas sob as galerias cobertas estavam envolvidos por uma aura de opulência, resultado da opulência que impregnava o ar.
Quarenta, talvez cinquenta funcionários estavam perfilados dos dois lados do jardim. No momento em que Ophelia pôs o pé para dentro do portão, vozes em uníssono começaram a ecoar:
— Seja bem‑vinda de volta, senhorita.
A saudação se repetia como um coro, acompanhando cada passo dela, até que Ophelia chegou à porta da residência principal e, só então, o silêncio voltou.
Ela se esforçava para manter a expressão calma, mas as palmas das mãos úmidas de suor entregavam o nervosismo que apertava seu peito.
A porta da casa foi aberta por uma funcionária. À luz morna do hall, um homem de meia‑idade surgiu apoiado em uma bengala, o rosto marcado por uma doçura quase incompatível com a imponência da casa.
Os olhos de Cassian, quase sempre duros e gelados, brilharam com lágrimas assim que pousaram em Ophelia. Os lábios tremeram algumas vezes antes que ele finalmente conseguisse emitir som:
— Minha filha.
Na emoção, ele esqueceu completamente das próprias limitações físicas, perdeu o equilíbrio e quase caiu. O mordomo deu um passo à frente, mas Carlos o conteve com um olhar, porque Ophelia, por puro instinto, já tinha avançado para segurar Cassian.
Os dedos dele se fecharam com força no braço dela. No instante em que os olhares se encontraram, um calor subiu aos olhos de Ophelia, mas ela respirou fundo e conteve as lágrimas.
Cassian passou a examiná‑la com extremo cuidado, dos fios de cabelo ao desenho dos olhos, como se quisesse guardar cada detalhe. O jeito como ele a olhava, como se ela fosse uma joia rara, deixava claro que ele jamais se cansaria daquela visão. Em seguida, ele chamou o médico da família para confirmar, mais uma vez, que Ophelia já estava recuperada, só então relaxou de verdade.
Carlos e o mordomo Vasco tinham achado que, depois de mais de vinte anos afastados, pai e filha iam precisar de tempo para quebrar o gelo. Em vez disso, ficaram esperando do lado de fora por quase uma hora, ouvindo, através da porta entreaberta, uma conversa surpreendentemente leve e harmoniosa.
Vasco consultou o relógio de pulso e lembrou em voz baixa, do lado de fora:
— Sr. Harris, já está na hora do seu remédio.
Logo em seguida, Ophelia apareceu na porta.
— Eu vou levar o papai para o quarto.
Foi a primeira vez que Vasco conseguiu ver bem o rosto dela. A semelhança com a Sra. Harris era impressionante.
Durante todo o trajeto pelo corredor, o sorriso de Cassian não desapareceu um segundo sequer. O carinho e o orgulho que transbordavam do olhar dele davam a Ophelia a nítida sensação de ter voltado a ser uma criança.
Quando eles chegaram ao quarto, Ophelia se inclinou para ajudá‑lo a se deitar, mas Cassian, ao notar as olheiras discretas sob os olhos da filha, falou com delicadeza:
— Não precisa. Já está tarde. Eu quero que você vá descansar.
Ele fez uma pausa e completou:
— Eu não sei se você vai gostar do seu quarto. O que não estiver do seu agrado, peça para trocarem na mesma hora.
Depois, repetiu, com a maior seriedade:
— Esta é a sua casa. Tudo aqui tem que ser do jeito que for mais confortável e mais agradável para você. Não se contente com menos do que merece. Nunca abra mão do seu conforto.
Ophelia sabia que, vindo da família Harris, nada seria simples ou barato. Mas, quando ela entrou no quarto e viu cada detalhe com os próprios olhos, a emoção veio como uma onda forte, quase derrubando‑a.
O enxoval dourado tinha desenhos de roda‑gigante, as estrelas das cortinas se acendiam de verdade, o abajur ao lado da cama tinha formato de cogumelo, e a caixinha de música que girava tocava justamente a valsa de que ela mais gostava na infância. Na estante em frente, os livros infantis que ela lia quando era pequena se misturavam aos volumes técnicos que ela lia hoje em dia. Havia tantos que as prateleiras pareciam não dar conta. Entre eles, Ophelia reconheceu alguns títulos que ela sempre tinha sonhado em ter, mas que já estavam esgotados havia muito tempo.
Aquele tinha sido o maior desejo secreto dela desde que os pais a tinham deixado à própria sorte. Tudo começou num feriado em que ela voltou da escola e encontrou o próprio quarto tomado por caixas e tralhas. Com o coração apertado, ela correu para perguntar à mãe o que estava acontecendo, e a resposta foi:
— Esta é a minha casa, eu tenho o direito de decidir o que fazer com todos os cômodos. E, de qualquer forma, eu já pago o seu alojamento na escola.
Ophelia não tinha tido coragem de ouvir mais. Ela só queria que a mãe parasse de falar. Quando voltou para o colégio interno, ela desenhou às escondidas o quarto dos seus sonhos e, à noite, adormecia desejando que, um dia, o pai e a mãe realmente quisessem fazê‑la se sentir amada.
Mais tarde, quando conheceu Jasper, ela até comprou um apartamento e passou a ter um lar para chamar de seu, mas tudo, da decoração às cores, era escolhido de acordo com o gosto dele.
Ophelia nunca tinha acreditado que aquele desenho de adolescente um dia acabasse virando realidade.
Pouco antes, diante do carinho e do calor quase sufocantes do pai, ela não tinha derramado uma lágrima. Agora, sozinha no quarto, ela se agachou devagar no chão, abraçou as pernas e escondeu o rosto nos joelhos. Chorou por um bom tempo, os ombros tremendo sem parar.
Uma das funcionárias viu a cena e se aproximou, inquieta:
— Srta. Ophelia, se tiver alguma coisa de que a senhora não goste, é só me falar.
Ophelia nem se lembrava de que ainda havia gente por perto. Ela engoliu o choro e tentou manter a voz o mais firme possível:
— Não tem nada de errado. Eu só… gostei demais.
A funcionária também precisou enxugar discretamente os próprios olhos. Ela pensou que, se a Sra. Harris ainda estivesse viva e pudesse ver a filha de volta, com certeza estaria radiante.
— Ah, e tem leite quente com lascas de gengibre em cima da escrivaninha. Não esquece de beber antes de dormir.
Leite com lascas de gengibre?
Os cílios de Ophelia tremeram. Devia ser coincidência. Desde que ela tinha ido para o internato, ninguém mais lembrava de mandar que ela tomasse leite antes de dormir, e esse costume já tinha se perdido havia anos.
Na manhã seguinte, Cassian pediu que a cozinha preparasse um café da manhã tão variado que Ophelia ficou até sem saber por onde começar.
— Minha filha, esses pãezinhos de queijo cremoso eram os seus favoritos quando você era pequena. Já os croissants com café viraram o seu café da manhã mais frequente nos últimos anos. Eu quero que você prove de tudo e me diga o que achou do sabor. Daqui para frente, é só avisar a cozinha o que você tiver vontade de comer.
Naquele dia, o ânimo de Cassian estava particularmente bom.
— Obrigada, pai. — Disse Ophelia, pegando um pão de queijo cremoso e dando a primeira mordida. No mesmo instante, ela congelou.
O leite com gengibre podia até ser coincidência. Mas aquele sabor, não. Aquela receita, daquele jeito, era impossível ser por acaso.
— Pai… — A voz dela saiu quase trêmula. — Eu posso conhecer a pessoa que fez esses pãezinhos?
Cassian soltou uma risada leve.
— Claro que pode. Ela também está doida para ver você.
— Ophelia!
Quando ela ouviu aquela voz, o autocontrole por pouco não desabou. Ophelia se virou depressa, e as lágrimas vieram na hora:
— Verônica… é você mesmo!
Verônica tinha sido a babá da família Moore. Como os pais estavam sempre absorvidos pelo trabalho, quem de fato tinha criado Ophelia tinha sido Verônica.
Depois que Ophelia foi mandada para o internato e ficou proibida de voltar para casa, era Verônica que tomava várias conduções por semana para levar comida para ela na escola.
Verônica abraçou Ophelia com tanta força que não queria soltar.
— Ophie, eu nunca imaginei que ainda fosse ter a chance de ver você de novo.
O mordomo se aproximou com discrição e separou as duas com cuidado, mais por preocupação com Cassian do que por etiqueta. No fim das contas, Ophelia ainda não tinha abraçado o próprio pai.
— O Sr. Harris trouxe a família inteira da Verônica para Monteluz. Agora ela vai poder cuidar de você com tranquilidade. — Explicou o mordomo.
Ophelia se abaixou, apoiando o rosto de lado no joelho do pai. Quando ela falou, a voz saiu baixa e doce:
— Obrigada, pai.
Cassian se comoveu na hora.
— Ophie, não fala "obrigada". O que o seu pai ainda te deve é muito mais do que isso.
A garganta de Ophelia se apertou. Há poucos dias, ela estava sozinha em uma mesa de cirurgia, esperando pela morte. Agora, essa lembrança parecia tão absurda que dava a impressão de ter sido só um sonho ruim.
— Ophie, eu vou precisar dar uma passada na empresa agora de manhã. — Avisou Cassian. — O Lucian vai chegar às dez para buscar você. Vocês vão juntos escolher alguns vestidos para o jantar de amanhã à noite.
Ele deu um leve tapinha no ombro dela.
— É melhor deixar que vocês, jovens, decidam isso juntos. Vocês têm gostos mais parecidos.
O pai não mencionou o noivado, nem entrou em detalhes sobre Lucian. Além de demonstrar confiança total nele, Cassian estava, acima de tudo, dando a ela respeito e tempo para pensar.
Ophelia sempre prezou pela pontualidade e detestava fazer alguém esperar. Antes das dez horas ela já estava pronta.
Verônica não sabia de nada sobre Jasper, mas o mordomo tinha comentado que Lucian era o noivo de Ophelia. Ao ver a moça com um casaco longo em tom marfim e só um pouco de batom para realçar a cor dos lábios — e, ainda assim, linda —, Verônica não se conteve:
— Ophelia, para o primeiro encontro com o noivo, você não acha que está simples demais?
Ophelia olhou para si mesma de cima abaixo e pareceu satisfeita.
— Não é reunião de negócios. Estar arrumada, limpa e vestida de maneira adequada já é uma forma de demonstrar respeito pelo outro.
Verônica lembrou‑se de algo, se inclinou e cochichou:
— Eu conversei com o pessoal da casa. O Sr. Lucian é um homem bonito, e não há nada que desabone o caráter dele, só que…
Ela considerava Ophelia como uma filha e, por isso, não escondeu nada:
— Antes de você voltar, ele ia se casar com aquela Felícia. Os dois cresceram juntos desde pequenos e todo mundo achava que eles acabariam juntos. Todo mundo sabia que ele era apaixonado por ela. Por isso, ele sempre foi tão reservado e nunca apareceu com outra mulher.
A respiração de Ophelia vacilou por um instante. A ideia de alguém ser apaixonado pela mesma pessoa desde a infância fez Ophelia pensar imediatamente em Jasper e Lila.
— Dizem que, quando a Felícia rejeitou o noivado na frente de todo mundo, ele nem ficou com raiva.