Home / Lobisomem / Entre Dois Alfas O Tecelão do Solo / Capítulo 4: Segredos e decisões

Share

Capítulo 4: Segredos e decisões

Author: Ester
last update publish date: 2026-08-27 11:39:23

Ao cruzar os portões da residência fortificada do clã Varkos, Elara sentia cada músculo de seu corpo clamar por descanso. Felizmente, a névoa da madrugada e a agitação dos preparativos para o seu aniversário de dezoito anos ajudaram a camuflar seu retorno. Ela correu direto para o quarto anexado à ala dos fundos, tomou um banho demorado e vestiu roupas limpas e folgadas.

Quando sua tia, Mirela Varkos, entrou no quarto horas depois, ela inspirou o ar profundamente. Havia uma mudança quase imperceptível no aroma de Elara, uma nota sutil, ligeiramente mais densa e adocicada, mas a tia atribuiu aquilo à proximidade do despertar de sua loba.

O fim de semana passou como um borrão festivo. No domingo, Elara completou seus dezoito anos. Houve o ritual tradicional da maioridade, os abraços das primas Lena e Sira, e as piadas do primo Tarek. Sua loba finalmente ganhou voz e presença completa em sua mente, embora permanecesse estranhamente quieta e recolhida, como se guardasse um segredo profundo. Ninguém na festa desconfiou de absolutamente nada.

Na noite de domingo, quando a casa finalmente silenciou, o tio Darius a chamou até o escritório de carvalho escuro da família.

O cômodo cheirava a livros antigos e ao couro das armaduras de Delta. Darius Varkos estava sentado atrás da mesa maciça, mas, ao ver a sobrinha entrar, sua expressão rígida de guerreiro de elite suavizou-se. Ele indicou a cadeira estofada à sua frente.

— Sente-se, Elara — ele pediu gentilmente, cruzando as mãos sobre a mesa. — Eu queria conversar com você em particular antes de você retornar ao internato amanhã. Ficou alguma coisa pendente na escola que você gostaria de me contar?

Elara engoliu em seco, as mãos espalmadas sobre os joelhos para esconder o tremor nos dedos. Olhando para o homem que a acolhera após o falecimento dos pais , a culpa a corroeu. Ela respirou fundo e decidiu contar parte da verdade.

— Tio... na sexta de manhã, antes das aulas, eu fui até o lago da floresta — ela começou, a voz trêmula. — Meu corpo começou a queimar de um jeito terrível. Eu não sabia o que era, só queria me refrescar... mas era o cio. Ele veio antecipado.

Darius não se moveu, mas seus olhos escuros brilharam com compreensão e uma profunda empatia paternal. Ele se inclinou para frente.

— O cio antecipado é algo raro, minha querida, mas não impossível — o tio explicou, o tom de voz calmo e acolhedor. — Você passou por emoções devastadoras no último ano. A perda brutal dos seus pais, a destruição do seu antigo lar e a mudança repentina para uma nova matilha... Todo esse estresse acumulado e o trauma podem facilmente ter desregulado o seu relógio biológico, favorecendo essa antecipação.

Elara soltou o ar que nem percebera que prendia, grata pela justificativa lógica dele. No entanto, ela manteve a boca fechada sobre o fato mais crucial: omitiu deliberadamente que havia sido possuída por dois lobos gigantescos na caverna.

— Mas há uma consequência para o que aconteceu naquele lago, Elara — Darius continuou, e sua voz ganhou um tom mais pesado, quase solene. — Lobos só geram descendentes quando há uma conexão real. E o seu cheiro... embora sutil para os outros, não engana o olfato de um lobo experiente. Você está grávida. Você encontrou seu companheiro de alma naquela floresta.

Elara saltou da cadeira, o rosto empalidecendo instantaneamente. Suas mãos foram direto para o ventre ainda plano. O choque a paralisou.

— Grávida? Não... Tio, isso não pode ser. Eu... eu nem sei quem ele é! Eu não conheço ninguém naquela escola!

Darius levantou-se e contornou a mesa, pousando uma mão firme e protetora no ombro da sobrinha.

— Acalme-se. Nós vamos resolver isso, mas precisamos ser estratégicos. No nosso mundo, uma loba jovem que aparece grávida e sem um companheiro ao lado enfrenta um julgamento cruel. Os anciãos e a matilha vão presumir que você foi rejeitada logo após o acasalamento. Eles não veem isso com bons olhos, Elara. Vão isolar você, e nossa família de elite será questionada.

Darius caminhou até uma pequena prateleira e retirou um frasco de cristal com um líquido âmbar denso.

— Você vai tomar esta poção de ocultação antiga. Ela vai mascarar completamente o cheiro da sua gravidez. Ninguém no internato desconfiará de nada nas próximas semanas até você concluir seus estudos teóricos.

Elara pegou o frasco, as lágrimas finalmente transbordando de seus olhos.

— E depois, tio? O que eu faço? — ela sussurrou, desamparada.

— Depois que pegar seu diploma, você não ficará aqui — Darius decretou com firmeza. — Nós vamos enviar você para a cidade humana mais próxima. Você usará a herança dos seus pais para ingressar em uma universidade deles e construir uma carreira. Lá, os lobos não entram. Mas você não irá sozinha. Marta, uma das ômegas mais leais e fortes da nossa casa, irá com você. Ela servirá como sua proteção, sua governanta e ajudará a criar essa criança longe dos olhos da Matilha Silvaterra.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Entre Dois Alfas O Tecelão do Solo    Capítulo 20: O Escritório da Verdade e as Linhas do Tempo

    O ar parecia prestes a estalar com a pressão Alfa que emanava de Kaelen e Draven. Seus olhares, pesados e confusos, continuavam cravados na figura do menino que ousara erguer os braços contra eles. Antes que Draven pudesse dar um passo na direção de Aren, ou que Kaelen pudesse decifrar o formigamento que subia por seus ossos, uma silhueta robusta moveu-se com a velocidade que só a experiência concede. Marta colocou-se à frente do garoto, envolvendo-o com seus braços fortes de loba ômega e puxando-o para trás de suas saias com um gesto puramente maternal e protetor. Ela manteve a cabeça baixa, ocultando o choque de sua própria loba perante a presença dos herdeiros Woodstone, e forçou uma voz submissa que camuflava o segredo que guardava no peito há dez anos. — Perdoem-no, Alfas — Marta pronunciou, o tom baixo ecoando firme no silêncio tenso do quarto. — É só uma criança que agiu por puro impulso. Ele não entende as leis da nossa matilha e o r

  • Entre Dois Alfas O Tecelão do Solo    Capítulo 19: A Barreira de Sangue e a Presença do Elo

    A atmosfera dentro do quarto de hóspedes tornou-se elétrica, pesada com a emanação pura de poder que escapava dos Co-Alfas. Draven deu dois passos largos à frente, fazendo as tábuas do chão rangerem sob suas botas de combate. Suas mãos grandes, marcadas por cicatrizes de garras, abriram-se e fecharam-se em um compasso de puro desespero instintivo. Ele queria tocá-la, cravar os dentes na curvatura de seu pescoço para reivindicar a fêmea que o fizera sangrar em silêncio por quase dez anos. Ao seu lado, Kaelen mantinha os olhos fixos na silhueta de Elara, a mente trabalhando em uma velocidade assustadora, tentando ligar os pontos entre a jovem forasteira que o tio Darius trouxera para a fortaleza e a loba enigmática do lago. — Onde você estava? — Draven exigiu, a voz grossa e áspera vibrando com uma agressividade possessiva que fez a tia Mirela encolher os ombros. Vane, seu lobo, arranhava sua sanidade para assumir o controle físico de suas cordas vocais. — Nós caçamos o seu rastro por

  • Entre Dois Alfas O Tecelão do Solo    Capítulo 18: O Elo Quebrado e o Rugido do Destino

    O silêncio que desabou sobre o quarto de hóspedes da fortaleza dos Varkos foi tão denso que o som da respiração fraca de Tarek na cama pareceu desaparecer. O ar, antes impregnado com o odor metálico de sangue e o antisséptico trazido por Elara, foi instantaneamente esmagado pela emanação violenta de poder que escapou dos corpos de Kaelen e Draven. Cael Blackroot, que vinha logo atrás dos líderes, congelou no limiar da porta, sua mão descendo instintivamente para o cabo de sua adaga de combate enquanto seus sentidos de Gama captavam a mudança drástica na atmosfera. O tio Darius e a tia Mirela recuaram um passo, os corpos Delta rígidos em uma reverência instintiva perante a pressão Alfa que começou a estalar pelas paredes de madeira rústica. Kaelen deu o primeiro passo à frente, sua habitual postura calculista e mansa desmoronando por completo. Seus olhos verdes brilharam com um fogo esmeralda tão vivo que parecia rasgar as sombras do canto do quarto onde Elara estava encolhida. Em sua

  • Entre Dois Alfas O Tecelão do Solo    Capítulo 17: O Sangue do Guerreiro e o Cruzamento de Destinos

    O cheiro de fumaça e terra revirada ainda pairava pesadamente sobre a ala sul de Silvaterra quando os primeiros raios de sol romperam a copa das árvores milenares. O ataque dos renegados havia sido repelido com uma fúria esmagadora pelos Co-Alfas, mas o preço da vitória havia sido depositado no sangue de muitos guerreiros. Durante o combate na linha de frente, Tarek Varkos havia se lançado diante das garras de um lobo exilado para proteger a retaguarda dos civis, sofrendo lacerações profundas no abdômen e no peito. Ele havia sido transferido às pressas para o pavilhão médico central, deixando a fortaleza dos Varkos em um estado de angustia. Nos três dias que se seguiram, a Casa da Matilha transformou-se em um quartel-general de alta tensão. As guirlandas e fitas de seda branca da cerimônia de Lunas continuavam penduradas no salão principal, mas o clima festivo fora substituído pelo tilintar de armaduras e mapas táticos estendidos sobre a mesa de carvalho. Faltavam apenas três dias p

  • Entre Dois Alfas O Tecelão do Solo    Capítulo 16: O Abraço da Fortaleza e o Solo Sagrado

    O carro antigo de Elara avançou em marcha lenta pela trilha de terra batida que serpenteava a mata fechada, com os faróis baixos rasgando a escuridão da floresta amazônica. No banco de trás, Aren piscou os olhos devagar, despertando do torpor profundo que o acompanhara por toda a viagem. Suas mãos pequenas tocaram o vidro da janela e, no milésimo de segundo em que o veículo cruzou a barreira invisível que demarcava o território da Matilha Silvaterra, o menino sentiu um arrepio elétrico percorrer sua espinha. O excesso de energia mística de Sincronia que estava acumulado em sua mente, sufocado pelas paredes de concreto da cidade, encontrou o solo da floresta e descarregou silenciosamente pela estrutura do carro. O garoto sentou-se abruptamente, respirando o ar puro que entrava pela fresta. — Mãe... onde nós estamos indo? — Aren perguntou, a voz miúda, mas firme, enquanto ajustava as novas lentes de contato castanhas que protegiam seus olhos heterocromáticos. — O cheiro daqui é diferen

  • Entre Dois Alfas O Tecelão do Solo    Capítulo 15: A Fuga Pela Noite e o Cruzamento de Trilhas

    A decisão foi tomada no calor abafado da cozinha, enquanto o eco do colapso de Aren ainda parecia vibrar nas paredes de concreto do apartamento. Elara e Marta não perderam tempo discutindo os prós e contras; o medo pela vida do garoto engoliu qualquer hesitação sobre o julgamento que enfrentariam em Silvaterra. Com as mãos ágeis e trêmulas, elas arrumaram duas malas com o essencial, esvaziando as gavetas sob o olhar atento da loba ômega de Marta, que guardava a suspeita do sangue Woodstone no mais absoluto silêncio. Antes de fecharem os zíperes, Elara aproximou-se da cama do filho desacordado, aplicando com precisão cirúrgica a dose dupla do inibidor hormonal e encaixando um par novo de lentes castanhas sobre as pupilas heterocromáticas. O aroma denso de Alfa que antes impregnava o quarto foi sufocado em minutos, reduzido a um rastro fraco e indetectável. Carregando o menino nos braços com a ajuda de Marta, Elara desceu até o estacionamento subterrâneo, ligou o motor do carro ant

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status